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As consequências económicas do boicote à Venezuela (2ª parte)

Tradução do artigo Las consecuencias económicas del boicot a Venezuela

da  Unidade Debates Económicos do  celagCentro Estratégico Latino-americano de Geopolítica, em 8 de Fevereiro de 2019

Notas do tradutor : links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

As consequências económicas do boicote à Venezuela (1ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (2ª parte)

continua…

Las consecuencias económicas del boicot a Venezuela

No arco de mineração do Orenoco em particular, estima-se que as reservas de ouro da Venezuela cheguem a 8.900 toneladas, [12] quantidade que colocaria a Venezuela como o 2º país com as maiores reservas desse mineral [13]. O acesso dos Estados Unidos a essas reservas permitiriam que eles triplicassem as suas reservas actuais.

[12] http://www.correodelorinoco.gob.ve/ministro-victor-cano-venezuela-podria-ser-el-segundo-pais-con-mayores-reservas-de-oro/

[13] U.S Department of the Interior U. S. Geological Survey. Mineral Commodity Summaries 2017. («link aqui», Ndt)

As reservas de ferro estimadas da Venezuela chegam aos 14.600 [14] milhões de toneladas, tornando-se no 5º país com mais reservas. O ferro pertence a minerais que os Estados Unidos têm num nível moderado de vulnerabilidade, porque importa até 49% do que consome. [15] Se controlasse este recurso venezuelano, os EUA quintuplicaria a sua disponibilidade de ferro e praticamente eliminaria a sua dependência.

[14] https://www.researchgate.net/figure/Figura-16-Reservas-de-Mineral-de-Hierro-de-Venezuela_fig15_320863885

[15] Monica Bruckmann. Recursos naturales y la geopolítica de la integración Sudamericana, 2011. («ver aqui», Ndt)

A bauxita, matéria-prima do alumínio, faz parte de outra das riquezas da Venezuela. Apesar de ter 1% [16] da reserva mundial, a Venezuela tem 16 vezes mais bauxita que os Estados Unidos, que dependem 100% [17 da importação desse bem para suprir seu consumo.

[16]https://www.researchgate.net/publication/275716630_Explotaciones_mineras_en_el_mundo_de_bauxita

[17] Monica Bruckmann. Recursos naturales y la geopolítica de la integración Sudamericana, 2011. («ver aqui», Ndt)

O caso do bloqueio económico à Venezuela

O uso do boicote económico como estratégia para intimidar aqueles que desafiam as directrizes hegemónicas, tem sido uma ferramenta de amplo uso pelos Estados Unidos. Em muitas ocasiões, como prelúdio de intervenções militares que deixaram países economicamente, politicamente e socialmente devastados.

Ao longo da história, foram documentados na América Latina, vários episódios de boicotes económicos orquestrados ou apoiados pelos EUA.

Entre os que se destacam está o sofrido por Juan D. Perón na sua primeira Presidência [18]], o de Cuba desde 1960, o de Salvador Allende em 1973 e o perpetrado contra João Goulart [19] em 1964.

[18] Escudé, Carlos (1983). Gran Bretaña, EUA Y la declinación argentina. Editorial de Belgrano.

[19] Rapoport, Mario y Rubén Laufer (2000). Estados Unidos ante el Brasil y la Argentina: los golpes militares de la década de 1960. Editorial Economizarte. («consultar aqui» -Ndt)

Durante o curso do século 21, um total de 18 países sofreram sanções e bloqueios pelos Estados Unidos. Além de Cuba, que sofre as consequências do bloqueio há mais de 60 anos, integram a lista: Irão, Iraque, Birmânia, Zimbábue, Bielorrússia, Síria, República Democrática do Congo, Sudão, Somália, Líbia, Costa do Marfim, Líbano, Ucrânia, Coreia do Norte, Iémen, Sudão do Sul, Rússia e Venezuela. Aos anteriores pode-se acrescentar o caso do Catar, sancionado por países árabes dentro da esfera de influência dos EUA.

Se no século XX a causa que justificou o bloqueio foi abertamente a luta contra o comunismo, hoje veste-se com outras mensagens, como a luta contra o terrorismo, as violações dos direitos humanos ou as “crises humanitárias” definidas unilateralmente.

O bloqueio, em termos gerais, procura restringir a capacidade das receitas nacionais (caso se trate de um embargo à principal fonte de recursos do país), fecha fontes externas de financiamento e boicota a capacidade de acesso aos mercados internacionais de bens e serviços.

No caso venezuelano, o bloqueio foi baseado na expulsão da Venezuela dos mercados financeiros internacionais, impedindo-a de recorrer ao mercado de crédito para renovar os vencimentos e fazer novos empréstimos. Como um país integrado no mundo como fornecedor de petróleo, a especialização produtiva levou a uma alta dependência de importações que são financiadas com receitas de petróleo. É por isso que o boicote financeiro e comercial à Venezuela tem consequências muito mais sérias do que em economias diversificadas.

A especialização produtiva venezuelana, fruto da sua vocação de se integrar ao mundo, colocou-lhe um fardo pesado sobre os ombros, no sentido de ter deixado o país exposto às vontades do país hegemónico. De facto, há várias razões que justificam o proteccionismo que busca diversificar a produção, inclusive a soberania produtiva. Por outro lado, com a globalização, a integração nos mercados globais e a especialização produtiva que gera nos países em desenvolvimento, podem afectar seriamente as intenções soberanistas dos países em desenvolvimento.

Na Venezuela, o embargo à CITGO (refinaria, distribuidora, revendedora de petróleo e produtos derivados,  faz parte da Citgo America, uma subsidiaria da empresa estatal venezuelana PDVSA– Ndt), em território norte-americano, procurou limitar a capacidade da Venezuela obter financiamento e, portanto, de financiar importações. A queda abrupta das importações, que entre 2011 e 2013 tinham valores à volta de US $ 60 bilhões por ano, caiu em 2017 para valores estimados em 12 bilhões. Assim se configurou o cenário da “crise humanitária” que serve às pretensões intervencionistas dos EUA.

Nos últimos anos, a economia venezuelana conviveu com vários bloqueios e sanções, os quais dificultaram a evolução económica do país. A situação internacional adversa, impulsionada pela queda do preço do petróleo, foi também agravada pelo impacto pró cíclico do boicote internacional.

Um dos braços do boicote veio das agências de classificação. O indicador de risco-país da Venezuela subiu sem correspondência com o risco económico da economia real, independentemente da evolução dos preços do petróleo e da história e capacidade de pagamento do país. Nesse ponto pode-se afirmar que a evolução do indicador parece ter antecipado os efeitos que o boicote económico causaria, ou seja, o risco geopolítico associado a ter uma posição independente, o risco económico relacionado com o livre jogo das condições económico O segundo elemento do boicote veio das sanções dos Estados Unidos, que implicaram a impossibilidade de acesso a financiamento no mercado tradicional e de renegociação de dívidas, apesar do cumprimento dos pagamentos devidos.

Com efeito, entre 2014 e 2017, a Venezuela perdeu 68,653 bilhões de dólares para pagamento da dívida externa. Porém, apesar do fato de o país não ter entrado em incumprimento nos seus pagamentos, foi classificado com as piores classificações  das agências de classificação de risco, como a Moody’s ou Standard & Poors. (já esqueceram o papel delas na crise de 2008- Ndt)

O risco-país (taxa que um país paga sobre a taxa livre de risco) foi  mais de 2.000 pontos desde 2015, com picos de 5.000 e até 6.000 recentemente. As razões dadas pelas agências quando avaliam os países são opacas e tendem a pontuar bem os países que favorecem as políticas de livre mercado e punem o contrário. É assim que a dívida venezuelana, apesar de continuar a ser paga de  forma regular, foi classificada como tendo uma alta probabilidade de inadimplência, com uma classificação inferior à dos países em guerra, como a Síria.

Esta situação foi aprofundada com o bloqueio financeiro imposto pelos Estados Unidos em 24 de Agosto de 2017, a partir da ordem executiva 13808 [[20].

[20] Em Março de 2015, Obama declarou a Venezuela como “uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional e, à política externa dos Estados Unidos” através da Ordem Executiva 13692.

A ordem executiva envolveu:

A proibição ao governo venezuelano de adquirir novas dívidas com vencimento superior a 30 dias

A proibição ao PDVSA de adquirir novas dívidas superiores a 90 dias.

A proibição ao Governo da Venezuela de nova obtenção de acções

A proibição ao Governo da Venezuela de receber dividendos ou  lucros de empresas que operam nos Estados Unidos, afectando especialmente a refinaria CITGO.

Entre Fevereiro e Maio de 2018, as sanções foram ampliadas com:

A proibição aos credores internacionais de renegociarem as dívidas emitidas antes de Agosto de 2017.

A proibição a qualquer cidadão ou instituição financeira dos EUA de fazerem transacções na moeda criptografada Petro.

A proibição total a cidadãos americanos em solo americano de fazerem investimentos em activos venezuelanos.

Esse isolamento e a perda de divisas através do pagamento da dívida ocorreram em correspondência com a queda dos preços internacionais, o que resultou numa escassez significativa de moeda estrangeira.

Assim, a Venezuela adoptou uma dinâmica distinta da maioria dos países da região que, perante a queda dos preços internacionais, entraram em processo acelerado de endividamento.

Por exemplo, no período mencionado, os países da América Latina como a Argentina, Chile, Colômbia e Peru, receberam novas receitas em relação à divida externa no valor respectivamente de 99.624, 23.010, 48.048 e 17.070 milhões de dólares, (dados do FMI). Foram anos em que os coeficientes de endividamento aumentaram acentuadamente para compensar a queda nos preços internacionais.

A Venezuela, pelo contrário, perdeu moeda estrangeira por causa do isolamento financeiro, o que aprofundou o problema externo.

Neste período também ocorreram episódios menos conhecidos, mas que alteraram o funcionamento normal da economia venezuelana. A partir de 2015, foi iniciado um processo de bloqueio financeiro à socapa, que dificultou e encareceu compras no exterior e diversas operações realizadas pelo governo ou pelas instituições venezuelanas.

As consequências mais notáveis deste bloqueio foram o atraso ou a incapacidade de entrada no país de produtos vitais e, as despesas extras envolvidas na busca de alternativas financeiras para fazer os pagamentos. Suprimentos vitais como medicamentos, alimentos ou recursos essenciais para o Plano de Sementeira têm sido objecto desses obstáculos.

Aos atrasos ou obstáculos à entrada de produtos essenciais, adiciona-se o aumento do custo das operações. Os portos da Venezuela são classificados como portos de guerra, o que implica um maior pagamento por frete e seguro para importação e exportação. Tudo isso, num contexto onde o pagamento aos fornecedores tem tendência a tornar-se cada vez mais complicado, devido às limitações impostas pelo sistema bancário internacional a operações de transferências e, à recusa de abertura de contas do governo ou instituições venezuelanas no exterior.

Abaixo apresenta-se uma lista cronológica dos obstáculos concretos que a Venezuela enfrentou:

Abril de 2016: instituições financeiras começam a deixar de receber pagamentos em dólares feitos por instituições venezuelanas

Maio de 2016: Banco Commerzbank (Alemanha) fecha contas de bancos venezuelanos, incluindo bancos públicos venezuelanos e as da Pdvsa, a companhia petrolífera

Julho de 2016: O banco norte-americano Citibank proíbe sua rede de intermediários bancários de realizar transacções com instituições venezuelanas, incluindo o Banco Central da Venezuela.. Este encerramento reduz a capacidade de efectuar pagamentos em dólares, impondo custos extras para realizar transacções noutras moedas.

Agosto de 2016: Banco Novo de Portugal proíbe transacções com bancos e instituições venezuelanos

Julho de 2017: a empresa de Delaware, agente de pagamento da PDVSA, recusa-se a receber fundos da companhia de petróleo venezuelana.

Julho de 2017: o Citibank recusa-se a receber fundos venezuelanos para a importação de 300 mil doses de insulina

Maio de 2017: empresas de origem russa, empreiteiros encarregadas de desenvolver a cadeia de blocos da Petro usando o código NEM, desistem de continuar com o contracto argumentando razões de força maior depois de terem sido pressionadas pela Comissão de Câmbio de Segurança dos EUA

Agosto de 2017: os bancos chineses informaram que não podem realizar operações em moeda estrangeira em favor da Venezuela sob pressão do Departamento do Tesouro dos EUA e a Rússia relata a impossibilidade de fazer transacções para bancos venezuelanos, devido à restrição dos bancos correspondentes nos EUA.

Agosto de 2017: o banco intermediário do banco chinês BDC Shandong paralisa por três semanas uma transacção de 200 milhões de dólares.

Agosto de 2017: Após a pressão do Departamento do Tesouro dos EUA, a Euroclear, uma subsidiária da norte-americana JP Morgan, congela a transacção de dívida soberana da Venezuela. Desde então, a Euroclear detém US $ 1.200 milhões na República Bolivariana da Venezuela.

Outubro de 2017: O Deutsche Bank informa o banco chinês Citic Bank sobre o encerramento das suas contas com seus intermediários bancários por aceitarem pagamentos da PDVSA.

Outubro de 2017: A Venezuela compra vacinas e medicamentos da Organização Pan-Americana da Saúde, uma subsidiária da Organização Mundial de Saúde, e portanto sob a égide da ONU.

Sob a extraterritorialidade das leis dos EUA, o banco suíço UBS vai rejeitar o pagamento, causando um atraso de 4 meses na entrega de vacinas e desestruturando completamente o sistema público de vacinação gratuita do Ministério da Saúde da Venezuela.

Novembro de 2017: Venezuela faz o pagamento para adquirir primaquina e cloroquina (para tratamento antimalárico), solicitada ao laboratório da BSN Medical na Colômbia. O governo colombiano bloqueia a entrega de medicamentos.(e depois o mundo aplaude a ajuda humanitária colocada na fronteira da Colômbia. As sanções económicas além de prejudicarem o povo enriquece muitas mãos. Tal como nos países que levaram com as troikas. VERGONHOSO – Ndt)

Novembro de 2017: O Deutsche Bank, principal intermediário do Banco Central da Venezuela, fecha permanentemente as contas dessa instituição, colocando em risco todas as suas operações bancárias.

Dezembro de 2017: 29,7 milhões de dólares foram devolvidos de bancos na Europa que tinham como destino o pagamento a fornecedores de alimentos através do programa de alimentos «CLAP». Também nesse mês as autoridades colombianas impediram a transferência para a Venezuela de mais de 1.700 toneladas de carne suína.

Maio de 2018: o pagamento de 9 milhões de dólares foi bloqueado para a aquisição de suprimentos de diálise.

Novembro de 2018: a partir deste mês, o Banco da Inglaterra retém 1.200 milhões de dólares que o governo venezuelano manteve depositados naquela entidade.

As consequências económicas do boicote à Venezuela (1ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (2ª parte)

continua…

[12] http://www.correodelorinoco.gob.ve/ministro-victor-cano-venezuela-podria-ser-el-segundo-pais-con-mayores-reservas-de-oro/

[13] U.S Department of the Interior U. S. Geological Survey. Mineral Commodity Summaries 2017.

[14] https://www.researchgate.net/figure/Figura-16-Reservas-de-Mineral-de-Hierro-de-Venezuela_fig15_320863885

[15] Monica Bruckmann. Recursos naturales y la geopolítica de la integración Sudamericana, 2011.

[16]https://www.researchgate.net/publication/275716630_Explotaciones_mineras_en_el_mundo_de_bauxita

[17] Monica Bruckmann. Recursos naturales y la geopolítica de la integración Sudamericana, 2011.

[18] Escudé, Carlos (1983). Gran Bretaña, EE. UU. y la declinación argentina. Editorial de Belgrano.

[19] Rapoport, Mario y Rubén Laufer (2000). Estados Unidos ante el Brasil y la Argentina: los golpes militares de la década de 1960. Editorial Economizarte.

[20] Desde marzo de 2015 Obama dedeclaró a Venezuela como “una amenaza inusual y extraordinaria a la seguridad nacional y política exterior de Estados Unidos” a través de la Orden Ejecutiva 13692.

As consequências económicas do boicote à Venezuela (1ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (2ª parte)

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This entry was posted on 1 de Março de 2019 by in Venezuela and tagged , .

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