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O ataque do ISIS ao clube Reina, em Istambul: Uma lição a tirar quando se convida canibais para o jantar

Segundo Ahmet S YaylaAnne Speckhard, o  ataque do ISIS ao Clube Reina, em Istambul, é a lição a tirar, quando se convida canibais para o jantar

 

O ISIS atacou novamente na Turquia, desta vez na véspera de Ano Novo ao  clube nocturno Rena, em Istambul, um dos locais de entretenimento mais conhecidos e lotados na Turquia bem como  o local conhecido de encontro de muitos estrangeiros, onde matou trinta e nove e feriu outros sessenta e nove.

Inicialmente, o ISIS não reivindicou o ataque. No entanto, vários contas Telegram relacionadas com o ISIS em turco e árabe, logo começaram a reivindicar a responsabilidade do ataque e a celebrá-lo.

Depois, a 2 de Janeiro de 2017, o Estado Islâmico assumiu a responsabilidade, através da sua agência de notícias Amaq, onde alegou que os homicídios foram realizados por “um soldado do califado” e mais tarde à noite lançou um vídeo dele a andar na praça central de Taksim em Istambul, talvez um indicador de que ele já estaria seguramente fora do país.1

De acordo com o jornal diário turco Hurriyet, o terrorista responsável por este ataque, tal como a célula que realizou os triplos atentados suicidas no aeroporto de Istambul Atatürk em Junho de 2016, parece ser da Ásia Central, do Quirguistão ou Usbeque.2

Também aparece como um terrorista profissional com armas e treino militar, ao calmamente mudar 3 vezes o cartucho das balas da sua arma automática, algo que exige de nervos frios e treino, matando sem qualquer hesitação, em primeiro o polícia que estava na entrada do clube, garantindo assim que não iria ter qualquer resistência ao entrar e de seguida, as suas vitimas dentro do clube. Demorou apenas sete minutos a atingir as suas vítimas, disparando de novo sobre elas, para garantir as matanças.

A ser originário da Ásia Central, ele falaria provavelmente russo e seria um membro, ou com laços estreitos, aos Emirados do Cáucaso, (subgrupo) do Estado Islâmico, com elementos oriundos da Chechénia, Daguestão, outros com longa experiência na luta contra os russos e alguns que também lutarem na jihad afegã. 3

Na nossa pesquisa e nas entrevistas a alguns desertores do ISIS, chechenos, cazaques e turcomanos eram frequentemente referidos como as Forças Especiais do ISIS e descritos como altamente experientes, treinados por militares, assumindo a liderança nas batalhas e fazendo a maioria das matanças enquanto os outros os seguiam atrás. Omar Sheshani, recentemente morto e ministro da Defesa da ISIS, lutou com este grupo também, embora não fosse checheno, mas um convertido da Geórgia.

Ocorreram então três ataques em Istambul que envolveram asiáticos centrais ou dos Emirados do Cáucaso do Estado Islâmico versus turcos locais.

O primeiro, a 6 de Janeiro de 2015, levado a cabo por uma viúva bombista suicida na região de Sultan Ahmet, em Istambul. Diana Ramazova, oriunda do Daguestão e viúva grávida de um quadro de ISIS, um cidadão norueguês de origem chechena, fez-se explodir perto de uma delegacia da polícia em Istambul.

O segundo foi o triplo atentado suicida a 28 de Junho de 2016 no aeroporto Atatürk de Istambul.

O último é este do clube nocturno Reina.

Além desses três ataques, todos os outros ataques do ISIS na Turquia foram realizados principalmente por residentes locais.

Parece que o ISIS, ao pretender garantir o sucesso dos seus ataques, está a realizar as suas operações críticas contra a Turquia através de células altamente treinadas, dedicadas e bem disciplinadas do Emirado da Ásia Central e do Cáucaso ao invés de usar recursos locais. Pode haver várias razões para tal: a considerada taxa de sucesso comprovada dos combatentes experientes e lutadores da Ásia Central, tentar fugir ao radar dos serviços secretos, uma vez que os estrangeiros são menos conhecidos, e proteger as suas ligações locais, caso um atacante fosse capturado vivo, com base nas regras da estrutura das células das organizações terroristas aplicadas à sua hierarquia.

Para além do atentado em si, existem vários outros problemas que devem ser considerados: o ataque era previsível devido a várias razões; as ameaças abertas do ISIS à Turquia através das suas declarações ao vivo e na sua revista online Rumiyah, como retaliação aos ataques turcos aéreos na região de al-Bab, que destruíram repetidamente alvos do ISIS e mataram mais de 150 dos seus quadros; a inteligência recebida e partilhada pelas agências estrangeiras e nacionais. Estes sinais deveriam ter levado a polícia turca a tomar antecipadamente medidas adicionais preventivas e de segurança. 4

O proprietário do Clube Reina, na sua declaração ao público, afirmou ter sido também informado de possíveis ameaças de ataques. Da mesma forma, vários ISIS, ameaçaram abertamente a Turquia e as pessoas que estavam a comemorar o Natal, através das redes sociais, mas principalmente nos canais de chat Telegram.

A adicionar às ameaças do ISIS, vários grupos islâmicos, incluindo o partido no poder, o AKP, realizaram também campanhas contra as celebrações do Natal. De facto, as autoridades do Ministério da Educação emitiram ordens para proibir as celebrações de Natal nas escolas. Houve assim, também um crescente sentimento contra o Natal no país.

Vendo tudo isto, um chefe de polícia regular numa cidade como Istambul, normalmente fortaleceria e reforçaria a segurança do Clube Reina na véspera de Ano Novo, tendo em conta este ser um ponto de encontro entre pessoas estrangeiras. No entanto, havia apenas um só policia no portão do clube e nenhumas outras precauções de segurança foram tomadas pela polícia ao redor do clube. Isto é um erro imperdoável do ponto de vista da segurança. Em segundo lugar, a polícia de Istambul levou a cabo uma operação de paz com o envolvimento de 35.000 policiais em toda a cidade, chamado de PEACE34.

De alguma maneira, com 35 mil policiais nas ruas e postos de controlo perto do clube Reina, o atacante demorou sete minutos na sua matança, saiu sem qualquer interrupção e perdeu-se entre os 35 mil policiais na rua. Em circunstâncias normais, o tempo de resposta para um local como o Reina, no centro da cidade, seria de menos de três minutos. Além disso, por causa do aumento da segurança na cidade, havia pelo menos três polícias a mais nas ruas ao redor do clube, em comparação com o horário normal de trabalho. Havia equipes de polícia de motocicletas para reagirem rapidamente e postos de controlo da polícia perto do Reina. Toda a área deveria ter sido bloqueado em segundos. Claramente, a polícia falhou ao não levar a cabo medidas de segurança preventivas adequadas e na falha da gestão das consequências do ataque, quando não interveio em tempo útil para apanhar o atacante enquanto este fugia.

O ISIS deixou de estar calmo na Turquia, depois dos ataques aéreos turcos contra ele na região de al-Bab e do tratado assinado entre Turquia, Rússia e Irão sobre a Síria. Trata-se de uma clara mudança política em relação à Turquia do ISIS e um sinal do que mais virá.

Isto ocorre no mesmo período em que o presidente turco Erdogan enfraqueceu a polícia e a força intelectual turca, enquanto purgava e demitia chefes e oficiais críticos da polícia, primeiro depois das operações infames de corrupção de 17 a 25 de Dezembro de 2013 contra seus parentes e filhos e depois novamente após a tentativa do golpe de 15 de Julho de 2016.

Todos os antigos antiterroristas, inteligência, SWAT, oficiais e chefes da divisão do crime organizado foram purgados e vários deles presos. Os que os substituíram ainda são inexperientes, o que significa que a Turquia não tem uma força policial bem treinada e experiente para combater a crescente ameaça de ataques terroristas num futuro próximo.

Com esta política, é claro que a polícia recém contractada também mudou as suas prioridades, dos terroristas islâmicos radicais para os inimigos de Erdogan, chamados de “golpistas” e “gulenistas” e executou centenas de operações contra eles, prendendo mais de 50.000, enquanto outras 130.000 pessoas foram demitidas.

Além disso, só muito recentemente é que as organizações terroristas ISIS e al-Nusra foram consideradas como ameaças na Turquia, e, até muito recentemente, o governo do AKP deu apoio aberto e secreto a essas origens terroristas. Desde 2014, todas as operações antiterroristas islâmicas radicais foram interrompidas pela nova administração turca e não houve nenhuma operação contra terrorismo planeada em qualquer lugar na Turquia durante os anos de 2014 e 2015. As operações em 2016 foram principalmente operações reaccionárias e o que é preocupante é que os detidos islâmicos foram rapidamente libertados.

Como resultado destas políticas mal-intencionadas, o número de pessoas mortas na Turquia a partir de ataques de jihadistas disparou entre 2014 e 2016, um aumento de mais de trezentos por cento em comparação com os últimos anos 5

Estas mudanças políticas dramáticas e preocupantes deram origem aos problemas de segurança de hoje, uma vez que o ISIS já estabeleceu uma rede perigosa e forte de células terroristas por toda a Turquia. Inicialmente a Turquia ignorou, permitiu e apoiou o ISIS, assumindo que manteria as milícias curdas sob controlo e nunca morderiam o seu protector. No entanto, como um especialista em contra terrorismo disse: “Quando convida canibais para o seu jantar, pode esperar por acabar como prato principal.”

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http://www.longwarjournal.org/archives/2015/09/islamic‐states‐caucasus‐province‐claims‐first‐official‐attack‐on‐russian‐forces.php
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Ahmet S. Yayla

É co-autor do recém-lançado livro, ISIS Defectors: Inside Stories of the Terrorist Caliphate. É Director Adjunto do Centro Internacional para o Estudo do Extremismo Violento (ICSVE) e Professor Adjunto de Criminologia, Direito e Sociedade na universidade George Mason. Anteriormente, foi professor e presidente do Departamento de Sociologia da Universidade de Harran, na Turquia. Ele é o ex-Chefe da Divisão de Contra Terrorismo e Operações da Polícia Nacional Turca com uma carreira de 20 anos a entrevistando terroristas.

Anne Speckhard

É Professora Adjunto de Psiquiatria na Universidade de Georgetown na Faculdade de Medicina e Directora do Centro Internacional para o Estudo do Extremismo Violento (ICSVE). Ela também é a autora dos livros Talking to Terrorists, Bride of ISIS e co-autora do Undercover Jihadi e Warrior Princess. Dra. Speckhard entrevistou quase 500 terroristas, seus familiares e apoiantes em várias partes do mundo, incluindo Gaza, Cisjordânia, Chechénia, Iraque, Jordânia, Turquia e muitos países da Europa. Em 2007, foi responsável por projectar o Programa de Reabilitação de Detidos no Iraque para ser aplicado a 20.000 + detidos e a 800 juvenis.

(fonte)

Nota: links e realces desta cor são da minha responsabilidade

One comment on “O ataque do ISIS ao clube Reina, em Istambul: Uma lição a tirar quando se convida canibais para o jantar

  1. voza0db
    4 de Janeiro de 2017

    Olá 😉

    Ataques do ISIS é o mesmo que ataques da MOSSAD/CIA&Corp.

    De resto é apenas um castigo devido ao facto de os turcos andarem a desobedecer às ordens dos americanos e israelitas quando andam a fazer acordos e arranjos com Rússia, Irão e Síria!

    Tudo na mesma…

    Be 😎

    Gostar

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This entry was posted on 3 de Janeiro de 2017 by in Afinal Quem é Terrorista?, Daesh, Turquia and tagged , , .

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