A Arte da Omissao

ACORDEM

A Alemanha e ONU contra a Síria

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Tradução do artigo  L’Allemagne et l’Onu contre la Syrie

de Thierry Meyssan

Os neoconservadores – (adeptos do neoconservadorismo, tendência política de direita que surgiu na segunda metade do século XX nos Estados Unidos da América e que advogam a defesa do mercado livre capitalista e a protecção assertiva dos interesses externos do Estado, inclusive através de meios militares -Ndt) – e os falcões liberais que desde 2011 prepararam a guerra contra a Síria, confiaram desde 2005 em vários Estados da NATO e no Conselho de Cooperação do Golfo.

Conhecemos o papel desempenhado pelo general David Petraeus ao lançar e continuar a guerra até hoje, mas duas personalidades – Jeffrey Feltman (nº 2 da ONU) e Volker Perthes (director do principal grupo de reflexão alemão) – permaneceram nas sombras. Juntos, com o apoio de Berlim, usaram e continuam a manipular as Nações Unidas para destruir a Síria.

| Damasco (Síria)

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Desde 2005, o cientista alemão Volker Perthes participou junto da CIA na preparação da guerra contra a Síria. Ele dirige o maior e poderoso grupo de reflexão  europeu, o Stiftung Wissenschaft und Politik (SWP)

Em 2005, quando Jeffrey Feltman – agora embaixador dos EUA em Beirute – supervisionou o « assassinato de Rafik Hariri », confiou na Alemanha, tanto para o assassinato em si (Berlim forneceu a arma) [1] como para a formação da Comissão das Nações Unidas que acusou os presidentes al-Assad e Lahoud (o promotor Detlev Mehlis, o comissário de polícia Gerhard Lehmann e a sua equipe). A campanha internacional contra os dois presidentes foi animada especialmente pelo cientista político alemão Volker Perthes  [2].

Volker Perthes estudou na Síria, no âmbito de uma bolsa de pesquisa alemã, em Damasco, 1986-87. Depois, prosseguiu carreira como professor de ciências políticas na Alemanha, com excepção do período 1991-93 durante o qual leccionou na Universidade Americana de Beirute. Desde 2005, foi director do Stiftung Wissenschaft und Politik (SWP), principal grupo de reflexão público alemão, que emprega mais de 130 especialistas, metade dos quais académicos.

Por outro lado, quando Jeffrey Feltman organizou o ataque israelita ao Líbano em 2006, apenas implicou os Estados Unidos na esperança de que se o Hezbollah fosse derrotado, a Síria viria ao seu socorro em Beirute e tal proporcionaria um pretexto para a intervenção dos EUA. Em última análise, Berlim contentou-se em enviar a sua marinha para participar da Força interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL).

Foi na reunião anual realizada de 5 a 8 de Junho de 2008 – cinco anos antes da guerra – que a Secretária de Estado Condoleezza Rice apresentou ao Grupo Bilderberg  a necessidade de derrubar o governo sírio. Para o conseguir, fez-se acompanhar por Bassma Kodmani, director da Iniciativa de Reforma Árabe e (futuro fundador do Conselho Nacional da Síria) e por Volker Perthes,  director da SWP. O Grupo Bilderberg é uma iniciativa da NATO, a qual lhe oferece segurança directa [4].

De acordo com um telegrama revelado pelo Wikileaks, Volker Perthes aconselhou Rice em relação ao Irão. Segundo ele, era perigoso lançar uma operação militar com consequências regionais imprevisíveis. Por outro lado, foi mais eficaz em sabotar a economia. Em 2010, o conselho de Volker Perthes foi seguido, com a operação de destruição dos programas das instalações nucleares iranianas pelo vírus Stuxnet [5].

Em Março de 2011, Volker Perthes publicou um artigo de opinião no New York Times onde ridicularizou o discurso do presidente Assad na Câmara dos Deputados, quando este denunciou a “conspiração” contra a Síria [6]. Segundo ele, a «revolução» estava em marcha na Síria e o presidente tinha que sair.

Em meados de 2011, o governo alemão percebeu o avanço da Irmandade Muçulmana na Tunísia e Egipto. Ela abrigava a pedido da CIA, a coordenação internacional da Irmandade em Aachen. Berlim decidiu então apoiar a Irmandade em todos os lugares em que ela alcançasse poder, com excepção do Hamas na Palestina, para não irritar Israel.

Sob a influência de Volker Perthes, o Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão – na época Guido Westerwelle – convenceu-se que a Irmandade Muçulmana não era «islamita», mas «orientada pelo Islão». Criou um fórum de discussão com os movimentos «islamitas moderados» (sic) e com um grupo de trabalho para a Síria. Enquanto isso, Perthes organizou em Julho a recepção ao Ministério de uma delegação da oposição síria, liderada por Radwan Ziadeh, membro da Irmandade Muçulmana.

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Discurso de Ahmet Davutoğlu na conferência à porta fechada de Tusaid-Stratfor, a 6 de Outubro de 2011.

A 6 de Outubro de 2011, Volker Perthes participou sob uma proposta do Departamento de Estado, a uma conferência realizada em privado pela Turkish Industry & Business Association (Tusiad) e pela empresa privada de inteligência «Stratfor», para se simularem as opções energéticas da Turquia e as possíveis respostas de outros oito países, incluindo a Alemanha [7]. As primeiras dez fortunas turcas estiveram presentes, bem como Taner Yıldız, então Ministro da Energia e o homem que ajudaria a família Erdoğan a organizar o financiamento da guerra com o petróleo roubado pelo Daesh.

Em Janeiro de 2012, Jeffrey Feltman, então responsável pelo Próximo Oriente no Departamento de Estado, pediu a Volker Perthes que liderasse o programa “The Day After“, programa encarregado de engendrar o próximo regime na Síria. As reuniões foram realizadas ao longo de seis meses e delas resultou um relatório que foi tornado público após a Conferência de Genebra.

«The Day After» mobilizou 45 opositores sírios, entre os quais Bassma Kodmani e a Irmandade Muçulmana. Foi financiado pelo US Institute of Peace (pergunto como é possível que se acredite ainda em organismos que contenham a palavra paz no seu nome? – Ndt), equivalente ao National Endowment for Democracy (NED), mas sob o Departamento de Defesa. A Alemanha, França, Noruega, Holanda e Suíça também foram abordadas.

O «The Day After» continha o rascunho do plano de capitulação total e incondicional da Síria, que se tornou uma obsessão das Nações Unidas, quando a Julho de 2012, Jeffrey Feltman foi nomeado director dos Assuntos Políticos da ONU.

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No seu julgamento oficial como o número 2 da UNO, a 2 de Julho de 2012, Jeffrey D. Feltman presta juramento perante o secretário geral Ban Ki-moon. A partir dessa data, a Organização, que deveria promover a paz, passou a estar sob o controle dos «falcões liberais».

Princípios do plano Perthes-Feltman:

A soberania do povo sírio seria abolida;

A Constituição seria revogada;

O presidente seria demitido (mas um vice-presidente continuaria a cargo das funções protocolares);

 A Assembleia Popular seria dissolvida;

Pelo menos 120 dirigentes seriam considerados culpados e interditos a qualquer função política, depois julgados e condenados por um Tribunal Internacional;

A Direcção dos Serviços Secretos militares, a Direcção da Segurança Política e a Direcção de Segurança Geral seriam decapitadas ou dissolvidas;

Os prisioneiros «políticos» seriam libertados e as medidas antiterroristas revogadas; 


O Hezbollah e os Guardiões da Revolução deveriam retirar-se e só depois é que a comunidade internacional lutaria contra o terrorismo [8].

Simultaneamente Volker Perthes organizou um «Grupo de Trabalho para a Recuperação e Desenvolvimento Económico» dos «Amigos do Síria». Em Junho de 2012, sob a co-presidência da Alemanha e dos Emirados Árabes Unidos, este grupo distribuiu aos Estados-membros dos «Amigos do Síria» concessões de exploração do gás sírio, que poderiam ser reivindicadas em troca do apoio ao derrube do regime de Assad [9].

Volker Perthes também organizou o “Grupo de Trabalho para o planeamento da Transição” da Liga Árabe. Finalmente,  instalou a “Rede de apoio à transição da Síria” em Istambul.

A partir da Conferência de Genebra (a 30 de Junho de 2012) e da reunião dos “Amigos da Síria” em Paris (a 6 de Julho de 2012), não há mais registos públicos do papel de Volker Perthes, além das suas publicações destinadas a manter o apoio da Alemanha à Irmandade Muçulmana. A Alemanha prosseguiu a sua política e, após a abdicação do Emir do Catar e a ascensão da Arábia Saudita, nomeou Boris Ruge, responsável pela Síria no Ministério dos Negócios Estrangeiros, como embaixador em Riade.

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Em Janeiro de 2015, a chanceler Angela Merkel manifestou-se pela tolerância e contra o terrorismo, de braço dado com Aiman Mazyek, secretário-geral do Conselho Central de Muçulmanos na Alemanha, na verdade um dos líderes da Irmandade Muçulmana.

No verão de 2015, durante uma viagem a Damasco, o governo sírio exigiu explicações a Staffan De Mistura sobre o plano Perthes-Feltman, que acabara de ler. Bastante embaraçado, o enviado especial do secretário-geral da ONU afirmou que esses documentos não o envolveram e assegurou que os descartou.

Parece que Moscovo ameaçou torná-los públicos no Conselho de Segurança por ocasião da presença de Chefes de Estado na abertura da Assembleia Geral em Setembro de 2015. A divulgação desses documentos não ocorreu, teria posto em causa a própria existência da ONU. Ao mesmo tempo, Berlim retomou o contacto com Damasco, sem que os sírios soubessem se esse passo secreto reflectia uma nova política da chanceler Merkel ou uma enésima tentativa de infiltração.

No entanto e ao mesmo tempo, Volker Perthes foi nomeado o «negociador de paz» (sic) para a próxima reunião em Genebra,  por Staffan De Mistura [10] e seu superior Jeffrey Feltman. Ele será encarregado da comunicação entre  a delegação da oposição síria e a República Árabe da Síria.

Por três anos e violando a sua própria Carta, as Nações Unidas, longe de fazer qualquer coisa para ajudar a restaurar a paz na Síria, acusa a República Árabe da Síria de ter reprimido uma revolução, de ter usado armas químicas contra a sua própria população, de ter praticado massivamente a tortura e fome aos seus oponentes. Acima de tudo, trava qualquer iniciativa de paz, de modo a permitir que a NATO e o Conselho de Cooperação do Golfo tenham o regime derrubado por mercenários estrangeiros, neste caso, pelas organizações terroristas da Al-Qaeda e do Daesh.

Para lembrar:

– Desde 2005, o grupo responsável pela preparação da guerra na Síria é liderado pelo diplomata norte-americano Jeffrey Feltman, assistido pelo académico alemão Volker Perthes.
– Em 2005,  Feltman organizou o assassinato de Rafik Hariri (porque a segurança do Líbano tinha sido assegurada pela Síria); em 2006, organizou a guerra de Israel contra o Líbano (porque Hezbollah foi então armado pela Síria); em 2011, liderou a guerra da 4ª geração a partir do Departamento de Estado; desde 2012, tenta a partir das Nações Unidas, da qual se tornou o número 2, que a guerra da Síria dure enquanto os jihadistas alcançam a vitória.

Perthes associou-se a Feltman e ao grupo privado Stratfor para influenciar a política alemã sobre o Médio Oriente. Em 2008, apresentou a proposta de mudança de regime de Damasco ao Grupo Bilderberg. Em 2011, convenceu o governo de Merkel a apoiar a Irmandade Muçulmana durante a «Primavera árabe» (Já diz o ditado, quem semeia ventos colhe tempestades – Ndt). Em 2012, presidiu um grupo de trabalho para preparar o novo regime sírio e, em seguida, elaborou um plano de capitulação total e incondicional para a Síria. Hoje, está a cargo das negociações de paz da ONU em Genebra.

Documentos anexos

The Day After Project, August 2012
(PDF – 1.1 Mo)

The Day After. Supporting a Democratic Transition in Syria, Usip & SWP, August 2012.
(PDF – 135.3 ko)

 

[1Segundo as Nações Unidas, Rafic Hariri foi assassinado por uma carga explosiva colocada numa camioneta. Ora, isso é impossível, tanto tendo em vista os danos provocados na cena do crime, como, sobretudo, pelos ferimentos das vítimas. Eu demonstrei que este atentado só pode ter sido realizado com o uso de uma arma nova, a qual só a Alemanha dispunha na época. Como resposta ao meu trabalho, o Tribunal Especial para o Líbano realizou, com custos caríssimos, uma reconstituição do atentado numa base militar francesa, onde a cena do crime foi totalmente reconstituída. Mas, no entanto, o resultado desta reconstituição jamais veio a público e persiste-se na absurda tese da camioneta armadilhada. «Révélations sur l’assassinat de Rafiq Hariri»  por Thierry Meyssan, Оdnako (Rússia), Réseau Voltaire, 29 Novembro 2010.  Traduzido aqui

[2] Par exemple : « Syria : It’s all over, but it could be messy », Volker Perthes, International Herald Tribune, October 5, 2005, p. 6.

[3] O Arab Reform Initiative é um grupo de trabalho que reúne peritos de vários outros grupos de trabalho e académicos. É uma iniciativa desenvolvida por Henry Siegman (antigo director do American Jewish Congress) em nome do U.S./Middle East Project (USMEP) e visa promover personalidades árabes favoráveis a Telavive.

[4] « Ce que vous ignorez sur le Groupe de Bilderberg », par Thierry Meyssan, Komsomolskaïa Pravda (Russie), Réseau Voltaire, 9 avril 2011.

[5] “WikiLeaks : US advised to sabotage Iran nuclear sites by German thinktank”, Josh Halliday, The Guardian, September 18, 2011.

[6] “Is Assad Capable of Reform ?”, Volker Perthes, The New York Times, March 30, 2011.

[7] « Küresel Enerji Stratejileri Simülasyonu : Türkiye’nin Gelecek 10 Yılı », Tusaid, 6 Ekim 2011.

[8] “Draft Geneva Communique Implementation Framework”, “Confidence Building Measures”, “Essential Principles”, “Representativness and Inclusivity”, “The Preparatory Phase”, “The Transitional Governing Body”, “The Joint Military Council and Ceasefire Bodies”, “The Invitation to the International Community to Help Combat Terrorist Organizations”, “The Syrian National Council and Legislative Powers during the Trasition”, “Transitional Justice”, “Local Governance”, “Preservation and Reform of State Institutions”, “Explanatory Memorandum”, “Key Principles revealed during Consultations with Syrian Stake-holders”, “Thematic Groups”, documents et annexes présentés par Jeffrey Feltman, non publiés.

[9] « Les “Amis de la Syrie” se partagent l’économie syrienne avant de l’avoir conquise », par German Foreign Policy, Horizons et débats (Suisse) , Réseau Voltaire, 14 juin 2012.

[10] L’Italien Staffan De Mistura est l’adjoint de Feltman chargé de la Syrie. Il succède à l’Algérien Lakhdar Brahimi qui était par ailleurs un des employeurs de Bassma Kodmani à l’Arab Reform Initiative. « Le Plan Brahimi », par Thierry Meyssan, El-Ekhbar (Algérie) , Réseau Voltaire, 28 août 2012.

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This entry was posted on 30 de Setembro de 2017 by in Alemanha, Bilderberg, Irmandade Muçulmana, Nato, ONU, Síria, USA and tagged , , .

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