A Arte da Omissao

Mais uma teoria de conspiração que cai por terra. Em apenas dois meses, as armas foram da CIA para o ISIS

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Tradução do artigo  Weapons Went from the CIA to ISIS in Less Than Two Months

Zero Hedge , 15 de Dezembro de 2017

Em 2013, os principais meios de comunicação diziam:Teóricos da Conspiração!” 

Os mesmos em 2017 disseram: O ISIS tem um míssil poderoso, que a CIA comprou!

Os principais meios de comunicação como o USA Today, Reuters e Buzzfeed estão anos atrasados, quando apresentaram as histórias “rompentes” e “exclusivas” que detalham como é que um vasto arsenal de armas enviado para a Síria pela CIA em cooperação com os aliados dos EUA alimentou o rápido crescimento do ISIS.

A história da Buzzfeed intitulada Blowback: ISIS Got A Powerful Missile The CIA Secretly Bought In Bulgaria começa por referir um novo relatório sobre como o ISIS construiu o seu arsenal e destaca como os EUA compraram munições destinadas a rebeldes sírios que acabaram nas mãos de o grupo terrorista.

O estudo original que a Buzzfeed e outros meios de comunicação fazem referência,  tem origem numa organização independente de pesquisa de armas sediada no Reino Unido chamada  Conflict Armament Research (CAR), a qual teve uma equipe de especialistas em armas e munições no terreno no Oriente Médio durante anos a examinar armas e equipamentos recuperado do ISIS e de outros grupos terroristas no Iraque e na Síria. Através dos números de série, marcas de embarque das caixas e todos os dados legais disponíveis, os especialistas da CAR começaram a descobrir que, desde 2013 a 2014, muitos dos sistemas avançados de armas do Estado islâmico, bem como as armas pequenas, eram claramente originárias dos Estados Unidos e do Ocidente.

De acordo com o relatório do CAR, “o fornecimento de material para o conflito sírio com origem estrangeira – em particular dos Estados Unidos e Arábia Saudita – indirectamente permitiram que o ISIS obtivesse quantidades substanciais de armas anti-blindagem. Nelas se incluem ATGMs (míssil guiado anti tanque -Ndt) e várias variedades de foguetes com ogivas tandem, projectadas para derrotar armaduras reactivas modernas.”

fonte: Conflict Armament Research

Um míssil PG-9 modificado para caber num Modelo 2 de um sistema de canhão sem recuo. Produzido em 2016 na Roménia, exportado para os Estados Unidos e documentado em Mosul em Setembro de 2017. (Fonte: Conflict Armament Research)

O estudo revela que e num exemplo notável, um carregamento de armas com sistemas avançados de mísseis mudou de mãos só em dois meses: da inteligência dos EUA para as mãos de grupos  sírios “moderados” e depois para o ISIS. Embora o relatório de agora esteja a suscitar choque e confusão entre os especialistas, o mesmo grupo de pesquisa de armas, ao longo dos últimos anos publicou descobertas e conclusões similares.

Por exemplo, um relatório anterior de 2014 da Conflict Armament Research relata a descoberta de que foguetes antitanque de origem balcânica recuperados de combatentes do ISIS pareciam idênticos aos embarcados em 2013 para as forças rebeldes sírias, fazendo parte de um programa da CIA.

E as publicações condenatórias do CAR que apresentam estes dados empíricos tão inconvenientes e consistentes ao longo de anos, foram no entanto amplamente ignoradas e suprimidas por analistas e principais meios de comunicação, que estavam muito ocupados a serem líderes de torcida no apoio dos EUA aos “rebeldes” sírios no  papel de revolucionários românticos na sua luta para derrubar Assad e o seu governo nacionalista secular.

Sim, é uma história já antiga se tem lido o  Zero Hedge ou a profusão de sites independentes, que há muito vêm a relatar a verdade sobre a encoberta “guerra suja na Síria“, quase desde o seu começo.

Mesmo que de repente seja aceitável e elegante admitir – como fez a BBC numa manchete recente (“The Jihadis You Pay For“) –  que um programa secreto dos EUA e da Arábia na Síria alimentaram o surgimento do ISIS e de vários outros grupos terroristas ligados à Al Qaeda, deve ser lembrado que há muito pouco tempo atrás, os principais órgãos de comunicação ridicularizaram abertamente analistas e escritores que se atreveram a estabelecer a ligação entre os vastos programas ocidentais de ajuda aos rebeldes da Síria e os insurgentes da al-Qaeda que claramente saíram a ganhar.

Quando as notícias acerca do relatório da DIA de 2012, que descrevia o então chamado principado salafista” ou estado islâmico ” como um bem estratégico ou amortecedor na Síria e que poderia ser usado pela coligação ocidentalpara isolar o sírio regime ”, os meios de comunicação norte-americanos da época descartaram o que foi rotulado de teoria da conspiração ”, apesar da grande evidência presente no relatório da agência de inteligência militar dos EUA.

Por exemplo, o Daily Beast, zombou do que chamou “The ISIS Conspiracy Theory that Ate the Web” – catalogando  os que analisaram o documento da inteligência do Pentágono como lunáticos da extrema-direita e da extrema- esquerda.

Isso ocorreu ao mesmo tempo em que  o dito documento foi levado muito a sério e analisado em profundidade por alguns dos principais especialistas mundiais sobre Médio Oriente Médio e jornalistas de investigação em pontos de venda estrangeiros, como a London Review of Books, The Guardian, Der Spiegal, além da RT e Al Jazeera.

No entanto, agora e mais uma vez, a ” teoria da conspiração ” foi confirmada como uma “conspiração de facto”: o novo relatório da Conflict Armament Research desta semana é o resultado de uma investigação no terreno ao longo de três anos e que compilou as descobertas de 40 mil itens militares recuperados do ISIS entre os anos de 2014 a 2017. As suas conclusões são científicas, exaustivas e irrefutáveis.

O extenso relatório confirma o que o antigo espião do MI6 e diplomata britânico Alastair Crooke declarou um dia – que a CIA estabeleceu uma base do tipo “jihadista Wal-Mart” – à qual o ISIS teve acesso imediato e fácil. Crooke observou ainda que o programa de armas foi criado com a ” negação plausível” em mente, o que permitiria que os seus patrocinadores da inteligência americanos fossem protegidos de qualquer futuro processo judicial ou constrangimento público. Crooke referiu numa entrevista da BBC em 2015 que “o Ocidente realmente não entrega as armas à al-Qaida, e muito menos ao ISIS …, mas o sistema que eles construíram leva precisamente a  esse fim“.

Essas considerações habilitam que  a Buzzfeed, USA Today e outras relatem as descobertas sobra a bomba, e continuem a desvalorizar o significado  ao enfatizarem coisas como “fraquezas na supervisão e regulação“, ao mesmo tempo que destacam a natureza “acidental” dos mísseis fornecidos pelos EUA ” que acabam  ” nas mãos dos terroristas do ISIS. (nada de novo. Os agentes a trabalharem para quem tem sangue sírio nas  mãos: acção tão bem conhecida de branqueamento de responsabilidades – Ndt)

A cobertura da Buzzfeed sobre o relatório de armas do CAR está resumida na introdução do artigo:

De acordo com informações publicadas na quinta-feira por um grupo de monitorização de armas de nome Conflict Armament Research (CAR), um míssil guiado antitanque acabou nas mãos dos terroristas do ISIS a menos de dois meses depois do governo dos Estados Unidos o ter comprado no final de 2015 – destacando as fraquezas na supervisão e regulação dos programas de armas secretas da América.

Embora o relatório diga que o míssil foi comprado pelo Exército dos EUA através de uma empresa contratada, a BuzzFeed News teve conhecimento que o cliente real parece ter sido a CIA. Tratava-se parte de uma operação secreta da agência de espionagem para armar rebeldes na Síria que lutam contra as forças do presidente sírio, Bashar al-Assad. De acordo com o relatório, o míssil acabou nas mãos dos combatentes do ISIS no Iraque.

A CIA recusou-se a comentar o programa de apoio aos rebeldes sírios da era Obama, programa cancelado pelo presidente Trump em Julho. O Pentágono não forneceu informações a tempo da publicação.

O míssil é uma peça de um quebra-cabeça crítico que só agora está a ser resolvido, com o ISIS em fuga: como é que o enorme grupo de terror armou a sua máquina de guerra? CAR passou três anos a rastrear armas do ISIS recuperadas por forças iraquianas, sírias e curdas – e descobriram que o que aconteceu com o míssil não foi uma aberração. Na verdade, o grupo terrorista conseguiu desviar “quantidades substanciais de munição anti armadura” das armas fornecidas às forças de oposição sírias pelos EUA ou pela Arábia Saudita.

O míssil antitanque recuperado do ISIS em Fevereiro de 2016. Tem origem no Exército dos EUA em Dezembro de 2015. (Fonte: Conflicts Armament Research, “Armas do Estado Islâmico” via Buzzfeed)

Mas alguns observadores astutos podem notar o significado da linha de tempo relacionada com a compra da CIA de um dos mísseis antitanque examinados: “Um míssil antitanque guiado acabou nas mãos dos terroristas do ISIS a menos de dois meses após o governo dos EUA o ter comprado no final de 2015.  

Como destacámos anteriormente, a equipe dos especialistas do CAR em Setembro de 2014 documentou a tendência das armas da CIA entregues no campo de batalha sírio irem parar nas mãos do  ISIS. Além deste estudo de 2014, um fluxo aparentemente interminável de artigos publicados aos longo dos anos nos media internacionais e independentes, tem evidenciado a realidade do ISIS a crescer e a prosperar com as remessas das armas secretas oriundas do Ocidente  e Golfo.

Isso significa que a CIA e os analistas do governo sabiam muito bem e em tempo real para onde as armas iam, mas continuaram com o programa de qualquer maneira.

Tal como o antigo chefe da inteligência do Pentágono Michael Flynn disse a Mehdi Hasan da Al Jazeera numa entrevista surpreendentemente franca no Verão de 2015 (significativamente antes de Flynn fazer parte da campanha Trump): o patrocínio da Casa Branca a jihadistas radicais (que emergiriam como o ISIS e al-Nusra / HTS) contra o governo sírio foi certamente “uma decisão intencional”.

 

Foi deste modo que o general Flynn no Verão de 2015, ao falar como oficial de inteligência militar aposentado recentemente, advertiu em termos inequívocos que as armas fornecidas pelos EUA na Síria iam para o ISISal-Qaeda e outros jihadistas. Isto era tão bem conhecido na altura, que pode ser declarado abertamente por um alto oficial aposentado num grande programa internacional. Ainda em 2015,  Flynn também disse algo semelhante a Seymour Hersh e ao New York Times em 2015.

Mas o que é que a CIA e outras agências de inteligência aliadas fizeram? Continuaram a armar a insurreição jihadista na Síria nos seus esforços para expulsar Assad. Esta foi, de facto, “uma decisão deliberada” tal como Flynn afirmou e não meras “fraquezas de supervisão e regulação”, como a Buzzfeed nos queria fazer acreditar.


A Conflict Armament Research foi criada em 2011 e  com o fim de informar e apoiar uma gestão e controlo eficazes de armas, apresenta evidências únicas sobre o fornecimento de armas em conflitos armados. As equipes de investigação do CAR trabalham no terreno em conflitos armados activos. As equipes documentam armas em uso e rastreiam-nas de volta até  as suas origens através das cadeias de abastecimento. As equipes investigam armas numa variedade de situações relacionadas com o conflito – sejam recuperadas pelas forças de segurança do Estado, entregues na cessação de hostilidades, escondidas e em cache ou mantidas por forças insurgentes. (fonte)

A CAR está empenhada em trabalhar para entender a paisagem dos fluxos de armas ilícitas e para mitigar o fornecimento de armas convencionais a utilizadores não autorizados, incluindo forças insurgentes e terroristas. Ao agregarmos os dados sobre milhares de transferências individuais de armas, a CAR fornece informações baseadas em evidências necessárias para desenvolver a  gestão e o controlo efectivos de armas. (fonte)

O relatório da investigação de três anos no Iraque e na Síria (WEAPONS OF THE ISLAMIC STATE), (as armas do  ISIS em português), pode ser lido / baixado aqui. É o resultado de mais de três anos de investigação de campo nas cadeias de fornecimento do Estado islâmico. Ele apresenta uma análise de mais de 40 mil itens recuperados do grupo entre 2014 e 2017. Esses itens abrangem armas, munições e componentes rastreáveis e precursores químicos utilizados pelo grupo para fabricar dispositivos explosivos improvisados.

O de 2014 pode ser lido / baixado aqui.

(fonte)

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2 comments on “Mais uma teoria de conspiração que cai por terra. Em apenas dois meses, as armas foram da CIA para o ISIS

  1. voza0db
    18 de Dezembro de 2017

    Se fossem só os EUA a ajudar à destruição da Síria!
    A Europa fez igualmente a sua parte…

    Gostar

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This entry was posted on 18 de Dezembro de 2017 by in Arábia Saudita, Israel, Libano, Medio Oriente Alargado and tagged , , .

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