A Arte da Omissao

David Rockefeller: Um legado negro no Brasil: Pós-ditadura

Tradução artigoDavid Rockefeller & a dark legacy in Brasil – A critical obituary

Brasil Wire, 20 de Março de 2017

No dia 20 de Março, David Rockefeller morreu aos 101 anos. Como os obituários de um dos homens mais ricos do mundo jorram sobre a sua filantropia, é preciso salientar que ele foi um grande actor em vários golpes latino-americanos, ditaduras, políticas pós-ditatoriais neoliberais que muito aumentaram a estratificação de ganhos e pobreza e que seu legado negro continuará a influenciar a região durante muito tempo após a sua morte.


Pós-ditadura

Duas décadas após a Ditadura Militar ter assumido o poder com o apoio de David Rockefeller, em 1987, após a transição para o regime civil, David comentou:

“Em todas as minhas visitas ao Brasil, nunca me deparei com uma pobreza tão desesperada”.

Em Junho de 1992 David Rockefeller voltou a Brasília. O progresso é encorajador e a estrada está aberta a um acordo”, disse ele, após uma reunião de 45 minutos com o corrupto Presidente Fernando Collor de Mello no Palácio Planalto, na capital. Embora Rockefeller fosse um consultor do banco Chase Manhattan, mantinha-se envolvido no Council of the Americas (Conselho das Américas -Ndt)

O New York Times escreveu que o Brasil estava a tentar converter a sua dívida mundial de US $ 108 biliões em títulos a 30 anos, que seria apoiada pelo Tesouro dos Estados Unidos. Nascido numa família oligárquica, Fernando Collor de Mello chegou ao poder em 1989 através da primeira eleição directa desde o golpe de 1964, como candidato ungido pela Rede Globo. Um de seus rivais esquerdistas, Leonel Brizola, se tivesso ganho, tinha sido identificado como alvo potencial de um golpe de Estado apoiado pelos EUA.

No final de 1992, Fernando Collor de Mello, que tinha supervisionado um programa de rápida privatização e liberalização económica, renunciou, ao enfrentar uma destituição iminente, com a inflação em mais de 1000%. Ao lidar directamente com Collor, Rockefeller assegurou que os acordos de dívida fossem estabelecidos antes de qualquer mudança na Presidência.

Durante os preparativos para a Cimeira da Terra de 1992, no Rio de Janeiro, a Fundação Rockefeller criou o Leadership in the Environment and Development (LEAD). De acordo com seu site, desde então têm

“recrutando indivíduos talentosos de sectores e profissões chave de todo o mundo, para fazerem parte de uma rede crescente, que conta agora com mais de 2400 líderes,  empenhados em mudar o mundo. […]”

“Desde 1992, mais de 500 profissionais foram treinados no Brasil, Canadá, China, ex-União Soviética, Europa, Índia, Indonésia, México, Nigéria, Paquistão e África do Sul.”

“A filial brasileira do LEAD, (ABDL) foi uma das primeiras, fundada em meados de 1991. Al Binger, director internacional da LEAD, disse com franqueza surpreendente: “Esperamos que, em dez anos, muitos dos bolsistas actuem como ministros de meio ambiente e desenvolvimento, reitores universitários e CEOs”.

Um dos políticos brasileiros mais fortemente associado à LEAD/ABDL seria a futura Candidata Presidencial e activista ambiental, Marina Silva. Silva foi  Teóloga da Libertação Católica e líder de movimento social por quase duas décadas, convertendo-se à fé evangélica em meados da década de 1990. Embora amplamente saudada como  líder ambientalista pelos média anglófonos, o seu apoio público ao “capitalismo verde” foi rejeitado pelo movimento ecologista brasileiro, e escolhida como tema da Cúpula dos Povos, fórum internacional alternativo ao Rio + 20, realizado simultaneamente com ele no Rio de Janeiro em 2012.

“Uma ponte para o futuro”

A revista Americas Quarterly do AS/COA (Americas Society / Council of the Americas) e o seu círculo de comentadores promovidos, tem sido um actor importante na remodelação da narrativa mestra do Brasil como estado falido, na legitimação da destituição de Dilma Rousseff  e, em particular, na descrição do juiz Sergio Moro do Lava Jato, como “o cruzado anticorrupção”. 

Pouco depois da destituição ilegítima do predecessor de Dilma Rousseff, a 22 de Setembro de 2016, um documentado informante dos Estados Unidos, o novo presidente Michel Temer, que visitava os Estados Unidos para se encontrar com o vice-presidente Joe Biden e dirigir-se à ONU, falou também numa reunião especialmente organizada na sede da  AS/COA de Nova Iorque.

Nessa  reunião das elites dos Investidores, Negócios e Bancos, Temer revelou um “segredo aberto” – que o verdadeiro propósito da destituição de Rousseff era por ela não concordar na implementação do programa rígido de austeridade e privatização contido num documento político chamado “ponte para o futuro”.

O documento era estranho na medida em que parecia ter sido traduzido do inglês, como os utilizadores das redes sociais observaram na sua linguagem invulgar. O economista Marcio Pochmann observou semelhanças entre o “Ponte para o Futuro” e o “Plano de Acção Económica do Governo” (PAEG), seguido após o golpe de 1964. Uma dessas semelhanças, diz ele, é a forte influência internacional.

PAEG foi escrito em inglês, houve uma grande intervenção americana no país, de tal modo que os EUA apoiaram a ditadura e até enviaram um navio, no caso de ocorrer uma guerra civil. Os EUA têm inegáveis interesses no golpe de 2016, em relação a uma série de movimentos de desenvolvimento que o país faz desde 2003, e na procura de uma maior autonomia na política externa brasileira. A relação Sul-Sul e o fortalecimento dos BRICs (Bloco de Comércio formado pelo Brasil, Rússia, Índia e China) é diferente do que os EUA consideram ser o melhor para a América Latina “.

Um participante, perguntou a Michel Temer, ex-funcionário da Segurança Pública da era da ditadura, quais eram os  planos ele tinha, para lidar com a agitação social entre a população, em resposta às medidas extremas de austeridade. Isto também ecoou em 1964 no “Who Rules the World“, Chomsky observou que a política do governo Kennedy era transformar as Forças Armadas da América Latina em forças policiais glorificadas, destinadas a lidar com suas próprias populações “se elevassem a cabeça”, e não com ameaças externas.

Apesar da natureza chocante dos comentários de Temer, eles foram, na sua maioria, ignorados pelos jornalistas corporativos unidos, mas para aqueles que seguiram a reversão liderada pelos Estados Unidos contra líderes democraticamente eleitos de centro-esquerda e esquerda na América Latina, não foi coincidência que Temer tenha admitido isso numa reunião patrocinada e organizada pela AS/COA.

Americas Society/Council of the Americas (AS/COA) é efectivamente o equivalente latino-americano do Conselho Atlântico e o seu slogan é “Unir opiniões de líderes para trocar ideias e criar soluções para os desafios das Américas de hoje” e suas biografias on-line afirmam: “Americas Society (AS) é o principal fórum dedicado à educação, debate e diálogo nas Américas. Sua missão é promover o entendimento das questões políticas, sociais e económicas contemporâneas que a América Latina, Caraíbas e o Canadá enfrentam, e aumentar a consciencialização e apreciação do público sobre o diverso património cultural das Américas e a importância do intercâmbio interamericano.”,” o Conselho das Américas (COA) é a principal organização empresarial internacional cujos membros partilham um compromisso comum com o desenvolvimento económico e social, mercados abertos, o Estado de Direito e a democracia em todo o Hemisfério Ocidental. A composição do Conselho é constituída por importantes empresas internacionais que representam um amplo espectro de sectores, onde se incluem bancos e finanças, serviços de consultoria, produtos de consumo, energia e mineração, indústria, média, tecnologia e transporte “.

A organização está baseada na “crença fundamental de que os mercados livres e a iniciativa privada oferecem os meios mais eficazes para se alcançar o crescimento económico e a prosperidade regionais”. A associação cresceu para mais de 200 empresas blue chip (normalmente, representam as acções das empresas mais bem cotadas na bolsa de valores – Ndt) que representam a maioria do investimento privado dos EUA na América latina.

Conselho das Américas (COA) acolhe presidentes, ministros, bancos centrais, funcionários governamentais e importantes especialistas em economia, política, negócios e finanças, o que lhe dá um acesso único à informação da região. O Conselho argumenta que “os mercados livres e a iniciativa privada oferecem os meios mais eficazes para alcançar o crescimento económico regional”. Tem apoiado os acordos de livre comércio e tem sido fundamental na concepção do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA) e do Acordo de Livre Comércio da América Central (CAFTA) … e o ainda a ser implementado, Acordo da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), A longa ambição do próprio David Rockefeller. Entretanto, o focus da organização irmã, The Americas Society é, em contraste, “aumentar a consciencialização pública e a valorização do diverso património cultural das Américas e da importância da relação interamericana”.

Os membros corporativos da COA incluem: Bloomberg, Blackrock, Bank of America, Barings, Barrick Gold Corporation, Boeing, Bombardier, Banco Bradesco, Banco do Brasil, Banco Santander, Cisco, Citigroup, Coca Cola, ExxonMobility, Ford, General Electric, General Motors, Google, Itaú Unibanco, IBM, Johnson & Johnson, JP Morgan Chase, Lockheed Martin, McDonalds, Moody’s, Morgan Stanley, Microsoft, News Corp / Fox, Pearson, Pfizer, Philip Morris, Raytheon, Shell, Television Association Of Programmers Latin America, Time Warner / Turner, Toyota, Viacom, Wal-Mart. Uma das empresas sucessoras da Standard Oil, a Chevron Corporation está listada como “Membro Patrono Corporativo” do Conselho das Américas e tem um forte interesse em quem governa o Brasil. David Rockefeller permaneceu como Secretário Honorário do COA até o dia em que morreu, enquanto o actual Secretário é William R. Rhodes, anteriormente do Citibank/Citigroup.

Ao lado de outros grupo de reflexão de D.C. , como o velho Brookings, e o Council on Foreign Relations (CFR) financiado por Rockefeller/Ford, o Americas Society/Council of the Americas (AS/COA) é comum na sua função declarada, mas é um caso particularmente interessante – uma  interconexão entre o Estado e Poder Corporativo, Comunidades de Inteligência, bancos Multinacionais e Latino-Americanos, políticos neoliberais alinhados com Washington, instituições educacionais como a FGV, ONGs locais e internacionais, autores, jornalistas e meios de comunicação de língua inglesa na região, como a Reuters e a CNN.

David Rockefeller disse uma vez:

“O capitalismo americano trouxe mais benefícios para mais pessoas do que qualquer outro sistema em qualquer parte do mundo e em qualquer momento da história.”

O capitalismo pode ter morrido, mas os seus interesses empresariais imperialistas e o seu grupo de reflexão, apoiados por algumas das mais nefastas corporações do mundo em termos de direitos humanos e ambientais, continuarão, sem dúvida, a interferir e enfraquecer por muitos anos a democracia na América Latina.

A chegada ao Brasil

David Rockefeller e a ditadura militar Brasileira

Nota: links desta cor são da minha responsabilidade

 

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This entry was posted on 28 de Março de 2017 by in Brasil, Em nome dos Direitos Humanos, Rockefeller and tagged , .

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