A Arte da Omissao

a “raiva” revolucionária na Síria, que afinal não existiu – parte 2

É importante relembrar a História para se entender  melhor a actualidade

Tradução do artigo de Stephen Gowans

The Revolutionary Distemper in Syria That Wasn’t

Nota do tradutor: links indicados dentro de « » e  realces desta cor, são da minha responsabilidade


parte 1

parte 2

cont..

22 de Outubro de 2016

Apenas três meses antes do surto de violência de 2011 na Síria, o erudito Liad Porat escreveu para o Crown Center for Middle East Studies, com sede na Universidade Brandeis. “Os líderes do movimento”, concluiu o estudioso, “continuam a manifestar a sua esperança na revolta civil na Síria, onde “o povo sírio cumprirá o seu dever e libertará a Síria do regime opressivo e corrupto”. A Irmandade Muçulmana salientou que estava envolvida numa luta até à morte com o governo nacionalista árabe secular de Bashar al-Assad.
Uma acomodação política com o governo era impossível porque os seus líderes não faziam parte da nação síria muçulmana sunita. A participação na nação síria era limitada aos verdadeiros muçulmanos, alegou a Irmandade Muçulmana, e não aos hereges alauitas que abraçaram tais credos não-islâmicos estrangeiros, como o «nacionalismo árabe» secular. [28] «28»
 
Em 2012, a Agência de Inteligência de Defesa dos EUA confirmou que a Irmandade Muçulmana Síria teve um papel chave na revolta que surgiu três meses depois. Um relatório vazado da agência refere que a insurreição era sectária e liderada pela Irmandade Muçulmana e  Al-Qaeda do Iraque, a precursora do Estado Islâmico. O relatório continua a referir que os insurrectos foram apoiados pelo Ocidente, pelas monarquias petrolíferas árabes e pela Turquia. A análise previu correctamente o estabelecimento de um “principado salafista”, um estado islâmico, no leste da Síria, observando que tal era desejado pelos apoiantes estrangeiros da insurreição, que queriam ver os nacionalistas árabes seculares isolados e isolados do Irão. [29] «29»
Documentos preparados em 2005 por investigadores do Congresso dos EUA, revelaram que o governo dos EUA vinham já a ponderar a mudança de regime na Síria, muito antes das revoltas da Primavera árabe de 2011, desafiando assim a visão de que o apoio dos EUA aos rebeldes sírios se baseava na lealdade a uma ” insurreição democrática”, e  demonstrando que era simplesmente uma extensão da política de longa data, de procurar derrubar o governo em Damasco.
De facto, os investigadores reconheceram que a motivação do governo dos EUA para derrubar o governo nacionalista árabe secular de Damasco, não estava relacionada com a promoção da democracia no Oriente Médio. Na verdade, eles observaram que a preferência de Washington era para ditaduras seculares (Egipto) e monarquias (Jordânia e Arábia Saudita).
O ímpeto para a mudança de regime em Damasco, de acordo com os investigadores, era o desejo de varrer um impedimento, de forma a poderem ser realizados os objectivos dos EUA no Oriente Médio, relacionados com o fortalecimento de Israel, à consolidação da dominação dos EUA no Iraque,  à promoção do mercado aberto,  à economia de mercado.  A democracia nunca foi uma consideração. [30] «30»
Se Assad estava a promover políticas neoliberais na Síria, como argumenta Draitser, é difícil entender porque é que Washington citou a recusa da Síria em abraçar a agenda americana dos mercados abertos e da livre iniciativa, como a razão para mudar o governo sírio.
Para ressaltar o facto de que os protestos careciam de amplo apoio popular, no dia 22 de Abril de 2011, mais de um mês após o distúrbio de Daraa, Anthony Shadid do New York Times, reportou que “os protestos, até agora, pareciam estar aquém da turbulência popular das Revoluções no Egipto e Tunísia”.
Por outras palavras, mais de um mês depois de apenas centenas – e não milhares ou dezenas de milhares – de manifestantes revoltados em Daraa, não havia sinal na Síria de uma turbulência popular da Primavera Árabe.
A insurreição continuou a ser  um caso limitado, proeminentemente islâmico. Em contraste, ocorreram grandes manifestações em Damasco em apoio – não contra – o governo,  Assad permaneceu popular e, de acordo com Shadid, o governo comandou a lealdade das “seitas muçulmanas cristãs e heterodoxas”. [31] «31»
Shadid não foi o único jornalista ocidental que relatou que os alauitas, ismaelitas, drusos e cristãos apoiavam fortemente o governo.
Rania Abouzeid do Times, observou também que os Baathistas “poderiam reivindicar o apoio dos grupos minoritários substanciais da Síria”. [32] «32»
A realidade de que o governo sírio comandava a lealdade das seitas muçulmanas cristãs e heterodoxas, como relata Shadid do New York Times, sugeria que as minorias religiosas da Síria reconheciam algo acerca da insurreição,  – que a imprensa ocidental subestimava (e os socialistas revolucionários nos Estados Unidos deixaram escapar) – que  ela tinha sido impulsionada por uma agenda sectária islâmica, a qual se concretizada, teria consequências desagradáveis para qualquer um que não fosse considerado um “verdadeiro” muçulmano.
Por esta razão, os «alauitas», «ismaelitas», «drusos» e cristãos alinharam-se com os Baathistas, que procuravam unir divisões sectárias, como parte do seu compromisso programático de promover a unidade árabe. O slogan “Alawis para o túmulo e cristãos para Beirute!”, entoado durante as manifestações naqueles primeiros dias [33] «33», só confirma o ponto de que a insurreição era a continuação da disputa de morte do Islamismo político sunita, o qual tinha prometido combater o governo nacionalista Árabe Secular, e não uma agitação em massa por democracia ou contra o neoliberalismo.
Se de facto fosse alguma dessas duas coisas, como explicaríamos que a sede por democracia e a oposição ao neoliberalismo estavam presentes só na comunidade sunita e ausentes nessas minorias religiosas? Certamente, um défice democrático e tirania neoliberal,  se estivessem presentes e agissem como gatilhos de um surto revolucionário, teriam cruzado as linhas religiosas.

Pelo facto dos alauitas, ismaelitas, drusos e cristãos não o terem demonstrado, e as revoltas serem baseadas em sunitas com conteúdo islamista, aponta fortemente que a insurreição, desde o início, representa o recrudescimento da longa campanha jihadista sunita contra o secularismo Baathista.

“Desde o início, o governo de Assad disse estar envolvido numa luta com militantes islâmicos.” [34] «34»

A longa história das insurreições islâmicas contra o Baathismo antes de 2011, certamente sugeriria estar-se perante mais uma, e a forma como a  insurreição se desdobrou posteriormente, num guerra liderada pelo Islão contra o Estado secular, só reforçou essa visão.

Outras evidências, tanto positivas como negativas, corroboraram a argumentação de Assad, de que o Estado sírio estava a ser atacado por jihadistas (como já tinha ocorrido muitas outras vezes no passado). A evidência negativa de que a insurreição não era um turbilhão popular contra um governo  impopular, estava inerente nas notícias  dos media ocidentais, que mostraram que o governo nacionalista árabe da Síria era popular e tinha a lealdade da população.

Por outro lado, as manifestações anti-governo, as revoltas e os protestos eram de pequena escala, atraindo muito menos pessoas do que a manifestação em massa em Damasco em apoio ao governo, e certamente nada similar aos  tumultos populares no Egipto e Tunísia. Além disso, as exigências dos manifestantes centraram-se na libertação de prisioneiros políticos (principalmente jihadistas), no levantamento das restrições do tempo de guerra, sobre a expressão da dissidência política, e não pedem que Assad renuncie ou mude as políticas económicas do governo.

As evidências positivas vieram das notícias dos media ocidentais que mostraram que o Islão desempenhou um papel proeminente nos tumultos. Além disso, enquanto era amplamente acreditado que os grupos armados islâmicos só entraram na briga, após os protestos iniciais da primavera de 2011 – e, ao o fazer, “sequestraram” uma “insurreição popular” – dois grupos jihadistas que desempenharam um papel proeminente no após revolta armada de 2011 contra o nacionalismo árabe secular, Ahrar-al-Sham e Jabhat al-Nusra, estavam já activos no início de 2011.

De acordo com o Time, Ahrar al-Sham “começou a trabalhar na formação de brigadas … bem antes de meados de Março de 2011, quando o” distúrbio de Daraa ocorreu. [35] «35»  Jabhat al-Nusra, milícia afiliada da Al-Qaeda na Síria, “era desconhecida até finais de Janeiro de 2012, quando anunciou sua formação … [mas] já estava activa meses antes “. [36] «36»

Outra evidência que é coerente com a visão de que o Islão militante desempenhou muito cedo um papel nas revoltas  – ou, pelo menos, que os protestos foram violentos desde o início – é que “havia sinais desde o início, do envolvimentos de grupos armados.”

O jornalista e autor Robert Fisk, lembrou-se de ter visto uma fita “dos primeiros dias da ‘insurreição’, que mostra homens com pistolas e Kalashnikov numa demonstração em Daraa“. Lembra-se de outro evento, em Maio de 2011, quando “uma equipe da Al Jazeera filmou homens armados a atirarem contra tropas sírias a algumas centenas de metros da fronteira norte com o Líbano, mas o canal recusou-se a transmitir a filmagem “. [37] «37»

Mesmo as autoridades norte-americanas, que eram hostis ao governo sírio e que se esperava que desafiassem a visão de Damasco de estar envolvida numa luta com rebeldes armados, “reconheceram que as manifestações não eram pacíficas e que alguns manifestantes estavam armados”. [38] «38»

Em Setembro de 2011, autoridades sírias informaram que perderam mais de 500 policiais e soldados, mortos por guerrilheiros. [39] «39»

No final de Outubro de 2011, o número tinha mais que dobrado. [40] «40»

Em menos de um ano, a revolta que queimava edifícios do Partido Baath e de autoridades do governo, dos confrontos com a polícia, passou para uma guerra de guerrilha, que envolveu métodos que seriam rotulados de “terrorismo”, se fossem empreendidos contra alvos ocidentais.

Assad mais tarde queixaria-se de que:

“Tudo o que dissemos na Síria no início da crise, eles disseram mais tarde. Eles disseram que é pacífico, nós dissemos que não é pacífico, eles estão a matar – esses manifestantes, que eles chamaram de manifestantes pacíficos – mataram policiais. Então tornaram-se militantes. Eles disseram que sim, são militantes. Nós dissemos que são militantes, é terrorismo. Eles disseram que não, não é terrorismo. Então quando dizem que é terrorismo, nós dizemos que é Al Qaeda, eles dizem que não, não é Al Qaeda. Assim, o que quer que nós dissemos, eles disseram mais tarde.” [41] «41»

A “revolta síria”, escreveu Patrick Seale, especialista sobre Médio Oriente, “deve ser vista como o mais recente episódio, embora de longe o mais violento, da longa guerra entre islâmicos e baathistas, que remonta à fundação do partido Secular Ba’ath na década de 1940. A luta entre eles é agora  uma disputa de morte. ” [42] «42»

“É impressionante”, continuou Seale, citando Aron Lun que escreveu um relatório para o Instituto Sueco de Assuntos Internacionais sobre o Jihadismo Sírio, “que praticamente todos os membros dos vários grupos insurrectos são árabes sunitas; que a luta tem sido restrita em grande parte apenas às áreas árabes sunitas, enquanto que as áreas habitadas por alauitas,  druzos e cristãos permaneceram passivas ou favoráveis ao regime; que os desertores do regime são quase 100 por cento sunitas; que o dinheiro, armas e voluntários vêm de estados islâmicos ou de organizações e indivíduos pró-islâmicos; e que religião é o denominador comum mais importante do movimento insurrecto” [43] «43»


28 Liad Porat, “The Syrian Muslim Brotherhood and the Asad Regime,” Crown Center for Middle East Studies, Brandeis University, Dezembro 2010, No. 47
29 http://www.judicialwatch.org/wp-content/uploads/2015/05/Pg.-291-Pgs.-287-293-JW-v-DOD-and-State-14-812-DOD-Release-2015-04-10-final-version11.pdf
30 Alfred B. Prados and Jeremy M. Sharp, “Syria: Political Conditions and Relations with the United States After the Iraq War,” Congressional Research Service, 28 de Fevereiro de 2005.
31 Anthony Shadid, “Security forces kill dozens in uprisings around Syria”, The New York Times, 22 de Abril  2011
32 Rania Abouzeid, “Syria’s Friday of dignity becomes a day of death,” Time, 25 de Março 2011
33 Fabrice Balanche, “The Alawi Community and the Syria Crisis Middle East Institute, 14 de Maio  2015
34 Anthony Shadid, “Syria broadens deadly crackdown on protesters”, The New York Times, May 8, 2011
35 Rania Abouzeid, “Meet the Islamist militants fighting alongside Syria’s rebels,” Time, 26 de Julho de 2012
36 Rania Abouzeid, “Interview with official of Jabhat al-Nusra, Syria’s Islamist militia group,” Time, 25 de Dezembro de  2015
37 Robert Fisk, “Syrian civil war: West failed to factor in Bashar al-Assad’s Iranian backers as the conflict developed,” The Independent, 13 Março de 2016
38 Anthony Shadid, “Syria broadens deadly crackdown on protesters”, The New York Times, May 8, 2011
39 Nada Bakri, “Syria allows Red Cross officials to visit prison”, The New York Times, 5 de Setembro de  2011
40 Nada Bakri, “Syrian opposition calls for protection from crackdown”, The New York Times, 25 de Outubro de  2011
41 President al-Assad to Portuguese State TV: International system failed to accomplish its duty… Western officials have no desire to combat terrorism, SANA,  5 de Março de 2015
42 Patrick Seale, “Syria’s long war,” Middle East Online, September 26, 2012

parte 1

parte 2

cont..

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Faça perguntas aos membros do Parlamento Europeu sobre o acordo de comércio livre, planeado entre a UE e o Canadá (CETA). Vamos remover o secretismo em relação ao CETA e trazer a discussão para a esfera pública!

%d bloggers like this: