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ACORDEM

Eça de Queiroz e Aveiro – «O Solar dos Queiroses» – Um triste fim

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Apresento a seguir o desabafo do aveirense Jorge Campos Henriques, que ao longo de décadas assistiu às falsas promessas dos autarcas aveirenses, de criarem um espaço histórico de alguém que se considerou um filho de Aveiro, Eça de Queiroz.

 

Eça de Queiroz e Aveiro – «O Solar dos Queiroses» – Um triste fim

Regressado do Brasil, para onde partira acompanhando a família real em retirada após as Invasões Francesas, o então desembargador Joaquim José de Queiroz adquire em  5 de Novembro de 1822,  a chamada Quinta da Torre em Verdemilho. Construído o solar ali criou os seus seis filhos, ali viveu quase toda a sua vida e ali faleceu. Recebeu no solar os conspiradores da revolta liberal de 16 de Maio de 1828, um dos acontecimentos mais importantes e gloriosos para Aveiro. O solar foi, por diversas vezes, invadido pelas tropas absolutistas de D. Miguel na tentativa de o capturar e da obtenção de provas comprometedoras, sendo os seus bens sequestrados. Foi Joaquim José de Queiroz condenado à morte pela Alçada do Porto para que «com baraço e pregão, fosse conduzido pelas ruas públicas da cidade do Porto, e que num alto cadafalso, que ali seria levantado, de sorte que o seu castigo fosse visto de todo o povo, a quem tanto tinha escandalizado o seu horrorosíssimo delito, morresse de morte natural de garrote e depois de ser decepada a cabeça, desse infame, perverso e façanhoso Joaquim José de Queiroz, fosse o mesmo cadafalso com o seu corpo reduzido pelo fogo a cinzas, que seriam lançadas ao mar, para que dele e da sua memória não houvesse mais notícia». Referia ainda a sentença ter sido «[…] não só o mais atrevido e ousado conspirador, cabeça e principal autor dos tramas e maquinações que urdiram e prepararam o horroroso atentado». A fuga para o exílio evitou tão nefasto desfecho. O mesmo não aconteceria a outros revoltosos aveirenses que, condenados, foram enforcados na Praça Nova do Porto e as suas cabeças decepadas foram transportadas para Aveiro encimadas em postes que foram colocados em frente às suas habitações ou em locais públicos da cidade.

Joaquim José de Queiroz, um ilustre aveirense está, infelizmente, votado ao mais completo ostracismo. Foi Juiz de Fora, Desembargador, Deputado às Cortes da Nação, irmão rosa-cruz na loja maçónica na Quinta dos Santos Mártires, iniciou em Aveiro a revolta liberal de 16 de Maio de 1828, membro da Junta Provisória e Revolucionária do Porto, membro do Tribunal de Guerra e de Justiça, Fidalgo do Conselho de Sua Majestade, Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, Presidente da Relação de Lisboa e do Porto, Ministro e Secretário de Estado da Justiça e dos Assuntos Eclesiásticos.

Por aquele solar passou o seu neto o pequeno José Maria Eça de Queiroz após a morte, em Vila do Conde, de Ana Joaquina Leal de Barros, sua ama e madrinha de baptismo. Eça de Queiroz, mais tarde, retrataria o solar de seu avô no romance A Ilustre Casa de Ramires e o seu próprio avô como o liberal Gonçalo da Maia no seu mais importante  romance Os Maias

Depois da morte de Teodora Joaquina, em 30 de Novembro de 1855, viúva do Conselheiro Joaquim José de Queiroz, o solar ficaria ao abandono entrando em degradação. Após a morte de José Maria Almeida Teixeira de Queiroz, filho do Conselheiro e pai do romancista Eça de Queiroz, os bens são partilhados e o solar é vendido em hasta pública, em 6 de Novembro de 1904, por 600$000 réis a José Santos Capela, do Bonsucesso. Passou então por diversas utilizações e adulterações. Ali teve a sua sede e sala de espectáculos a Companhia Dramática Verdemilhense, funcionou uma carpintaria e um armazém de botijas de gás. O acrescento de um piso superior implicou a retirada do brasão de armas, de grandes dimensões, que hoje se mantém à guarda do Museu de Aveiro.

A ADERAV, em Maio de 1982, no seu «Boletim n.º 6»,  defendia já que “seria extremamente útil a recuperação deste imóvel”, considerando factos e figuras de Aveiro e da história de Portugal que lhe andam associadas. “Ali se justificará uma ‘memória’ alargada e aprofundada que, no essencial, possibilite a compreensão das épocas em que a família Queirós pontificou na região e marcou áreas da cultura e da política portuguesas, identificadas com essas duas figuras maiores”.

Face ao seu abandono, degradação e reconhecido valor histórico, as diferentes vereações, pós 25 de Abril (todas sem excepção), garantiram a sua recuperação. Assim, sob a Presidência do Dr. Girão Pereira e depois pelo Prof. Celso Santos, em frente do solar foi colocada uma placa  anunciando que os Serviços de Cultura da Câmara Municipal iriam proceder à recuperação da «Casa de Eça de Queiroz». Atitude estranha e absurda por não se compreender como é que a edilidade iria recuperar um imóvel que não lhe pertencia sendo propriedade de privados. A placa acabou retirada sem que nada tivesse sido feito.

O Diário de Aveiro de 14 de Setembro de 1997 intitulava: «Autarquia quer recuperar casa de Eça de Queirós» anunciando que o processo de recuperação do imóvel já estava concluído para ser transformado num espaço dedicado ao estudo e obra de Eça de Queiroz.

O executivo do Dr. Alberto Souto – decorriam no ano de 2000 as comemorações do Centenário do falecimento de Eça de Queiroz –  anuncia com pompa e circunstância a compra do imóvel e a sua transformação em museu, biblioteca e uma zona destinada para exposições e outros eventos culturais. A notícia, pela sua importância,  foi parangona não só nos jornais locais como nacionais. «Museu na casa de Eça em Verdemilho – Câmara de Aveiro chegou a acordo com empreiteiro que pretendia demolir o palacete do avô paterno do escritor» – Jornal de Notícias; «Biblioteca nasce na casa de Infância de Eça de Queirós»Público; «Aveiro salva Casa de Eça»Diário de Notícias   O próprio Boletim Municipal dá conhecimento do facto anunciando mesmo que a casa tinha sido comprada por dez mil contos. Afinal, tudo não passara de uma lamentável mentira porque nada fora comprado e nada viria a ser feito.

Em 18 de Março de 2007, o Jornal de Noticias intitula que «Antiga casa de Eça em Verdemilho degrada-se – Câmara que tem projecto de recuperação, mantém-se interessada na requalificação do edíficio», referindo, no interior da notícia,  que «Capão Filipe, vereador da cultura reafirma o interesse em preservar e requalificar a casa, mas fala numa ruptura de relações entre a autarquia e os donos no anterior mandato».

A notícia já  ultrapassa fronteiras. A Folha de S. Paulo na sua edição on-line de 16 de Março anuncia que «Cenário da obra de Eça de Queiroz pode virar ruínas», acrescentando que  «A prefeitura de Aveiro diz que tem há muitos anos o desejo de transformar a casa em um centro de estudos de Eça de Queiroz, tendo já um projeto elaborado. A idéia é de transformar a mansão em um museu, com uma sala de exposições, uma sala de leitura e um auditório, além de outras áreas de serviços de apoio, preservando a fachada». E continua: «O secretário municipal da Cultura, Capão Filipe, reafirma o interesse em preservar e restaurar a casa» e «Pretendemos também iniciar contatos com a administração central para encontrar parcerias que permitam a recuperação, disse à Lusa».

No executivo de Élio Maia é anunciado que «Casa de infância de Eça de Queirós é por fim da Câmara – edíficio foi doado à autarquia. Objectivo é recuperar o imóvel».

O Jornal de Noticias anuncia que «Câmara recupera casa de Eça para a Cultura». E de acordo com a vereadora Maria da Luz Nolasco, «deverá ter um auditório, sala de debates, centro de documentação, receber acervos e trabalhar em rede com entidades ligadas a estudos queirosianos, políticos e sociais».

A ADERAV congratulou-se com o acordo alcançado entre a Câmara de Aveiro e os proprietários para a cedência da casa da família de Eça de Queiroz em Verdemilho. salientando que “desde há décadas que vinha pugnando para que esta casa ou solar se não perdesse na memória dos aveirenses”.

Alfredo Campos Matos, reputado queirosiano, na sua qualidade de arquitecto oferece-se para, graciosamente, colaborar no projecto.

Mais uma vez os aveirenses foram enganados.

O executivo de Ribau Esteves, em Março de 2017, ano de eleições autárquicas, anuncia que o solar vai albergar um núcleo museológico. Em 2018, ganhas as eleições, as promessas feitas são rapidamente esquecidas e o camartelo entra em acção e destrói. Afinal só ficará uma descaraterizada fachada para memória futura e onde, de acordo com o divulgado será colocada uma «bolacha» com a cara de Eça de Queiroz igual às duas já colocadas no que, pomposamente, se entendeu designar como «Memorial a Eça de Queiroz».

Lisboa instalou a escultura ao Eça da autoria de Teixeira Lopes no espaço ajardinado do Largo do Barão de Quintela, Póvoa de Varzim tem o monumento a Eça de Queiroz, da autoria de Leopoldo de Almeida, em espaço nobre da Praça de Almada, nas Caldas da Rainha a sua estátua está no frondoso Parque da Rainha D. Leonor, em Canelas, Gaia, no Solar dos Condes de Resende, temos um Eça sentado no jardim à sombra das japoneiras  e em França, o seu busto, inaugurado pelo então Prefeito de Neuilly-sur-Seine, Nicolas Sarkozy, (onde Eça de Queiroz viveu e faleceu, enquanto consul de Portugal em Paris), ficou instalado na Avenida Charles de Gaulle. Pois em Aveiro entendeu-se que o melhor seria instalar o «Memorial a Eça de Queiroz» em plena EN 109 na chamada rotunda do Botafogo. O célebre romancista do «ecológico» romance A Cidade e as Serras vê-se agora numa rotunda por onde passam diariamente centenas ou milhares de poluentes viaturas automóveis a despejar-lhe para cima o seu monóxido de carbono. E como se isso não bastasse irá brevemente ter como vizinho um posto de abastecimento de combustíveis.

Eça de Queiroz o «filho de Aveiro, educado na Costa Nova, quase peixe da ria» e muito especialmente seu avô, o Conselheiro Joaquim José de Queiroz, não mereciam tal desfecho.

PS: Em sessão pública que teve lugar no Mercado Manuel Firmino, no dia da inauguração da Feira do Livro, na qual participou a Dr.ª Irene Fialho da Fundação Eça de Queiroz e contou com a presença do vereador com o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Aveiro, Dr. Miguel Capão Filipe, foi dito que o solar, que foi do Conselheiro Queiroz, iria ficar apenas pela sua fachada porque, entre outros motivos, «não havia nada para pôr lá dentro».

Durante muitos anos fui constituindo um acervo documental sobre Eça de Queiroz, que apesar dos elevados valores nele investido, me tinha disposto e comprometido a fazer a sua doação à Câmara Municipal de Aveiro, sem qualquer contrapartida, para que o mesmo pudesse integrar a biblioteca e o núcleo museológico a ser instalado num prometido e recuperado «Solar dos Queirozes» em Verdemilho.

Perante muitas falsas promessas, outras tantas mentiras e nenhumas expectativas quanto à recuperação do solar entendi, por bem, doar a totalidade do espólio à Câmara Municipal de Vila do Conde, minha terra natal, onde Eça de Queiroz foi baptizado e viveu os primeiros anos da sua infância. Estudados e catalogados esses documentos e objectos irão ocupar um espaço na casa onde viveu Antero de Quental e que  é propriedade da edilidade vilacondense. Não sei se o espólio é ou não muito valioso. Poderei apenas referir que do mesmo fazem parte 176 edições do romance Os Maias publicadas em 22 países (inclui todas as edições publicadas em Portugal desde a sua primeira edição em 1888), quase uma centena de edições do romance O Crime do Padre Amaro, a colecção completa da Revista de Portugal que Eça de Queiroz dirigiu entre 1889-1892 (comprada e por mim trazida do Brasil), fascículos originais de As Farpas, muitas centenas de títulos de bibliografia activa e passiva, centenas de documentos, dossiers, iconografia e audiovisuais relacionada com o escritor. Foram dezenas de caixas do espólio que cinco funcionários camarários tiveram de transportar em viatura pesada para Vila do Conde.

Com destaque de 1.ª página o Diário de Aveiro, na sua edição de 9 de Abril de 2013 anuncia: «Eça de Queirós: Aveiro ganha casa mas perde espólio». A notícia no seu interior (pág 2) faz uma descrição sumária do espólio e do seu destino e informa que «A vereadora Maria da Luz Nolasco tem “pena” que o acervo saia de Aveiro. Foi uma oportunidade perdida, reconheceu, acreditando porém, que será possível juntar outro material sobre o escritor, o seu avô e o liberalismo».

A 16 do mesmo mês, por e-mail, dou conhecimento à senhora vereadora com o pelouro da cultura,  que tinha à disposição da Câmara Municipal de Aveiro o meu acervo documental sobre o Conselheiro Joaquim José de Queiroz, sobre a revolta liberal de 16 de Maio de 1828 e uma pequena biblioteca sobre o liberalismo. Do meu propósito, o Diário de Aveiro, na 1.ª página da edição de 30 de Abril dá conhecimento que «Colecionador quer doar espólio à Câmara de Aveiro». Até à data, e cinco anos passados, não tive qualquer contacto nem qualquer manifestação de interesse em receber aquele acervo. Não o receberam e também já não o receberão. Acabou por ser oferecido ao Ephemera – Biblioteca e Arquivo de José Pacheco Pereira.

Revendo o que a autarquia (não) tem feito para inscrever Aveiro no roteiro queiroziano, sinto-me na obrigação de afirmar estar muito feliz e satisfeito por este meu espólio que reuni, com muito empenho durante muitos anos, não ter ficado em Aveiro e muito sensibilizado e agradecido a quem os quiz receber.

Jorge Campos Henriques

 

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