A Arte da Omissao

Ganhos de guerra: armas búlgaras inflamam conflitos do Oriente Médio

Tradução do artigo “War Gains: Bulgarian Arms Add Fuel to Middle East Conflicts” de Mariya Petkova

Links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

21 de Dezembro de 2015

Mariya Petkova é uma jornalista búlgara que cobre histórias na Europa Oriental, nos Balcãs e no Oriente Médio. Este artigo foi produzido como parte do programa  Balkan Fellowship for Journalistic Excellence, apoiado pelas ERSTE Foundation and Open Society Foundations, em cooperação com o Balkan Investigative Reporting Network.

Segundo revela uma investigação do Balkan Investigative Reporting Network (BIRN), a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e os EUA compraram armamento búlgaro no valor de milhões de dólares, sendo a maioria provavelmente destinada à guerra na Síria.

  4 de Novembro de 2014. Um cargueiro Boeing 747  da Arábia Saudita no aeroporto de Sófia (Capital da Bulgária – Ndt)  Foto: Stephan Gagov

Em Outubro do ano passado (2014 – Ndt), observadores aéreos notaram com alguma excitação que aviões Boeing Jumbo 747 da Arábia Saudita começaram a aterrar no aeroporto da capital búlgara, Sófia.

Um avião de carga saudita nunca apareceu aqui … nos últimos 20 anos”, explicou Stephan Gagov, um observador veterano búlgaro de aviões.

Os voos tornaram-se tão frequentes que Stephan Gagov iniciou um tópico sobre eles num fórum on-line sobre aviões, onde usou como título a frase “a rota regular”. Observadores búlgaros de aviões tinham já reportado  duas aterragens no final de Outubro, uma vez em Novembro, quatro vezes em Dezembro e uma vez em Março e Maio deste ano. (2015-Ndt)

O avião gigante vindo de Jeddah (cidade na Arábia Saudita – Ndt) foi carregado e voou até à  cidade saudita de Tabuk, que está a cerca de 100 km da fronteira com a Jordânia, observaram os observadores, ao usaram ferramentas de rastreio on-line de voos.

Stephan Gagov calculou que os aviões de cada vez, carregavam entre 60 e 80 toneladas de carga em caixas. Ele não podia ver o que estava dentro das caixas, mas podia dizer que eram pesadas.

Depois que os voos sauditas pararam, começaram a chegar aviões de carga vindos  de Abu Dhabi (capital dos Emirados Árabes Unidos – Ndt).  Airbus A330F e Boeing 777F  da Etihad Cargo aterraram em Sófia cinco vezes, entre o final de Junho e meados de Agosto deste ano. Ainda mais recentemente, a 19 de Outubro, um Airbus 330F da Etihad Cargo voou de Abu Dhabi para a cidade búlgara de Burgas e depois para a base aérea Al Dhafra, uma instalação militar no sul da capital dos Emirados.

As autoridades sauditas, dos Emirados Árabes Unidos e da Bulgária não divulgaram o conteúdo desses carregamentos. Mas a Balkan Investigative Reporting Network (BIRN) pode revelar que a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos compraram nos últimos dois anos grandes quantidades de armas e munições à Bulgária, quase certamente para serem usadas pelas forças locais que apoiam na guerra da Síria, e possivelmente também no conflito no Iémen.

Ainda é mais rentável do que o tráfico de drogas

Negociante de armas búlgaro

Um relatório anual da Bulgária sobre as exportações da indústria da defesa, publicado em Agosto deste ano, mas que não recebeu nenhuma cobertura dos media, indica que em 2014,  o governo aprovou mais de 85 milhões de dólares em vendas de munições e equipamentos militares para a Arábia Saudita, com negócios no valor de quase € 29 milhões concluídos até o final do ano.

O governo búlgaro também disse à BIRN, que este ano, emitiu licenças para a venda de armas para os Emirados Árabes Unidos.

A Bulgária faz e armazena principalmente armas do estilo soviético. Os analistas dizem que é altamente improvável que a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos as comprem para as suas próprias forças militares, uma vez que usam armas modernas do Ocidente e, deste modo, é muito mais plausível que tenham comprado as munições para as facções locais que apoiam na Síria e no Iémen, onde as armas do estilo soviético são amplamente utilizadas.

Um ex-oficial militar búlgaro, bem conectado, disse à BIRN que as compras sauditas transportadas nos cargueiros vistos pelos observadores de aviões, eram destinadas aos combatentes da oposição síria, e que embarques posteriores podem ter sido usados para o Iémen.

Um cargueiro Boeing 777 da Etihad Cargo levanta voo do aeroporto de Sófia a 30 de Junho de 2015. Fotografia de Stephan Gagov

No ano passado (2014 – Ndt), os Estados Unidos também compraram armas à Bulgária, como parte de um programa para treinar e equipar forças de oposição sírias,  no valor de US $ 500 milhões.

Combatentes da oposição e analistas independentes também disseram à BIRN que as armas búlgaras estão a ser usadas na Síria, onde, desde que a guerra estourou em 2011, mais de 250 mil pessoas foram mortas e mais de 11 milhões foram forçadas a abandonar as suas casas.

A Bulgária – um país de apenas sete milhões – construiu uma enorme indústria de armas, onde emprega 10 mil pessoas e gera até US $ 1,5 bilião (1,3 biliões de euros) em moeda forte por ano. O regime adquiriu a tecnologia soviética para fazer armas pequenas e munições. Acumulou vastas reservas para suportar os seus 100.000 soldados e a possibilidade de uma mobilização geral.

Durante o seu mandato de 45 anos, o partido comunista da Bulgária também desenvolveu fortes ligações comerciais com o Oriente Médio e África, as quais foram mantidas por muitos comerciantes, incluindo os do sector do tráfico de armas.

Negócio lucrativo

Olhando através dos seus grandes óculos, Nikolay Nikolov menciona casualmente que se sentou na mesma mesa com Carlos o Chacal, o notório militante marxista que nos anos 70 e 80 actuava no Oriente Médio e na Europa.  Nikolov, um pseudónimo para proteger a sua identidade, esteve no negócio de armas durante mais de 25 anos.

“Ganha todo o mundo”, disse ele, incluindo funcionários do governo e corretores. “As comissões valem por vezes o valor do negócio de armas. Se algo custar 10 milhões, o preço final é de 35 milhões”. Sentado num pequeno café no centro de Sófia, onde gosta de estar a fazer negócios, Nikolov fuma e relembra. Questionado sobre as vendas de armas para o Oriente Médio, ele conta uma história sobre arrastar malas cheias de dinheiro através do um deserto árabe.

Após o colapso do comunismo em 1989, a produção de armas na Bulgária caiu substancialmente. O valor oficial das exportações de defesa caiu para € 111 milhões em 2006. Mas as vendas começaram a aumentar e, até 2014, atingiram os 403 milhões de euros, segundo dados do governo.

 

Exportações búlgaras da indústria de defesa de 2006 a 2014, em milhões de euros. Fonte: Relatórios do Ministério da Economia da Bulgária.

Nikolov diz que a Bulgária vendeu muitas armas de reservas antigas.

“O pico das exportações de armas foi durante as guerras na Jugoslávia. Muitas armas foram exportadas para a Sérvia e Albânia”, diz ele. “Naquela época, tínhamos biliões em reservas, agora temos apenas algumas centenas de milhões”. Embora a produção e as vendas sejam apenas uma fracção dos níveis anteriores a 1989, o negócio de armas na Bulgária continua a ser altamente lucrativo. “Ainda é mais rentável que o tráfico de drogas”, diz Nikolov.

Interesse do Golfo

Nos últimos anos, a Arábia Saudita não foi um dos principais clientes das empresas de armas búlgaras. Mas tal  mudou em 2014.

O relatório do governo búlgaro refere que no ano passado (2014 -Ndt), emitiu licenças para vendas de munições e equipamentos militares no valor de 85,5 milhões de euros à Arábia Saudita  – incluindo munições no valor de 65,4 milhões de euros, armas de grande calibre no valor de 12,5 milhões de euros e armas de pequeno calibre no valor de 5 milhões de euros. No final de 2014, as empresas búlgaras do sector completaram contractos de  exportações para as monarquias do Golfo (Bahrein, Iraque, Kuwait, Oman, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos – Ndt) no valor de € 28,9 milhões.

O Ministério da Economia da Bulgária, que supervisiona o comércio de armas, disse a BIRN  que os negócios incluíam armas pequenas, bem como armas leves e pesadas.

Um relatório da ONU listou 827 metralhadoras leves e 120 pistolas anti-tanque SPG-9 como parte das exportações de armas da Bulgária para a Arábia Saudita em 2014.

Ben Moores, analista sénior da IHS Janes, disse que tais armas provavelmente iriam para a Síria ou Iémen. O exército saudita está armado com metralhadoras ligeiras e não usa SPG-9, disse ele.

“é muito pouco provável que este tipo de arma seja usado pelos militares sauditas, mas é muito usada no Iémen, Iraque e Síria”, disse ele.

O ex-oficial militar búlgaro, que falou sob condição de anonimato, disse a BIRN que os voos entre Sófia e a Arábia Saudita eram para transportar armas búlgaras para grupos de oposição sírios. Segundo ele, depois dos aviões aterrarem em Tabuk, as armas eram carregadas em camiões e transportadas para um centro de distribuição na Jordânia, para as forças de oposição sírias.

 A Arábia Saudita é um dos principais defensores dos combatentes que se opõem ao presidente sírio, Bashar al-Assad. Riade financiou uma grande compra de armas de infantaria da Croácia para as forças de oposição sírias, segundo reportou  o New York Times em 2013, citando funcionários americanos e ocidentais “familiarizados com essas compras”.

Numa entrevista da BBC no final de Outubro de 2015, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir, reconheceu abertamente que Riade forneceu armas aos combatentes da oposição síria. “Nós temos que contribuir para mudar o equilíbrio do poder no terreno“, disse ele.

O ex-oficial militar da Bulgária disse que algumas das armas enviadas para a Arábia Saudita “também podem ter sido usadas no Iémen, já que os voos posteriores coincidiram com o início da operação saudita nesse país”. A Arábia Saudita iniciou a acção militar no Iémen no final de Março em apoio às forças leais ao exilado presidente Abd-Rabbu Mansour Hadi.

Ao contrário da Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos já tinham uma história recente sobre compras de armas da Bulgária. Um telegrama diplomático da embaixada dos EUA em Sófia, publicado pelo WikiLeaks, mostra que em 2010, os Emirados Árabes Unidos financiaram um negócio de compra de dezenas de milhares de espingardas de  assalto, 100.000 cargas de grande explosão, granadas lançadas por foguete e munições, para o então governo do Iémen.

O telegrama também refere que a Bulgária consulta a embaixada dos EUA sobre os potencialmente controversos negócios de armas. Contactada pela BIRN, a embaixada recusou-se a dizer se estava ciente que outros países compram armas búlgaras para serem usadas na Síria.

Exportações da industria de defesa búlgara para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, em milhões de euros. Fonte: relatórios do Ministério da Economia da Bulgária

Este ano (2015 – Ndt), o governo búlgaro emitiu licenças para a exportação de munições, armas de fogo e equipamentos de defesa para os Emirados Árabes Unidos, disse o Ministério da Economia à BIRN. Ele declinou indicar o valor desses negócios.

Pieter Wezeman, investigador do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), disse que “não faz sentido” que os Emirados Árabes Unidos comprem armas e munições da Bulgária para as suas próprias forças. Ele suspeitava que essas munições seriam desviadas para a Síria ou para o Iémen. Ben Moores (analista sénior da empresa de consultoria de defesa IHS Janes – Ndt) expressou uma conclusão semelhante.

É muito mais provável que [as armas que os Emirados Árabes Unidos compraram] fossem reencaminhadas para um terceiro”, disse ele.

Tanto a Arábia Saudita como os Emirados Árabes Unidos fazem parte de uma coligação que no Iémen tem realizado ataques aéreos, implantado forças terrestres e fornecido armas a combatentes locais, com o objectivo de combater as forças xiitas conhecidas como Houthis. Riade também esteve envolvida no fornecimento de armas ao Iémen mesmo antes das suas próprias forças intervirem lá, disse Pieter Wezeman.

As embaixadas da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos na Bulgária não responderam às perguntas do BIRN. O Ministério da Economia da Bulgária disse que não emitiria licenças para acordos de armas quando surgissem preocupações sobre o possível desvio ou reexportação das armas.

Acidente americano

A 6 de Junho deste ano (2015-Ndt), uma explosão fatal num campo de testes de armas na Bulgária rural forçou os Estados Unidos a admitir que tinham comprado armas na Bulgária como parte de um esforço de apoio aos combatentes da oposição síria.

«Um contratado dos EUA e veterano da marinha de 41 anos », Francis Norwillo», morreu quando uma granada explodiu quando a estava a carregar num lançador RPG-7. Dois outros cidadãos dos EUA e dois búlgaros sofreram ferimentos. Os americanos estavam a trabalhar para uma empresa norte-americana chamada Purple Shovel, contratada pelos militares dos EUA para ajudar a treinar e a equipar combatentes  da oposição na Síria, afirmou a embaixada dos EUA numa declaração concisa.

“Os três contratados estavam a conduzir treino de familiarização para outros funcionários da empresa no momento do incidente”, disse a embaixada, recusando-se a fazer outros comentários.

Uma base de dados de compras do governo dos EUA mostra que o Comando de Operações Especiais (SOCOM), encarregado pelo esforço militar dos EUA na ajuda aos combatentes da oposição síria, adjudicou em Dezembro de 2014 à Purple Shovel um contracto no valor de mais de US $ 26,7 milhões (24,6 milhões de euros), para fornecer armas estrangeiras e munições. O país de origem está listado como sendo a Bulgária.

O contracto foi alterado duas vezes e atingiu o valor total de US $ 28,3 milhões, de acordo com a mesma base de dados.

Questionado sobre o acordo, Kenneth McGraw, porta-voz da SOCOM, respondeu via correio electrónico:

As armas que foram compradas neste contracto incluíam lançadores de mísseis anti-tanque AT-5,  pistolas anti-tanque  SPG-9 e lançadores de granadas impulsionadas por foguetes  RPG-7″. Mas disse também que a arma envolvida na explosão em Anevo não fazia parte dele. Apesar do incidente fatal, McGraw disse que o contracto não foi cancelado.

Todas as armas na Síria são modelos russos,”

 –Comandante da oposição síria

De acordo com as autoridades búlgaras que estão a investigar o incidente, a granada foi feita em 1984. Um relatório da Buzzfeed News citou um especialista em armas sem o identificar, que terá dito que uma granada daquela idade teria “ido além da sua vida útil”.  Mas dois antigos oficiais militares búlgaros disseram ao BIRN que a munição tem uma longa vida útil de décadas, se armazenada correctamente e uma granada feita em 1984 não seria muito antiga para ser usada com segurança.

Alexander Dimitrov, o proprietário de Alguns, empresa privada que contratou o campo de testes no dia da explosão, recusou-se a comentar.

Purple Shovel, empresa com sede em Sterling, Virgínia, também se recusou a comentar o incidente e o contracto com o SOCOM.

O banco de dados de compras dos EUA mostra ainda que o SOCOM adjudicou também um contracto no valor de mais de US $ 32.000 (€ 28.200) para outra empresa dos EUA, a UDC USA, para fornecer munições da Bulgária. Ele  foi assinado na mesma data do contracto com a Purple Shovel e exibe o mesmo “solicitation ID“, código usado numa convocação escrita de lances de forma a cumprir um contracto.

Matthew Herring, « presidente da companhia UDC USA » contactado por telefone e questionado se o contracto se destinava  armar combatentes sírios, disse à BIRN: “Não, não, não fazemos parte disso e certamente não temos liberdade para falar sobre o assunto “

O esforço militar dos EUA para treinar e equipar forças de combate ao ISIS na Síria foi fortemente criticado por membros do Congresso dos EUA, por este ser ineficaz. A 9 de Outubro deste ano (2015 – Ndt), o governo de Obama anunciou que estava a abandonar o esquema. Mas o programa secreto da CIA para armar os sírios que lutam contra as forças de Assad permanece.

A ligação turca

Numa manhã quente no final de Julho (2015 – Ndt), uma dúzia de comandantes da oposição síria conversavam no café de um hotel boutique perto da Praça Taksim, no centro de Istambul, depois de terem participado em reuniões de coordenação. Eles estavam a preparar-se para ir para o sul da Turquia e voltar  para a linha da frente no norte da Síria.

Três homens, comandantes de unidades nas províncias de Idlib e Aleppo, concordaram em conversar com o BIRN. Um deles explicou que as armas são fornecidas às forças da oposição síria através de duas “salas de operações militares” – uma na Turquia e outra na Jordânia. Todos os três disseram ter recebido armas da sala de operações na Turquia – referindo-se a ela com a abreviatura MOM – incluindo rifles AK-47, lançadores de granada lançadas por foguete RPG-7 e pistolas anti-tanque SPG-9.

Um deles foi questionado  se tinham recebido armas búlgaras: “Todas as armas na Síria são modelos russos. Tanto o regime quanto a revolução [a oposição] usam-nas. Elas podem vir de países como a Bulgária, Ucrânia, República checa, mas não sabemos exactamente onde são produzidas “. Disse ainda que as armas búlgaras às vezes carregam o número 10 dentro de dois círculos. Um comandante enviou uma mensagem via WhatsApp no seu telemóvel para um combatente da sua unidade na Síria, o qual lhe enviou três fotos de armas. Duas deles tinham o símbolo de identificação referido.

Metralhadora feita na Bulgária (esquerda) e um lançador RPG-7 (à direita) usadas na província de Aleppo Ocidental na Síria, de acordo com o comandante da oposição síria que forneceu as fotos.

Um especialista em munições, que recusou ser identificado, identificou mais tarde essas duas armas como um lançador de granadas propulsor de foguetes e uma metralhadora PK. O comandante disse ainda  que elas foram usadas no campo de Alepo ocidental.

O BIRN não conseguiu verificar onde as fotos foram tiradas, mas N.R. Jenzen-Jones, director da Armament Research Services, empresa de consultoria britânica, disse que haviam “quantidades notáveis de armas e munições produzidas na Bulgária documentadas na Síria”.

A maioria das armas datadas das décadas de 1970 e 1980 incluíam armas ligeiras e de pequeno calibre, como armas anti-tanque, munições e artilharia, e projécteis para armas sem recuo e  morteiros, referiu ele por correio electrónico.

A Bulgária forneceu os exércitos sírios e iraquianos ao longo de muitos anos, então algumas armas podem ter vindo das reservas existentes nesses países. Mas Jenzen-Jones disse que sua organização recebeu “numerosas alegações de que o material búlgaro excedente foi fornecido às facções rebeldes sírias”.

 “Não conseguimos verificar de forma independente essas alegações”, acrescentou.

Tal como a Arábia Saudita e os Estados Unidos, a Turquia tem estado fortemente envolvida no fornecimento de apoio aos grupos de oposição na Síria. Nihat Ozcan, oficial militar já aposentado e analista da Economic Policy Research Foundation da Turquia, disse que as nações que apoiam a oposição síria também usaram a Turquia como ponto de trânsito para levar as armas até à Síria.

 Eles recolhem este tipo de armas e equipamentos soviéticos antigos dos países do antigo bloco do leste, como a Bulgária, a Roménia ou a Ásia Central. Trazem-nas para a Turquia e passam-nas para a Síria sob o controlo dos Estados Unidos, Turquia e da aliança “, disse Ozcan.

Um trabalhador auxiliar sírio com conhecimento dos grupos moderados contra Assad das províncias de Idlib e Aleppo, disse que as armas compradas por nações estrangeiras foram transferidas para as forças da oposição através das salas de operações militares.

As armas eram entregues na fronteira turco-síria, onde combatentes sírios as pegavam, disse ele numa entrevista na cidade turca de Gaziantep, perto da fronteira.

As salas de operações militares na Turquia e Jordânia são apoiadas por um grupo de países ocidentais e árabes, onde se incluem os Estados Unidos, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, bem como as nações anfitriãs, de acordo com várias fontes da oposição síria.

Assim como essas transferências de armas são sancionadas pelos governos nacionais, existem algumas evidências de também estão a ser contrabandeadas munições para a Síria em negócios particulares.

Outro homem do grupo do hotel de Istambul, que se identificou como membro de um conselho militar de oposição na província de Homs, disse à BIRN que em Agosto de 2012, viu um carregamento de armas búlgaras a chegar por camião a Homs. O homem, que pediu para ser identificado apenas como Abu Fatima, disse ainda que um empresário sírio supostamente pagou US $ 1,6 milhão (1,4 milhões de euros) por armas, incluindo rifles AK-47, lançadores de granadas e munições. Disse também que o negócio foi organizado por comerciantes búlgaros e sírios.

Numa entrevista separada, um ex-combatente da oposição síria disse que em 2013 começou a estar envolvido nas transferências de armas búlgaras. Das 12 em que se envolveu, a maior valeu US $ 7 milhões (6,4 milhões de euros).

O combatente, que pediu para não ser nomeado, disse que os carregamentos eram entregues por dois camiões na fronteira turco-síria,  e que foram organizados por cidadãos sírios e turcos com ligações aos traficantes de armas búlgaros.

Enquadramento jurídico

Não houve proibição da ONU ao fornecimento de arma à Síria e a maioria dos elementos de um embargo da UE foi levantada em 2013. Na guerra do Iémen, a ONU impôs uma  proibição apenas ao fornecimento de armas às forças Houthi.

No entanto, como signatário do Tratado sobre o Comércio de Armas (ATT) que entrou em vigor em Dezembro de 2014, a Bulgária também tem a responsabilidade de impedir que armas sejam desviadas para países ou grupos que não sejam os destinatários especificados.

A legalidade de quaisquer negócios que fizeram com que as armas búlgaras chegassem à Síria pode depender dos termos precisos desses contractos.

Nas negociações de armas, o Estado importador tem de fornecer um Certificado de Utilizador Final, que pode incluir uma cláusula que especifique que as armas não poderão ser transferidas para terceiros. Mas mesmo que tal cláusula exista, um Estado importador que a desconsidere,  enfrentar pouca ou nenhuma punição.

Segundo uma mensagem de correio electrónico de Sarah Parker, investigadora sénior da Small Arms Survey, centro de pesquisa sediado em Genebra, “O Estado exportador tem uma acção limitada (para além de não exportar novamente armas para esse país / entidade).”

“Ele tem a obrigação sob o Tratado sobre o Comércio de Armas (ATT) de abordar e evitar o desvio. Se ele vê que um destinatário é um risco de desvio, deve também partilhar essa informação com outros exportadores”, acrescentou ela.

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