A Arte da Omissao

ACORDEM

Interpretações divergentes no campo anti-imperialista – 1ª parte

Links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo  Interprétations divergentes au sein du camp anti-impérialiste

de Thierry Meyssan

Quando o seu país foi atacado pelos jihadistas em 2011, o presidente Bashar al-Assad reagiu contra a corrente: em vez de fortalecer os poderes dos serviços de segurança, diminuiu-os. Seis anos depois, o seu país está em vias de emergir vitorioso na guerra mais importante desde a do Vietname. O mesmo tipo de agressão está a acorrer na América Latina, mas  suscita uma resposta muito mais convencional. Thierry Meyssan expõe aqui, por um lado a diferença das análises e estratégias dos presidentes Assad, e por outro as de Maduro e Morales. Não se trata de colocar esses líderes em competição, mas apelar a cada um, que saia dos catecismos políticos e tenha em conta a experiência das guerras recentes.

| Damasco (Síria) | 15 de Agosto 2017

Em Maio de 2017, Thierry Meyssan explicou à RT, que as elites sul-americanas estão erradas diante do imperialismo norte-americano. Ele insistiu na mudança de paradigma nos actuais conflitos armados e na necessidade de repensar radicalmente como defender a pátria.

Continua a operação de desestabilização da Venezuela. Na sua fase inicial, grupos violentos, que protestavam contra o governo, mataram transeuntes e até mesmo cidadãos que se juntaram a eles. Numa fase seguinte, grandes distribuidores de alimentos organizaram uma escassez nos supermercados. Depois, alguns membros das forças da ordem atacaram  ministérios, apelaram à rebelião e entraram na clandestinidade.

A imprensa internacional continua a atribuir ao “regime” as mortes dos manifestações, enquanto numerosos vídeos atestam que foram deliberadamente assassinados pelos próprios manifestantes. Com base nessa informação enganosa, ela descreve o presidente Nicolas Maduro como um “ditador”, da mesma forma que o fez há seis anos, em relação a Muammar Gaddafi e Bashar al-Assad. (está à frente dos nossos olhos -Ndt)

Os Estados Unidos utilizaram a Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o presidente Maduro, da mesma forma como usaram a Liga Árabe contra o presidente Assad.  Caracas, não esperou para ser excluída da Organização, denunciou o método e deixou-a por vontade própria.

No entanto, o governo de Maduro apresenta duas falhas:

- Uma grande parte dos seus eleitores não foi às urnas nas eleições gerais de Dezembro de 2015, facto que deixou que a oposição ganhasse a maioria no Parlamento.

- Ele deixou-se surpreender com a crise alimentar, a mesma organizada no passado, no Chile contra Allende e na Venezuela contra Chávez. Demorou várias semanas a criar novas cadeias de abastecimento de alimentos.

É muito provável, que o conflito que começa na Venezuela não vá parar nas suas fronteiras. Ele queimará todo o noroeste do continente sul-americano e Caraíbas.

Foi feito um passo adicional com os preparativos militares contra a Venezuela, Bolívia e Equador, vindos do  México, Colômbia e Guiana Britânica. Esta coordenação foi realizada pela equipe do antigo Gabinete Estratégico para a Democracia Global, (Office of Global Democracy Strategy): unidade criada pelo presidente Bill Clinton, seguida depois pelo vice-presidente Dick Cheney e sua filha Liz. A sua existência foi confirmada por Mike Pompeo, actual director da CIA. Isto levou que a imprensa evocasse, seguida depois pelo presidente Trump, a opção militar dos EUA.

Para salvar o seu país, a equipe do presidente Maduro recusou-se a seguir o exemplo do presidente al-Assad. As situações são completamente diferentes. Os Estados Unidos, principal poder capitalista, atacaria a Venezuela para roubar o seu petróleo, de acordo com o padrão repetido no passado em três continentes. Este ponto de vista foi reforçado num discurso recente do presidente boliviano, Evo Morales.

Lembremos que em 2003 e 2011, o presidente Saddam Hussein, o Guia Muammar Gaddafi e muitos dos consultores de Assad tiveram o mesmo raciocínio. Segundo eles, os Estados Unidos atacaram sucessivamente o Afeganistão e o Iraque, depois a Tunísia, o Egipto, a Líbia e a Síria, apenas para derrubar os regimes que resistiram ao seu imperialismo e ao controle dos recursos dos hidrocarbonetos do Oriente Médio Oriente Alargado. Muitos autores anti-imperialistas seguem ainda hoje essa análise, por exemplo, ao tentarem explicar a guerra contra a Síria com a interrupção do projecto de gasoduto catariano.

Foi provado que este raciocínio estava errado. Os Estados Unidos nem procuraram derrubar os governos progressistas (Líbia e Síria), nem roubar o petróleo e gás da região, mas sim destruir os Estados, reenviar as pessoas à pré-história, para a época em que «o homem era o lobo do homem».

Os derrubes de Saddam Hussein e Muammar Gaddafi não restauraram a paz. As guerras continuaram apesar da instalação de um governo de ocupação no Iraque, e de governos na região, os quais incluíam colaboradores do imperialismo opostos à independência nacional. Elas continuam ainda a testemunhar que Washington e Londres não queriam derrubar os regimes nem defender democracias, mas simplesmente esmagar povos. É uma constatação fundamental que perturba a nossa compreensão sobre o imperialismo contemporâneo.

Esta estratégia radicalmente nova, foi ensinada por Thomas PM Barnett desde o 11 de Setembro de 2001. Ela foi revelada e exposta publicamente em Março de 2003 – isto é, pouco antes da guerra contra o Iraque – num artigo do Esquire, e depois no  livro The Pentagon’s New Map, mas ela parecia tão cruel que ninguém imaginou que poderia ser implementada.

Para o imperialismo trata-se de dividir o mundo em dois: de um lado, uma zona estável que beneficia do sistema, do outro, um terrível caos onde ninguém pensa mais em resistir, mas apenas em sobreviver; uma área onde as multinacionais possam extrair as matérias-primas que precisam sem serem responsáveis perante ninguém.

JPEG - 372.8 ko

De acordo com este mapa, extraído de um PowerPoint de Thomas P. Barnett numa conferência no Pentágono em 2003, todos os Estados da zona rosa devem ser destruídos. Este projecto não tem nada a ver com a luta de classes a nível nacional ou com a exploração de recursos naturais. Depois do Oriente Médio alargado, estrategas dos EUA preparam-se para colapsar o Noroeste da América Latina.

Desde o século XVII e a guerra civil britânica, o ocidente desenvolveu-se num caos inquietante. Thomas Hobbes ensinou-nos a suportar a razão do Estado ao invés de arriscar reviver esse tormento. A noção do caos só voltou para nós com Leo Strauss depois da Segunda Guerra Mundial. Este filósofo, que formou pessoalmente muitas personalidades do Pentágono, pretendia construir uma nova forma de poder através do mergulho de parte do mundo no inferno.

A experiência do jihadismo no Oriente Médio alargado mostrou-nos o que é o caos.

O Presidente al-Assad ao responder como era esperado nos eventos de Deraa (Março-Abril de 2011), ao enviar  o exército para enfrentar os jihadistas na mesquita al-Omari,  foi o primeiro a entender o que se estava a passar. Longe de aumentar os poderes das forças de ordem para reprimir a agressão externa, ele deu ao povo os meios para defender o país.

Inicialmente, levantou o estado de emergência, dissolveu os tribunais de excepção, libertou as comunicações na Internet e proibiu as forças armadas de usarem as suas armas se isso colocasse em perigo pessoas inocentes. Essas decisões contra a maré tiveram consequências de grande alcance. Por exemplo, durante o ataque a um comboio militar em Banias, os soldados abstiveram-se de usar as suas armas em legítima defesa. Eles preferiram ser mutilados pelas bombas dos assaltantes e até morrer, em vez de dispararem com o risco de ferir os habitantes que  assistiam ao massacre sem intervir.

Como muitos na época,  pensei que era um presidente fraco e soldados demasiado leais, e que a Síria seria esmagada. No entanto, seis anos depois, Bashar al-Assad e os exércitos sírios ganharam a sua aposta. Embora os soldados, no início lutassem sozinhos contra a agressão estrangeira, cada cidadão estava envolvido, cada um no seu posto, para defender o país. Aqueles que não quiseram ou não puderam resistir exilaram-se. Os sírios sofreram muito, mas a Síria é o único Estado do mundo, desde a Guerra do Vietname, a resistir até que o imperialismo se cansou e desistiu.

Em segundo lugar, perante a invasão de uma multidão de jihadistas de todas as populações muçulmanas, de Marrocos a China, o Presidente Assad decidiu abandonar parte do território para salvar o seu povo.

O exército árabe sírio recuou para a “Síria útil”, isto é, para as cidades e abandonou o campo e os desertos para os agressores, enquanto Damasco observava sem interrupção o abastecimento alimentar de todas as regiões que controlava. Ao contrário da crença popular no Ocidente, houve fome apenas nas áreas controladas pelos jihadistas e em algumas cidades sitiadas por eles; os “rebeldes estrangeiros” (perdoem a retórica), fornecidos por associações «humanitárias» ocidentais, usavam a distribuição de parcelas de alimentos para subjugar as pessoas que morriam de fome.

O povo sírio descobriu por si só que apenas a República, não a Irmandade Muçulmana e os seus jihadistas, os alimentava  e protegia.

Em terceiro lugar, o presidente Assad, descreveu num discurso pronunciado em 12 de Dezembro de 2012, como pretendia refazer a unidade política do país. Ele realçou a necessidade de redigir uma nova constituição e submetê-la à aprovação da maioria qualificada do povo, depois proceder à eleição democrática de todos os funcionários institucionais, inclusive o do presidente.

Na época, os ocidentais zombaram da pretensão do presidente Assad em convocar eleições no meio da guerra. Hoje, todos os diplomatas envolvidos na resolução do conflito, incluindo os das Nações Unidas, apoiam o seu plano.

Enquanto  os comandos jihadistas circulavam por todo o país, inclusive em Damasco, e assassinavam políticos nas suas casas com as suas famílias, o presidente Assad encorajou  o dialogo com os seus oponentes nacionais. Assegurou a segurança do liberal Hassan el-Nouri e do marxista Maher el-Hajjar, para que também corressem o risco de se apresentarem às eleições presidenciais de Junho de 2014. Apesar do pedido de boicote da Irmandade Muçulmana e dos governos ocidentais, apesar do terror jihadista, apesar do exílio de milhões de cidadãos no exterior, votaram 73,42% dos eleitores.

Da mesma maneira, logo após o início da guerra, Assad criou o ministério da Reconciliação Nacional, algo nunca visto num país em guerra. Confiou-o a Ali Haidar, presidente de um partido aliado. Este negociou e concluiu mais de mil acordos de amnistia a cidadãos que levantaram armas contra a República e a sua integração no exército árabe sírio.

Durante esta guerra, o presidente Assad nunca usou coação contra o seu próprio povo, independentemente dos que o acusam gratuitamente de tortura generalizada. Assim, nunca introduziu uma imposição em massa, o recrutamento obrigatório. Um jovem pode sempre evitar as suas obrigações militares. Existem procedimentos administrativos que permitem que qualquer cidadão do sexo masculino possa escapar ao serviço nacional se entender que não quer defender o país de armas na mão. Somente os exilados que não tiveram a oportunidade de realizar estas medidas, podem encontrar-se em situações irregulares.

Por um lado  e durante seis anos, o presidente Assad, não cessou de atrair o seu povo, de lhe dar responsabilidades e, por outro, de o alimentar e proteger tanto quanto pudesse. Ele sempre correu o risco de dar antes de receber. É por isso que hoje ele tem a confiança do seu povo e pode contar com o seu apoio activo.

As elites da América do Sul estão equivocadas ao continuarem a luta das décadas anteriores por uma distribuição mais justa da riqueza. A luta principal não é mais entre a maioria das pessoas e uma pequena classe de privilegiados. A escolha que surgiu aos povos do Médio Oriente alargado, é a mesma que os sul-americanos terão que responder por sua vez, que é defender o seu país ou morrer.

Os factos provam que o imperialismo contemporâneo não busca mais conquistar recursos naturais. Ele domina o mundo e pilha sem escrúpulos. Pretende esmagar as pessoas e destruir as sociedades das regiões cujos recursos já explora.

Nesta era de ferro, apenas a estratégia de Assad permite permanecer de pé e livre.

2ª parte

Artigos relacionados: a caminho de uma “Primavera Latina”?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Categorias

Follow A Arte da Omissao on WordPress.com
%d bloggers like this: