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França: Presidente Macron desprezado pela Arábia Saudita

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Tradução do artigo Le camouflet infligé au président Macron en Arabie saoudite

de Thierry Meyssan

O presidente Emmanuel Macron sofreu uma afronta pública sem precedentes, ao ter organizado rapidamente uma viagem à Arábia Saudita para trazer de volta o primeiro-ministro libanês que estava retido lá com sua família. Embora a imprensa francesa e ocidental tenha feito tudo para esconder alguns dos eventos, a opinião pública árabe só pode notar a dramática perda de prestígio e influência da França no Oriente Médio.

| Damasco (Síria) 14 de Novembro de 2017

Este artigo é a continuação do artigo : «Golpe Palaciano em Riade», de  Thierry Meyssan, Rede Voltaire, de 7 de Novembro de 2017.

Nota do tradutor: «MBS» corresponde à forma abreviada que Thierry Meyssan usou para se referir ao príncipe herdeiro saudita Mohammad bin Salman, filho do Rei Salman

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O presidente Macron (acima com Mohammad bin Salman) (príncipe herdeiro da Arábia Saudita – Ndt) não é o único responsável pela humilhação que sofreu pelo rei da Arábia Saudita. Ele está a pagar tanto pelos crimes dos seus predecessores como pela sua própria incapacidade de determinar uma nova política para o Oriente Médio.

A renúncia do primeiro-ministro sunita libanês (Saad Hariri – Ndt) e o seu discurso televisivo anti-persa não provocaram o confronto esperado no seu país. Pior, foi o seu adversário de sempre, o xiita Sayyed Hassan Nasrallah, secretário-geral do Hezbollah, a defendê-lo ao revelar que Saad estava prisioneiro em Riade e ao denunciar  a interferência saudita na política libanesa.

Em algumas horas, a comunidade religiosa de Saad Hariri começou a preocupar-se com o seu líder. O presidente da República do Líbano, o cristão Michel Aoun, denunciou o “rapto” e recusou  a  demissão do seu Primeiro-Ministro, até que se apresentasse pessoalmente.

Enquanto alguns líderes do «Movimento do Futuro», partido político do Sr. Hariri, garantiram que ele era livre e estava de boa saúde, os libaneses reclamavam em bloco pela sua libertação.

Todos entenderam que a breve viagem de Saad Hariri aos Emirados Árabes Unidos e as suas poucas aparições públicas, não passavam de poeira atirada para os olhos, a sua família estava refém no hotel Ritz-Carlton em Riade, junta com centenas de personalidades presas. Da mesma forma, todos perceberam que o presidente Michel Aoun ao recusar por enquanto a renúncia do seu primeiro-ministro, actuava como estadista e conservava o único meio de pressão para eventualmente obter a sua libertação.

A França é o antigo poder colonial do Líbano que ocupou até a Segunda Guerra Mundial. Hoje, usa usa o Líbano como uma antena no Levante e como um paraíso fiscal. Nos últimos trinta anos, personalidades libanesas têm estado envolvidas em todos os escândalos politico-financeiros ocorridos na França.

O presidente Emmanuel Macron, ao actuar como protector do Líbano, evocou a necessidade do regresso do primeiro-ministro libanês ao seu país.

Por acaso, a agenda de Macron, contemplava no dia 9 de Novembro, uma viagem aos  Emirados Árabes Unidos, para inaugurar o Louvre das Areias na sua capital, Abu Dhabi. Macron não podia deixar passar esta oportunidade para tomar a iniciativa.

Acontece que o Presidente Macron, que sucedeu a “Jacques Chirac, o árabe”, a “Nicolas Sarkozy, o catariano” e a “François Hollande, o  saudita”,  não perdeu a oportunidade durante a sua campanha eleitoral de expressar todo o mal que pensava de Doha (Capital do Catar – Ndt)  e de Riade (Capital da Arábia Saudita – Ndt). Embora não tenha demonstrado simpatia pelo Golfo, acabou por se aproximar por padrão, dos Emirados Árabes Unidos.

O Palácio do Eliseu tentou organizar uma paragem  a Emmanuel Macron em Riade para este trazer de volta Saad Hariri. Mas o rei Salman recusou receber o pequeno francês.

Do ponto de vista do Conselho de Cooperação do Golfo (isto é, de todos os Estados árabes da região), a França tem sido, nos últimos sete anos, um aliado confiável contra a Líbia e a Síria. Participou militarmente – em público ou em segredo – em todos os golpes contra estes dois países e forneceu o guarda-chuva diplomático e o discurso lenitivo necessários para essas agressões. No entanto, enquanto a Líbia está num caos e a Síria está, contra todas as probabilidades, no processo de conquistar a guerra, a França encontra-se desamparada e inerte. Emmanuel Macron, o novo anfitrião do Eliseu, não conhece nada sobre esta região do mundo, e balança entre o reconhecer da República síria num dia, e insultar o seu presidente eleito no dia seguinte.

Além disso, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos levaram a mal as declarações do presidente Macron, que apelavam a um apaziguamento com o Catar. Para eles, sabendo os esforços que começavam a fazer para romper com os jihadistas, é inaceitável tolerar o apoio de Doha aos terroristas.

A inauguração do “Louvre das areias” foi a ocasião para um belo discurso sobre a cultura que nos une; benefício que foi incluído no pacote de US $ 1 bilião entre os dois Estados. Uma vez terminada esta formalidade, o presidente Macron perguntou ao seu anfitrião, o xeque Mohammed Ben Zayed, o que estava a acontecer na vizinha Arábia Saudita e qual o destino de Saad Hariri.

Ao contrário dos beduínos da Arábia Saudita e do Catar, os «emiradenses» são um povo de  pecadores. Enquanto os primeiros viveram durante séculos apenas no deserto, o segundo, vagou pelos mares. Devido a esta peculiaridade, os emiradenses foram anexados durante a colonização britânica do Império indiano, ficando a depender directamente de Deli, não de Londres. Hoje eles investiram as suas receitas de petróleo na compra de cerca de sessenta portos em vinte e cinco países (incluindo Marselha na França, Roterdão nos Países Baixos, Londres e Southampton no Reino Unido). Este dispositivo permite aos seus serviços secretos fazerem entrar e sair o que quiserem nesses países, apesar dos controles aduaneiros locais; um serviço que eles sabem vender aos outros Estados. Graças às sanções dos EUA contra Teerão, o porto de Dubai tornou-se de facto a porta do Irão, que ganha grandes lucros por violar o embargo dos EUA. É por isso que Abu Dhabi tem um interesse económico vital em encorajar a briga árabe-persa, mesmo quando os Emirados reclamam que as ilhas de Tonb e Bou-Moussa, a seu ver, estão “ocupadas” pelo Irão.

Não é segredo que o xeque Mohammed Ben Zayed exerce uma forte ascendência sobre o príncipe herdeiro saudita «MBS». Então, o primeiro telefonou à frente do presidente Macron para o segundo para tentar em encontro.

O francês de 39 anos fez uma paragem em Ride quando regressava para casa. Foi recebido no aeroporto por  «MBS» (32) e partilhou lá uma refeição com ele.

Na noite de 4 para 5 de Novembro, «MBS», pôs um fim ao governo colegiado da Dinastia Saud e instaurou o poder pessoal do seu pai, o rei Salman. Para o fazer, mandou prender ou assassinar todos os líderes de todos os outros clãs da família, bem como os pregadores e Imãs a eles devotos, no total cerca de 2 400 personalidades. Os assessores políticos israelitas apresentaram esse golpe palaciano como uma operação anti-corrupção.

Ao contrário do que acreditava, o presidente francês  veio para nada. Não trouxe o primeiro-ministro libanês de volta nem se encontrou com ele. Pior, «MBS» acompanhou-o de volta ao seu avião, declarando que estava ciente das pesadas responsabilidades parisienses do presidente.

O insulto a Emmanuel Macron foi tão grosseiro que é difícil de entender – o presidente francês não foi recebido pelo seu homólogo, o rei da Arábia Saudita, muito embora nestes dias ele tenha concedido audiências até a personalidades do segundo plano.

Esta forma de grosseria, característica das maneiras da diplomacia árabe, não é apenas atribuível a «MBS», mas também ao xeque Mohammed Ben Zayedque sabia perfeitamente o que estava a fazer  quando enviou o jovem francês para ser humilhado em Riade.

Conclusão: ao não se adaptar imediatamente à reviravolta da Arábia Saudita, após o discurso antiterrorista de Donald Trump em Maio passado e, ao manter dois projectos activos ao mesmo tempo, a França colocou-se à margem na região. Os Emirados apreciam o Louvre e as corvetas da Marinha francesa, mas já não levam os franceses a sério.

Os sauditas lembram-se das palavras do candidato Macron contra eles e as do presidente Macron a favor do Catar, o actual patrocinador da Irmandade Muçulmana. Eles fizeram-no entender que não deveria interferir nem com os problemas do Golfo nem com a sucessão do trono dos Saud e, muito menos na querela contra o Irão e, especialmente, com os conflitos em torno do Líbano.

A França tornou-se num estranho no Oriente Médio.

 Thierry Meyssan

Actualização a 22.11.2017: O primeiro-ministro demissionário libanês anunciou que suspende a sua demissão, na sequência de um pedido do chefe de Estado Michael Aoun.

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This entry was posted on 22 de Novembro de 2017 by in Arábia Saudita, Emmanuel Macron, França, Libano, Medio Oriente Alargado and tagged , , , , .

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