A Arte da Omissao

ACORDEM

A terrível destruição futura da “Bacia do Caribe”

nota: links dentro de «» e realce de frases com esta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo de Thierry Meyssan, L’effroyable destruction à venir du « Bassin des Caraïbes »

Enquanto o presidente Trump anunciava a retirada das tropas de combate dos EUA do “Oriente Médio alargado”, o Pentágono continua a implementar o plano de Rumsfeld-Cebrowski. Desta vez, trata-se de destruir os Estados da “Bacia do Caribe”. Não como nos anos 70, com o derrube dos chamados regimes “pró-soviéticos”, mas com a destruição de todas as estruturas estatais regionais, independentemente de serem amigos ou inimigos políticos. Thierry Meyssan observa a preparação desta nova série de guerras.

| Damasco (Síria)

 

Numa série de artigos anteriores, apresentámos o plano do «SouthCom» para provocar uma guerra entre os latino-americanos com o fim de destruir as estruturas estatais de todos os Estados da «Bacia do Caribe» [1].

[1] « Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – “Masterstroke », Admiral Kurt W. Tidd, Rede Voltaire, 23 de Fevereiro de 2018.

«Le « Coup de Maître » des États-Unis contre le Venezuela », de Stella Calloni, Traduction Maria Poumier. («Tradução do artigo em português»– Ndt)

 «Les États-Unis préparent une guerre entre latino-américains », de Thierry Meyssan, Rede Voltaire Voltaire, 11 Maio 2018. («Tradução do artigo em português»– Ndt)

Preparar tal guerra, que deve suceder aos conflitos do “Oriente Médio alargado” e que faz parte da estratégia de Rumsfeld-Cebrowski, leva uma década [2].

[2] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004.

« Le projet militaire des États-Unis pour le monde », de Thierry Meyssan, Haïti Liberté (Haïti) , Rede Voltaire 22 de Agosto de 2017 de . tradução deste artigo em português»- Ndt)

Após o período da desestabilização económica [3] e a preparação militar, a operação propriamente dita deve começar nos próximos anos, com um ataque à Venezuela do Brasil (apoiado por Israel), da Colômbia (aliado dos Estados Unidos) e Guiana (que é o mesmo que dizer o Reino Unido). Ataque esse que será seguido por outros, a começar contra Cuba e Nicarágua (a “troika da tirania” de John Bolton).

[3] “Declaration of a National Emergency with Respect to Venezuela”,

Executive Order – Blocking Property and Suspending Entry of Certain Persons Contributing to the Situation in Venezuela”, de Barack Obama, Rede Voltaire, 9 de Março de 2015.

No entanto, o plano inicial está sujeito a modificações, particularmente por causa do retorno das ambições imperiais do Reino Unido [4], que pode influenciar o Pentágono.

[4] « Brexit : Londres assume sa nouvelle politique coloniale », Rede Voltai3e, 3 de Janeiro de 2019. («tradução deste artigo em português»- Ndt)

Eis onde nos encontramos:

A evolução da Venezuela

O presidente venezuelano Hugo Chávez tinha desenvolvido relações com o “Oriente Médio alargado” sob uma base ideológica. Esteve particularmente próximo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad e do presidente sírio, Bashar al-Assad. Juntos, imaginaram a possibilidade de fundar uma organização intergovernamental, o “Movimento dos Aliados Livres”, baseado no “Movimento dos Não-Alinhados”, este último que paralisado pelo alinhamento ao longo do tempo de alguns dos seus membros aos Estados Unidos [5].

[5] « Assad et Chavez appellent à la formation d’un Mouvement des alliés libres », Rede Voltaire, 28 de Junho de 2010.

Se Nicolas Maduro mantém o mesmo discurso que Hugo Chávez, escolhe no entanto uma política externa completamente diferente. É certo que continuou a aproximar-se da Rússia e que acolheu bombardeiros russos na Venezuela. Assinou um contracto para importar 600 mil toneladas de trigo de forma a lidar com a escassez de alimentos no seu país.

Acima de tudo, prepara-se para receber US $ 6 biliões em investimentos, incluindo 5 no sector do petróleo. Os engenheiros russos tomarão o lugar que pertencia aos venezuelanos que deixaram os lugares vagos. Reorganizou as alianças do seu país sobre uma nova base. Forjou laços estreitos com a Turquia, que é membro da NATO e cujo exército ocupa actualmente o norte da Síria. Maduro viajou quatro vezes para Istambul e Erdoğan uma vez para Caracas.

A Suíça era aliada de Hugo Chávez, a quem consultou com o fim de redigir a sua Constituição. Temendo não ser mais capaz de refinar o ouro do seu país na Suíça, Nicolas Maduro encaminha-o agora para a Turquia, aonde o minério bruto é transformado em lingotes.

No passado, o ouro permanecia nos bancos suíços para garantir contractos petrolíferos. A partir de agora, a liquidez também foi transferida para a Turquia, enquanto o novo ouro é devolvido à Venezuela. Esta orientação pode ser interpretada como baseada não numa ideologia, mas em interesses. Resta definir quais.

Ao mesmo tempo, a Venezuela é alvo de uma campanha de desestabilização que começou com as manifestações dos guarimbas, continuou com a tentativa de golpe de Estado a 12 de Fevereiro de 2015 («Operação Jericó»)  depois por uma série de ataques à moeda nacional e com a orquestração de uma onda migratória. Neste contexto, a Turquia forneceu à Venezuela a oportunidade de contornar as sanções dos EUA. O comércio entre os dois países aumentou quinze vezes em 2018.

Qualquer que seja a evolução do regime venezuelano, nada justifica o que está a ser preparado contra a sua população.

Coordenação dos meios logísticos

De 31 de Julho a 12 de Agosto de 2017, o SouthCom organizou um grande exercício militar com mais de 3.000 homens vindos de 25 Estados aliados, incluindo França e Reino Unido. Tratou-se de um exercício de preparação para um desembarque rápido de tropas na Venezuela [6].

6] « Grandes manœuvres autour du Venezuela », de Manlio Dinucci, Traduction Marie-Ange Patrizio, Il Manifesto (Italie) , Rede Voltaire, 23 de Agosto de 2017. («tradução deste artigo em português»- Ndt)

Colômbia

A Colômbia é um Estado mas não uma nação. A sua população vive geograficamente separada de acordo com as classes sociais, com enormes diferenças de padrões de vida. Quase nenhum colombiano se aventura num bairro destinado a outra classe social que não seja o seu. Essa rígida separação possibilitou a proliferação de forças paramilitares e, consequentemente, dos conflitos armados internos que em cerca de 30 anos causaram mais de 220.000 vitimas.

O presidente Iván Duque, no poder desde Agosto de 2018, colocou em causa a frágil paz interior concluída pelo seu antecessor, Juan Manuel Santos, com as FARC – mas não com o ELN (Exército de Libertação Nacional da Colômbia – Ndt) – Ele não descartou a opção de uma intervenção militar contra a Venezuela. De acordo com Nicolas Maduro, os Estados Unidos estão actualmente a treinar 734 mercenários num campo de treino em Tona (cidade  no nordeste da Colômbia -Ndt), tendo em vista uma acção de falsa bandeira que desencadeie uma  guerra contra a Venezuela. Dada a particularidade sociológica da Colômbia, não é possível afirmar com certeza se este campo de treino é controlado ou não por Bogotá.

Rex Tillerson foi director da ExxonMobil na época da descoberta dos campos de petróleo na Guiana. Logo se tornou secretário de Estado dos Estados Unidos.

Guiana (País na América do Sul – Ndt)

No século XIX, as potências coloniais concordaram com a fronteira entre a Guiana Inglesa (actual «Guiana») e a Guiana Holandesa (actual «Suriname»), mas nenhum texto estabeleceu a fronteira entre a zona britânica e a zona espanhola (actual Venezuela).

De facto, a Guiana administra 160 mil km2 de florestas disputadas com o seu grande vizinho. Sob o Acordo de Genebra de 17 de Fevereiro de 1966, os dois Estados recorreram ao Secretário-geral das Nações Unidas (na época o birmanês U Thant). Mas nada mudou desde então, a Guiana propôs levar o caso à Corte de Arbitragem da ONU, enquanto a Venezuela privilegia negociações directas.

Esta diferença territorial não parece urgente porque a área disputada é uma floresta despovoada que se acreditava não ter valor, mas não deixa de ser um espaço imenso que representa dois terços de Guiana. O acordo de Genebra foi violado 15 vezes por Guiana, a qual autorizou a exploração de uma mina de ouro.

Em 2015 surgiu um grande desafio com a descoberta pela ExxonMobil de depósitos de petróleo no Oceano Atlântico, precisamente nas águas territoriais da área disputada. A população do Guiana é 40% indiana, 30% africana, 20% de mestiços e 10% de nativos americanos. Os indianos estão muito presentes na função pública civil e os africanos no exército.

A 21 de Dezembro de 2018, uma moção de censura foi apresentada contra o governo do presidente David Granger, general pró-britânico e anti venezuelano no poder desde 2015.

Surpreendentemente, um deputado de nome Charrandas Persaud votou contra o seu próprio partido e, numa bagunça indescritível, causou a queda do governo que tinha apenas um voto da maioria. Desde então, reina a maior instabilidade: não se sabe se o presidente Granger, que está a ser tratado com quimioterapia, poderá assegurar a gestão dos assuntos correntes. Charrandas Persaud deixou o Parlamento com uma escolta pela porta dos fundos e escapou para o Canadá.

A 22 de Dezembro de 2018 e na ausência de um governo, a norte americana ExxonMobil contracta dois navios, o Ramform Thethys com bandeira ‎das Bahamas e o Delta Monarch (Trinidad e Tobago), para realizarem explorações submarinas na área disputada.

Por outro lado, o ministro da Defesa do Reino Unido, Gavin Williamson, disse ao Sunday Telegraph a 30 de Dezembro de 2018 que a Coroa estava a pôr  um fim à descolonização que, desde o caso de Suez em 1956, era a doutrina de Whitehall. Londres prepara-se para abrir uma nova base militar no Caribe (por enquanto o Reino está apenas presente em Gibraltar, Chipre, Diego Garcia e nas Ilhas Falklands). Pode ser em Montserrat (nas Antilhas) ou mais provavelmente na Guiana e deve estar operacional em 2022 [7].

7] “We are opening new overseas bases to boost Britain”, Christopher Hope, Sunday Telegraph, December 30, 2018.

Guiana é vizinho de «Suriname» (Guiana Holandesa). O seu presidente, Dési Bouterse é acusado na Europa por tráfico de drogas; um caso anterior à sua eleição. Mas o seu filho Dino foi preso no Panamá em 2013, embora tenha entrado com passaporte diplomático. Ele foi extraditado para os Estados Unidos, onde foi condenado a 16 anos de prisão por tráfico de drogas, mas na verdade foi preso porque estava a instalar o Hezbollah libanês no Suriname.

Baptismo de Jair Bolsonaro nas águas do rio Jordão (Israel)

Brasil

A Maio de 2016, o ministro das Finanças do governo de transição de Michel Temer, Henrique Meirelles, nomeou o israelita-brasileiro Ilan Goldfajn para director do Banco Central. Meireilles, que presidiu o Comité Preparatório dos Jogos Olímpicos, também apelou às Forças de Defesa de Israel para coordenarem o exército brasileiro e a polícia de forma a garantir a segurança dos Jogos. Controlando o Banco Central, o exército brasileiro e a polícia, Israel não teve dificuldade em apoiar o movimento popular de contestação face à incúria do Partido dos Trabalhadores.

Acreditando que a presidente Dilma Rousseff tinha mascarado as contas públicas no contexto do escândalo da Petrobras, mas sem nenhum facto ter sido provado, os parlamentares retiraram-na em Agosto de 2016.

Eduardo e Carlos, filhos do presidente Bolsonaro.

A quando da eleição presidencial de 2018, o candidato Jair Bolsonaro foi a Israel para ser baptizado nas águas do Jordão. Assim conquistou de forma massiva os votos dos evangélicos.

Jair Bolsonaro ganhou as eleições tendo como candidato à vice-presidência o general Hamilton ‎Mourao. Este último declarou durante o período de transição que o Brasil deveria preparar-se para enviar homens para a Venezuela como uma “força de manutenção da paz“, logo que o presidente Maduro fosse derrubado; observações que por si constituem uma ameaça velada e que o presidente Bolsonaro tentou subestimar.

Numa entrevista dado ao canal SBT a 3 de Janeiro de 2019, o presidente Bolsonaro evocou as negociações com o Pentágono para sediar uma base militar dos EUA no Brasil [8]. Esta declaração levantou forte oposição dentro das forças armadas, que consideram que o país é capaz de se defender sozinho.

[8] “Ficamos satisfeitos com a oferta da base militar’, diz Pompeo”, Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo, 6 Janeiro 2019.

Benjamin Netanyahu a quando da investidura do presidente Bolsonaro.

Durante a sua tomada de posse a 2 de Janeiro de 2019, o novo presidente deu as boas-vindas ao primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu. Foi a primeira vez que uma personalidade israelita deste porte viajou para o Brasil. O Presidente Bolsonaro anunciou na ocasião a próxima transferência da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém.

O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, que também compareceu à investidura e se encontrou com o ministro peruano dos Negócios Estrangeiros Néstor Popolizio, anunciou a sua intenção de lutar contra os «regimes autoritários» da Venezuela e de Cuba. Pompeo, no regresso aos Estados Unidos fez uma paragem em Bogotá para se encontrar com o presidente colombiano, Iván Duque. Os dois homens concordaram em trabalhar para isolar diplomaticamente a Venezuela.

A 4 de Janeiro de 2019, 14 Estados do Grupo Lima (incluindo Brasil, Colômbia e Guiana) reuniram-se para considerar “ilegítimo” o novo mandato de Nicolas Maduro, que começa em 10 de Janeiro [9]; declaração que não foi subscrita pelo México. Além disso, seis dos Estados membros apresentarão uma queixa no Tribunal Penal Internacional contra o Presidente Nicolas Maduro por crimes contra a humanidade.

[9] « Declaración del Grupo de Lima », Rede Voltaire , 4 de Janeiro de 2019.

Hoje, está perfeitamente claro que o processo da guerra está em andamento. Enormes forças estão em jogo e agora pouco as pode parar. É neste contexto que a Rússia estuda a possibilidade de estabelecer uma base aeronaval permanente na Venezuela. A ilha de La Orchila — onde o Presidente Hugo Chávez foi mantido prisioneiro durante o Golpe de Estado de Abril de 2002— permitiria estacionar bombardeiros estratégicos. O que seria uma ameaça muito maior para os Estados Unidos do que foram, em 1962, os mísseis soviéticos estacionados em Cuba.

 

[1] « Plan to overthrow the Venezuelan Dictatorship – “Masterstroke” », Admiral Kurt W. Tidd, Rede Voltaire, 23 de Fevereiro de 2018. “O “Golpe de Mestre” dos Estados Unidos contra a Venezuela (Documento do Comando Sul)”, Stella Calloni, 13 de Maio de 2018; “Os Estados Unidos preparam uma guerra entre Latino-americanos”, Thierry Meyssan,18 de Dezembro de 2018.

[2] The Pentagon’s New Map, Thomas P. M. Barnett, Putnam Publishing Group, 2004. “O projecto militar dos Estados Unidos pelo mundo”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Agosto de 2017.

[3] “Declaration of a National Emergency with Respect to Venezuela”, “Executive Order – Blocking Property and Suspending Entry of Certain Persons Contributing to the Situation in Venezuela”, by Barack Obama, Voltaire Network, 9 March 2015.

[4] “Brexit: Londres assume a sua nova política colonial”, Rede Voltaire, 9 de Janeiro de 2019.´´

[5] « Assad et Chavez appellent à la formation d’un Mouvement des alliés libres » («Assad e Chavez apelam para a formação de um Movimento de Aliados Livres»- ndT), Réseau Voltaire, 28 juin 2010.

[6] “Grandes manobras ao redor da Venezuela”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 23 de Agosto de 2017.

[7] “We are opening new overseas bases to boost Britain” («Estamos a abrir novas bases ultramarinas para potenciar a Grã-Bretanha»- ndT), Christopher Hope, Sunday Telegraph, December 30, 2018.

[8] “‘Ficamos satisfeitos com a oferta da base militar’, diz Pompeo”, Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo, 6 Janeiro 2019.

[9] “Declaração do Grupo de Lima”, Rede Voltaire, 4 de Janeiro de 2019.

 

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venezuela (por ordem decrescente da data de tradução dos artigos)

Líbia (por ordem decrescente da data da tradução dos  artigo)

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This entry was posted on 12 de Fevereiro de 2019 by in Venezuela and tagged .

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