A Arte da Omissao

Síria: Operação « Timber Sycamore »

Tradução do artigo “C.I.A. Arms for Syrian Rebels Supplied Black Market, Officials Say

de  MARK MAZZETTI

O jornalista Mark Mazzetti reportou de Amã e Washington, e Ali Younes, de Amã, Washington e Doha, no Catar.

26 de Junho de 2016

links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

 

funeral em Rimoun, na Jordânia, de  Anwar Abu Zaid, capitão da polícia que foi morto depois de ter atacado um centro de treino policial em Novembro. Autoridades americanas e jordanas  disseram acreditar que as armas que ele usou eram destinadas a um programa de treino a rebeldes sírios. Nasser / Associated Press

AMMAN, Jordânia – De acordo com autoridades americanas e jordanas, armas enviadas para a Jordânia pela CIA e Arábia Saudita destinadas aos rebeldes sírios foram sistematicamente roubadas por agentes da inteligência jordana e vendidas a traficantes de armas no mercado negro.

Algumas das armas roubadas foram usadas num tiroteio em Novembro de 2015, que matou dois americanos e outros três na instalação de treino policial em Amã, é  o que acreditam autoridades do F.B.I., após meses de investigação  do ataque e  de acordo com pessoas familiarizadas com a investigação.

A existência do roubo de armas, que só terminou alguns meses após as queixas dos governos americano e saudita, está a ser reportada pela primeira vez, após uma investigação conjunta do The New York Times e da Al Jazeera. O roubo, que envolve milhões de dólares de armas, destaca as consequências desordenadas e imprevistas dos programas para armar e treinar rebeldes – o tipo de programa que a C.I.A. e o Pentágono realizam há décadas – mesmo depois da administração Obama esperar manter o programa de treino na Jordânia sob estrito controlo.

Segundo autoridades jordanas, oficiais jordanos que faziam parte do esquema colheram uma inesperada poupança com a venda de armas, usando o dinheiro para comprar SUVs,  iPhones e outros utensílios de luxo.

O roubo e a revenda das armas – incluindo rifles de assalto Kalashnikov, morteiros e granadas projectadas  por foguetes – levaram a uma inundação de novas armas disponíveis no mercado negro de armas. Os investigadores não sabem no que se tornaram a maioria delas, mas uma colecção de diferentes grupos, incluindo redes criminosas e tribos rurais da Jordânia, usam os mercados de armas para construir os seus arsenais. Os contrabandistas de armas também compram armas nos mercados negros de armas para serem depois enviadas para fora do país.

A investigação do F.B.I. sobre o tiroteio de Amã ainda continua. Mas autoridades americanas e jordanas disseram que os investigadores acreditaram que as armas que Anwar Abu Zaid, capitão da polícia jordana, usou para atingir  dois empreiteiros americanos, dois jordanos e um sul-africano,  chegaram originalmente à Jordânia para um programa de treino aos rebeldes da Síria. Os mesmos disseram também, que essa descoberta surgiu com o rastreamento dos números de série das armas.

Mohammad H. al-Momani, ministro do Estado da Jordânia para assuntos dos media, disse que as acusações de que agentes da inteligência jordanos haviam participado nos roubos de armas eram “absolutamente incorrectas”.

“As armas das nossas instituições de segurança são rastreadas de forma concreta, com a mais alta disciplina”, afirmou. Ele referiu-se ao poderoso serviço de inteligência jordano, conhecido como General Intelligence Directorate ou G.I.D., como “uma instituição de classe mundial e respeitável, conhecida pela sua conduta profissional e alto grau de cooperação entre as agências de segurança“.

Na Jordânia, o chefe do G.I.D. é considerado o segundo homem mais importante, depois do rei.

Representantes do C.I.A. e F.B.I. recusaram-se a comentar.

O Departamento de Estado dos Estados Unidos não abordou as alegações directamente, mas um porta-voz disse que a relação da América com a Jordânia permaneceu sólida …

“Os Estados Unidos valorizam profundamente a longa história de cooperação e amizade com a Jordânia”, disse John Kirby, o porta-voz. “Estamos comprometidos com a segurança da Jordânia e nos associamos estreitamente com ela para enfrentar os desafios comuns de segurança.”

O programa de treino, que em 2013 começou a armar directamente os rebeldes sírios sob o nome de código Timber Sycamore, dirigido pela C.I.A. e por vários serviços de inteligência árabes, visou construir forças de oposição ao presidente Bashar al-Assad da Síria. Os Estados Unidos e a Arábia Saudita são os maiores contribuintes, com os sauditas a contribuir com armas e grandes somas de dinheiro, e com a C.I.A. Agentes paramilitares assumem a liderança do treino dos rebeldes no uso das Kalashnikovs, morteiros, mísseis antitanque e outras armas.

A existência do programa está classifica, bem como todos os detalhes sobre o seu orçamento. Autoridades americanas dizem que a C.I.A. treinou milhares de rebeldes nos últimos três anos e que os combatentes fizeram avanços substanciais no campo de batalha contra as forças do governo sírio, até que as forças militares russas – lançadas no ano passado em apoio ao Sr. Assad – os obrigaram a recuar.

Vice-presidente Joseph R. Biden Jr., em Março, num centro de treino militar jordano-americano em Zarqa, na Jordânia. Jordan Pix / Getty Images

O programa de treino está sediado na Jordânia devido à proximidade do país com os campos de batalha sírios. Desde o início, a C.I.A. e as agências de inteligência árabes, confiaram nos serviços de segurança jordanos para transportar as armas, muitas compradas a granel nos Balcãs e em outros lugares da Europa Oriental.

O programa é separado de um outro que o Pentágono configurou para treinar rebeldes no combate ao Estado islâmico, em vez de militares sírios e, que foi encerrado depois que ter conseguido treinar apenas um punhado de rebeldes sírios.

Autoridades jordanos e americanas descreveram o roubo das armas e a subsequente investigação  sob a condição de anonimato, porque o treino rebelde sírio é secreto nos Estados Unidos e é um segredo do governo na Jordânia.

Há vários meses que a notícia do roubo de armas e a eventual repressão circula dentro do governo da Jordânia. Husam Abdallat, assessor de vários Primeiro Ministros da Jordânia, disse ter ouvido falar sobre o esquema a actuais autoridades da Jordânia. O G.I.D. (General Intelligence Directorate – Ndt) tem alguns oficiais corruptos nas suas fileiras, disse o Sr. Abdallat, mas acrescentou que a instituição como um todo não é corrupta. “A maioria dos seus funcionários são judeus patriotas e orgulhosos que são a primeira linha de defesa do país”, afirmou Husam.

Autoridades jordanas que descreveram a operação disseram que ela tinha sido executada por um grupo de funcionários da logística da G.I.D. com acesso directo às armas, uma vez chegadas à Jordânia. Regularmente desviavam cargas das armas das suas reservas e as entregavam nos pontos de entrega indicados. Estas eram depois vendidas em diversos  e grandes mercados de armas na Jordânia. Os principais mercados das armas na Jordânia localizam-se em Ma’an, na parte sul do país; em Sahab, fora de Amã; e no vale do Jordão.

Não é claro se o actual chefe do G.I.D., o General Faisal al-Shoubaki, teve conhecimento do roubo das armas da   e da Arábia Saudita. Mas várias autoridades de inteligência jordanas disseram que oficiais superiores no serviço tinham conhecimento do esquema de armas e forneceram cobertura aos oficiais de menor escalão.

A referência de que as armas destinadas aos rebeldes estavam a ser compradas e vendidas no mercado negro vazou nos círculos do governo da Jordânia no ano passado, quando os traficantes de armas começaram a gabar-se aos seus clientes de que tinham grandes reservas de armas fornecidas pelos EUA e Arábia Saudita.

Agentes da inteligência jordana que monitorizavam o mercado das armas – agentes não envolvidos no esquema do desvio de armas – começaram a enviar relatórios para a sede sobre a proliferação de armas no mercado e sobre as ostentações dos traficantes de armas.

De acordo com autoridades jordanas, após os americanos e os sauditas se terem queixado do roubo, os investigadores do G.I.D. prenderam várias dezenas de oficiais envolvidos no esquema, entre eles um tenente-coronel que administrava as operações. Eles acabaram por ser libertados da prisão e demitidos do serviço, mas foram autorizados a manter as suas pensões e dinheiro que ganharam com o esquema.

A decisão da Jordânia em hospedar o programa de treino liderado pela C.I.A. é o último episódio de uma longa parceria que começou na administração de Eisenhower. A C.I.A. fez grandes pagamentos ao rei Hussein, que governou a Jordânia de 1952 até sua morte em 1999, em troca da permissão para executar inúmeras operações secretas em solo jordano.

Ambulâncias a deixarem o centro de treino da polícia onde o capitão Abu Zaid abateu cinco pessoas, incluindo dois empreiteiros americanos.  Raad Adayleh / Associated Press

O dinheiro e experiência da C.I.A. também ajudaram o rei a estabelecer o G.I.D. e colocaram ameaças internas e externas ao seu governo. Desde os ataques de 11 de Setembro de 2001, os Estados Unidos inundaram a Jordânia com dinheiro para diversos programas antiterroristas. Espiões americanos e jordanos dirigiram um centro conjunto contra o terrorismo fora de Amã, e uma prisão secreta na Jordânia que alojou prisioneiros da C.I.A. capturados na região.

O jornalista Bob Woodward recontou no seu livro de 2006, “State of Denial“, uma conversa de 2003 em que George J. Tenet, então director de inteligência central, disse a Condoleezza Rice, então conselheiro de segurança nacional,  “Criamos o serviço de inteligência jordano, e agora nós o possuímos”.

É uma relação de dependência mútua, mas a Jordânia tem particular influência devido à sua localização no coração do Oriente Médio e à sua tolerância geral para ser usada como base das operações militares e de inteligência americanas. Os serviços de segurança da Jordânia também têm uma longa história de tentarem infiltrar-se em grupos militantes islâmicos, esforços que renderam tanto sucesso como fracasso.

Em 2009, um médico jordano – foi para a C.I.A. através de um oficial  do G.I.D (Departamento geral de Inteligência – Ndt). Este último, depois do médico ter dito que tinha penetrado na liderança da Al Qaedarevelou-se como agente duplo e detonou-se numa base remota no Afeganistão. Sete funcionários da CIA, bem como um oficial G.I.D. morreram no ataque.

Dois recentes chefes do serviço de inteligência jordanos, também conhecidas como Mukhabarat, foram presos com acusações de desfalque, lavagem de dinheiro e fraude bancária. Um deles, o general Samih Battikhi, que dirigiu o G.I.D. de 1995 a 2000, foi condenado por fazer parte de um esquema para obter empréstimos bancários, que rondaram os  US $ 600 milhões, em  contractos públicos falsos e por ter embolsado cerca de US $ 25 milhões. Foi condenado a oito anos de prisão, mas a sentença acabou por ser reduzida para quatro anos, cumprida na sua casa de campo  na cidade costeira de Aqaba.

O general Mohammad al-Dahabi, que dirigiu o serviço de inteligência jordana entre 2005 a 2008, foi mais tarde «condenado» por roubar milhões de dólares que o G.I.D. tinha apreendido a cidadãos iraquianos que atravessavam a Jordânia nos anos que se seguiram à invasão americana ao Iraque de 2003. O julgamento provou também que providenciou dinheiro para o contrabando de carros particulares do Iraque para a Jordânia e que esteve envolvido na venda da cidadania jordana a um empresário iraquiano. Foi condenado a 13 anos de prisão e multado por dezenas de milhões de dólares.

O presidente Obama autorizou o programa de armamento secreto em Abril de 2013, após mais de um ano de debate dentro da administração sobre a sabedoria em usar a C.I.A. para treinar rebeldes com o fim de  destituir o presidente Assad. (contrariamente ao que a generalidade do pessoal pensa de Obama, ele também tem as mãos cheias de sangue sírio – Ndt)

A decisão foi tomada em parte para tentarem ganhar o controlo da situação em que os países árabes estavam, canalizando assim armas para vários grupos rebeldes na Síria com pouca coordenação. Os catarianos pagaram o  contrabando de FN-6 produzidas na China e a Arábia Saudita enviou milhares de Kalashnikov e milhões de munições que comprou, às vezes com a ajuda da C.I.A. (situação caótica tendo em conta os interesses dos Estados Unidos na região, não para os cidadãos da Síria- Ndt)

No final de 2013, a C.I.A. estava a trabalhar directamente com a Arábia Saudita, com os Emirados Árabes Unidos e com outras nações, no treino e armamento de pequenos grupos de rebeldes que eram depois enviados através da fronteira para a Síria.

Os motivos específicos por trás do tiroteio de Novembro de 2015 na instalação de treino da polícia de Amã permanecem incertos, e não está claro quando o F.B.I. irá oficialmente concluir a sua investigação. (não lhe interessa – Ndt)

Este ano (2016-Ndt), as viúvas dos americanos mortos no ataque processaram o Twitter, alegando que este  conscientemente, permitiu que o Estado islâmico usasse a plataforma de comunicação social para espalhar a mensagem violenta do grupo militante, e para recrutar e angariar fundos.

O capitão Abu Zaid, o homem armado, foi morto quase imediatamente. Seu irmão, Fadi Abu Zaid, disse numa entrevista que ainda acreditava que o seu irmão era inocente e que não tinha indícios de que ele estava a planear  o tiroteio.

O governo jordano, disse ele, negou-lhe qualquer resposta sobre o tiroteio e recusou-se a divulgar o relatório da autópsia do seu irmão.

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This entry was posted on 1 de Agosto de 2017 by in Afinal Quem é Terrorista?, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Síria, USA and tagged , , , , .

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