A Arte da Omissao

ACORDEM

Um vento secular sopra no mundo muçulmano

Nota do tradutor: links indicados dentro de « » e  realces desta cor, são da minha responsabilidade

Un vent de laïcité souffle sur le monde musulman,  de  Thierry Meyssan

O discurso de Donald Trump em Riade suscitou uma onda de tomada de posições contra o terrorismo e contra o Islão político. O mundo árabe manifesta a sua sede de secularismo quando este último é distorcido na Europa e utilizado contra as religiões. Confrontado com este sopro de liberdade, os britânicos organizam o acampamento do Islão político em torno de Catar, Irão, Turquia e da Irmandade Muçulmana.

| Damasco (Síria) | 13 de Junho de 2017

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Sayyid Qutb (1906-66),o pensador do Islão político

Pouco conhecido no mundo ocidental, Sayyid Qutb (1906-1966) é o pensador de referência do “Islão político”, ou seja, da vontade de organizar a sociedade e a vida privada dos indivíduos independentemente das suas religiões,  de acordo com a interpretação do Islão. Em 1953,  integrou a Irmandade Muçulmana. Ele purgou a ideologia dos elementos nacionalistas de Hassan al-Banna (militante islâmico egípcio, que com 22 anos fundou a Irmandade Muçulmana – Ndt) para estabelecer uma doutrina insensível. Em 64 anos, muitos muçulmanos espalhados pelo mundo abandonaram a espiritualidade dessa religião e adoptaram a única doutrina exclusivamente política de Sayyid Qutb. Os seus pensamentos estruturam todos os grupos jihadistas.

Durante a colonização e a Guerra Fria, as potências imperialistas usaram a religião para abafar qualquer desafio aos seus domínios. Por exemplo, a França, que em 1905 aprovou uma lei importante sobre a laicidade das suas instituições, decidiu imediatamente não a aplicar nos territórios colonizados.

Sabemos agora que a Primavera Árabe foi uma iniciativa britânica para colocar a Irmandade Muçulmana no poder e, assim, fortalecer a dominação anglo-saxónica do “Grande Médio Oriente”.

Ao longo de 16 anos, os Ocidentais têm acusado os muçulmanos de não limparem as suas casas e de tolerarem terroristas. No entanto, hoje é evidente, que estes terroristas são suportados por esses mesmos ocidentais, para escravizarem os muçulmanos através do «Islão político».

Londres, Washington e Paris só se preocupam com o terrorismo quando este vai para além do «Grande Médio Oriente» e  nunca criticam o «Islão político», pelo menos no que toca aos sunitas.

O presidente Trump, ao proferir o seu discurso em Riade no dia 21 de Maio 2017, pretende acabar com o terrorismo que consome a região e que agora está a espalhar-se para o Ocidente. As palavras que ele pronunciou tiveram o efeito de um choque eléctrico. O seu discurso foi interpretado como uma autorização para acabar com esse sistema.

O que parecia impensável durante os últimos séculos, cristalizou-se de repente. A Arábia Saudita ao concordar com o cessar de todos os contactos com a Irmandade Muçulmana, insurgiu-se contra os que continuam a colaborar com os britânicos, em especialmente contra o Catar.

Riade (Capital da Arábia Saudita – Ndt) deu o sinal de um frenesim que traz consigo muita frustração. Num espírito beduíno de vingança, as relações diplomáticas foram interrompidas, e foi organizado um bloqueio económico  contra a população do Catar; enquanto nos Emirados Árabes Unidos  foi criada uma pena de prisão até  15 anos  para quem manifeste simplesmente compaixão pelos habitantes do povo injuriado do Catar.

«The UAE Attorney General Hamad Saif al-Shamsi announced that any objections to the UAE’s strict measures against the government of Qatar or expression of sympathy with Qatar would be a crime punishable by a prison sentence of 3-15 years and a fine of no less than $136,000 (500,000AED), whether on a social media platform or via any written or spoken medium

Começou um gigantesco movimento de forças e de alianças. Se este movimento  continuar, a região será organizada em torno de uma nova clivagem. A questão da luta contra o imperialismo vai dar lugar à  luta contra o clericalismo (influência ou poder do clero na vida social, política, económica, etc – NdT)

Os Europeus viveram essa divisão durante quatrocentos anos, a partir do século XVI ao século XIX, mas não os Norte Americanos, porque o país foi fundado pela seita dos «Puritanos» que fugiram a esta clivagem. A luta contra o cristianismo político foi o primeiro combate contra a pretensão do clero da Igreja Católica governar seus fieis mesmo nos seus quartos de dormir. Ela só terminou com Paulo VI, Papa que abandonou a tiara papal. Esta coroa tríplice simbolizava que o Papa estava acima dos reis e imperadores.

O Islão original e o sunismo actual  não têm sacerdotes, tal como o Cristianismo original não os tinha (eles só apareceram no terceiro século).  Apenas o xiismo é estruturado como o catolicismo e ortodoxia.

Na verdade, o Islão político de hoje é encarnado pela Irmandade Muçulmana e pela governação do Xeque Rohani (o título de Xeque indica que o presidente Rohani é membro do clero xiita).

Actualmente e com a ajuda da Inglaterra, está em vias de ser formada uma aliança clerical. Ela poderá constituir  um bloco com o Irão, o Catar, a Turquia, Idlib no Noroeste da Síria e  Gaza. Este conjunto poderá tornar-se no protector da Irmandade Muçulmana e, por conseguinte, o defensor da utilização do terrorismo.

Em duas semanas, a imprensa árabe, que até agora considerava favoravelmente a Irmandade Muçulmana como uma poderosa sociedade secreta e o jihadismo como um compromisso legítimo, muda de opinião. Em todos os lugares, publicam-se denúncias da pretensão da Irmandade Muçulmana de regular a vida das pessoas e a cruel insensibilidade do jihadismo.

Esta inundação de comentários, os séculos de frustração que expressam,  a sua violência,  torna impossível qualquer retorno; isto não significa que a aliança Irão-Turquia-Catar-Hamas chegue ao fim do caminho. Esta onda revolucionária ocorre no mês de Ramadão. As reuniões entre amigos e familiares que deveriam ser celebrações consensuais, transformam-se por vezes,  em contestação do que anteriormente pareciam ser as bases do Islão.

No caso da clivagem a favor ou contra o clericalismo prosseguir, iremos assistir a uma recomposição geral da paisagem política. Como exemplo, como os «Guardas da Revolução», que se formaram para lutar contra o imperialismo anglo-saxónico, acumularam ressentimento contra o clero iraniano.

Muitos se lembram que durante a guerra que sofreram imposta pelo Iraque, os «mulás» e «aiatolás» engendravam formas de esconderem os seus filhos, enquanto os Guardas morriam no campo de batalha. Mas enfraquecidos durante o primeiro mandato de Rohani, é pouco provável que se atrevam a levantar-se contra o poder civil-religioso.

Pelo contrário,  o Hezbollah libanês é liderado por Sayyed Hassan Nasrallah (aqui o título de Sayyed indica que ele é um descendente directo do profeta Maomé), uma personalidade que promove a separação entre a esfera pública e a esfera privada. Apesar de ter uma função religiosa e outra política, sempre se opôs a confundir as duas, aceitando o princípio platónico de Velayat-e Faqih (isto é – governo por um homem sábio). Portanto, é improvável que o Hezbollah siga o governo Rohani.

Enquanto isso, agita-se toda a região:

Na Líbia, a Irmandade Muçulmana deixou Tripoli mas deixou uma milícia  para libertar Saif al-Islam Kadhafi e o General Haftar para expandir a sua influência.

No Egipto, o Presidente al-Sisi encomendou aos seus homólogos do Golfo uma lista de terroristas.

Na Palestina, a direcção política do Hamas refugiou-se no Irão.

Na Síria, os jihadistas pararam de combater contra a República e aguardam ordens.

No Iraque, o exército está a intensificar esforços contra a Irmandade Muçulmana e a Ordem dos Naqchbandis.

Na Arábia Saudita, a Liga Mundial Muçulmana excluiu do seu conselho de administração a estrela pregadora dos Irmãos e que tanto elogiou a Primavera Árabe, o Xeque Qaradawi.

A Turquia e Paquistão começaram a transferência de dezenas de milhares de soldados para o Catar; que só se alimenta com a ajuda do Irão.

Uma nova era parece estar a elevar-se sobre a região.

 

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This entry was posted on 26 de Junho de 2017 by in Igrejas e sociedades secretas and tagged .

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