A Arte da Omissao

ACORDEM

O sequestro da Conferência sobre Segurança de Munique

Tradução do artigo,  The hijacking of the Munich Security Conference de Thierry Meyssan

A história ensina-nos isso – cada vez que um sistema desmorona seus líderes não percebem a verdade até que sejam arrastados pela tempestade. Assim, os representantes políticos da União Europeia reunidos como todos os anos em Munique para a sua Conferência de Segurança ficaram chocados ao ouvir Sergey Lavrov (diplomata russo e Ministro das Relações Exteriores da Rússia desde 2004 – Ndt) falar de uma ordem mundial pós-ocidente. E, no entanto, o mundo desmorona-se sob os seus pés – os povos árabes resistem desesperadamente a guerras e falsas revoluções, enquanto o povo dos Estados Unidos elegeu um anti-imperialista para a Casa Branca. Os organizadores da Conferência não têm cura – eles estavam a defender os interesses do Estado dos EUA contra o governo Trump.

  | Damasco (Síria) | 21 de Fevereiro de 2017

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O jantar de Gala da Conferência (18 de Fevereiro de 2017, 23h)

A Conferência de Munique sobre Segurança foi realizada de 16 a 19 de Fevereiro de 2016. [1] Como todos os anos, reuniu mais de 500 ministros e deputados do Parlamento Europeu, bem como convidados estrangeiros. Este é o maior encontro internacional em matéria de política externa e defesa europeia.
Foi já há dez anos, em 2007, que Vladimir Putin escandalizou ao salientar que o interesse europeu não era  seguir o Pentágono nas suas aventuras militares, mas agir de forma independente. [2] E recordou que o seu país, a Rússia é um Estado europeu, mesmo que esteja excluída da União Europeia. Os participantes riram-se dele e das suas pretensões. Unanimemente, alinharam-se sob as saias da NATO.
Desta vez é Sergey Lavrov, que escandalizou ao apelar a uma ordem mundial pós-ocidental. Somos forçados a constatar que a NATO perdeu a sua superioridade na guerra convencional – mesmo que ela mantenha vantagem no que diz respeito às guerras nucleares . É claro que depois de 15 anos de guerra ininterrupta no “Grande Médio Oriente”, falharam a miragem da remodelação regional em micro Estados com menos de 10 milhões de pessoas e a fantasia de erradicar regimes seculares em benefício de uma ditadura da Irmandade muçulmana.
Numa forma desconcertante, os europeus continuam a perseguir esse objectivo, que lhes foi imposto por Washington, mas o povo do Estados Unidos  e o seu presidente Donald Trump não o desejam mais. Assim, apoiam-se no Estado profundo norte-americano (ou seja, no Governo da Continuidade do Raven Rock Mountain, (Complexo  militar do Governo dos Estados Unidos, localizado no interior da montanha Raven Rock, no estado da Pensilvânia -Ndt) que organizou os atentados do 11-de-Setembro).
Seus líderes políticos não se cansam de denunciar preventivamente o racismo e a suposta islamofobia de Donald Trump, mas foram os mesmos que aplaudiram George W. Bush e Barack Obama quando mataram mais de 3 milhões de pessoas. Sua imprensa continua a insultar Donald Trump que o apresenta como um lunático incapaz [3].
Horrorizados com as palavras de Donald Trump sobre a NATO “obsoleta” foram tranquilizados pelas declarações de seus ministros que, no entanto, disseram a mesma coisa: a NATO não tem razão de existir na sua forma actual; ela deve ser transformada numa aliança defensiva e se cada Estado Membro quiser participar, terá que gastar 2% do seu orçamento de defesa.
Obcecados com os seus delírios imperialistas, os europeus estavam assustados com um possível abandono dos seus  investimentos anti russia na Ucrânia e na Síria. Novamente foram tranquilizados com declarações vagas. Os ministros de Trump reiteraram que não desistiriam de nenhum interesse vital para os EUA na Ucrânia e que iriam continuar  a procurar uma “solução política na Síria.

Então porque é que os Europeus entenderam que o povo norte-americano tem interesses vitais nas margens do Dnipro e que a «solução política na Síria» significa a substituição da República pelos Irmãos Muçulmanos? Simplesmente porque foi o que a administração Obama lhes tinha apontado. A mesma que foi repudiada pelo povo norte-americano.

Certamente que todo mundo pode ver a luta entre a administração Trump de um lado e o grupo da “Continuidade do Governo dos Estados Unidos” por outro. O chão tremeu quando Donald Trump excluiu a CIA e o Chefe do Estado-Maior Conjunto  do Conselho de Segurança Nacional [4].

Todos puderam observar o modo como e em represália, a CIA recusou a acreditação de Segurança a seis conselheiros do Presidente, acusou o Conselheiro de Segurança Nacional de ser um espião russo, forçando-o à demissão, e como perseguiu outros quatro da equipe presidencial.

Mas perder algumas batalhas não significa perder a guerra e é triste que os Europeus – escravizados por tanto tempo – não tenham consciência disso. Como se pode acreditar que Donald Trump iria varrer em alguns dias o “Estado profundo” tão poderoso? E como se pode imaginar que as suas primeiras derrotas o vai fazer renunciar? [5]

Ao longo dos últimos anos, a Conferência de Segurança foi um caminho para a Alemanha servir como ponte entre os Estados Unidos e os seus parceiros europeus. Este ano, ela teve o único objectivo de forçar os líderes da UE  a confirmarem a sua vassalagem ao Estado Profundo dos Estados Unidos sem ter em conta a vontade expressa do povo norte-americano e a  mudança na Casa Branca.

Um documento preparatório elaborado por organizadores alemães da conferência foi dado aos participantes. A imprensa teve o cuidado de não o mencionar. Podemos ler nele um artigo de Volker Perthes,  autor do plano Feltman para a capitulação total e incondicional da República Árabe da Síria [6]. Este eminente “especialista”  expressa nele a sua visão doGrande Médio Oriente“, ou melhor, a sua visão para a “continuidade do governo dos Estados Unidos“. [7]

- 1. [Mesmo se não chegarmos a remodelar], esta região não vai sair ilesa das guerras e da “Primavera Árabe”. [Nós não teríamos feito tudo isto para nada].

- 2. O conflito entre a Arábia Saudita e o Irão transformou-se num conflito sectário sunita/xiita [que mascara as nossas ambições geopolíticas].

- 3. Enquanto todo mundo é apanhado neste falso conflito religioso ninguém presta atenção à situação dos palestinianos [em benefício da maior tranquilidade do Estado colonial israelita].

- 4. Enquanto os europeus estão unanimemente cansados destes rios de sangue longe de casa e anseiam pelo  triunfo da Irmandade Muçulmana, ninguém em todo o Médio Oriente Alargado admite a derrota.

- 5. Durante a guerra na Síria, fizeram-se e desfizeram-se muitas alianças  nível regional, a mais recente uniu a Rússia, Turquia e Irão, que não deverá [felizmente] durar mais que as outras.

- 6. A Síria e Iraque não vão derrotar o terrorismo e só encontrarão paz  com governos inclusivos [isto é, quando aceitarem introduzir a Al-Qaeda e o Daesh nos seus governos].

- 7. Tudo isso só poderá acabar para todos os povos do Médio Oriente alargado, com uma grande conferência internacional na qual os ocidentais irão determinar o seu futuro, como o Congresso de Viena (1814) a Aliança Quádrupla decidiu  o destino do resto do mundo.

Certamente, nem face ao voto do povo dos Estados Unidos, nem face à resistência dos povos árabes, os líderes europeus não mudam. Somente os Povos Europeus os podem fazer mudar.

 1] Münchner Sicherheitskonferenz, site oficial

[2] « La gouvernance unipolaire est illégitime et immorale », par Vladimir Poutine, Réseau Voltaire, 11 février 2007.

[3] « Contre Donald Trump : la propagande de guerre », Thierry Meyssan, Réseau Voltaire, 7 février 2017.

[4] “Presidential Memorandum : Organization of the National Security Council and the Homeland Security Council”, Donald Trump, Voltaire Network, 28 January 2017.

[5] « L’Otan suspend ses opérations en Syrie », Réseau Voltaire, 16 février 2017.

[6] « L’Allemagne et l’Onu contre la Syrie », par Thierry Meyssan, Al-Watan (Syrie) , Réseau Voltaire, 28 janvier 2016.

[7] « No order, no hegemon. The Middle East in flux », Volker Perthes, Security Challenges (Germany), Voltaire Network, February 16,2017.

 

Nota: links e realces desta cor são da minha responsabilidade

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This entry was posted on 17 de Março de 2017 by in Síria, União Europeia and tagged , .

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