A Arte da Omissao

ACORDEM

Mudança de regime em que podemos acreditar: a agenda dos EUA na Venezuela, Haiti e Egipto – parte 2

Notas do tradutor: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do ponto 2) do podcast: George CiccarielloMaher, académico da Venezuela e o jornalista Kim Ives discutem os desenvolvimentos recentes e examinam os protestos maciços que abalam o presidente apoiado pelos EUA no Haiti.

Regime Change We Can Believe In: The U.S. Agenda in Venezuela, Haiti, and Egypt

de Jeremy Scahill do theintercept_

20 de Fevereiro de 2019

A administração Trump definiu um prazo até 23 de Fevereiro de 2019 para o presidente venezuelano Nicolas Maduro se curvar aos EUA.

Esta semana no Interceptted:

1) aviões militares dos EUA desembarcaram na Colômbia sob o pretexto de entregarem ajuda humanitária, como Trump promete derrubar o governo em Caracas.

2) George CiccarielloMaher, académico Venezuelano e o jornalista Kim Ives discutem os desenvolvimentos recentes e examinam os protestos maciços que abalam o presidente apoiado pelos EUA no Haiti.

3) Jon Schwarz, do «The Intercept», detalha a carreira sangrenta e assassina de Elliott Abrams, o homem que está agora no comando das operações dos EUA-Venezuela.

4) E o jornalista Sharif AbdelKouddous explica a fracassada revolução no Egipto e descreve o plano do ditador AbdelFattah el-Sisi para se tornar presidente por toda a vida.

Pode ouvir abaixo o Podcast

[Sons de protestos no Haiti]

Jeremy Scahill: No coração desses protestos está a exigência da renúncia do presidente do Haiti apoiado pelos EUA. Os haitianos estão fartos da corrupção, das medidas de austeridade, da pobreza em que tantos vivem, enquanto a elite amistosa de Washington saqueia o país. O contraste entre o Haiti e a Venezuela não poderia ser mais gritante. Os haitianos protestam contra um governo cliente dos EUA – um governo no Porto Príncipe (capital do Haiti – Ndt), chantageado e pressionado para apoiar a campanha dos EUA sobre a mudança de regime na Venezuela. Vamos aprofundar as situações no Haiti e na Venezuela.

O académico George Ciccariello-Maher e o jornalista Kim Ives discutem a tentativa de golpe de Estado e a rebelião na Venezuela.

Juntam-se agora a mim dois convidados: Kim Ives é um dos fundadores do semanário Haiti Liberté, onde é escritor e editor. Esse jornal tem escritórios em Porto Príncipe e em Brooklyn,  Nova Iorque. Estou também acompanhado por George Ciccariello-Maher. Atualmente é professor visitante no «Instituto Hemisférico de Performance e Política» e autor de três livros: We Created Chávez: A People’s History of the Venezuelan Revolution,” “Building the Commune: Radical Democracy in Venezuela,” e mais recentemente, “Decolonizing Dialectics.”

Kim, George, bem-vindos ao Intercepted.

George Ciccariello-Maher: Obrigado pelo convite.

Kim Ives: Obrigado.

Jeremy Scahill: Kim, vamos começar por si. Vemos protestos em massa no Haiti, enquanto o governo Trump ameaça directamente a Venezuela. O que está a acontecer agora no Haiti?

Kim Ives: Bem, é uma insurreição semelhante à da 33 anos atrás, sob o regime de Jean-ClaudeBaby DocDuvalier.

Apresentador de Tv:(noticia antiga – Ndt) Hoje, milhares de haitianos foram em  peregrinação a Gonaïves, cidade ao norte de Porto Príncipe, onde três estudantes em Novembro passado foram mortos a tiro. Eles foram lembrados como mártires numa missa que celebra a queda de Duvalier.

Kim Ives: Ele (Duvalier – Ndt) acabou por sair do Haiti num avião da Força Aérea dos EUA para um exílio dourado na França. Mas a rebelião continuou nos cinco anos seguintes e resultou na eleição em 1990 de Jean-Bertrand Aristide. Então, sinto que estamos num período similar.

Basicamente, as pessoas estão fartas deste governo neo-duvalierista no poder basicamente desde 2011, que graças a Hillary Clinton e Bill Clinton que facilitaram a ascensão de Michel Martelly, conseguiu capturar a presidência e depois roubar o fundo Petrocaribe que a Venezuela forneceu ao Haiti no valor de cerca de US $ 4 bilhões de receitas de petróleo. O seu sucessor eleito, Jovenel Moïse, é o homem actualmente no poder.

Então, as pessoas estão fartas da corrupção e da miséria em que se encontram. Porque o dinheiro que deveria ser destinado a programas de desenvolvimento que Hugo Chávez imaginou,  foi para moradias e carros velozes.
Nota do tradutor: A presentação do vídeo seguinte é da minha responsabilidade

Jeremy Scahill: Quem é Jovenel Moïse?

Kim Ives: Ele é um empresário putativo do agronegócio. Tem um negócio chamado Agritrans. Assumiu o cargo de forma interessante, acusado de lavagem de dinheiro. Ironicamente, ele diz: “Vou erradicar a corrupção. Sou eu que vou erradicar a corrupção”, e ainda assim, não se consegue encontrar um cara mais corrupto.

Mas em Julho Moïse teve uma surpresa desagradável, quando a torneira do petróleo da Venezuela foi fechada. O FMI disse-lhe: “Tem de aumentar os preços do gás, petróleo e querosene”, e num dia aumentou-os em 50% e as pessoas ficaram furiosas.

Kim Ives: Foi isso que despoletou o que está agora a acontecer.

Basicamente, os EUA vêem o Haiti como um peão na sua guerra contra a Venezuela. Eles não a podem fazer através do Conselho de Segurança da ONU, como costumava acontecer, devido aos  problemas de agora com a Rússia e China,  que a invalidam com o veto no Conselho de Segurança.

Então, têm que se virar para a equipe principal, que é, naturalmente a OEA, Organização dos Estados Americanos, que Cuba apelida e com razão, de “Ministério dos Assuntos Coloniais de Washington“.

Então, os EUA tentam que seja usada essa Carta Democrática, aprovada a 11 de setembro de 2001, que basicamente diz: se dois terços dos 35 membros da OEA puderem votar juntos, podem intervir noutro país. Agora, eles têm 19 votos.

O Haiti votou contra o sancionar a Venezuela na votação da OEA em  Março de 2017. Depois, no ano passado, houve outra votação e o Haiti absteve-se. Mas neste ano, a 10 de Janeiro de 2019,  a intimidação, o assédio moral e o suborno, talvez tenham dado frutos e votaram juntamente com Washington, que Nicolás Maduro era ilegítimo depois de receber esses US $ 4 bilhões do fundo Petrocaribe. Essa foi realmente a faísca que desencadeou a rebelião que estamos a ver hoje. As pessoas disseram vamos lá. Isto é demais.

Jeremy Scahill: George, quero saber a sua opinião sobre o discurso de Donald Trump em Miami na segunda-feira, onde  atacou frontalmente o governo de Maduro e basicamente disse que os dias dele estavam contados. Qualquer um do seu ciclo interno que queira permanecer vivo, basicamente, tem de saltar do navio. George, responde ao tom e às ameaças feitas no discurso de Trump em Miami.

George Ciccariello-Maher: Foi realmente um discurso surpreendente. Temos de ser claros. Trump não ameaçou a Venezuela, falou sobre um novo dia para a América Latina.

Donald John Trump: Olá Miami. Estou muito feliz por estar de volta ao Estado que amo e com tantos patriotas orgulhosos e  amantes da liberdade. Estamos aqui para proclamar que um novo dia está a chegar à América Latina. Está a chegar.

George Ciccariello-Maher: Ele não sugeriu,  declarou explicitamente o retorno à política centenária da não-soberania na América Latina, como Greg Grandin mostrou em escritos recentes.

Um retorno aos termos explícitos da doutrina Monroe, na qual os Estados Unidos ditam o que acontece em todo o hemisfério e ele falou em termos hemisféricos e,  falou – é claro, isso é o que você sabe, higienizado como a democracia, mas falou explicitamente em termos dos Estados Unidos ser capaz de ditar o que acontece em todo o hemisfério.
O que Trump fez foi explicitamente pressionar não apenas o círculo interno de Maduro, mas também os líderes militares numa forma mais ampla. Ele deu-lhes uma espécie de ultimato. Perguntou-lhes se gostariam de viver o resto das suas vidas confortavelmente com as suas famílias ou quereriam ir para baixo com o navio afundando? Isto foi uma ameaça explicita.
É a mesma tentativa desesperada de dividir as forças armadas venezuelanas. Trump e a oposição venezuelana pensavam que isso aconteceria imediatamente e é claro que não aconteceu, e agora, o que estão realmente a tentar fazer é apertar os parafusos, elevar a narrativa e o tipo de fogo em direção à Venezuela para se tornar numa ampla mudança histórica.

Isto é intervencionismo explícito e a sua tentativa para mudar o regime, tentativa de golpe, tentativa de uso desse tipo de mentira: a ajuda humanitária como um cavalo de tróia para derrubar um governo.

Jeremy Scahill: Sobre a questão da chamada ajuda humanitária, durante o fim-de-semana, aterraram mais aviões militares americanos na Colômbia perto da fronteira com a Venezuela. Marco Rubio está lá a trabalhar na propaganda dos Estados Unidos.

Marco Rubio: Temos uma escolha a fazer. Queremos ou não que as pessoas da Venezuela tenham comida e remédios? (hilariante e trágico. os EUA retiram a comida e remédios com as sanções e depois têm a indecência de manipular a opinião pública com frases destas? – Ndt) Se o quisermos, então temos que tentar e,  se de facto, o regime criminoso tentar bloquear, então o mundo verá a sua verdadeira natureza e levará isso em conta no seu próximo passo. (seu?-Ndt)

Jeremy Scahill: Ao mesmo tempo, a Venezuela disse que houve uma tentativa de contrabandear armas ilegalmente para a Venezuela, mas que foram aprendidas. O governo venezuelano de Maduro diz que essas armas destinavam-se a ser usadas para gerar violência contra o governo legítimo da Venezuela.

Qual é a sua resposta à administração Trump e a democratas como a Nancy Pelosi, que dizem que Maduro não está a autorizar que a ajuda humanitária desesperadamente necessária entre na Venezuela?

George Ciccariello-Maher: A economia venezuelana está numa posição incrivelmente difícil devido a questões que variam desde a má administração do governo numa determinada maneira e da moeda em particular à sabotagem explícita, atividade do mercado negro, especulação cambial, intervenção dos EUA e as suas sanções, especialmente as que começaram à cerca de um ano atrás sob a administração de Trump.

E estas coisas têm realmente reprimido o padrão de vida de muitos venezuelanos. Não é, no entanto,  do que estamos a falar com Kim sobre o Haiti.

Na Venezuela, não há uma crise humanitária na escala que muitos países enfrentam em todo o mundo. A economia sofreu uma grave recessão, mas a ajuda está a ser usada explicitamente neste momento como uma arma política. A Cruz Vermelha já disse, isso não é “ajuda humanitária”. As Nações Unidas não vão tocá-la, é claro, e o montante real da ajuda é realmente uma ninharia quando se trata do efeito – o efeito esmagador – destas sanções dos EUA.

Se os Estados Unidos tivessem alguma intenção ou pretensão de ajudar o povo venezuelano, a primeira coisa a fazer seria suspender as sanções, mas esse não é o objectivo. Você sabe, normalmente, quando aviões militares dos EUA voam e pousam numa fronteira, é bem claro o que vai acontecer e está bem claro quais são os objectivos.

Mas, por alguma razão, republicanos e democratas, da mesma forma como a maioria, excepto alguns deste novo grupo de representantes, enganam-se a si mesmos, iludem-se com a narrativa da democracia não só apresentada por Trump, mas também por Jair Bolsonaro no Brasil, que é um fascista confesso e, por todos esses governos de extrema-direita da América Latina, porque o sistema operacional não era suficientemente flexível para eles explicitamente formarem algo chamado de Grupo Lima, visando o derrube deste governo venezuelano.

Jeremy Scahill: Kim, você passou décadas a fazer reportagens sobre o Haiti, sobre revoluções, sobre contra revoluções. Dê-nos uma visão geral de como os Estados Unidos usaram o pretexto do humanitarismo nas suas operações, na tentativa de cumprir a sua agenda no Haiti.

Kim Ives: Bem, provavelmente o melhor exemplo é o terremoto de 2010. Os haitianos começaram a ter problemas com René Préval. Então os EUA, vieram e empurraram muitas coisas na sua garganta, para que pudessem entrar em águas territoriais haitianas sempre que quisessem. Empurraram a privatização de  todas as indústrias estatais e Préval fez isso, mas ficou ressentido o tempo todo.

E então, vêm os venezuelanos a dizer: “Escutem, vamos dar-vos capital e com ele podem começar a reconstruir o país.” A primeira coisa que Préval fez quando chegou ao poder depois da sua segunda eleição, foi assinar o acordo Petrocaribe com Vicente Rangel, vice-presidente venezuelano.

Então Préval assina esse acordo e demorou dois anos para que o petróleo realmente fluísse e ganhasse o fundo Petrocaribe, esse fundo de capital. Os EUA estavam chateados com isso, e é quando vem o terremoto e dizem: “Ah, aqui está uma oportunidade de ouro“.

Os EUA, basicamente assumiram o governo de Préval. O Pentágono, que desembarcou 20 mil soldados dos EUA sem convite do Haiti nem permissão dele, mandou Hillary Clinton para começar a administrar tudo. E é então que Bill Clinton dirige a Comissão Interina de Recuperação do Haiti.

ABC News: E os Clintons juntos, desempenharam papéis de destaque após o terremoto, já que empresas com fins lucrativos e organizações de ajuda correram para participar num programa de reconstrução no valor de US $ 10 bilhões.

Kim Ives: Eles aprovaram uma lei, Estado de emergência e basicamente assumiram o governo de Haiti e começaram a trazer, é claro, todos os contratantes usuais, «Brown and Root» e –

Jeremy Scahill: Halliburton (empresa multinacional americana do ramo petrolífero – Ndt )

Kim Ives: Halliburton, etc, etc e etc, reconstrução. Mas, os EUA precisavam basicamente de tirar o presidente Préval. Préval tinha uma eleição a chegar. Ocorreu a eleição presidencial. Então, nessa eleição, Jude Célestin ficou em segundo na primeira volta e, Michel Martelly, que era basicamente um neo-Duvalier muito mais centrado nos EUA, ficou em terceiro.

Em Janeiro de 2011, Hillary Clinton voa para Porto Príncipe para ler a René Préval o acto de revolta e diz: “Você tem que tirar o seu sujeito e colocar Michel Martelly“.  Martelly entra e sai Préval.

 Então, a ajuda humanitária – toda a aquisição, supostamente para benefício dos haitianos, foi usada neste golpe político através de uma eleição, essencialmente para o enriquecimento económico e hoje vemos o resultado. É por causa disto que  as pessoas estão a revoltar-se.

Jeremy Scahill: George, o que pensa sobre a forma como o governo venezuelano sob o comando de Maduro tem respondido a Juan Guaidó que se declarou presidente, a investida da máquina de propaganda dos EUA, mas também sobre essa formação militar que estamos a presenciar junto com as ameaças?

George Ciccariello-Maher: Eu acho que o governo de Maduro tem andado sobre numa linha muito difícil. Por um lado não querem parecer fracos. Certamente não querem parecer como se estivessem a unir-se  a esse tipo de presidente interino não eleito, mas por outro lado também não querem provocar. Por exemplo, quando Maduro justificadamente ordenou que as autoridades diplomáticas dos EUA saíssem do país, totalmente legítimo dada a intervenção dos EUA sobre este assunto, Trump recusou-se a o reconhecer e disse-lhes que não tinham de sair.

Ele não é o presidente, e etc. Então, Maduro, cuidadosamente reduziu a tensão em torno desta questão, embora fosse legítimo prender esses funcionários, detê-los e expulsá-los. Mas esta foi de certa forma, exactamente o que Trump queria. Agora, a próxima provocação é o que vai acontecer na fronteira, onde os EUA e aliados à oposição venezuelana, vão tentar forçar essa ajuda através da fronteira.

Philip Reeves: Hoje, nos protestos em massa, Guaidó anunciou o prazo para receber a ajuda na Venezuela, o dia 23 de Fevereiro. Maduro não mostra sinais de ceder.

George Ciccariello-Maher: O objectivo é literalmente violar o território soberano da Venezuela. Eu acho que vai ser realmente tenso o que pode acontecer nos próximos dias e, infelizmente, a médio prazo, o que vai acontecer é que a nova onda de sanções de Trump vai realmente esmagar ainda mais a economia venezuelana. E com as outras fontes de ajuda e de apoio ausentes, vai ser muito difícil para o governo venezuelano resistir a  esse bloqueio.

Sabemos que chegaram ajudas russas e chinesas e que estão a ser distribuídas, e nós, você sabe, não há razão para duvidar de que esta ajuda não seja similar à insignificância simbólica que os EUA oferecem. Mas, se  será ou não suficiente, realmente fará parte do que se desenrolará a longo prazo. Existe um bloqueio de petróleo. Há um roubo real de bilhões de dólares mantidos em contas dos EUA que foram entregues a Guaidó.

Temos Guaidó a tentar basicamente fazer com que o banco da Inglaterra entregue todo o ouro que a Venezuela armazenou lá. Por outras palavras, um roubo em massa de dinheiro que deveria ser usado para realmente superar esta crise económica e colocar a economia venezuelana num patamar mais estável.

Jeremy Scahill: Andrew McCabe que está em turnê pelo seu livro, as grandes manchetes que ele fez falavam sobre planos de invocar a 25ª Emenda para tentar remover Donald Trump como presidente, baseado na sua saúde mental ou na falta dela. Mas ele também refere a Venezuela no seu livro e eu só quero ler, George, uma citação acerca de uma reunião que ocorreu na Sala Oval em 2017. Ele escreve assim: “Então o presidente falou sobre a Venezuela. ‘Esse é o país com o qual deveríamos entrar em guerra’, disse ele. “Eles têm todo esse petróleo e estão bem na nossa porta dos fundos.” Isto é realmente o que você vê como a agenda dos EUA aqui, George?

George Ciccariello-Maher: Eles foram muito claros sobre isso. Mas eu acho que a citação que leu também é muito reveladora. Trump refere todo esse petróleo e eles estão, você sabe, eles estão aqui no nosso quintal, certo? Estamos a falar da doutrina Monroe. Então, trata-se de economia. Noutras palavras, trata-se de controle económico.

Mas também se trata de controlo político e acho que devemos lembrar isto porque, parte do legado chavista é, não é  só a procura por soberania nacional mas sim a construção de alianças regionais.

Por outras palavras, temos falado sobre o «Petrocaribe», mas também existem outras alianças regionais internacionais, parcerias que forneceram uma protecção para os países latino-americanos agirem de forma independente. Por outras palavras, não terem que apelar ao Banco Mundial e ao FMI para financiamento,  perante uma falha momentânea na sua economia, sendo capazes de pedir dinheiro emprestado da Venezuela, da Argentina.

O que aconteceu nos últimos anos é que essa aliança regional foi sendo desintegrada pouco a pouco. Estamos a falar dos golpes nas Honduras, quase golpes no Brasil e Paraguai, eleições na Argentina, no Chile e Colômbia, factores que realmente ajudaram a romper essa aliança regional.

O Grupo Lima é o produto disso. Por outras palavras, a nova direita da América Latina tornou isso mais difícil. E assim, na ausência da capacidade dos EUA em derrubar Chávez em 2002, eles começam agora a trabalhar á volta e a destruir essa unidade regional.

E têm sido muito bem-sucedidos no que agora torna a Venezuela muito mais susceptível à pressão directa. E, claro, o objectivo desse controlo regional é o controlo económico, é a capacidade de intervir e você sabe, esses recursos, esses mercados comandados por eles.

Jeremy Scahill: Kim, a década de 1980 parece ser agora um grande ponto de referência. Refere pessoas como Elliott Abrams, que esteve profundamente envolvido em crimes de guerra, massacres, encobrindo-os, mentindo para o Congresso, o Irão-Contra. John Bolton, que dedicou a sua vida inteira a espalhar a guerra ao redor do mundo. Depois um Secretário de Estado muito militarista em Mike Pompeo mais a provocação militar, ao mesmo tempo que Trump dizia durante seu Estado da União que há essa ameaça do socialismo, mesmo dentro das fronteiras dos Estados Unidos. Defina o que estamos agora a ver na América Central e América Latina num contexto mais amplo.

Kim Ives: Bom, isto é interessante. O Haiti sempre teve este tipo de papel de vanguarda na história. No auge da prosperidade colonial e no final do século XVIII, a revolução haitiana explodiu em 1791. Basicamente disseram as palavras de ordem da Revolução Francesa, “Liberdade, igualdade, fraternidade”, palavras não aplicadas aqui na França e Caribe, e começou uma revolução de treze anos que acabou por tornar a primeira nação independente da América Latina, a primeira república negra.

E foi um exemplo para todas as revoluções do continente. Foram os haitianos que deram as suas armas a Bolivar, os seus navios, as suas prensas de impressão, os seus soldados para lutarem nas batalhas no continente e libertá-lo.

Avançando para a década de 1980,os sandinistas foram golpeados numa espécie de golpe eleitoral em 1990 e os haitianos disseram “Que se lixe. Vamos eleger Jean-Bertrand Aristide ”, este anti imperialista e teólogo da libertação.

Começa então uma onda, uma guinada à esquerda, porque Chávez viu isso na Venezuela, Morales na Bolívia, Correa no Equador. E disseram: “Droga, podemos fazer a mesma coisa”. Então, pegaram emprestado o manual do Haiti e detonaram a maré rosa. Mas isso foi revidado. Os EUA capturaram uma a uma, a Argentina, Chile e agora o Brasil. Acabamos agora numa situação em que os haitianos estão novamente a erguer-se e a dizer: “vamos lutar contra isso”. Então, eu acho que sim, vemos este tipo de polarização com estas pessoas a chegar ao poder nos EUA, ultra militaristas, ultra reaccionárias.

Jeremy Scahill: George, eu já falei sobre isto em episódios anteriores, mas quero lembrar as pessoas de algo que estamos a ver acontecer em tempo real, que é a referência continuada de figuras políticas dos EUA, incluindo Nancy Pelosi e Trump, nos media noticiosos da televisão, a dizer que Maduro está a bloquear uma ponte entre a Colômbia e a Venezuela. Um colega meu que se especializou em imagens de satélite, passou por todas as imagens desta ponte em particular e, as pessoas lembrar-se-ão dela, porque foi mostrada por todo o mundo com esses camiões e contentores a bloquear o que parece ser uma super ponte, moderna, que liga a Colômbia e Venezuela, e de acordo com essas imagens de satélite nunca se viu um carro a atravessa-la.

Aquela ponte que nos foi falada na semana passada pelo vice-chanceler Carlos Ron nunca esteve em uso e ainda não foi inaugurada. Mas agora, estivemos a ver essas imagens de satélite históricas, a partir deste site específico e nunca vimos um carro a cruzar a ponte.

Parece bastante claro que se trata de um esforço intencional de propagandear e fazer com que as pessoas acreditem que Maduro está a impedir que a ajuda atravesse essa ponte, quando a realidade é que a ponte nunca foi usada antes. Parece ser uma imagem incitante que seria usada para justificar a hostilidade e a agressividade dos EUA.

George Ciccariello-Maher: Absolutamente. Isto é pura Hollywood, certo? Como se fosse literalmente usada para justificar esta guerra. A ponte nunca foi aberta e fico feliz que todos vocês tenham voltado atrás, para provar através da filmagem de satélite algo que as pessoas têm dito.

Porque quando algo é repetido, torna-se numa espécie de narrativa que também é repetida por todos os media: que esta ponte está a ser bloqueada quando literalmente nunca foi usada, certo?

Não foi uma ponte que usamos, mas foi usada para tráfego comercial.

Não foi uma ponte que foi usada para cruzar qualquer tipo de ajuda e por isso não foi bloqueada. Não foi obstruída.

Mas isso também é usado para distrair e para se cair nessa narrativa que a ajuda é de alguma forma legítima. Não é ajuda. Trump este ontem na tv a celebrar Oscar Pérez que, se as pessoas se lembram, foi um autoproclamado líder rebelde venezuelano que na altura pilotou um helicóptero e atirou granadas para cima da Corte Suprema.

Donald John Trump : Oscar deu sua vida pela liberdade do seu povo. Hoje, todos temos esperança em grandes pessoas e patriotas como o Oscar. Por favor –

George Ciccariello-Maher: Parece que estamos de volta ao Reagan. Estamos de volta ao período em que os Contras eram combatentes pela liberdade, enquanto apenas decapitavam, violavam e roubavam a Nicarágua. Essas pessoas não se importam com a ajuda. Elas não se importam com o povo venezuelano. Elas não se importam com a democracia. Isto é absolutamente claro. E assim, ficamos nesta situação em que ainda lutamos por meio dessas narrativas bizarras dos media, que também são usadas para justificar algo que todos sabemos não ser verdade e, que os democratas na sua maior parte, 99% estão a cair directo nesse roteiro e narrativa.

Jeremy Scahill: Quero também saber a sua opinião sobre as últimas rodadas de sanções do governo Trump, que visam indivíduos específicos do governo de Maduro e, se aceita a premissa de qualquer uma das alegações dos EUA contra indivíduos específicos dentro do governo de Maduro e o próprio Maduro, sobre a questão de corrupção ou pilhagem de recursos estatais ou má gestão de fundos para o país. Há legitimidade para as alegações feitas por Guaidó ou pelo Departamento do Tesouro dos EUA?

George Ciccariello-Maher: Quer dizer se há corrupção na Venezuela? Sempre existiu e é abundante nas economias petrolíferas, foi abundante antes de Chávez e continuou e, houve lutas contra isso que provavelmente não foram tão longe quanto pretendiam ir.

Mas tudo isso ocorre no contexto de um governo que tenta manter um equilíbrio tenso de poder, a tentar limpar o governo o máximo possível, enquanto a economia está a ser ser destruída mais tarde, numa maneira que incentiva a corrupção. Por exemplo, hoje os decisores na Venezuela como resultado dessa pressão dos EUA são generais.

E esta não é uma boa situação para um país, porque os generais são capazes de fazer exigências ao governo para seu próprio enriquecimento pessoal. E isto é algo que não devemos querer. Mas há duas perguntas, penso eu, que são excelentes. Uma deles é se os Estados Unidos têm absolutamente alguma autoridade moral para falar sobre o que está acontecer no governo venezuelano? E eu acho que a resposta é um ressonante não.

 O segundo ponto tem sido bizarro – e é realmente bizarro – a narrativa da imprensa que diz que as sanções originais de Trump tiveram alvos. As sanções que estão em vigor há mais de um ano são absolutamente debilitantes. Elas não foram direccionadas a indivíduos, apesar das pessoas repetirem isso repetidas vezes.

Eles tornaram quase impossível que a Venezuela possa adquirir financiamento para ajudar a indústria petrolífera a continuar a funcionar. Eu só quero repudiar esta narrativa de que as sanções que existem hoje têm como alvo indivíduos, porque na realidade elas ajudam a destruir a qualidade de vida de muitos venezuelanos. Pode ver isso no nível da produção de petróleo que declinou precipitadamente no último ano e o efeito vê-se nas ruas.

Existe corrupção. Sempre houve corrupção. São os movimentos sociais nos níveis de base que querem combater essa corrupção, que procuraram supervisioná-la, mas hoje, são precisamente esses que estão a ser martelados com essas mesmas sanções.

Jeremy Scahill: Tudo bem, temos que terminar. George, muito obrigado por se juntar a nós.

George Ciccariello-Maher: Obrigado por me receber.

Jeremy Scahill: Kim Ives, obrigado também.

Kim Ives: Obrigado, Jeremy.

parte 1

parte 2

continua….

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