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As consequências económicas do boicote à Venezuela (3ª parte)

Tradução do artigo Las consecuencias económicas del boicot a Venezuela

da  Unidade Debates Económicos do  celagCentro Estratégico Latino-americano de Geopolítica, em 8 de Fevereiro de 2019

Notas do tradutor : links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

As consequências económicas do boicote à Venezuela (1ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (2ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (3 ª parte)

Las consecuencias económicas del boicot a Venezuela

 

Simulação do impacto do bloqueio (custo do boicote à Venezuela)

As estatísticas económicas mostram a dimensão e a profundidade do estrangulamento do financiamento externo e o isolamento dos capitais venezuelanos do mercado. A balança de pagamentos permite observar dois factos estilizados:

  • Entre 2008 e 2012, o sector público venezuelano recebeu em termos líquidos [21]  fluxos de mais de 95 bilhões de dólares na forma de investimentos externos e empréstimos, que representam rendas de divisas através da Conta Financeira da Balança de Pagamentos. Estas receitas líquidas de divisas ajudaram a financiar a sua procura de importações e outros compromissos externos. Representam um volume significativo de contribuição financeira do resto do mundo, tanto em termos de quantidades como em termos de PIB, mas é um volume relativamente normal, dado o histórico de pagamento do país e a capacidade de pagamento derivada de seus excedentes de exportação.

[21] Diferença entre receitas e despesas dos activos e passivos do sector público da conta capital e financeira, em termos de títulos de dívida, empréstimos comerciais, empréstimos, moeda e outros e empréstimos.

Em média, o sector público venezuelano durante este período foi financiado com 19 bilhões por ano provenientes do mercado financeiro internacional. É um volume de receitas que mostra uma economia integrada no mercado financeiro internacional e, consequentemente, com maior grau de vulnerabilidade e dependência de financiamento externo.

  • Desde 2013, quando Nicolás Maduro assumiu a presidência, os mercados internacionais fecharam-se para o país sem que tivesse ocorrido um choque económico endógeno ou exógeno, uma crise interna ou um colapso no preço do petróleo. O sector público venezuelano não só deixou de receber divisas, como, pelo contrário, teve que pagar mais de 17 bilhões de dólares entre 2013 e 2017. Em média, entre 2013 e 2017, o sector público venezuelano em vez de receber divisas, teve que desembolsar mais de 3.300 milhões de dólares em termos líquidos por ano.
  • Em resumo, se somarmos o valor médio anual de divisas que deixaram de entrar devido ao bloqueio (19.200 milhões), mais o que o país teve que pagar em média em cada ano (3.300 milhões), podemos concluir que a economia e a sociedade sufocaram no valor de US $ 22,5 bilhões em receitas anuais, como resultado de uma estratégia internacional deliberada de isolamento financeiro. Evidentemente, essa pressão financeira intensificou-se em 2015 com a queda do preço do petróleo.

  • Note-se que, neste período, o resto dos países em desenvolvimento da região não sofreram o mesmo tratamento do mercado financeiro internacional. Com efeito, é um facto estilizado que todos os países da região aumentaram o seu endividamento. Sem excepções, o restante dos governos da região recorreu ao financiamento externo para compensar a queda das receitas fiscais derivada do ambiente desfavorável do mercado de mercadorias.

Efeito do bloqueio nas condições da população

Como essa anemia monetária afectou as condições materiais da economia e a qualidade de vida das pessoas na Venezuela?

Com base num exercício de consistência macroeconómica, que liga o sector externo (balança de pagamentos) ao sector real (produção) para os anos de 2011 a 2017, podemos estimar as consequências devastadoras da suspensão do financiamento internacional tanto no fornecimento de bens e serviços, como na geração de empregos e migrações. O exercício permite isolar por meio de simulações o efeito do bloqueio financeiro, em relação a outros factores que, certamente, também afectaram a economia.

Com base no elo estatístico entre a balança de pagamentos e a oferta agregada da economia, pode-se construir um cenário contrafactual que permite simular “o que teria acontecido se os Estados Unidos não tivessem iniciado o bloqueio e  o fluxo financeiro internacional continuasse a chegar de maneira semelhante ao período 2008-2012. Para isso, simulamos 3 cenários:

Cenário 1: o que teria acontecido se os 22 bilhões anuais tivessem sido destinados a importações, sem alterar o destino dos mesmos e mantendo os padrões de consumo e produção vigentes entre 2008 e 2012.

Cenário 2: o que teria acontecido com a oferta total, como no cenário anterior, se o financiamento externo tivesse continuado nos 15 bilhões anuais, cifra igual à média 2008-2012, excluindo o financiamento extraordinário de 2011.

Cenário 3: o que teria acontecido se os 22 bilhões anuais tivessem sido destinados a aumentar a produção de barris de petróleo, atrair ainda mais divisas e, portanto, compensar a queda dos preços do petróleo durante 2015 e 2016. Este cenário é semelhante ao empregado pelo Equador como estratégia para enfrentar o colapso dos preços do petróleo em 2015.

Para realizar este exercício, o PIB (em dólares correntes) da economia entre 2011 e 2017 foi transformado para um índice que toma o valor de 100 para o ano de 2011, de forma a facilitar a comparação dos resultados.

Os resultados das simulações mostrados no gráfico 1, permitem comparar a situação real que resulta de circunstâncias estruturais e do boicote da economia venezuelana, e a situação que teria sido alcançada seguindo o exercício contrafactual, caso se tivesse cumprido qualquer um dos três cenários propostos.

Gráfico 3.  produção indexada da economia venezuelana, sem e com bloqueio internacional financeiro

Se o bloqueio não tivesse ocorrido, as simulações mostram que, em qualquer um dos três cenários propostos [22], a economia teria tido uma trajectória de crescimento notavelmente melhor do que a actual.

[22] Os exercícios foram realizados assumindo também outros cenários. Por razões de clareza na exposição, apresentamos apenas estes três, embora a totalidade dos cenários propostos nos permitisse chegar a conclusões semelhantes. Em particular, as simulações alternativas apresentadas foram baseadas em diferentes alternativas de financiamento ou cenários de ajuste.

De facto, em 2013 e 2015 a economia teria alcançado nos dois anos, um crescimento do produto em relação ao ano anterior. Mesmo no cenário 3, a economia em 2017 teria visto sinais de recuperação,  se o fluxo de moeda estrangeira através da dívida externa tivesse entrado em condições semelhantes às ocorridas no período 2008-2012.

Ao comparar os cenários com a realidade, podemos extrair algumas conclusões importantes:

  • Entre 2013 e 2014, a produção teria sido em média e nos três cenários, quase 20% maior do que era. Isso implica que praticamente não teria ocorrido a queda no PIB nesses dois anos.
  • Entre 2015 e 2017, altura em que o bloqueio se intensificou, a produção  em média, teria sido 49% maior do que era. Em cada 10 dólares de bens e serviços que a economia teria capacidade de produzir, o bloqueio entre 2015 e 2017 retirou 5 dólares à população.
  • As nossas estimativas descobriram que, em 5 anos de bloqueio financeiro, a Venezuela perdeu cumulativamente 1,6 PIB  no primeiro cenário, 1,3 PIB no cenário 2 e 1,1 PIB no cenário 3.
  • Em conclusão, as condições impostas foram tão extremas que entre 2013 e 2017,  a Venezuela renunciou no que diz à produção e condições de vida, num valor equivalente a 1 ano e meio de produção (PIB) da sua economia, só como resultado do bloqueio. Na prática e de acordo com o cenário 1, o país viveu durante 5 anos com a produção de apenas 3 anos e meio.

custo perdido em Pibs como consequência do bloqueio à Venezuela

Esses resultados, permitem-nos explicar a percentagem da crise económica baseada exclusivamente no boicote financeiro e comercial. Com efeito, podemos comparar no final de 2017, a queda em termos da produção analisada, que teria sido observada após cada um dos cenários propostos. A diferença é a parcela da crise atribuída ao efeito de boicote. De acordo com o cenário 1, o boicote explica aproximadamente 60% da crise, enquanto no cenário 2 explica 43% e no último cenário 30%. A percentagem restante pode ser atribuída a factores não explicados pelo boicote, ou seja, ao colapso dos preços do petróleo, à estrutura dependente da Venezuela ou ineficiências de gestão, entre outros.

A queda da actividade produtiva na Venezuela tem um correlato imediato no nível de emprego da população. Podemos estimar o impacto em termos de emprego gerado pela queda do produto real e pelos três cenários propostos. Usamos para isso, coeficientes de elasticidade emprego-produto calculados para a economia venezuelana, localizados dentro dos valores habituais que observamos na América Latina. As elasticidades permitem antecipar qual será a variação percentual no uso de uma variação percentual do produto. Embora o exercício tenha limitações, permite-nos ter uma ideia de qual teria sido o efeito da contracção do produto no emprego.

A simulação usa o coeficiente de elasticidade de 0,47, o que significa que cada ponto percentual da queda no emprego implica uma redução no emprego total em meio ponto percentual. Este valor está localizado dentro dos coeficientes usados na região, que oscilam entre 0,3 e 0,7, dependendo do estado do ciclo económico.

Usando esse coeficiente de elasticidade, podemos aproximar a perda de empregos que a Venezuela teria sofrido por não ter instrumentos de regulação do mercado de trabalho e a estabilidade do emprego público.

Em particular, a estimativa indica que a perda real de produção teria sido traduzida em 2017 numa perda de mais de 3 milhões de empregos, ou seja, 24% do total da população economicamente activa. Pelo contrário, sem o impacto total do boicote, a simulação mostra que a perda acumulada de empregos de qualidade, seria em 2017, 10% no cenário 1, 13% no cenário 2 e 17% no cenário 3.

A literatura da migração reconhece que um dos determinantes da emigração é o estado do mercado de trabalho. Nesse sentido, a deterioração do mercado de trabalho com as simulações anteriores, mostra-nos que a crise humanitária que é usada como desculpa para a interferência dos EUA na região, é também o resultado da crise induzida pelo bloqueio.

Conclusões

Desde a chegada de Nicolás Maduro à presidência e a morte de Hugo Chávez em 2013, o financiamento disponível para a Venezuela praticamente desapareceu, deixou de ter cerca de 22 bilhões de dólares por ano. Foi o único país da região que sofreu esta discriminação. A economia venezuelana, altamente especializada no sector de petróleo, é o país mais aberto da região, mas, em contrapartida, depende da disponibilidade de importações. Sem disponibilidade de moeda estrangeira e importações, não pode activar seu aparato produtivo. Em termos gráficos, a reversão do financiamento é equivalente a lançar bombas na infra-estrutura produtiva do país, incluindo a petroleira.

Apesar das limitações metodológicas que envolve qualquer exercício de simulação contrafactual, este documento deixa claro que o boicote financeiro e comercial à Venezuela explica muito da crise que actualmente a afecta.

Os cenários propostos, seguindo o princípio da prudência, são cenários realistas que reflectem o que poderia ter acontecido na pior das hipóteses, caso o país tivesse de enfrentar as adversidades sem os estragos do boicote financeiro internacional.

De facto, poderíamos até ter levantado cenários ainda mais favoráveis, como os que facilitaram o endividamento da Argentina e de muitos governos da região, que tiveram a oportunidade de fazer política contra cíclica ao recorrer ao financiamento externo.

Não há melhor que a Venezuela para obter financiamento, tendo em conta os recursos naturais úteis que tem para servirem como garantias em empréstimos internacionais.

Se a Venezuela tivesse contado com um financiamento proporcional ao que Mauricio Macri (actual presidente da República Argentina- Ndt) nos primeiros três anos do seu  governo, teria tido um crescimento do PIB superior ao da Argentina. Em vez de ter apoio internacional, a Venezuela foi o único país forçado a sair da dívida.

Infelizmente, a face humana do drama migratório não foi causada apenas pelas medidas de bloqueio, que se enfureceu com as condições de vida da população, mas, que por enquanto, parece servir de desculpa para justificar a interferência dos EUA.

As aspirações soberanas da Venezuela, as suas políticas de retenção das rendas do petróleo, as suas iniciativas que desafiaram a hegemonia do dólar, o seu compromisso com a integração regional através da UNASUL e com um mundo multipolar, foram desafios para a hegemonia dos EUA, e tiveram consequências. Talvez represente um grande desafio para a Venezuela, tendo em conta a limitada soberania económica.

A Venezuela é um dos países mais integrados no comércio internacional, a julgar pelo coeficiente de abertura externa. Um dos riscos inevitáveis da integração ao mercado financeiro é a vulnerabilidade derivada da estrutura de produção especializada e concentrada no petróleo, o que significa dependência de qualquer avatar no mercado de petróleo e pouca capacidade de auto-suficiência no restante bens. A Venezuela confiou na sua capacidade de endividamento, na sua capacidade de importar de várias fontes em condições normais de mercado e, ainda assim, o que encontrou foram condições de boicote.

Cabe realçar, que a fúria com a Venezuela faz parte da estratégia hegemónica global dos EUA. É um tiro pela elevação da China e outros países extra regionais que ousam por um dedo na região, desafiando a doutrina Monroe.

Como indicámos, representaria uma vantagem para as corporações norte-americanas que ficariam encarregues do negócio da extracção, uma vantagem para toda a economia norte-americana que desfrutaria de uma redução no custo do combustível, no controle do petróleo venezuelano, perante uam possível retirada da Venezuela como membro da OPEP.

O crime de golpe de Estado é uma violação do direito internacional com motivações económicas que não são vistas na televisão, excepto em algum canal da História. Parece que, para evitar que a história se repita, não é apenas necessário conhecê-la, mas também antecipá-la, daí o nosso exercício prospectivo.

 

As consequências económicas do boicote à Venezuela (1ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (2ª parte)

As consequências económicas do boicote à Venezuela (3 ª parte)

 

[21] Diferencia entre ingresos y egresos de los activos y pasivos del Sector Público de la cuenta capital y financiera, en concepto de títulos de deuda, créditos comerciales, préstamos, moneda y otros y préstamos.

[22] Se realizaron ejercicios suponiendo otros escenarios. Por motivos de claridad en la exposición solo presentamos estos tres, aunque la totalidad de los escenarios planteados nos permitieron llegar a conclusiones similares. En particular, las simulaciones alternativas presentadas se basaban en distintas alternativas de financiamiento o escenarios de ajuste.

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This entry was posted on 2 de Março de 2019 by in Venezuela and tagged , .

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