A Arte da Omissao

ACORDEM

A União Europeia é forçada a participar nas guerras dos EUA

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo

L’Union européenne est contrainte de participer aux guerres US

de Thierry Meyssan

Desde o Tratado de Maastricht, todos os membros da União Europeia (incluindo países neutros) colocaram a sua defesa sob a suserania da NATO; a qual é liderada exclusivamente pelos Estados Unidos. É por isso que, quando o Pentágono delega ao Departamento do Tesouro o cerco económico dos países que quer esmagar, todos os membros da União Europeia e da NATO são obrigados a aplicar as sanções americanas.

| Damasco (Siria)

Depois de perder a maioria na Câmara dos Representante nas eleições do meio mandato, o presidente Trump encontrou novos aliados em troca da sua absolvição pelo procurador Mueller da acusação de alta traição [1]. Trump apoia agora os objectivos dos seus generais. O imperialismo dos EUA está de volta [2] .

[2] Após a sua ascensão à Casa Branca, o Presidente Trump transformara o Conselho Nacional de Segurança para retirar o assento permanente à CIA e ao Pentágono “Presidential Memorandum : Organization of the National Security Council and the Homeland Security Council”, by Donald Trump, Voltaire Network, 28 January 2017. “Donald Trump dissolve a organização do imperialismo norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Fevereiro de 2017.

Em menos de seis meses, os fundamentos das relações internacionais foram “reiniciadas”. A guerra que Hilary Clinton prometeu soltar foi declarada, mas não exclusivamente pela força militar.

Esta mudança nas regras do jogo, sem paralelo desde o fim da Segunda Guerra Mundial, forçou imediatamente que todos os jogadores repensassem as suas estratégias e, portanto, todos os dispositivos da aliança em que se baseavam. Aqueles que estão atrasados pagarão as taxas.

A guerra económica está declarada

As guerras serão sempre mortais e cruéis, mas para Donald Trump, que era um homem de negócios antes de ser presidente dos Estados Unidos, é preferível que elas sejam o mais barato possível. Portanto, é necessário matar com a pressão económica, e não pelas armas. Sabendo que os Estados Unidos já não negociavam com a maioria dos países que atacam, o custo financeiro dessas guerras (no sentido real do termo) “económicas” é, na verdade, suportado mais por países terceiros do que pelo Pentágono.

Assim, os Estados Unidos acabaram de decidir cercar a Venezuela [3], Cuba [4] e Nicarágua [5]. Estes actos são apresentados pelos media como “sanções”, sem nos indicar em qual Lei, Washington se baseia para esconder as guerras reais para matar.

[3] “US Treasury Sanctions Central Bank of Venezuela and its Director”, Voltaire Network, 17 April 2019.

[4] Cuban Liberty and Democratic Solidarity (Libertad) Act of 1996

[5] “US Treasury Targets Finances of Nicaraguan President Daniel Ortega’s Regime”, Voltaire Network, 17 April 2019.

Elas são implantados com referência explícita à «Doutrina Monroe» (1823), de acordo com a qual nenhuma potência estrangeira pode intervir no continente americano, enquanto em troca, os Estados Unidos abstêm-se de intervir na Europa Ocidental.

Apenas a China, que se sentiu visada, apontou que as Américas não são propriedade privada dos Estados Unidos. Todos sabem que esta doutrina evoluiu rapidamente para justificar o imperialismo ianque no sul do continente (o “Corolário Roosevelt”).

Actualmente, as sanções dos EUA afectam pelo menos vinte países: Bielorrússia, Birmânia, Burundi, Coreia do Norte, Cuba, Federação da Rússia, Iraque, Líbano, Líbia, Nicarágua, República Árabe Síria, República Bolivariana da Venezuela, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, República Islâmica do Irão, Sérvia, Somália, Sudão, Sudão do Sul, Ucrânia, Iémen e o Zimbabué. É um mapa muito preciso dos conflitos liderados pelo Pentágono, assistido pelo Departamento do Tesouro dos EUA.

Estes alvos nunca estiveram na Europa Ocidental (como a “Doutrina Monroe” especifica), mas somente no Oriente Médio, Europa Oriental, Bacia do Caribe e África. Desde 1991, que estas áreas foram todas listadas pelo Presidente George Bush Pai, na sua Estratégia Nacional de Segurança, fazendo parte da «Nova Ordem Mundial» [6]. Considerando que elas não puderam ou não quiseram, foram sancionadas em 2001 pelo Secretário de Defesa Donald Rumsfeld e seu assessor para a transformação da força armada, Almirante Arthur Cebrowski, e condenadas ao caos [7] .

[6] National Security Strategy of the United States 1991, George H. Bush, Casa Branca, 1991.

[7] “A estratégia do Caos Encaminhado”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 16 de Abril de 2019.

A expressão “guerra económica” tem sido usada em excesso durante décadas, para designar uma competição exacerbada. Hoje, não se trata disso mas de uma verdadeira guerra para matar.

As reacções dos alvos e as reacções Inadequadas dos aliados

Os sírios, que acabaram de ganhar uma guerra militar de oito anos contra os mercenários jihadistas da NATO, ficam surpresos com esta guerra económica que lhes impõe um rigoroso racionamento de electricidade, gás e petróleoe provoca o encerramento de fábricas que tinham acabado de reabrir. No máximo, eles podem congratular-se com o facto de o Império não lhes ter infligido essas duas formas de guerra ao mesmo tempo.

Os venezuelanos descobrem com horror o que a guerra económica significa e percebem que, tanto com o aventureiro Juan Guiado como com o presidente Nicolas Maduro, terão que lutar para preservar o Estado (isto é, um Leviatã capaz de os proteger [8]).

[8] Reagindo à guerra civil inglesa, o filósofo Thomas Hobbes teorizou, no seu livro Leviatã, a necessidade de apoiar um Estado, mesmo que autoritário e abusivo, em vez de não o ter e ser mergulhado no caos.

As estratégias dos Estados alvos acabam por ficar perturbadas. Por exemplo, a Venezuela, que não consegue mais importar medicamentos para os seus hospitais, chegou a um acordo com a Síria que, antes da guerra de 2011 era um importante produtor e exportador nessa área. As fábricas destruídas pela Turquia e pelos jihadistas foram reconstruídas em Alepo. Mas, quando reabriram, tiveram que fechar novamente, por falta de electricidade para funcionar.

A proliferação de teatros de guerra – e, portanto, as chamadas “sanções” – começam a causar sérios problemas para os aliados dos EUA, incluindo a União Europeia, que levou muito a mal as sobre empresas suas que investem em Cuba e, lembrando-se de acções tomadas para fechar o mercado iraniano, reagiram ameaçando, por sua vez, de accionar o tribunal arbitral da OMC. No entanto, como iremos ver, esta revolta da União Europeia está destinada ao fracasso, porque ela foi antecipada há 25 anos por Washington.

A União Europeia feita refém

Antecipando a actual reacção da União Europeia, inquietada por não conseguir negociar com quem quiser, a administração do Bush pai, desenvolveu a “Doutrina Wolfowitz”: assegurar que os europeus do oeste e da Europa Central nunca tenham defesa independente, mas apenas autónoma [9]. É por isso que Washington castrou a União Europeia a quando do seu nascimento ao impor uma cláusula no Tratado de Maastricht: a suserania da NATO – estou a falar aqui da União Europeia, não do Mercado Comum—.

[9] « US Strategy Plan Calls For Insuring No Rivals Develop », Patrick E. Tyler, e « Excerpts from Pentagon’s Plan : “Prevent the Re-Emergence of a New Rival” », New York Times, March 8, 1992. « Keeping the US First, Pentagon Would preclude a Rival Superpower », Barton Gellman, The Washington Post, March 11, 1992.

Recordemos o apoio contínuo da União Europeia a todas as aventuras subsequentes do Pentágono na Bósnia-Herzegovina, no Kosovo, no Afeganistão, no Iraque, na Líbia, na Síria e no Iémen. Em todos os casos, sem excepção, União Europeia enfileirou-se atrás do seu suserano, a NATO.

Além disso, esta vassalagem foi a única razão pela qual a União da Europa Ocidental (UEO) foi dissolvida e pela qual o Presidente Trump renunciou à dissolução da organização militar permanente da Aliança Atlântica: sem a NATO, a União Europeia ganharia a sua independência porque é a si – e não aos Estados Unidos – que os tratados se referem.

Certamente, os tratados estipulam que tudo isso deve ser feito de acordo com a Carta das Nações Unidas.

Mas, por exemplo, em 26 de Março de 2019, os Estados Unidos questionaram as resoluções que aprovara sobre a soberania do Golã. Eles mudaram de ideia sem aviso prévio, causando o colapso do direito internacional. [10]

[10] “A ONU minada pelo «excepcionalismo» norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Abril de 2019.

Outro exemplo: os Estados Unidos assumiram esta semana uma posição na Líbia a favor do general Khalifa Haftar – a quem o presidente Trump telefonou para lhe assegurar o seu apoio, como revelado pela Casa Branca em 19 de Abril – contra o governo criado pela ONU [11], e vimos os membros da União Europeia, a seguir um a um o exemplo.

[11] “Washington e Moscou unidos contra a ONU na Líbia”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Abril de 2019.

É impossível, de acordo com os seus tratados constitutivos, que a UE se afaste da NATO e, portanto, dos Estados Unidos, afirmando-se como um poder em si mesmo. Os protestos contra as pseudo-sanções decididas ontem contra o Irão (25 de Abril de 2019 -Ndt) e hoje contra Cuba estão condenados ao fracasso.

Os membros da União Europeia, que formaram um único bloco com os Estados Unidos durante a Guerra Fria, descobrem com espanto que não têm a mesma cultura que o seu aliado do outro lado do Atlântico. Durante esse parêntese, esqueceram tanto a cultura europeia quanto o “excepcionalismo” americano e erroneamente acreditaram que estavam todos de acordo uns com os outros. Querendo ou não, eles são agora os co-responsáveis pelas guerras de Washington, incluindo, por exemplo, a fome no Iémen após as operações militares da Coligação Saudita e as sanções dos EUA. Eles devem agora escolher entre endossar esses crimes e participar neles, ou retirarem-se dos Tratados Europeus.

A globalização acabou

O comércio internacional começa a encolher. Não se trata de uma crise passageira, mas de um fenómeno de fundo. O processo da globalização que caracterizou o mundo da dissolução da URSS às eleições intercalares dos EUA em 2018 terminou. Agora é impossível exportar livremente pelo mundo.

Somente a China dispõe ainda dessa capacidade, mas o Departamento de Estado dos EUA está a desenvolver formas de fechar o mercado latino-americano.

Nestas circunstâncias, o debate sobre as respectivas vantagens do livre comércio e do proteccionismo não é mais necessário, porque não estamos mais em paz e não há escolha.

Da mesma maneira, a construção da União Europeia, imaginada numa época em que o mundo estava dividido entre dois blocos irreconciliáveis, tornou-se totalmente inadequada. Se ela não quer embarcar pelos Estados Unidos em conflitos que não são deles, os seus membros devem ser libertar-se dos Tratados Europeus e do comando integrado da Nato.

Assim, é completamente descabido abordar as eleições europeias, opondo progressistas e nacionalistas [12], este não é de todo, o assunto. Os progressistas afirmam a sua vontade de construir um mundo governado pelo Direito internacional que o seu patrocinador, os Estados Unidos, quer erradicar, enquanto alguns nacionalistas, como a Polónia de Andrzej Duda, preparam-se para servir os Estados Unidos contra os seus parceiros da União Europeia.

[12] « Pour une Renaissance européenne », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 4 mars 2019.

Apenas alguns britânicos pressentiram a actual viragem. Eles tentaram deixar a União, mas não conseguiram convencer os seus parlamentares. “Governar é prever”, dizem eles, mas a maioria dos membros da União Europeia não viu o que está a vir.

Thierry Meyssan

[1] Report On The Investigation Into Russian Interference In The 2016 Presidential Election, Special Counsel Robert S. Mueller, III, March 2019.

[2] Após a sua ascensão à Casa Branca, o Presidente Trump transformara o Conselho Nacional de Segurança para retirar o assento permanente à CIA e ao Pentágono “Presidential Memorandum : Organization of the National Security Council and the Homeland Security Council”, de Donald Trump, Voltaire Network, 28 January 2017.

Donald Trump dissolve a organização do imperialismo norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 3 de Fevereiro de 2017.

[3] “US Treasury Sanctions Central Bank of Venezuela and its Director”, Voltaire Network, 17 April 2019.

[4] Cuban Liberty and Democratic Solidarity (Libertad) Act of 1996 cujas piores disposições foram incessantemente aplicáveis.

[5] “US Treasury Targets Finances of Nicaraguan President Daniel Ortega’s Regime”, Voltaire Network, 17 April 2019.

[6] National Security Strategy of the United States 1991, George H. Bush, The White house, 1991.

[7] “A estratégia do Caos Encaminhado”, Manlio Dinucci, Tradução Maria Luísa de Vasconcellos, Il Manifesto (Itália) , Rede Voltaire, 16 de Abril de 2019.

[8] Reagindo à guerra civil inglesa, o filósofo Thomas Hobbes teorizou, no seu livro Leviatã, a necessidade de apoiar um Estado, mesmo que autoritário e abusivo, em vez de não o ter e ser mergulhado no caos.

[9] « US Strategy Plan Calls For Insuring No Rivals Develop », Patrick E. Tyler, and « Excerpts from Pentagon’s Plan : “Prevent the Re-Emergence of a New Rival” », New York Times, March 8, 1992. « Keeping the US First, Pentagon Would preclude a Rival Superpower », Barton Gellman, The Washington Post, March 11, 1992.

[10] “A ONU minada pelo «excepcionalismo» norte-americano”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 2 de Abril de 2019.

[11] “Washington e Moscou unidos contra a ONU na Líbia”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Abril de 2019.

[12] « Pour une Renaissance européenne », par Emmanuel Macron, Réseau Voltaire, 4 mars 2019.

 

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This entry was posted on 14 de Maio de 2019 by in União Europeia and tagged , .

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