A Arte da Omissao

Contra Donald Trump: a propaganda de guerra

Artigos anteriores de Thierry Meyssan (A)  sobre o Presidente Trump, causaram algumas reacções ferozes dos leitores da Rede Voltaire. Alguns deles questionam a ingenuidade aparentemente exibida por Thierry Meyssan, apesar dos avisos emitidos pela imprensa internacional e da acumulação dos sinais negativos. Aqui está sua resposta, bem fundamentada como sempre.

| Damasco (Síria) | 7 de Fevereiro 2017

Tradução do artigo Anti-Donald Trump: war propaganda de Thierry Meyssan

Duas semanas após a sua investidura, a imprensa atlântica continua com seu trabalho de desinformação e agitação contra o novo presidente dos Estados Unidos da América. Trump e os seus novos colaboradores multiplicam declarações e gestos aparentemente contraditórios, de modo que é difícil entender o que está acontecer em Washington.

A campanha anti-Trump

A má-fé da imprensa atlântica pode ser verificada em cada um destes quatro temas principais.

1) Em relação ao início do desmantelamento do Obamacare (a 20 de Janeiro), somos obrigados a relatar que, ao contrário do que é anunciado na Imprensa atlântica, as classes desfavorecidas que deveriam ter beneficiado desse sistema, foram massivamente negligenciadas. Esta forma de «segurança social» acabou por ser demasiado cara e demasiado directiva para os atrair. Apenas as empresas privadas que gerem este sistema foram verdadeiramente satisfeitas por ele.

2) No que diz respeito ao prolongamento do muro na fronteira mexicana (23-25 de Janeiro), não há nada de xenófobo – o Secure Fence Act foi assinado pelo presidente George W. Bush, que começou a sua construção. O trabalho foi continuado pelo presidente Barack Obama com o apoio do governo mexicano da época.

Além da retórica da moda sobre “muros” e “pontes”, os sistemas de fronteiras reforçados só funcionam quando as autoridades de ambos os lados concordam em torná-los operacionais. Eles falham sempre que uma das partes se opõe.

O interesse dos Estados Unidos é controlar a entrada de migrantes, enquanto o interesse do México é impedir a importação de armas. Nada disso mudou. No entanto, com a aplicação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), as empresas transnacionais deslocalizaram dos Estados Unidos para o México, não apenas empregos não qualificados (de acordo com a regra marxista de “a tendência da quebra da taxa de lucro (TRPF)», mas também trabalhos qualificados que são desempenhados por trabalhadores sub-remunerados («dumping social »).

A aparição desses empregos provocou um forte êxodo rural, desestruturando a sociedade mexicana, a exemplo do que aconteceu na Europa do século XIX. As empresas transnacionais baixaram os salários, mergulhando parte da população mexicana na pobreza – que agora só sonham em ser pagos correctamente nos próprios Estados Unidos. Desde que Donald Trump anunciou que pretende retirar a assinatura dos EUA do acordo NAFTA, as coisas devem voltar ao normal nos próximos anos, e satisfazer tanto o México como os Estados Unidos [1].

3) Em relação à questão do aborto (23 de Janeiro), o Presidente Trump proibiu o pagamento de subsídios federais a associações especializadas que recebem fundos do exterior. Ao fazê-lo, alertou as associações específicas que devem escolher entre o seu objectivo social de ajudar as mulheres em perigo ou serem pagos por George Soros para se pronunciarem contra ele – como foi o caso a 21 de Janeiro. Este decreto, portanto, não tem nada a ver com o aborto, mas com a prevenção de uma “revolução de cor”.

4) Sobre os decretos anti imigração (25 a 27 de Janeiro), Donald Trump anunciou que iria aplicar a lei – herdada da era Obama – em outras palavras, expulsar 11 milhões de estrangeiros ilegais. Ele suspendeu a ajuda federal para as cidades que anunciaram que iriam recusar-se a aplicar a lei – onde vamos conseguir nossas senhoras de limpeza se tivermos que as declarar?

Ele especificou que entre esses imigrantes ilegais, começaria por expulsar os 800 mil criminosos que foram objecto de processos criminais, nos Estados Unidos, no México ou em outros lugares. Além disso, para evitar a chegada de terroristas, suspendeu todas as autorizações de imigração para os Estados Unidos e proibiu por três meses pessoas de países onde é impossível verificar a sua identidade e sua situação. Ele não elaborou a lista de tais países, mas referiu-se a um texto anterior do Presidente Obama.

Por exemplo, aqui na Síria, não há mais uma Embaixada ou Consulado dos EUA. Do ponto de vista da polícia administrativa, é, portanto, lógico colocar os sírios nesta lista. Mas isso só pode dizer respeito a um número mínimo de pessoas. Em 2015, apenas 145 sírios conseguiram obter o “cartão verde” dos EUA. Consciente dos numerosos casos especiais que podem surgir, o decreto presidencial fornece toda a liberdade ao Departamento de Estado e da Segurança Interna em emitir excepções. O facto da aplicação destes decretos terem sido sabotados por funcionários públicos contrários ao Presidente Trump, que os aplicou com brutalidade, não faz do Presidente um racista nem sofre  de islamofobia.

A campanha liderada pela imprensa atlântica contra Donald Trump é, portanto, infundada. Pretender que ele abriu uma guerra contra os muçulmanos e evocar publicamente a sua possível destituição, até mesmo o seu assassinato, deixou de ser simplesmente má fé – é propaganda de guerra.

O objectivo de Donald Trump

Donald Trump foi a primeira personalidade do mundo a contestar a versão oficial dos ataques do 11/9, na televisão e naquele mesmo dia. Depois de ter notado que os engenheiros que construíram as Torres Gémeas estavam agora a trabalhar para ele, declarou no Canal 9 de Nova Iorque que era impossível que os Boeings pudessem explodir as estruturas de aço das torres e que era também impossível que os Boeings pudesse ter causado o colapso das torres. Concluiu afirmando que havia outros factores que ainda não conhecíamos.

A partir desse dia, Donald Trump nunca cessou de resistir ao povo que cometeu esses crimes. Durante seu discurso inaugural, ele enfatizou que esta não era uma passagem de poder entre duas administrações, mas uma restituição do poder aos cidadãos dos Estados Unidos, que haviam sido privados dele [por dezasseis anos] [2].

Durante a sua campanha eleitoral, durante o período de transição, e novamente desde que tomou posse, Trump repetiu que o sistema imperial desses últimos anos nunca beneficiou os cidadãos dos EUA, mas apenas uma pequena camarilha da qual a Sra. Clinton é a figura emblemática. Ele declarou que os Estados Unidos não mais tentarão ser o “primeiro”, mas o “melhor”. Seus slogans são – “Fazer a América grande outra vez” e “primeiro a América”.

Esta virada política de 180 graus agitou um sistema implementado nos últimos 16 anos e que tem as suas raízes na Guerra Fria, e que em 1947, só os Estados Unidos queriam. Este sistema tem gangrenado numerosas instituições internacionais, como a NATO (Jens Stoltenberg e General Curtis Scaparrotti), a União Europeia (Federica Mogherini) e as Nações Unidas (Jeffrey Feltman) [3].

Se Donald Trump atingir ao seu objectivo, levará anos.

Rumo a um desmantelamento pacífico do Império dos Estados Unidos

Em duas semanas, muitas coisas começaram, muitas vezes com a maior discrição. As declarações crescentes do presidente Trump e da sua equipe espalharam deliberadamente a confusão e permitiram que se assegurasse que as nomeações dos seus colaboradores fossem confirmadas por um congresso parcialmente hostil.

Devemos entender que acaba de começar em Washington, uma luta até à morte entre dois sistemas. Vamos deixar a imprensa atlântica comentar as declarações muitas vezes contraditórias e incoerentes por este ou aquele, e olhar para os fatos por conta própria.

Antes de mais nada, Donald Trump garantiu que tinha controlo sobre o aparelho de segurança. As suas três primeiras nomeações (Michael Flynn para Conselheiro de Segurança Nacional, James Mattis para Secretário de Defesa e John Kelly para Secretário da Segurança Interna) são três Generais que têm contestado a “continuidade do governo” desde 2003 [4]. De seguida, reformou o Conselho de Segurança Nacional para excluir o Chefe do Estado-Maior e o director da CIA [5]

Mesmo pensando que este último decreto seja provavelmente revisto, tal ainda não aconteceu. Notemos que anunciamos a intenção de Donald Trump e do General Flynn de eliminar o posto de Director de Inteligência Nacional [6]. No entanto, este posto foi mantido e Dan Coats foi nomeado para ele. Verifica-se que ao falar da sua supressão, se tratava de uma táctica para demonstrar que a presença do Director de Inteligência Nacional no Conselho era suficiente para justificar a exclusão do Director da CIA.

A substituição da palavra «melhor» por «primeiro» leva ao envolvimento de parcerias com a Rússia e a China, em vez da tentativa de os esmagar.

Para prejudicar essa política, os amigos da Sra. Clinton e da Sra. Nuland relançaram a guerra contra o Donbass. As perdas importantes que sofreram desde o início do conflito levaram o exército ucraniano a retirar-se e a colocar a milícia paramilitar nazista na linha de frente. Os combates infligiram pesadas contingências civis aos habitantes da nova República popular. Simultaneamente, no Próximo Oriente, conseguiram entregar tanques para os curdos sírios, como planeado pela administração Obama.

Para resolver o conflito ucraniano, Donald Trump está a procurar uma maneira de ajudar a ejectar o presidente Petro Porochenko. Ele recebeu, portanto, na Casa Branca o chefe da oposição, Ioulia Tymochenko, mesmo antes de aceitar o telefonema do presidente Porochenko.

Na Síria e no Iraque, Donald Trump já começou com operações em comum com a Rússia, mesmo que o seu porta-voz o negue. O ministro russo da Defesa, que o havia revelado imprudentemente, deixou de falar sobre o assunto.

Em relação a Pequim, o presidente Trump pôs fim à participação dos EUA no Tratado Transpacífico (TPP) – um tratado concebido para inibir a China. Durante o período de transição, ele recebeu o segundo homem mais rico da China, Jack Ma (o empresário que confirmou – “Ninguém roubou os seus empregos, vocês gastas demais na guerra”).

Sabemos que as suas discussões abordaram a possível adesão de Washington ao Banco Asiático de Investimentos em Infra-estrutura (AIIB). Se for esse o caso, os Estados Unidos concordarão em cooperar com a China em vez de dificultar. Eles iriam participar na construção de duas rotas de seda, o que tornaria as guerras em Donbass e na Síria inúteis.

Em matéria de finanças, o presidente Trump iniciou o desmantelamento da lei Dodd-Frank, que tentou resolver a crise de 2008 evitando o colapso brutal dos grandes bancos, («demasiado grande para falhar»). Embora esta lei tenha alguns aspectos positivos (tem 2.300 páginas), estabelece uma tutela do Tesouro sobre os bancos, o que obviamente dificulta os seus desenvolvimentos. Aparentemente Donald Trump também está a preparar-se para restaurar a distinção entre bancos de depósito e bancos de investimento (Glass-Steagall Act).

Finalmente, a limpeza das instituições internacionais também começou. O novo embaixador da ONU, Nikki Haley, solicitou uma auditoria às 16 missões de “manutenção da paz”. Ela fez saber que pretende pôr fim àquelas que parecem ser ineficazes. Do ponto de vista da Carta das Nações Unidas, todas essas missões serão auditadas sem excepção. Na verdade, os fundadores da Organização não previram esse tipo de desdobramento militar (hoje, mais de 100.000 homens e mulheres).

A ONU foi criada para evitar/resolver conflitos entre estados (nunca conflito intra-estado). Quando as duas partes concluírem um cessar-fogo, a Organização pode enviar observadores para verificar o respeito pelo acordo. Mas, pelo contrário, estas operações de “manutenção da paz” visam reforçar o respeito de uma solução imposta pelo Conselho de Segurança e recusada por uma das duas partes envolvidas no conflito – na realidade, é a continuação do colonialismo.

Na prática, a presença dessas forças só faz o conflito durar mais tempo, enquanto a sua ausência não muda nada. Assim, as tropas da Força Interina das Nações Unidas (UNIFIL) desdobradas na fronteira israelo-libanesa, mas apenas em território libanês, não impedem nem as operações militares israelitas nem as operações militares da Resistência Libanesa, como já vimos muitas vezes. Servem apenas para espionar os libaneses em nome dos israelitas, prolongando assim o conflito. Da mesma forma, as tropas da Força de Observação do Desembaraço das Nações Unidas, ou FNUOS, desdobradas na linha de demarcação no Golã, foram afugentadas pela Al-Qaïda, sem que isso mudasse nada no conflito israelo-sírio. Acabar com esse sistema significa retornar ao espírito e à letra da Carta, renunciando aos privilégios coloniais e pacificando o mundo.

Por trás da controvérsia da comunicação social, das manifestações de rua e do confronto entre os políticos, o presidente Trump mantém seu rumo.

[1] “Behind the bipartisan wall”, by Manlio Dinucci, Translation Anoosha Boralessa, Il Manifesto (Italy) , Voltaire Network, 28 January 2017.

[2] “Donald Trump Inauguration Speech”, by Donald Trump, Voltaire Network, 21 January 2017.

[3] “Germany and the UNO against Syria”, by Thierry Meyssan, Translation Pete Kimberley, Al-Watan (Syria) , Voltaire Network, 28 January 2016.

[4] “Trump – enough of 9/11!”, by Thierry Meyssan, Translation Pete Kimberley, Voltaire Network, 24 January 2017.

[5] “Donald Trump winds up “the” organization of US imperialism].]”, by Thierry Meyssan, Translation Anoosha Boralessa, Voltaire Network, 31 January 2017.

[6] “General Flynn’s Proposals to Reform Intelligence”, by Thierry Meyssan, Translation Anoosha Boralessa, Contralínea (Mexico) , Voltaire Network, 1 December 2016.

 

(A) Links da minha responsabilidade:

http://www.voltairenet.org/article195037.html e http://www.voltairenet.org/article195166.html

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 13 de Fevereiro de 2017 by in USA and tagged , , .

Navegação

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: