A Arte da Omissao

A guerra saudita no Iémen poderá fortalecer a Al-Qaeda e ISIS – 2ª parte

10 de Fevereiro de 2016 – Fonte

O sonho do oleoduto do Iémen

Mas há uma outra meta em paralelo, reconhecida em privado por autoridades ocidentais, mas não discutida em público: o Iémen tem um potencial ainda inexplorado no fornecimento de um conjunto alternativo de rotas de transbordo de petróleo e gás para a exportação do petróleo saudita, contornando o Irão e o estreito de Ormuz.

A realidade das ambições do Arábia Saudita a este respeito, é colocada a nu em 2008 no Wikileaks, num telegrama do Departamento de Estado  da embaixada dos EUA no Iémen,  para o Secretário de Estado:

“Um diplomata britânico que está no Iémen disse a PolOff [oficial político] que a Arábia Saudita tem interesse em construir um gasoduto, totalmente detido, operado e protegido pela Arábia Saudita, através  de Hadramaute (região história do sul da península Arábica, ao longo do golfo de Áden, no mar da Arábia e que se estende para leste do Iémen até à região de Dhofar, em Omã. É uma das provícias do Iémen-NdT.) até ao porto no Golfo de Áden, contornando assim o Golfo Pérsico e o estreito de Ormuz. 

Saleh (ex-presidente da República Árabe do Iémen-NdT) sempre se opôs a isto. O diplomata afirmou que a Arábia Saudita, ao apoiar a liderança militar do Iémen, ao pagar a lealdade dos xeques e de outros meios, estava a posicionar-se para garantir que, pelo preço certo, obteria do sucessor de Saleh os direitos para este gasoduto.”

Na verdade, a província oriental de Hadramaute do Iémen, curiosamente permaneceu livre dos bombardeamentos sauditas. A província, a maior do Iémen, contém a maior parte dos recursos de petróleo e gás remanescentes do Iémen.

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Michael Horton, analista sénior na Fundação Jamestown  no Iémen observa:

“O interesse principal da Arábia Saudita é a possível construção do oleoduto, sonho constante do seu governo. Um oleoduto através da província de Hadramaute daria à Arábia Saudita e aos seus aliados do Golfo o acesso directo ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico; tal permitir-lhes-ia contornar o Estreito de Ormuz, um estrangulamento estratégico que poderia ser, pelo menos temporariamente, bloqueado pelo Irão caso ocorra um conflito. A perspectiva de garantir uma rota para um futuro gasoduto através de Hadramaute, figura como provável na estratégia a longo prazo da Arábia Saudita no Iémen”.

Esconder a conexão ao gasoduto

As autoridades ocidentais anseiam evitar que a consciência pública  saiba da geopolítica energética por trás deste crescente conflito.  No ano passado, uma acutilante análise destas questões foi publicada (*) num blog pessoal a 2 de Junho de 2015, por Joke Buringa, conselheira sénior em segurança e estado de direito do Iémen, no Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos.

“O medo de um bloqueio iraniano ao Estreito de Hormuz, e os resultados possivelmente desastrosos para a economia global, existe há anos”, escreveu Joke no artigo “Divide and Rule: Saudi Arabia, Oil and Yemen”.

“Os EUA pressionaram os Estados do Golfo a desenvolverem alternativas. Em 2007, a Arábia Saudita, o Barém, Emirados Árabes Unidos, Omã e o Iémen lançaram conjuntamente o projecto do Trans-Arabia Oil Pipeline.

Trans-Arabian Pipeline - Wikipedia, the free encyclopedia

Em 2012, a ligação entre Abu Dhabi (capital dos Emirados Árabes Unidos-Ndt) e Fujairah (um dos sete emirados que compõem os Emirados Árabes Unidos-NdT), ficou operacional. Enquanto isso, Irão e Omã movimentaram-se para assinar seu próprio acordo.

Escreveu Buringa:

“A desconfiança sobre as intenções de Omã aumentou a atractividade da opção Hadramaute no Iémen, um desejo de longa data da Arábia Saudita”.

O presidente Saleh do Iémen, entretanto, era o obstáculo principal às ambições sauditas. De acordo com Buringa, ele:

“opôs-se à construção de um oleoduto sob controle saudita em território iemenita. Por muitos anos os sauditas investiram em líderes tribais na esperança de executar este projecto sob o sucessor de Saleh. As revoltas populares de 2011 por manifestantes pedindo a democracia pertubaram esses planos. “

Buringa é o único oficial sénior de um governo ocidental a ter reconhecido este assunto publicamente. Mas a 1 de Fevereiro, entrei em contacto com ela para lhe pedir uma entrevista.Quatro dias depois recebi a resposta de Roel van der Meij, porta-voz de assuntos corporativos do Ministério de Relações Exteriores do governo holandês: “Sra. Joke Buringa pediu-me para o informar que não está disponível para a entrevista.”

(*) Entretanto o blog de Buringa – previamente disponível em http://www.jokeburinga.com – tinha sido completamente removido. Uma versão arquivada do seu artigo sobre a geopolítica energética da guerra saudita no Iémen está disponível na Wayback Machine

Perguntei a Buringa e a Roel van der Meij o porquê do blog ter sido completamente apagado logo a seguir ao meu pedido para a entrevistar e se ela tinha sido forçada a o fazer sob a pressão do governo para proteger os laços holandeses com a Arábia Saudita.

Buringa num email negou ter sido pressionada pelo Ministério das Relações Exteriores holandês a apagar o blog:

“Desculpe decepcioná-lo, mas não fui pressionado pelo ministério. O layout do blog incomodou-me desde o início e há meses que o tencionava mudar… Sua pergunta lembrou-me que eu o queria mudar e repensar o que queria fazer com ele. Não leia mais”

O porta-voz do governo holandês para assuntos corporativos, van der Meij, não respondeu a vários pedidos por e-mail e telefonemas para comentar sobre a remoção do blog.

Muitas empresas holandesas estão activas na Arábia Saudita, executando investimentos conjuntos, como a grande anglo-holandesa Shell. Devido à posição dos Países Baixos como porta de entrada para a Europa, duas multinacionais da Arábia Saudita – a empresa nacional de petróleo Aramco e o gigante petroquímico SABIC – têm suas sedes europeias em Haia e Sittard, nos Países Baixos. As exportações holandesas para a Arábia Saudita também aumentaram dramaticamente nos últimos anos, aumentando 25% entre 2006 e 2010.

Em 2013, a Arábia Saudita exportou cerca de 34 bilhões de euros de combustíveis minerais para a Holanda e importou dos holandeses cerca de 8 bilhões de euros em máquinas e material de transporte, 4,8 bilhões de euros em produtos químicos, e 3,7 bilhões de alimentos e animais.

A aliança saudita com a Al Qaeda

Entre os principais beneficiários da estratégia saudita no Iémen é a al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), o mesmo grupo que assumiu a responsabilidade pelo massacre de Charlie Hebdo em Paris.

Buringa observa:

“A província de Hadramaute no Iémen, é uma das poucas áreas onde a coligação liderada pela Arábia Saudita não realizou ataques aéreos. O porto e o aeroporto internacional de al-Mukalla estão em óptima forma e sob o controle da Al-Qaeda. Além disso, a Arábia Saudita está a entregar armas à Al-Qaeda, (as quais) expandem a sua esfera de influência”.

A aliança saudita com terroristas afiliados à Al-Qaeda no Iémen, foi revelada em Junho passado, quando o governo “de transição” de Abd Rubbuh Mansour Hadi (actual presidente do Iémen-NdT) apoiado pela Arábia Saudita, enviou um representante a Genebra como delegado oficial para as negociações na ONU.

Descobriu-se que o representante não era outro senão Abdulwahab Humayqani, identificado em 2013 como “especificamente designado de terrorista global”,  pelo Tesouro dos EUA por recrutar e financiar a al-Qaeda da Península Arábica (AQAP). Humayqani supostamente esteve por trás do atentado com um carro-bomba da Al-Qaeda que matou sete pessoas muma base da Guarda Republicana do Iémen em 2012.

Outros analistas concordam. Michael Horton comenta no Monitor de Terrorismo da Fundação Jamestown:

“A AQAP também pode beneficiar do fato de poder vir a ser um proxy útil à Arábia Saudita na sua guerra contra os Houthis. A Arábia Saudita e os seus aliados estão a armar uma série de milícias díspares no sul do Iémen. É quase certo que algum, se não muito, do financiamento e material vão para AQAP e muito possivelmente para o Estado islâmico “.

Enquanto o Ocidente enuncia com alarde a guerra contra o ISIS no Iraque e na Síria,  está a abrir caminho para o ressurgimento da al-Qaeda e ISIS no Iémen.

Joke Buringa, ministra holandesa do exterior, comentou no seu artigo agora censurado:

“A Arábia Saudita não quer um país forte e democrático no outro lado da fronteira com mais de 1.500 quilómetros, que separa os dois países [Arábia Saudita e Iémen]. Nem os os EUA e o Reino Unido querem, ao que parece.”

“Aqueles oleodutos para Mukalla (capital da província de Hadramaute, que se situa na parte sul do Iémen-NdT) provavelmente chegarão lá.”

Eles provavelmente não – mas ainda poderá haver efeitos imprevistos e indesejados.

1ª Parte

Nota: Fotos, links e realces desta cor são da minha responsabilidade

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