A Arte da Omissao

Locais secretos da CIA na Somália – 3ª parte

Em 2009, quando o Presidente Obama fez campanha, “prometeu” que iria fechar a prisão de Guantanamo Bay. O tempo passou, e a prisão ainda funciona.

Numa investigação tornada pública pelo The Nation Magazine, em Janeiro de 2014, o jornalista independente Jeremy Scahill e correspondente  da Democracy Now!, revelou que a CIA tem uma instalação secreta na Somália na luta “contra” o terrorismo, bem como uma prisão subterrânea na capital Somali de Mogadíscio. Scahill diz ainda que a CIA está a treinar uma nova força Somali, para conduzir operações em áreas controladas pelo grupo militante, Al Shabab em Mogadíscio. Enquanto um oficial do U.S.A disse à The Nation que a CIA não gere nenhuma prisão, no entanto reconhece que é ela quem paga os salários dos agentes na Somali.

Rendições, uma prisão subterrânea e uma nova base da CIA são elementos de uma intensificada guerra dos EUA, de acordo com uma investigação da The Nation em Mogadíscio.

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1ª parte

2ª parte

3ª parte

Enquanto os Estados Unidos parecem aumentar a sua retórica e seus ataques com drones contra o Shabab, até agora só conseguiu atacar áreas rurais fora de Mogadíscio. Estas operações foram isoladas e raras, e analistas somalis dizem que não conseguiram interromper a liderança central do Shabab, particularmente em Mogadíscio.

Numa série de entrevistas dadas em Mogadíscio, vários líderes somali reconhecidos, incluindo o Presidente Sharif, pediram ao governo dos EUA que aumentasse de forma rápida a sua assistência aos militares somalis sob a forma de treino, equipamentos e armas. Além disso, argumentam que, sem instituições civis viáveis, a Somália permanecerá madura para grupos terroristas que podem desestabilizar não só a Somália, mas toda a região. “Acredito que os EUA devem ajudar os somalis a estabelecerem um governo que proteja civis e seu povo”, disse Sharif.

Na batalha contra Shabab, os Estados Unidos, na verdade, não parecem ter lançado o seu lote ao governo somali. A estratégia emergente dos EUA em relação à Somália – confirmada por uma política declarada, expansão da presença secreta e planos de financiamento – tem duas vertentes: Por um lado, a CIA treina, paga e às vezes dirige agentes de inteligência somalis que não estão firmemente sob o controle do governo da Somália, quando o JSOC conduz ataques unilaterais sem o conhecimento prévio do governo; Por outro lado, o Pentágono está a aumentar o seu apoio e armamento de operações antiterroristas, levadas a cabo por forças militares não-somali africanas. (nada inédito tendo em conta que tem sido este o modus operandi dos EUA. Basta lembrar a Síria-NdT)

A proposta do projecto de lei dos gastos com a defesa aprovada no final de Junho pelo Comité dos Serviços Armados do Senado, autorizou mais de US $ 75 milhões em assistência antiterrorista dos EUA no combate ao Shabab e Al Qaeda na Somália. No entanto, não autorizou o financiamento adicional para as forças armadas da Somália, como os líderes do país têm pedido repetidamente. Em vez disso, o pacote de ajuda aumentou dramaticamente o armamento e o financiamento das forças da AMISOM, particularmente no Uganda e Burundi, bem como os militares de Djibouti, Quénia e Etiópia. Os militares somalis, afirmou o comité, são incapazes de “exercer o controlo de seu território”.

Isto é bem mais irónico, pois talvez a maior vitória táctica conquistada nos últimos anos na Somália não foi levada a cabo pelo AMISOM, CIA ou o JSOC, mas por membros de uma milícia somali que lutava como parte das forças armadas caóticas  locais do governo. E foi um puro acidente.

No final do dia 7 de Junho, um homem cujo passaporte sul-africano o identificou como Daniel Robinson, estava no banco de passageiro de uma Toyota SUV, a qual que viajava nos arredores de Mogadíscio quando o seu motorista, um cidadão queniano, perde o controlo numa curva e foi contra um posto de controlo das forças somalis. Explodiu um tiroteio e os dois homens que iam na SUV foram mortos. As forças somalis rapidamente saquearam os portáteis, telemóveis,  armas e US $ 40.000 em dinheiro que encontraram no carro, de acordo com o oficial sénior de inteligência somali.

A NSA somali ao descobrir que os homens eram estrangeiros, lançou uma investigação e recuperou os itens que haviam sido saqueados. “Havia muitas coisas em inglês e árabe, papéis”, relembra o oficial de inteligência somali, contendo “coisas muito tácticas” que pareciam estar ligadas à Al Qaeda, incluindo “duas pessoas seniores a comunicar”. Os agentes somali verificaram se tratar de  “um homem importante” e informou a CIA em Mogadíscio. Os corpos dos dois homens foram levados para a NSA. Os americanos voaram para Nairobi com amostras de DNA e impressões digitais para serem processadas.

Em poucas horas, os Estados Unidos confirmaram que Robinson era, na realidade, Fazul Abdullah Mohammed, um dos principais líderes da Al Qaeda na África Oriental e a sua principal ligação com o Shabab. Fazul, veterano da Al Qaeda, tinha sido indiciado pelos Estados Unidos devido ao seu suposto papel nos atentados  á Embaixada dos Estados Unidos em 1998 e constava da lista “Most Wanted Terrorists” do FBI. Uma tentativa do JSOC de o matar num ataque aéreo em Janeiro de 2007 resultou na morte de pelo menos setenta nómades na Somália rural, e desde então vivia em subterrâneos. A secretária de Estado, Hillary Clinton, considerou a morte de Fazul “como um golpe significativo para a Al Qaeda, para os seus aliados extremistas e para as suas operações na África Oriental”. É um fim justo de um terrorista que causou tanta morte e dor a tantos inocentes “.

Nas suas instalações em Mogadíscio, a CIA e seus agentes da NSA somali continuam a examinar os materiais recuperados do carro de Fazul, que servia como uma sede móvel. Agentes dos EUA recuperaram e descodificaram alguns arquivos eliminados e encriptados. O alto oficial de inteligência somali disse que a inteligência se revelou mais valiosa no nível táctico, comparando com o foi encontrado na casa de Osama bin Laden no Paquistão, especialmente à luz do crescente foco dos EUA na África Oriental. Os americanos, disse ele, ficaram “incrivelmente gratos”; Ele espera que isso signifique que eles levarão as forças da Somália mais a sério e lhes darão mais apoio.

Mas os Estados Unidos continuam a fazer sua campanha contra o Shabab, principalmente com o financiamento das forças da AMISOM, as quais não estão a realizar a sua missão com a tal precisão cirúrgica Em vez disso, nos últimos meses, as forças da AMISOM em Mogadíscio travaram uma campanha impiedosa de bombardeamentos indiscriminados nas áreas de Shabab, algumas das quais fortemente povoadas por civis. Enquanto a AMISOM publica regularmente comunicados de imprensa onde e vangloriam de ganhos contra o Shabab e a retomada do território, a realidade pinta uma imagem muito mais complicada.

Em todas as áreas retomadas pelo AMISOM, são favos de mel com túneis subterrâneos usados pelos combatentes do Shabab para passarem de um prédio para outro. Com base em alguns relatos, os túneis estendem-se continuamente por quilómetros. Os restos de comida, cobertores e cartuchos de munições estavam espalhados perto das posições “pop-up”, uma vez usadas por atiradores de Shabab e protegidas com sacos de areia – tudo o que resta de posições de guerrilha.

Não só os combatentes de Shabab foram limpos nas áreas acima do solo; os civis que outrora lá residiram foram também limpos. Em várias ocasiões, no final de Junho, as forças do AMISOM dispararam artilharia da sua base nos aeroportos no mercado de Bakaara, e bairros inteiros foram totalmente abandonados.

As casas são ruínas e os animais vagam sem rumo, mastigando lixo. Em algumas áreas, os corpos foram enterrados às pressas em trincheiras, com terra apenas mascarando os restos mortais. Ao lado da estrada num antigo bairro de Shabab, um cadáver decapitado permanecia a poucos metros de um novo posto de controle do governo.

No final de Junho, o Pentágono aprovou planos para enviar US $ 45 milhões em equipamentos militares para o Uganda e Burundi, as duas principais forças da operação AMISOM. Entre os novos itens estão quatro pequenos drones de vigilância Raven, equipamentos de visão nocturna e de comunicação e outros equipamentos de vigilância, os quais auguram uma campanha mais direccionada. Combinado com a tentativa de construir uma força antiterrorista indígena na NSA Somali, uma nova estratégia antiterrorista dos EUA está a emergir.

Mas de acordo com um alto cargo da inteligência somali, e que trabalha directamente com os agentes dos EUA, o programa liderado pela CIA em Mogadíscio trouxe poucos ganhos tangíveis. “Até agora, o que não vimos são os resultados em termos da capacidade da agência [somali]”, diz ele. Admitiu que nem as forças dos EUA nem as da Somália conseguiram realizar uma única missão bem-sucedida nas áreas de Shabab na capital. No final de 2010, segundo o mesmo oficial, agentes somalis treinados pelos EUA realizaram uma operação numa área de Shabab, a qual falhou terrivelmente e resultou que alguns deles foram mortos. “Houve uma tentativa, mas foi casual”, lembra ele. Desde então, não tentaram outra operação direccionada em território controlado por Shabab.

Fonte: The CIA’s Secret Sites in Somalia

Jeremy Scahill on Democracy Now! talking about the CIA’s secret sites in Somalia. 1 of 2

 Jeremy Scahill on Democracy Now! talking about the CIA’s secret sites in Somalia. 2 of 2

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This entry was posted on 29 de Novembro de 2016 by in A arte da Guerra, Somália, USA and tagged , , , , .

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