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O pipeline de 1,2 bilião de euros em armas para o Oriente Médio – 2ª parte

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Um fluxo de armas sem precedentes da Europa Central e Oriental está a inundar os campos de batalha do Médio Oriente

Lawrence Marzouk, Ivan Angelovski Miranda Patrucic | BIRN

Belgrado, Londres, Sarajevo

27 Julho de 2016

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De acordo com um relatório do New York Times de Fevereiro de 2013, um alto oficial croata ofereceu as reservas de armas antigas do país à Síria durante uma visita que fez a Washington no verão de 2012. Zagreb foi mais tarde contactada pelos sauditas, que financiaram as compras, enquanto a CIA ajudava com a logística para um transporte aéreo que começou no final desse ano.

Embora o governo da Croácia tenha negado consistentemente qualquer papel no envio de armas  para a Síria, Ford, ex-embaixador dos EUA na Síria confirmou à BIRN e ao OCCRP o relato do New York Times, baseado num testemunho anónimo sobre o modo como o negócio foi incubado. Disse que não tinha liberdade para falar mais sobre ele.

Este foi apenas o início de um fluxo sem precedentes de armas da Europa Central e Oriental para o Oriente Médio, à medida que o pipeline se expandia para incluir reservas de outros sete países. Os traficantes locais de armas obtiveram armas e munições dos seus países de origem, negociaram a venda de munições da Ucrânia e  Bielorrússia e até tentaram garantir os sistemas antitanque fabricados na união soviética e comprados no Reino Unido, como se tratasse de um bazar de armas à escala europeia.

Antes da Primavera Árabe em 2011, o comércio de armas entre a Europa Oriental e a Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Turquiaquatro principais apoiantes da oposição fracturada da Síria – era insignificante senão inexistente, de acordo com a análise de dados de exportação. Mas isso mudou em 2012. Entre esse ano e 2016, oito países da Europa Oriental aprovaram pelo menos 829 milhões de euros em  exportações de armas e munições para a Arábia Saudita, de acordo com relatórios de exportação de armas nacionais e da UE  e com fontes governamentais.

A partir de 2012, a Jordânia garantiu licenças de exportação no valor de 155 milhões de euros, enquanto os Emirados Árabes Unidos arrecadaram 135 milhões de euros e a Turquia 87 milhões de euros, elevando o total para 1,2 biliões de euros. (..e andam agora com manobras de diversão acusando-se uns aos outros de apoiarem o ISIS!!. Hilariante – Ndt)

Catar, outro fornecedor chave de equipamentos para a oposição síria, não aparece nas licenças de exportação da Europa Central e Oriental.

Jeremy Binnie, especialista do Oriente Médio em armas para o Jane’s Defense Weekly, uma publicação amplamente considerada como a fonte mais confiável de informações de defesa e segurança, disse que a maior parte das exportações de armas da Europa Oriental provavelmente seria destinada à Síria e, em menor grau, ao Iémen e Líbia.

Com poucas excepções, os militares da Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Turquia usam armas e munições de infantaria ocidentais, ao invés das homólogas de concepção soviética”, disse Binnie. ”Por conseguinte, parece provável que os grandes embarques de tal material adquiridos por – ou enviados para – esses países,  estejam destinados aos seus aliados na Síria, no Iémen e Líbia“.

BIRN e o OCCRP obtiveram documentos confidenciais do Ministério da Defesa da Sérvia e minutas de uma série de reuniões interministeriais em 2013. Os documentos mostram que o Ministério levantou a preocupação sobre a possibilidade das entregas à Arábia Saudita serem desviadas para a Síria, realçando que os sauditas não usam stocks da Europa Central e Oriental e têm uma história de fornecimento à oposição síria.

O Ministério rejeitou o pedido saudita apenas para reverter o curso de mais de um ano, e depois aprovou novas remessas de armas citando o interesse nacional. As forças de segurança sauditas, embora na maior parte armadas por produtores ocidentais, são conhecidas por usar quantidades limitadas de equipamentos da Europa Central e Oriental, onde se incluem camiões militares produzidos na República Checa e alguns rifles de assalto construídas na Roménia. Mas mesmo as exportações de armas destinadas ao uso das forças sauditas estão a ser controversas, dado seu envolvimento no conflito do Iémen.

A Holanda foi o primeiro país da UE a parar as exportações de armas para a Arábia Saudita como resultado das mortes de civis na guerra civil do Iémen e no Parlamento Europeu pediu um embargo de armas à escala da UE.

 Abastecimento da Logística: voos de carga

As armas da Europa Central e Oriental são entregues no Oriente Médio através de vias aéreas e marítimas. Os repórteres ao identificarem os aviões e os navios que entregavam as armas, conseguiram rastrear o fluxo delas em tempo real.

A análise detalhada dos horários dos aeroportos, da história do transportador da carga, dos dados do rastreamento dos voos e das fontes de controle de tráfego aéreo, ajudaram a identificar nos últimos 13 meses, 68 voos que levaram armas para os conflitos no Oriente Médio.

Belgrado (Capital da Sérvia – Ndt), «Sófia» (Capital da Bulgária – Ndt) e Bratislava (Capital da Eslováquia – Ndt) surgiram como os principais centros do transporte aéreo.

Mais frequentes foram os voos operados a partir de Belgrado, capital da Sérvia. Foi confirmado que os voos transportavam armas, que iam para bases militares na Arábia Saudita ou Emirados Árabes Unidos.

O transporte aéreo do Oriente Médio

Nos últimos 13 meses, pelo menos 68 voos de carga que partiram da Sérvia, Eslováquia, Bulgária e República Checa,  carregaram milhares de toneladas de munições  para a Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Jordânia, os três principais fornecedores dos rebeldes sírios. Estes, foram identificados através de análise detalhada dos horários dos aeroportos, história do transportador, dados de rastreamento de voos, fugas de contractos de armas, certificados de utilização final e fontes de controle de tráfego aéreo.

Os voos de carga da Europa Central e Oriental para o Oriente Médio e particularmente para bases militares antes do final de 2012 não eram comuns, altura em que, de acordo com dados de voos da UE e entrevistas com observadores de aviões, começou a aumentar a compra de armas e munições.

O avião mais comumente utilizado – o Ilyushin II-76 – pode transportar até 50 toneladas de carga ou aproximadamente 16.000 rifles AK-47 Kalashnikov ou três milhões de balas. Outros, incluindo o Boeing 747, são capazes de transportar pelo menos duas vezes mais essa quantidade.

Dos 68 voos identificados, foi confirmado oficialmente que 50 carregaram armas e munições:

  • A Direcção da Aviação Civil da Sérvia confirmou que,  de 1 de Junho de 2015 a 4 de Julho de 2016, 49 voos que partiram ou passaram pela Sérvia carregavam armas e munições. A confirmação dá-se após semanas de recusa a comentarem por razões de confidencialidade, depois da BIRN e o OCCRP apresentaram provas, incluindo fotografias que mostram caixas militares carregadas em aviões em quatro ocasiões diferentes no aeroporto Nikola Tesla de Belgrado.

  • Um funcionário da National Customs Agency da Bulgária confirmou um voo, operado pela transportadora bielorrussa Ruby Star Airways, que levava armas do remoto aeroporto búlgaro Gorna Oryahovitsa, para o aeroporto de Brno-Turany da República Checa e para Aqaba, na Jordânia.

  • Foram identificados outros 18 voos que, com base numa das três variáveis: história da empresa de transporte aéreo de armas; ligações com voos anteriores de armas; o destino ser uma aeroporto militar, é muito provável terem  transportado armas e munições:

    • Dez voos foram feitos para a base aérea Prince Sultan em Al Kharj na Arábia Saudita e para Base Aérea Al Dhafra em Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos, indicando provável presença de armas ou munições. Além disso, a Direcção de Aviação Civil da Sérvia, confirmou 14 voos com armas para as bases aéreas Prince Sultan e Al Dhafra durante o mesmo período.
    • Foi revelado que sete voos vindos da Eslováquia e Bulgária pela Jordan International Air Cargo, que faz parte da Força Aérea da Jordânia, transportaram no inverno de 2012 armas e munições da Croácia para a Jordânia. Slavcho Velkov, coronel búlgaro reformado  e especialista em antiterrorismo e que mantém amplos contactos com os militares, disse ao BIRN e OCCRP que os voos de Sófia para Amã (capital do Jordânia – Ndt) “transportavam armas para a Arábia Saudita, principalmente para o conflito sírio”. Além disso, a Direcção da Aviação Civil da Sérvia confirmou que outro voo operado por esta companhia aérea transportou  armas durante o mesmo período.
    • Um voo de carga da Bielorrússia TransAVIAexport Airlines, que tem uma longa história de transporte de armas. Em 2014, a companhia aérea foi contratada pelo traficante sérvio de armas, Slobodan Tesic, para transportar armas e munições sérvias e bielorrussas para as bases aéreas na Líbia controladas por vários grupos militantes. O Comité das Sanções das Nações Unidas investigou o caso e encontrou possíveis violações das sanções da organização, de acordo com um relatório seu de 2015. Além disso, a Direcção de Aviação Civil da Sérvia confirmou cinco voos operados por esta companhia aérea como tendo transportado armas durante o mesmo período.

Muitos desses voos fizeram uma paragem adicional na Europa Central e Oriental – o que significa que provavelmente carregaram mais armas e munições – antes de chegarem ao destino final.

A BIRN e OCCRP, identificaram que estatísticas de voo da UE fornecem mais evidências da escala da operação. Elas revelam que desde o verão de 2014, os aviões que voaram da Bulgária e Eslováquia entregaram 2.268 toneladas de carga – igual à carga de 44 voos com os aviões mais comummente usados – o Ilyushin II-76 – nas mesmas bases militares na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos.

consultar tabela aqui

Distribuir as armas

De acordo com Ford, ex-embaixador dos EUA na Síria,  as armas compradas pelos sauditas, turcos, jordanos e pelos Emirados Árabes Unidos para a Síria, são encaminhadas através de duas instalações de comando secretas – chamados Centros de Operação Móveis, (MOC) – na Jordânia e na Turquia.

De acordo com informações do Centro Carter, grupo de reflexão que possui uma unidade de monitorização de conflitos com sede em Atlanta, estas unidades – com funcionários militares e de segurança do Golfo, Turquia, Jordânia e EUA – coordenam a distribuição das armas a grupos de oposição sírios altamente escrutinados.

Cada um dos países envolvido na ajuda à oposição armada, retinham autoridade para tomar a decisão final sobre quais os grupos da Síria iriam receber assistência”, disse Ford.

A fuga de uma grande quantidade de documentos de transporte de carga, fornece pistas adicionais sobre como os militares sauditas fornecem os rebeldes sírios. De acordo com documentos obtidos pela BIRN e OCCRP, a empresa AeroTransCargo da Moldávia realizou no verão de 2015 seis voos e carregou pelo menos 250 toneladas de munições entre as bases militares da Arábia Saudita e o Aeroporto Internacional de Esenboga em Ancara, capital da Turquia, alegadamente o ponto de chegada das armas e munições para os rebeldes sírios.

Pieter Wezeman, do Stockholm International Peace Research Institute, organização líder no rastreamento de exportações de armas, disse suspeitar que os voos fazem parte da operação de logística para fornecer munições aos rebeldes sírios.

Dos  Centros de Operação Móveis, as armas são então transportadas por estrada para a fronteira da Síria ou enviadas por aviões militares.

Um comandante do exército livre sírio de Alepo, que pediu para permanecer anónimo para proteger a sua segurança, disse à BIRN e OCCRP que as armas vindas da Europa Central e Oriental foram distribuídas a partir do quartel general centralmente controlado na Síria. “Não nos preocupamos com a região de origem, só sabemos que é da Europa Oriental”, disse ele.

Os sauditas também são conhecidos por distribuir armas e equipamentos por paraquedas, incluindo o que parecia serem rifles de assalto servias para os seus aliados no Iémen.

Ford disse que enquanto não esteve pessoalmente envolvido nas negociações com a Sérvia, Bulgária e Roménia sobre o fornecimento de armas à Síria, acredita que a CIA terá desempenhado um papel.

Para operações deste tipo, é difícil para mim imaginar que não existia alguma coordenação entre os serviços de inteligência mas pode ter sido confinado estritamente a canais de inteligência”, afirmou.

Os EUA talvez não tenham desempenhado só um papel na logística por trás da entrega de armas patrocinadas pelo Golfo, vindas da Europa Oriental para os rebeldes sírios. Através do Comando de Operações Especiais do Departamento de Defesa (SOCOM), também comprou e entregou vastas quantidades de material militar da Europa Oriental à oposição síria, fazendo parte de um programa de treino e de equipamento no valor de US $ 500 milhões.

Desde Dezembro de 2015, o SOCOM encomendou três navios de carga para transportar 4.700 toneladas de armas e munições dos portos de Constanta na Roménia e Burgas na Bulgária para o Médio Oriente, provavelmente como parte do fornecimento secreto de armas à Síria.

De acordo com documentos de compras dos EUA, as remessas incluíam metralhadoras pesadas, lançadores de rockets e armas antitanque – bem como balas, morteiros, granadas, rockets  e explosivos.

A origem das armas enviadas pelo SOCOM é desconhecida e o material listado nos documentos de transporte está disponível em reservas por toda a Europa Central e Oriental.

Pouco depois de uma das entregas, o SOCOM apoiou grupos curdos, segundo uma imagem publicada no Twitter no Facebook, que mostra um armazém empilhado com caixas de munições negociadas pelos EUA no norte da Síria. SOCOM não confirmou ou negou que as remessas fossem destinadas à Síria.

Os registos de compras dos EUA também revelam que o SOCOM, de 2014 a 2016,  assegurou pelo menos 25 milhões de euros (27 milhões de dólares) em armas búlgaras e 11 milhões de euros (12 milhões de dólares) em armas e munições sérvias para operações secretas e rebeldes sírios.

Um negócio em expansão

Wilcken, investigador de controle de armas, disse que a Europa Central e Oriental estava bem posicionada para cobrar o enorme aumento da procura de armas após a primavera árabe.

A proximidade geográfica e os controlos de exportação relaxados colocaram alguns Estados dos Balcãs  na posição mais favorável para lucrarem com esse comércio, em alguns casos com a assistência secreta dos EUA”, acrescentou. “A Europa Oriental está a reabilitar as indústrias de armas da guerra fria que se expandem e se tornam novamente rentáveis.”

Aleksandar Vucic,  primeiro-ministro sérvio alegou recentemente que o seu país poderia produzir cinco vezes mais a quantidade de armas que actualmente produz e, mesmo assim não atender à procura.

“Infelizmente  em algumas partes do mundo  há muitas guerras  e tudo o que se produz, pode ser vendido em qualquer lado do mundo “, disse ele.

Os fabricantes de armas da Bósnia e Herzegovina e da Sérvia estão a produzir a plena capacidade e com alguns turnos extras, e outros não aceitam novas encomendas.

Os principais oficiais da Arábia Saudita – mais acostumados a negociar contractos de aviões a jacto de combate  no valor de  biliões de dólares com gigantes em defesa ocidentais – foram forçados a lidar com um punhado de pequenos corretores de armas que operam na Europa Oriental e que têm acesso a armas como a AK- 47s e lançadores de rocket.

Intermediários como a CPR Impex da Sérvia e Eldon da Eslováquia, desempenharam um papel crítico no fornecimento de armas e munições ao Oriente Médio

O inventário de cada entrega geralmente é desconhecido devido ao sigilo em torno dos negócios de armas, mas dois certificados de utilização final e uma licença de exportação, obtidos pela BIRN e OCCRP, revelam a extensão extraordinária de compras em grandes quantidades para beneficiários sírios.

Por exemplo, o Ministério da Defesa saudita expressou o seu interesse em comprar à CPR Impex sérvia, uma série de armas incluindo centenas de tanques antigos T-55 e T-72, milhões de rodadas de munição, sistemas de mísseis de lançamento múltiplo e lançadores de rocket. As armas e as munições listadas foram produzidas na ex-Jugoslávia, Bielorrússia, Ucrânia e na República Checa.

Em Janeiro de 2015 foi emitida uma licença de exportação à Eldon, empresa eslovaca pouco conhecida, concedendo-lhe o direito de transportar milhares de lançadores de granadas com propulsão a foguete da Europa Oriental, metralhadoras pesadas e quase um milhão de balas que valem cerca de 32 milhões de euros,  para a Arábia Saudita.

A análise do BIRN e OCCRP aos media sociais mostra que armas originárias dos antigos estados da Checoslováquia e da Jugoslávia, da Sérvia, Croácia e  Bulgária estão agora presentes nos campos de batalha da Síria e  Iémen.

Enquanto os especialistas acreditam que os países continuam a esquivar-se às suas responsabilidades, o pipeline de armas acrescenta mais e mais combustível a um conflito quente que leva a mais e mais miséria.

“A proliferação de armas para a região causou um sofrimento humano incontável; um grande número de pessoas foram deslocadas e partes no conflito cometeram graves violações dos direitos humanos, incluindo abduções, execuções, desaparecimentos forçados, tortura e estupro“, disse Wilcken, da Amnistia.

reportagens adicionais de Atanas Tchobanov, Dusica Tomovic, Jelena Cosic, Jelena Svircic, Lindita Cela, RISE Moldova e Pavla Holcova.

Esta investigação é produzida pela BIRN como parte do projecto Paper Trail to Better Governance.

Leia todos os documentos usados na investigação na biblioteca online BIRN SOURCE .

 

1ª Parte

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