A Arte da Omissao

David Rockefeller: Um legado negro no Brasil: David Rockefeller e a ditadura militar Brasileira

Tradução artigoDavid Rockefeller & a dark legacy in Brasil – A critical obituary

Brasil Wire, 20 de Março de 2017

No dia 20 de Março, David Rockefeller morreu aos 101 anos. Como os obituários de um dos homens mais ricos do mundo jorram sobre a sua filantropia, é preciso salientar que ele foi um grande actor em vários golpes latino-americanos, ditaduras, políticas pós-ditatoriais neoliberais que muito aumentaram a estratificação de ganhos e pobreza e que seu legado negro continuará a influenciar a região durante muito tempo após a sua morte.


David Rockefeller e a ditadura militar brasileira

APenetração dos Estados Unidos no Brasil“, de Jan K. Black, contém inúmeras passagens relacionadas com as actividades do Grupo Rockefeller, do Grupo Empresarial da América Latina e seus precursores, na eleição de 1962, no Golpe de 1964 e no período que se seguiu, em conivência com as elites conservadoras locais. Ela documenta como, numa conferência Militar na América Latina em West Point no outono de 1964, David Rockefeller disse que tinha decidido bastante cedo que Goulart não era aceitável na comunidade bancária dos EUA, e que  “teria de ir”. Como em 2016, a ênfase estrangeira em 1964 não estava na ideologia marxista, mas no combate ao nacionalismo  económico.

“A afirmação do controle nacional sobre os recursos naturais básicos, bem como a afirmação mais geral sobre o controlo da capacidade produtiva da economia, foi vista pelo governo Goulart como um pré-requisito para a redistribuição de rendimentos. A defesa do nacionalismo económico, também foi vista como um dos meios mais promissores para mobilizar o apoio em  massa ao governo. As empresas norte-americanas, com o apoio do governo dos Estados Unidos, geralmente foram capazes de afastar as restrições de governos fracos e nacionalistas.

”Se a mobilização das massas não tivesse aparecido como uma ameaça ou uma possibilidade, parece provável que as pressões combinadas das corporações multinacionais e daqueles elementos da comunidade empresarial brasileira cujas fortunas estavam a elas ligadas, teria sido suficiente para intimidar o governo brasileiro a apoiar os seus projectos nacionalistas.

Mas em 1964, independentemente do potencial real para a mobilização das massas, Goulart aparentemente acreditava que era possível: e os seus inimigos, estrangeiros e domésticos, aparentemente temiam que ele tivesse razão.”

Em 1975, Philip Agee, ex-agente da CIA, confirmou muitas das descobertas e suspeitas da comissão parlamentar brasileira sobre a interferência estrangeira nas eleições de 1962. A investigação revelou que, das principais operações de acção política da CIA no Rio, o Instituto Brasileiro de Acção Democrática (IBAD) e uma organização relacionada chamada Acção Democrática (ADEP):

“… gastaram durante a campanha eleitoral de 1962, pelo menos o equivalente a cerca de 12 milhões de dólares para financiarem candidatos anticomunistas e possivelmente até 20 milhões …. A comissão de inquérito parlamentar foi controlada de alguma forma – cinco de seus nove membros eram mesmos receptores dos fundos do Instituto Brasileiro de Acção Democrática (IBAD) e do Acção Democrática ADEP – mas só a recusa do First National City Bank, do Bank of Boston e do Royal Bank of Canada,  em revelar a fonte estrangeira dos fundos depositados no IBAD e ADEP, evitou a exposição publica.

Os beneficiários do IBAD foram proeminentes entre os conspiradores no golpe de 1 de Abril e alguns, particularmente os beneficiários militares, estavam entre os que ganharam o poder como consequência dele ….Robinson Rojas listou a Standard Oil de New Jersey, US Steel, Texas Oil, Gulf Oil, Hanna Corporation, Bethlehem Steel, General Motors e Willys Overland entre os depositantes nas contas da  promoção IBAD-ADEP”.

O economista e ambientalista Jean Marc von der Weid afirmou que “mais de cem empresas estrangeiras e algumas nacionais estavam envolvidas no financiamento do instituto (IBAD), e que o Grupo Rockefeller e a IBEC (International Basic Economy Company) foram uns dos maiores benfeitores”.

O “homem de ponta” da CIA no golpe de 1964 foi Joseph Caldwell King, também conhecido pelo seu nome de código da CIA de Oliver G. Galbond. Foi vice-presidente do grupo empresarial Johnson & Johnson, do Brasil e  Argentina, e de lá mudou-se para o escritório do Office of the Coordinator of Inter-American Affairs (OCIAA) do seu amigo  Nelson Rockefeller. Depois de deixar oficialmente a CIA em 1967, King tornou-se CEO da “Amazon Natural Drug Company“, uma frente da CIA que recolhia material orgânico da floresta tropical para pesquisas da Fundação Rockefeller  financiadas por agências dos EUA.

A Rede Globo, rede hegemónica dos  média no Brasil, foi criada com a ajuda e o financiamento da  Time-Life Publishing associada de Rockefeller nos Estados Unidos. Transformou-se num instrumento poderoso do controle social durante a ditadura após o seu lançamento em 1964.

Thy will be done: The Conquest of the Amazon‘, foi uma investigação de Gerard Colby e Charlotte Dennett sobre o Summer Institute of Linguistics (SIL), também conhecido como Wycliffe Bible Translators – uma organização evangélica patrocinada por  Rockefeller & USAID e que traduzia  a Bíblia em centenas de línguas indígenas na América Central e do Sul.  Wycliffe foi fundada pelo ultra conservador William Cameron Townsend, que trabalhou em conjunto com Rockefeller, e que os autores acusam de destruir os valores culturais dos povos indígenas para promover a penetração das empresas americanas, com o uso de uma “marca virulenta de fundamentalismo cristão que usou a linguística para minar a coesão social dos indígenas e acelerar a sua assimilação da cultura ocidental “.

Enviaram dezenas de missionários e estabeleceram igrejas para combaterem a “ameaça” da “Teologia da Libertação” identificada pelo irmão mais velho, Nelson Rockefeller, no seu relatório “Rockefeller Report” de 1969 para o presidente Nixon. Esses missionários também actuavam como escuteiros, ao encobrirem os recursos da Amazónia. O apoio financeiro à fé evangélica no Brasil estende-se até aos dia de hoje, com a maciça e politicamente influente Pentecostal “Igreja Universal do Reino de Deus”, cujo bispo principal, Edir Macedo disse em 2011 aos seus seguidores  que os Rockefeller tinham sido contribuintes generosos.

David e Nelson Rockefeller e Zbigniew Brzezinski estiveram também envolvidos na redacção do “National Security Study Memorandum 200“, de Henry Kissinger, em 1974, que o presidente Ford, a quem Nelson Rockefeller actuava como vice, tornou a política oficial dos Estados Unidos. O antigo e secreto na altura, NSSM-200, que foi visto pela primeira vez por pesquisadores na década de 1990, é um documento que defende o controle forçado da população em 13 “Países Menos Desenvolvidos”, países escolhidos pela importância estratégica dos seus recursos naturais, um dos quais o Brasil.

O estudo afirma que “o mundo está cada vez mais dependente de suprimentos minerais de países em desenvolvimento e se a rápida população frustra as suas perspectivas de desenvolvimento económico e progresso social, a instabilidade resultante pode minar as condições para a expansão da produção e os fluxos sustentados desses recursos”.

Ele conclui que “Se através de acções governamentais, conflitos trabalhistas, sabotagem ou distúrbios civis, o bom fluxo de materiais necessários será comprometido. Embora a pressão da população não seja obviamente o único factor envolvido, esses tipos de frustrações são muito menos prováveis em condições de crescimento demográfico lento ou nulo”, e “Os jovens, que estão em proporções muito maiores em muitos países subdesenvolvidos, provavelmente serão mais voláteis , instáveis, propensos a extremos, alienação e violência, do que a população mais velha. Esses jovens podem ser persuadidos com facilidade, a atacar as instituições legais do governo ou propriedade real do “establishment“, “imperialistas”, corporações multinacionais ou outras influências – muitas vezes estrangeiras – por serem culpadas dos seus problemas.

Esses programas obrigatórios de controle populacional seriam implementados por Organizações Não Governamentais, como o próprio Conselho de População eugenista de Rockefeller. Em 1968, Frederick Osborn, o primeiro presidente da organização, disse que “os objectivos eugénicos são mais prováveis de serem alcançados sob um outro nome diferente de eugenia.”

As implicações do documento “National Security Study Memorandum 200” (NSSM-200) para os brasileiros não podem ser subestimadas. Pode interpretar-se que a oposição ao crescimento da população, o aumento do padrão e expectativa de vida, a disponibilidade da educação pública, cuidados de saúde de qualidade e o desenvolvimento independente no Brasil, foram codificados efectivamente na política externa dos Estados Unidos desde 1975.

A chegada ao Brasil

Pós-ditadura

Nota: links desta cor são da minha responsabilidade

 

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This entry was posted on 25 de Março de 2017 by in Brasil, Em nome dos Direitos Humanos, Rockefeller and tagged , .

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