A Arte da Omissao

Islão e clericalismo no Oriente Médio

Nota do tradutor: links indicados dentro de « » e  realces desta cor, são da minha responsabilidade

Tradução do artigo “Islam et cléricalisme au Moyen-Orient élargi” de Thierry Meyssan

É de bom tom no Ocidente, dissertar sobre “a compatibilidade do Islão com a democracia” ou sobre o “Islão e o secularismo“. Estas questões sugerem que por natureza o Islão é clerical, e logo não uma religião, mas uma corrente política. Assim, a maioria dos “radicais” muçulmanos são terroristas e vice-versa. Mas desde o mês passado, o Médio Oriente Alargado, com uma população de maioria muçulmana, está em vias de se dividir entre os seguidores dessa religião e os apoiantes da política que os manipula.

| Damasco (Síria) | 30 de Junho de 2017

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Um político pode ser ateu, agnóstico ou crente. O fato de pretender servir a Deus não faz do seu partido político uma  Igreja.

Alguns dos nossos leitores entenderam mal uma crónica anterior sobre a evolução do mundo muçulmano. Vou aclarar as questões relacionadas com o Islão antes de descrever tão precisamente quanto possível a sua situação actual.

Em primeiro lugar, se tem uma ideia clara sobre o Islão, é porque só conhece uma das suas formas,  já que ele difere amplamente de Marrocos ao Xinjiang. Tanto no plano litúrgico ou jurídico, há pouca semelhança entre o Islão de Sharjah (Cidade dos Emirados Árabes Unidos – Ndt) e o de Java.

O Islão pode ser abordado a partir de uma leitura literária do Alcorão ou a partir da sua  leitura contextualizada ou ainda a partir de uma crítica da autenticidade do texto corânico actual.

Durante os primeiros quatro séculos do Islão, todos os muçulmanos concordaram com a necessidade de interpretar o Alcorão, o que se reflectiu no desenvolvimento de quatro sistemas legais separados (Hanafi, Maliki, Hanbali e Shafiite), de acordo com as culturas locais.

Mas no final do século X, o califa sunita ao observar a expansão desta religião e temendo que ela acabasse por se dividir, não quis continuar com a interpretação. Apenas os xiitas continuaram. Desde então, o Islão adapta-se como pode às exigências do seu tempo.

Contrariamente às aparências, se recusarmos interpretar o texto, não poderemos entendê-lo como foi escrito pela primeira vez, mas apenas através da sua própria cultura.

Sabendo que Maomé viveu na Arábia, os Sauditas consideram como certo que compreendam espontaneamente o significado do Alcorão como se a sua sociedade e a sua linguagem não tenham evoluído ao longo de 1400 anos. Para eles, como no século XVIII para Mohammed ben Abdel Wahhab, Maomé reforçou os valores do tribalismo nómada. São  estes os “wahabitas”.

Por exemplo, pelo facto do Corão condenar ídolos, os wahabitas destruíram as estátuas de deuses antigos, acção que Maomé nunca fez, mas que se encaixa na sua cultura beduína. No século VIII, os cristãos bizantinos enfrentaram igualmente os «iconoclastas» sauditas que destruíram em nome de Cristo as decorações das igrejas.

O tribalismo nómada não reconhece a noção de história. Os wahabitas destruíram a casa do Profeta em Meca porque ela se tinha tornado num local de peregrinação, portanto, num local de idolatria. Mas não pararam por aí. Nestes últimos anos destruíram Meca, cidade magnifica e antiga, porque culturalmente não concedem qualquer interesse às suas relíquias.

Se alguém se refere à leitura literal, é um “fundamentalista”. Geralmente, significa viver como os companheiros do profeta. É então um “salafista” porque tenta abordar o “Salaf”. Neste caso é-se, então, um «salafista», porque se tenta viver como os  piedosos ancestrais, (os «salafs»). Este movimento nasceu no Egipto no século XIX, foi formado como resposta ao «wahabismo» e foi extremamente liberal. No entanto, tornou-se muito repressivo. Por exemplo, a maioria dos salafistas actuais proíbe o consumo de álcool, mas alguns Xeques afirmam o contrário, que é lícito beber com moderação. Todos encontram os seus argumentos na Alcorão, o qual tem três passagens aparentemente contraditórias sobre este assunto.

Todas as religiões são confrontadas com a impossibilidade de reproduzir um passado que ninguém pode reconstruir. Por exemplo, no século XX, o movimento carismático entre os cristãos levou-os a entendimentos opostos sobre a sexualidade, caso se tenham baseado directamente nos Evangelhos ou na moralidade das epístolas de Paulo.

Por alguns anos, sob a influência do trabalho realizado pelos exegetas europeus (europeus que se dedicaram à  interpretação gramatical, histórica, jurídica, etc., dos textos e particularmente da Bíblia – Ndt), alguns autores questionam a autenticidade do texto corânico.

Em primeiro lugar, a fim de estabelecer a sua autoridade, o califa de Damasco reuniu numa colecção os textos atribuídos a Maomé, a partir dos quais se formou o Alcorão, queimando depois todas as outras antologias. No entanto, a palavra “Maomé” não designa uma pessoa específica, é um título dado aos sábios. Portanto, é possível que o Alcorão reproduza as palavras de muitos profetas, facto que parece corroborado pela presença de diferentes estilos literários. Os arqueólogos descobriram textos corânicos (respeitantes ao Alcorão ou à sua doutrina – Ndt) anteriores à versão canónica. Existem diferenças, por vezes importantes, entre esses textos escritos em alfabetos diferentes.

Além disso, o Alcorão canônico foi escrito com um alfabeto simplificado que só foi concluído no século VIII. Esta transcrição é em si uma interpretação e é possível que às vezes esteja errada. Claramente, alguns capítulos do Alcorão reproduzem textos mais antigos usados pelos cristãos da região. Eles não foram compostos em árabe, mas em aramaico e algumas palavras originais foram mantidas no texto final. A sua leitura contemporânea está sujeita a muitos mal-entendidos. Assim – sem ofensa para os suicidas do Daesh que esperam a sua recompensa no paraíso – a palavra “houri” significa “uva branca” e não “virgem com olhos grandes.”

Até agora, as coisas são muito simples: o Islão é a religião do Corão.

No entanto a tradiçãoquase igual importância à lenda dourada do profeta, os «Hádices». Tratam-se de obras escritas, por vezes centenas de anos mais tarde, por pessoas que não poderiam ter testemunhado os factos que relatam. Elas ilustram opiniões muito diversas e opostas.  Algumas são de um nível intelectual impressionante e podem ser usadas para justificar qualquer coisa. O crédito concedido indevidamente a estes escritos fantasiosos e profundamente distorcidos deformam a transmissão da mensagem do Alcorão.

Na prática, essas discussões mascaram uma, essencial: se a religião é o que tenta ligar o homem a Deus, ela é necessariamente o lugar de todas as fraudes. Como se pode pretender conhecer a Deus se ele é de uma natureza radicalmente diferente e superior à nossa? E, supondo que Ele tem falado através dos profetas, como podemos pretender entender o que ele diria? Note-se que, nesta perspectiva, a questão da existência de Deus, – isto é, de uma consciência mais elevada que a nossa  –  não faz sentido. Pensamento apoiado entre os cristãos por São Gregório Nazianzeno e São Francisco de Assis.

Também nesta perspectiva, os homens que procuram chegar mais perto de Deus, – isto é, que não procuram aplicar a Sua Lei, mas fazer com que a natureza humana evolua de forma a que se torne mais consciente – tendem a partilhar as suas experiências e, portanto, a formar igrejas. Para funcionarem, elas tendem a formar sacerdotes e imãs. No cristianismo esta função só apareceu a partir do terceiro século, ou seja várias gerações depois da morte de Jesus. Em todas as religiões, esses clérigos acabaram por desfrutar de um status intermediário entre as comunidades e  Deus.  No entanto, nenhum dos fundadores das grandes religiões criou uma Igreja ou clero.

Assim como a Europa experimentou um tremendo passo para trás com as grandes invasões que destruíram o Império Romano (os hunos e godos), do mesmo modo o mundo muçulmano experimentou um retrocesso com as invasões mongóis (Gengis Khan e Tamerlane).

Se este trauma durou apenas três séculos na Europa, ele foi artificialmente prolongado no mundo árabe pelas colonizações otomana e europeia. Embora nada disso tenha a ver com a história do cristianismo, nem com a do Islão, alguns clérigos reivindicam que esses retrocessos são a consequência do pecado, que se teria generalizado. Para retornar à idade de ouro, basta seguir os  ensinamentos e não reconstruir.

Inexoravelmente, os clérigos envolvem-se em política e procuram impor a sua visão em nome de Deus. Segue-se a rivalidade entre eles e os leigos. Assim, na França, ultrapassado o trauma das grandes invasões, apesar do “direito divino”,  a realeza laica entrou em conflito com o papado clerical.

No mundo árabe, que é uma minoria no mundo muçulmano, este conflito surgiu com a descolonização e os movimentos de independência.

Os líderes nacionalistas (Nasser (ex-Presidente do Egipto – Ndt) e Ben Barka) entraram em confronto com Irmandade Muçulmana. Durante a Guerra Fria, o primeiro foi apoiado pelos soviéticos e o último pela NATO.

A dissolução da União Soviética enfraqueceu o campo nacionalista e resultou numa onda islâmica. Mais, a “primavera árabe” foi uma operação da NATO para eliminar permanentemente os nacionalistas em favor da Irmandade Muçulmana. As multidões que apoiaram esses movimentos não procuravam estabelecer democracias. Em vez disso, estavam convencidos de que colocando a Irmandade Muçulmana no poder, iriam criar a sociedade ideal e uma nova Idade de Ouro islâmica. Depois, desencantaram-se.

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O partido político da Irmandade Muçulmana foi reconstituído em 1951, pelos serviços secretos britânicos, sobre as ruínas da organização homónima de Hassan al-Banna. É a matriz do terrorismo no mundo muçulmano, que formou todos os líderes de organizações terroristas, de Osama bin Laden a Abu Bakr al-Baghdadi. Este partido político e suas organizações armadas trabalham com as potências imperialistas. Não há nada de religioso nisto.

É importante compreender que a Irmandade Muçulmana e as suas organizações jihadistas, Al Qaeda e Daesh não são muçulmanos radicalizados, como o Ocidente pretende passar a ideia. Tratam-se de movimentos políticos e não religiosos. O facto de citarem constantemente passagens do Corão não os torna religiosos. São apenas clericais.

A reviravolta contra a “Primavera Árabe” começou no Egipto em Junho de 2013, quando 33 milhões de pessoas marcharam durante cinco dias contra a ditadura do Irmão da Irmandade «Mohamed Morsi» em favor da restauração da ordem constitucional pelos militares. Todos os partidos políticos e organizações religiosas – sem excepção – uniram-se em torno do exército contra a Irmandade Muçulmana, ou seja a favor do secularismo (sistema que defende a separação entre a igreja ou a religião e o Estado ou a política – Ndt)  e contra o clericalismo (influência ou poder do clero na vida social, política, económica, etc – Ndt). Nos meses que se seguiram, o chefe do exército, o general egípcio Abdel Fattah al-Sisi, que aspirava a ser eleito presidente, transmitiu à Arábia Saudita documentos apreendidos na sede da Irmandade Muçulmana. Eles atestavam que membros da Irmandade Muçulmana estavam a preparar-se no Catar para derrubar os sauditas. A resposta de Riade não demorou a chegar: a prisão de alguns membros da Irmandade na Arábia, atentados no Catar e o apoio incondicional à eleição do General Abdel Fattah al-Sisi.

No entanto, a situação dos Sauditas ficou ainda mais complicada porque:
-  a Irmandade não foi implicada na trama;
-  desde 1961, os Sauditas são patrocinadores da Irmandade através da OGN Liga Muçulmana Mundial;
-  o seu regime estava baseado no wahabismo, por isso clerical como a Irmandade Muçulmana.

Os Saudi deram carta branca a Nayef para suprimir o golpe e restaurar a ordem. Agiram como em 1990, durante a revolta de sourouristes. Na época, um líder da Irmandade Muçulmana, Mohammed Sourour, conseguiu convencer os wahabitas sauditas para tomarem o poder. Foram necessários cinco anos para derrotar a rebelião. [1]

Foi este passado que ressurgiu quando, em Maio de 2017, Presidente Donald Trump entrou em Riade e convocou as potências muçulmanas a acabarem com a Irmandade Muçulmana. Desta vez os Saudi decidiram reagir ao quebrar não só com a Irmandade, mas também com o abandono do Islão político. Que fique claro: o facto de tomarem partido do secularismo não afecta o facto de serem fundamentalistas, salafistas. A monarquia do rei Salman da Arábia Saudita está na mesma posição que a monarquia francesa de Filipe, o Belo. Para acompanhar esta mudança decisiva, o conselho da família dos Saudi concordou por 31 votos contra 4 em preparar a abdicação do rei Salman, em acabar com a regra adélfica da sucessão, passando duas gerações e designar o príncipe Mohammed ben Salmane como o próximo rei.

Enquanto isso, o Catar e a Irmandade Muçulmana aproximaram-se de imediato da Turquia e Paquistão. Acima de tudo, eles fizeram uma aliança com o Irão, que combate a Guarda Revolucionária nos campos de batalha da Síria e Iémen, mas cujo governo do Xeque Rohani partilha a sua concepção clerical do Islão. 

Esta inversão do Irão destaca o contraste entre o seu poder político e o seu poder militar. Ela é baseada no pacto entre Hassan al-Banna, o fundador da primeira Irmandade Muçulmana, e o jovem aiatola Khomeiny. Um pacto segundo o qual,  a Irmandade Muçulmana não lançaria a guerra religiosa entre sunitas e xiitas, compromisso que foi quebrado com o Daesh. Mais importante ainda, o pacto baseava-se nas ambiguidades da Revolução de 1979, ao mesmo tempo no movimento laico anti-imperialista e na busca da identidade clerical, e na evolução da função do Guia Ali Khamenei, tanto líder da Revolução mundial como político local encarregue dos equilíbrios entre facções.

Dados as treze requisitos transmitidos pela Arábia Saudita e Egipto ao Catar, é pouco provável que o conflito entre seculares e clericais se resolva rapidamente. A questão coloca-se em saber se os poderes do Ocidente vão ntender o que está a ser jogado no “Grande Oriente Médio”. Eles que mostraram o presidente Ahmadinejad como um clerical,  que apresentaram o Irmão  Morsi como não tendo manipulado a sua eleição e que foi deposto com um golpe de Estado; os que afirmam que a Líbia e a Síria não foram atacadas de fora, mas que foi o palco de uma revolução democrática. À força da mentira, perdemos o contacto com a realidade.

[1] Foi neste contexto que o chefe dos serviços secretos,  o príncipe Turk levou a cabo a operação de exfiltração do seu agente Oussama Ben Laden  para o Sudão.

 

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This entry was posted on 10 de Julho de 2017 by in Controlo do Grande Médio Oriente and tagged .

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