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Estados Unidos: A Estratégia Militar de Donald Trump

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Destacando-se da propaganda diária sobre Donald Trump, Thierry Meyssan analisou a sua Estratégia para a Segurança Nacional dos Estados Unidos e fornece-nos o seu parecer de especialista em política externa, que certamente não verão em nenhum canal informativo

 

Tradução do artigo La Stratégie militaire de Donald Trump

de Thierry Meyssan

Em ruptura com os seus predecessores, a Estratégia para a Segurança Nacional do Presidente Donald Trump abandona a gestão do mundo e estabelece o caminho para a recuperação económica e social dos EUA. Este projecto, perfeitamente coerente, representa uma mudança brutal que o seu gabinete terá que impor a toda a administração.

| Damasco (Síria)

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Durante os mandatos de George Bush filho e Barack Obama, os documentos que descrevem a Estratégia da Segurança Nacional basearam-se no pressuposto de que os Estados Unidos eram a única superpotência do mundo. Eles lideraram a “guerra sem fim” do Almirante Arthur Cebrowski, isto é, destruir sistematicamente qualquer organização política nas áreas já instáveis do planeta, começando pelo “Oriente Médio alargado”. Os presidentes indicaram os seus projectos a cada região do mundo. Os Comandantes do Combate Unificado tiveram que aplicar apenas estas instruções.

A Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump quebra quase completamente com essa literatura. Conserva alguns elementos mitológicos dos mandatos anteriores mas acima de tudo tenta reposicionar os Estados Unidos como a República de 1791 (ou seja, no momento do compromisso da Declaração de Direitos) e não mais como o Império que se tornaram após 11 de Setembro de 2001.

O papel da Casa Branca, da sua diplomacia e das suas forças armadas não são mais para dar ordens ao mundo mas para proteger “os interesses do povo americano”.

Desde a sua introdução, Donald Trump distinguiu-se dos seus predecessores ao denunciar as políticas de “mudança de regimes” e da “revolução democrática mundial” adoptadas por Ronald Reagan e conduzidas em sucessivas administrações por altos funcionários trotskistas. Ele reafirma a clássica realpolitik, a de Henry Kissinger, por exemplo, baseada em “nações soberanas”.

No entanto, o leitor deve ter em mente que algumas agências intergovernamentais “Cinco Olhos” (da Austrália, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Reino Unido), bem como a Fundação Nacional para a Democracia, continuam lideradas por trotskistas.

Donald Trump distingue três tipos de dificuldades que o país enfrenta:

  • A rivalidade da Rússia e da China
  •  A oposição dos “Estados desonesto” (Coreia do Norte e Irão) nas suas respectivas regiões;
  • O desafio ao direito internacional levado a cabo por movimentos jihadistas e organizações criminosas transnacionais.

Embora ele também veja os Estados Unidos como a encarnação do bem, ao contrário de seus predecessores, ele não demoniza os rivais, adversários e inimigos, mas tenta compreendê-los.

Ele retoma então ao seu slogan “Primeiro a América!” para o tornar a sua base filosófica. Historicamente, esta fórmula permanece associada ao apoio ao nazismo, mas não era o seu significado original. Inicialmente, tratou-se de uma ruptura com a política atlantista de Roosevelt: a aliança com o Império Britânico para juntos governarem o mundo.

O leitor lembra-se que o primeiro gabinete da administração Obama concedeu um lugar desproporcional aos membros da Sociedade dos Peregrinos (sociedade sem nenhuma relação com a Sociedade do Monte-Peregrino), isto é, do clube muito privado presidido pela rainha Elizabeth II. Foi esse grupo que liderou a crise pós-financeira de 2008.

Para realizar esta política de retorno aos princípios republicanos de 1791 e à independência dos interesses financeiros britânicos, Donald Trump coloca quatro pilares:

  • A protecção do povo americano, sua terra natal e seu modo de vida;
  • A prosperidade dos Estados Unidos;
  • O poder dos seus exércitos;
  • O desenvolvimento da sua influência.

Ele não idealiza a sua estratégia contra os seus rivais, oponentes e inimigos, mas de acordo com os seus ideais republicano e independentista.

Para evitar mal-entendidos, ele disse que, embora acredite que os Estados Unidos são um exemplo para o mundo, não é nem possível nem desejável impor o seu modo de vida aos outros; especialmente porque não pode ser considerado como “o resultado inevitável do progresso”. Ele não concebe as relações internacionais como os Estados Unidos a reinarem no mundo, mas como a busca de uma “cooperação recíproca” com seus parceiros.

Os quatro pilares da doutrina da segurança nacional “Primeiro a América”

  • A protecção do povo dos Estados Unidos pressupõe acima de tudo, a restauração das fronteiras (terrestres, aéreas, marítimas, espaciais e ciber espaciais) destruídas progressivamente pelos globalistas.

Essas fronteiras visam neutralizar o uso de armas de destruição em massa por grupos terroristas e criminosos e também conterem pandemias e prevenir a entrada de drogas ou imigrantes ilegais. Sobre o tema das fronteiras cibernéticas, Donald Trump observa a necessidade de garantir segurança da Internet, priorizando a segurança nacional, a energia, os bancos, a saúde, as comunicações e os transportes. Mas tudo isso continua num campo bastante teórico.

Desde Richard Nixon que a luta contra a droga era selectiva, não visava secar o fluxo mas dirigi-lo para certas minorias étnicas.

Donald Trump responde com uma nova necessidade. Consciente do colapso da expectativa de vida que afecta exclusivamente os homens brancos sob Barack Obama, do desespero que se seguiu e da epidemia dos opióides que provocou, ele considera a luta contra os cartéis como uma questão de sobrevivência nacional.

Em relação à luta contra o terrorismo, não está claro se, após a destruição do califado, ele vai evoca quer os “lobos solitários” que continuam a luta após a derrota final, como foi o caso dos grupos Waffen SS após a queda do Reich, quer o mantimento do dispositivo britânico do jihadismo.

Se a segunda hipótese é a certa, tratar-se-ia de um recuo nítido em relação às suas declarações de intenção durante a campanha eleitoral e aos primeiros meses do seu mandato. Convém que seja esclarecido como as relações entre Washington e Londres evoluíram, bem como as consequências dessa mudança na gestão da NATO.

Seja como for, há uma passagem estranha no texto que afirma: “Os Estados Unidos trabalharão com seus aliados e parceiros para dissuadir e perturbar outros grupos que ameaçam a pátria – incluindo grupos patrocinados pelo Irão, como o Hezbolla libanês”.

Para todas as acções antiterroristas, Donald Trump considera alianças ocasionais com outros poderes, incluindo a Rússia e a China.

Por fim, em relação à resiliência dos Estados Unidos, ele valida o programa de “Continuidade do Governo”, apesar de esse sistema ter sido o beneficiário do golpe de Estado do 11 de Setembro. No entanto, diz que os cidadãos comprometidos e informados são a base desse sistema, o que parece excluir a reedição de tal evento.

  • Em relação à prosperidade dos Estados Unidos, condição para o desenvolvimento das suas capacidades de Defesa, Donald Trump é um campeão do “sonho americano”, do “Estado mínimo” e da teoria do “escoamento da riqueza” do topo para baixo.

Concede portanto uma economia baseada no livre comércio e não na «financeirização». Ao Inverter a ideia comum de que o comércio livre foi um instrumento do imperialismo anglo-saxão, ele afirma que é apenas equitativo para os primeiros actores a longo prazo se os novos aceitarem as regras. Isso salienta que vários Estados – incluindo a China – beneficiam deste sistema sem nunca terem pretendido adoptar os seus valores.

É sobre esta base – e não na análise do surgimento de uma classe transnacional de super-ricos – que ele se baseia quando denuncia acordos comerciais multilaterais.

Ele continua a anunciar a desregulação de todos os sectores onde a intervenção do Estado não é necessária. Ao mesmo tempo, planifica a luta contra todas as intervenções de Estados estrangeiros e suas empresas nacionalizadas susceptíveis de distorcer as trocas comerciais equitativas com os Estados Unidos.

Ele pretende desenvolver pesquisas teóricas e suas aplicações técnicas e apoiar as invenções e inovações. Para tal, prevê condições de imigração especiais e vantajosas a fim de promover a «fuga de cérebros» para os Estados Unidos. Considerando o conhecimento adquirido não como uma forma de cobrar uma taxa na economia global através de patentes mas como motor da economia dos EUA, ele pretende criar um arquivo de Segurança Nacional dessas técnicas e protegê-las para manter sua liderança.

Finalmente, no que diz respeito ao acesso a fontes de energia, ele observa que pela primeira vez os Estados Unidos são auto-suficientes. Ele adverte contra as políticas iniciadas em nome da luta contra o aquecimento global que envolvem a limitação do uso da energia. Donald Trump não trata aqui da financeirização da ecologia, mas claramente coloca uma pedra no jardim da França, promotor da “ecologização das finanças”. Ao colocar esta questão num contexto mais geral, ele afirma que os Estados Unidos apoiarão os Estados vítimas de chantagem da energia.

  • Ao afirmar que mesmo que os Estados Unidos não sejam mais a única superpotência, continuam a ser uma potência dominante, ele representa o objectivo central da manutenção da segurança desta preeminência militar, de acordo com o ditado romano Si vis pacem, para bellum [1]. (Se queres a paz, prepara a guerra – Ndt)

Ele observa primeiro que ” a China procura excluir os Estados Unidos da região do Indo-Pacífico, para ampliar o alcance do seu modelo económico liderado pelo Estado e para reorganizar a região em seu proveito”. Segundo ele, Pequim está no processo de adquirir as segundas capacidades militares no mundo (sob a autoridade do general Xi Jinping) com base no conhecimento dos Estados Unidos.

Por sua vez, “a Rússia busca restaurar o seu estatuto de grande potência e estabelecer esferas de influência às suas fronteiras”. Para isso, “tenta enfraquecer a influência dos Estados Unidos no mundo e separá-los dos seus aliados e parceiros”. Ele vê a NATO e a União Europeia como ameaças. Esta é a primeira análise dos objectivos e meios dos rivais dos Estados Unidos. Ao contrário da “Doutrina Wolfowitz“, a Casa Branca já não considera a União Europeia como concorrente, mas como o ramo civil da NATO.

Ao romper com a estratégia da sabotagem económica à União Europeia de George Bush pai e Bill Clinton, Donald Trump coloca a possibilidade de cooperar com rivais (que são agora a Rússia e a China), mas apenas “numa posição de força “.

O período actual vê o retorno da competição militar, desta vez a três. Ao conhecer a tendência dos militares de se prepararem com base na guerra anterior e não imaginarem a próxima, é necessário repensar a organização e a dotação dos exércitos, tendo em mente que os rivais se posicionarão nas áreas que escolherem.

Observa-se que não é neste capítulo que Donald Trump evoca o calcanhar de Aquiles do Pentágono, mas muito antes texto. É na sua introdução, no momento em que o leitor é absorvido por considerações filosóficas que ele mencionou as novas armas russas e, em particular, a sua capacidade de inibir os comandos e controlos da NATO.

O Pentágono deve renovar o seu arsenal, tanto em quantidade como em qualidade. Deve abandonar a ilusão de que a sua superioridade tecnológica (na verdade, ultrapassada face à da Rússia) poderia superar a sua inferioridade em número de homens. Segue-se então um longo estudo dos domínios do armamento, incluindo o nuclear, para se modernizar.

Donald Trump pretende inverter o actual funcionamento da indústria da Defesa que tenta vender os seus produtos ao Estado federal. Ele quer que seja O Estado federal a lançar ofertas e que os industriais atendam às suas novas necessidades. Hoje, a indústria da Defesa já não tem os engenheiros necessários para realizar novos projectos. A falha do F-35 é o exemplo mais marcante. A mudança que o presidente pede pressupõe a organização anteriormente referida da “fuga de cérebros” para os Estados Unidos.

No campo dos serviços secretos, ele usa as teorias do seu antigo conselheiro de segurança nacional, o general Michaël Flynn. Ele quer reposicionar não apenas a Defense Intelligence Agency (DIA) mas toda a «comunidade de Inteligência».

O objectivo não é mais localizar a qualquer momento um líder terrorista mas poder antecipar as evoluções estratégicas dos seus rivais, adversários e inimigos. Trata-se de abandonar a obsessão do GPS e dos “gadgets” de alta tecnologia e regressar à análise.

Por fim ele vê o Departamento de Estado como uma ferramenta para criar um ambiente positivo para o seu país, incluindo os seus rivais. Não a maneira de estender os interesses das multinacionais sob George Bush pai e Bill Clinton, nem o organizador do Império sob Bush filho e Barack Obama. Os diplomatas dos EUA devem recuperar alguma habilidade política.

O capítulo sobre a influência dos EUA explica o fim da “globalização” do “modo de vida americano”. Os Estados Unidos não tentarão impor seus valores aos outros. Eles tratam todos os povos igualmente e valorizam aqueles que respeitam o estado de direito.

  • O capítulo consagrado à influência dos EUA explicita o fim da “globalização” do “modo de vida americano”. Os Estados Unidos não tentarão impor seus valores aos outros. Eles tratam todos os povos igualmente e valorizam aqueles que respeitam o Estado de Direito.

A fim de incentivar os países que desejam tornar-se parceiros mas que têm investimentos liderados pelo Estado, ele prevê oferecer-lhes alternativas que facilitem a reforma da sua economia.

No que diz respeito às organizações intergovernamentais, ele anunciou que recusará ceder a menor parte da soberania se tiver que partilhar com países que desafiam os princípios constitucionais dos EUA; uma referência directa ao Tribunal Penal Internacional, por exemplo. Não diz nada sobre a extraterritorialidade da justiça dos EUA que viola os princípios constitucionais de outros países.

Por fim e retomando a longa tradição do compromisso de 1791, ele afirma que os Estados Unidos continuarão a ajudar aqueles que lutam pela dignidade humana ou liberdade religiosa (não confundir com a liberdade de consciência).

Uma aplicação que resta definir

A Estratégia para a Segurança Nacional de Donald Trump estabelece princípios totalmente novos para reconstruir a economia e defender o país.
     Estratégia para a Segurança Nacional dos Estados Unidos da América, Casa Branca, 18 de Dezembro de 2017 (2MB, 68 páginas).

É só depois desta longa apresentação que Donald Trump aborda a aplicação regional da sua doutrina. Não é anunciada nenhuma novidade, excepto uma aliança com Austrália, Índia e Japão para conter a China e lutar contra a Coreia do Norte.

No máximo, ficamos a conhecer duas novas abordagens para o Oriente Médio. A experiência do Daesh mostrou que o principal problema não é a questão israelita, mas a ideologia jihadista. E o que Washington reprova no Irão é perpetuar o ciclo da violência, recusando-se a negociar.

Normalmente, o leitor entende que o Pentágono deve abandonar o projecto do Almirante Arthur Cebrowski que Donald Rumsfeld impôs no dia 11 de Setembro. A “guerra sem fim” acabou. A tensão não só não deve espalhar-se mais por todo o mundo, mas tem que diminuir no Oriente Médio alargado.

A doutrina sobre a Segurança Nacional de Donald Trump é extremamente construída, no plano histórico (vemos a influência do general Jim Mattis) e no campo filosófico (com o ex-assessor especial Steve Bannon). Ela baseia-se numa análise rigorosa dos desafios ao poder dos EUA (consistente com o trabalho do general H. R. McMaster). Ele valida os cortes no orçamento do Departamento de Estado (operado por Rex Tillerson). Ao contrário da crença comum dos jornalistas dos EUA, a administração Trump conseguiu uma síntese coerente que se destaca claramente das visões anteriores.

No entanto, a ausência de uma estratégia regional explícita atesta a escala da actual revolução em curso. Não há evidências de que os líderes militares apliquem esta nova filosofia nos seus respectivos campos. Especialmente desde que observámos, há alguns dias, a colusão entre as forças dos EUA e os jihadistas na Síria.

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This entry was posted on 15 de Janeiro de 2018 by in USA and tagged .

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