A Arte da Omissao

Da Fundação Saint-Simon a Emmanuel Macron

tradução do artigo “De la Fondation Saint-Simon à Emmanuel Macron” de Thierry Meyssan

O súbito aparecimento  de um novo partido político, «En Marche!», no cenário eleitoral Francês, a candidatura do seu presidente, Emmanuel Macron, a Presidente da República não se deve ao acaso. Não é a primeira vez que aparecem partidários da aliança entre a classe dominante francesa e os EUA.

| Damasco (Síria) | 19 de Abril de 2017

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Henry Hermand, um dos principais criadores da Fundação Saint-Simon, apadrinhou a carreira de Emmanuel Macron. Foi também seu padrinho de casamento em 2007. Em 2012, fê-lo entrar no Eliseu e em 2016 fundou o seu partido político no Instituto Montaigne.
É impossível entender o súbito aparecimento na cena política partidária de Emmanuel Macron sem se conhecer as tentativas que a precederam, tais como as de Jacques Delors e Dominique Strauss-Kahn. Mas, para entender quem está por trás das cenas, é necessária regressar ao passado ..

1982,  a Fundação Saint-Simon

Em 1982, académicos e directores de grandes empresas francesas decidiram criar uma associação para promover “o encontro entre investigadores em ciências sociais e intervenientes da vida económica e social, [e] proporcionar ao público o conhecimento obtido pelas ciências sociais”. Foi a Fundação Saint-Simon. [1]

Durante quase vinte anos, este organismo impôs o ponto de vista de Washington na França, ao criar  o que os críticos chamaram de “o pensamento único”. Após os ataques de 1995 e do fracasso da reforma do sistema de pensões, em 1999 a Fundação decidiu dissolver-se.

A Fundação organizou 70 seminários anuais em que participavam quarenta pessoas por sessão. Ela publicou 110 notas mensais e cerca de quarenta livros. Finalmente e mais discretamente, organizava um jantar mensal onde reunia académicos, líderes empresariais cotadas no CAC40 (índice bolsista que reúne as 40 maiores empresas cotadas em França -Ndt) e proprietários de grandes meios de comunicação do país.

Durante esses jantares, não só os pontos de vista se aproximavam, como os proprietários dos média decidiam os temas que iriam abordar e como seriam tratados. Gradualmente, o pluralismo da imprensa foi desaparecendo perante o “dever de informar” e depois perante “o poder de formar” as mente.

A Fundação foi criada pelo historiador  François Furet, pelo sociólogo Pierre Rosanvallon,  pelo lobista Alain Minc, pelo industrial Roger Fauroux, pelo banqueiro Jean Peyrelevade, pelo editor Yves Sabouret  e pelo intelectual Jean-Claude Casanova. O seu financiamento foi desenhado por Henry Hermand, a eminência parda da esquerda não comunista. Estas personalidades eram então conhecidas pelas suas ligações ao poderoso grupelho norte-americano: os neoconservadores. Esses intelectuais trotskistas acabaram por se juntar ao presidente republicano Ronald Reagan.

Indo além dos conceitos da “direita” e “esquerda”, afirmavam lutar contra o estalinismo e queriam “democratizar” o mundo por todos os meios. Não esconderam a admiração pelo filósofo Leo Strauss, teórico da ditadura global iluminada.

Alguns deles, criaram a National Endowment for Democracy (NED) e a  United States Institute of Peace. Apesar das aparências, estas duas fundações foram concebidas como instrumentos ao serviço dos “Cinco Olhos”, isto é, do acordo entre os serviços secretos da Austrália, Canadá, Estados Unidos, nova Zelândia e Reino Unido.

Inicialmente, a Fundação Saint-Simon beneficiou das subvenções da fundação John M. Olin, que tinha convidado François Furet a leccionar em Chicago. Esta fundação norte-americana, situado bem à direita, já tinha financiado trotskistas e neoconservadores. Rapidamente, a Fundação Saint-Simon aderiu ao Hague Club (Clube de Haia), uma supra-estrutura da Fundação Rockefeller, responsável pelo financiamento de umas trinta associações europeias atlantistas com fundos da CIA e da NED.

Era então com o dinheiro dos serviços secretos norte-americanos que os  jantares mensais eram organizados, e onde se reuniam universitários de renome, patrões da CAC40, à volta dos directores do Études, Esprit, Europe 1, Expansion, LExpress, Figaro, Libération, Matin de Paris, Monde, M6, Nouvel Observateur, RTL e jornalistas da Antenne2TF1.

Na década de 90, quando o sociólogo britânico Anthony Giddens lançou a “Troisième voie” para adaptar a retórica socialista à economia de mercado, a Fundação Saint-Simon comemorou com entusiasmo este passe de mágica projectado por Bill Clinton e Tony Blair.

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Anne Sinclair, repórter estrela da TF1 e membro da Fundação Saint-Simon  com o seu amigo Jacques Delors candidato oficial da Fundação a presidência da República.

1993: a operação Jacques Delors & Martine Aubry

Em 1993, membros da Fundação Saint-Simon decidiram lançar o seu próprio candidato à presidência da República: o Presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors. Ao mesmo tempo, prepararam a ascensão da filha do seu candidato, a ministra do Trabalho Martine Aubry, destinada a tornar-se seu primeiro-ministro.

Jacques Delors, na altura socialista, tinha  começado a sua carreira política à direita, no gabinete de Jacques Chaban-Delmas. Martine Aubry, na altura também socialista, começou como responsável das relações públicas do grupo Pechiney, cujo director Jean Gandois se tornaria “no patrão dos patrões”.

Enquanto os órgãos noticiosos cujos directores eram membros da Fundação começavam a tecer elogios a Jacques Delors e a sua filha, o tesoureiro da Fundação, Alain Minc, criava nas instalações da Fundação duas organizações distintas:

- a Associação nacional de empresas para a inserção (ANEI), destinada a envolver grandes empresas na campanha eleitoral de Delors.

- A associação dos Amigos da  Fundação Agir contre l’exclusion (FACE) para financiar a subida de Aubry.

Depois do fracasso de François Bayrou no congresso social-democratas (CDS), Jacques Delors fica consciente da impossibilidade de criar uma nova maioria reunindo socialistas e centristas. Então, desistiu da corrida à eleição presidencial. A ANEI foi dissolvida e seus activos foram transferidos para a FACE.

O programa político da fundação Saint-Simon, de Delors e sua filha,  pretendia fazer da França o pilar da União Europeia e fazer da França o “hub” europeu, com o desenvolvimento dos transportes rodoviários transversais e basear a economia num aumento da força de trabalho. Era, portanto, necessário manter as mulheres no trabalho e aumentar a imigração. No período de transição, a fim de conter o desemprego, seria reduzido o tempo de trabalho.

Posteriormente, este programa foi parcialmente implementado com o governo de Jospin, embora na altura a conjugação internacional tivesse mudado.

De 1998 e 2000, a França adoptou as 35 horas, desta vez contra a opinião dos patrões que os apoiaram de 1993 a 1995 e a imigração laboral aumentou.  

O resultado foi oposto ao  imaginado em 1993: o desemprego cresceu inexoravelmente. A manutenção das mulheres que trabalhavam colocaram novos problemas em termos de creches, tempo de permanência das crianças na escola, e o nível dos alunos baixou. Neste contexto, a presença maciça de imigrantes desestabilizou todo o sistema social.

1995: a operação Juppé-Notat na reforma das pensões

O projecto de lei do primeiro-ministro Alain Juppé (direita) sobre a reforma das pensões foi apoiado pelo Esprit e pelo sindicato  CFDT (à esquerda); todos coordenados pela Fundação Saint-Simon. Foi durante esta campanha que o sociólogo Alain Touraine surgiu como porta-voz da fundação. No entanto, dadas as enormes greves em Dezembro de 1995, o projecto de lei foi retirado. Vítima do seu fracasso, a Fundação Saint-Simon começou a dissolver-se.

2000: O Instituto Montaigne

Em 2000, o grupo de seguros AXA criou um novo grupo de reflexão, o Instituto Montaigne. Este, publicou logo um trabalho colectivo de académicos e líderes empresariais, Le Courage de réformer (a coragem para reformar -Ndt)Depois, colocaram o jornalista Philippe Manner como director,  formado pela Fundação Rockefeller no Centro Bellagio, que abriga o The Hague Club.

Montaigne pugna por reformas sociais e económicas em todos os aspectos idênticas às que a Fundação Saint-Simon pretendia alcançar.

Em 2004, redigiu a Charte de la diversité en entreprise (Carta da Diversidade Corporativa -Ndt), imediatamente apoiada pela FACE e hoje adoptada por muitos grupos.

Em 2012, publicou um segundo livro colectivo, Réformer par temps de crise (reformar em tempos de crise -Ndt). Após a saída de Claude Bébéar da direcção da AXA, o seu sucessor como chefe da empresa, Henri de Castries, tornou-se presidente do Instituto.

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Novamente Anne Sinclair, mas desta vez com o seu esposo, Dominique Strauss-Kahn, candidato oficioso de Terra Nova à presidência da República.

2008: Terra Nova

Em 2008, Olivier Ferrand, colega de Dominique Strauss-Kahn, criou a associação Terra Nova, num local  emprestado por Henry Hermand. Este novo grupo de reflexão tem como objectivo trazer a modernidade norte-americana para a vida económica, social e política francesa. Ela funciona com base no modelo do Progressive Policy Institute (instituto da Política Progressista -Ndt), criado por Bill Clinton e pelo senador pró-Israel Joseph I. Lieberman.

Assim como a Fundação Saint-Simon tinha ligações ao Crédit Lyonnais, a Terra Nova tem relações estreitas com os bancos, principalmente com o Rothschild & Cie.

Em 2011, a Terra Nova organizou a primeira primária do partido socialista, com o apoio do National Endowment for Democracy, que enviou para Paris o seu especialista, Tom McMahon. A ideia era que os outros partidos além dos socialistas, adoptassem um único candidato, Dominique Strauss-Kahn, de forma a que ele passasse a 1ª volta da eleição presidencial e ganhá-la. O Director do Fundo Monetário Internacional, “DSK” traria os franceses para a globalização. Infelizmente, ele foi preso nos Estados Unidos pouco antes da primária, e foi substituído por Martine Aubry. A filha de Jacques Delors passou a primeira volta, mas foi eliminada na segunda por François Hollande.

Com a morte de Olivier Ferrand, François Chérèquesecretário-geral da Confédération française démocratique du travail (Confederação Francesa Democrática do Trabalho -Ndt)  sucedeu-o como presidente da Terra Nova.

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Melhor que Bill Clinton e Tony Blair : Emmanuel Macron, o genro ideal.

2016: a operação Emmanuel Macron

Este longo preâmbulo vai permitir entender o lançamento da operação Emmanuel Macron.

Depois de se formar na ENA, Emmanuel Macron começou em 2004 na empresa de Jean-Pierre Jouyet, ex-colega de Roger Fauroux (o presidente da Fundação Saint-Simon) e de Jacques Delors (candidato presidencial da Fundação). Posteriormente Jean-Pierre Jouyet veio a ser ministro de Nicolas Sarkozy (direita) e depois secretário-geral de  François Hollande (esquerda).

Depois Emmanuel Macron fez um pequeno desvio pela Rothschild & Cie. De seguida, entrou no Eliseu como assistente de Jean-Pierre Jouyet. Nesta função, ele substituiu um sócio-gerente da Rothschild & Cie, François Pérol.

Em 2006, Emmanuel Macron ingressou no Partido Socialista e na Fundação Jean-Jaurès, onde parte do seu financiamento é assegurado pelos neo conservadores e  trotskistas do National Endowment for Democracy (NED). Em 2007, juntou-se ao Les Gracques, um grupo de ex-patrões e altos funcionários, onde Jean-Pierre Jouyet é o dinamizador. Esta associação está a tentar organizar uma aliança entre o Partido Socialista e os centristas.

Em 2012, Emmanuel Macron torna-se líder júnior da  French-American Foundation [2], cujos administradores são Philippe Way (director do Instituto Montaigne) e Alain Minc (tesoureiro da Fundação Saint-Simon).

Em 2014 deixa o Eliseu e com a recomendação de Alain MincEmmanuel Macron torna-se Research Fellow na London School of Economics. Em Maio e Junho de 2014, é convidado para a reunião anual do Grupo Bilderberg (mais um polvo em acção -Ndt). A agenda incluía tanto a questão do intercâmbio interestadual de inteligência como a arquitectura mo Médio Oriente após primaveras árabes. O Grupo Bilderberg foi criado à margem da NATO que lhe assegura segurança directamente, independentemente do país onde se reúnam. Seu actual presidente é o francês Henri de Castries, CEO da AXA e Presidente do Instituto Montaigne.

Em 2016, nas instalações do Instituto Montaigne, Emmanuel Macron criou seu próprio partido, En Marche !, com a ajuda de Henry Hermand (um dos principais patrocinadores da Fundação Saint-Simon e da associação Terra Nova) [3]. Depois de ser explicado em grande parte através da televisão, o homem morreu em Novembro de 2016 aos 92 anos. A originalidade do partido En Marche !, é que durante os seus primeiros oito meses, não teve nenhum programa, nenhuma proposta, tinha apenas um candidato presidencial. Isso não o impedirá de vir a ser acompanhado por todos os tipos de políticos que não precisaram que lhes fosse explicado o que eles já sabiam: o programa de Macron é o de Delors e de Strauss-Kahn.

Se a candidatura de Jacques Delors pretendia fazer da França o pilar da União Europeia, a de Emmanuel Macron como a de Dominique Strauss-Kahn pretende fazer entrar os eleitores (não ousamos dizer os “franceses”) na globalização. O apoio dos média é muito mais fácil do que há duas décadas atrás, porque eles concentraram-se e porque os seis proprietários dos grandes meios de comunicação são a favor da globalização.

Macron ao ser candidato presidencial, Aubry renuncia desta vez a apresentar-se à primária Socialista. Em Fevereiro de 2017, François Bayrou, que não conseguiu levar os social-democratas a apoiar Jacques Delors, hoje suporta Emmanuel Macron.

É assim que se faz novo com o velho. A cada ano os franceses celebram a festa do “Beaujolais Nouveau” e, de seguida, voltam para os seus negócios. Pois, ao contrário da “França Eterna” de Gaulle, este vinho barato não se conserva.

Thierry Meyssan
Durante dez anos, o autor participou em numerosos seminários da Fundação Saint-Simon.
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