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Ditadores do Oriente Médio compram Tecnologia de espionagem a empresa vinculada à IBM e Google

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo “Middle East Dictators Buy Spy Tech From Company Linked to IBM and Google

de do The Intercept

12 de Julho de 2019

É do tamanho de uma pequena mala e pode ser colocado discretamente na traseira de um carro. Quando o dispositivo é ligado, começa a monitorizar secretamente centenas de telemóveis existentes nas proximidades, a gravar as conversas particulares das pessoas e a sugar as suas mensagens de texto.

O dispositivo é uma das várias ferramentas de espionagem fabricadas por uma empresa chinesa chamada Semptian, que forneceu o equipamento a governos autoritários no Oriente Médio e Norte da África, de acordo com duas fontes com conhecimento das operações da empresa.

Como o The Intercept noticiou pela primeira vez na quinta-feira, a Semptian usa desde 2015 esta tecnologia americana para ajudar a construir equipamentos de vigilância e censura mais poderosos e, depois vende-os a governos sob o disfarce de uma empresa de fachada chamada iNext.

A Semptian colabora com a IBM e com o fabricante líder de chips nos Estados Unidos, a Xilinx, para avançar com uma série de microprocessadores que permitam aos computadores analisar grandes quantidades de dados mais rapidamente. A empresa chinesa é membro de uma organização americana chamada OpenPower Foundation, fundada por executivos do Google e IBM com o objectivo de tentar “impulsionar a inovação.”

A Semptian, Google e Xilinx não responderam aos nossos pedidos para comentarem. A OpenPower Foundation disse num comunicado que “não se envolve nem procura ser informado, sobre as estratégias, objectivos ou actividades individuais dos seus membros”, devido às leis anti truste e da concorrência. Um porta-voz da IBM disse que sua empresa “não trabalhou com a Semptian no desenvolvimento de tecnologia conjunta” e recusou-se a responder perguntas adicionais.

O equipamento da Semptian está a ajudar o regime que governa do Partido Comunista da China a monitorizar secretamente a internet e a actividade de telemóveis a cerca de 200 milhões de pessoas do país do Leste Asiático, vasculhando todos os dias grandes quantidades de dados privados.

Mas o alcance da empresa estende-se muito além da China. Nos últimos anos, tem comercializado as suas tecnologias globalmente.

Depois de receber as dicas de fontes confidenciais sobre o papel do Semptian na vigilância em massa, um repórter entrou em contacto com a empresa com um nome falso e fingindo ser um potencial cliente. Um representante da Semptian confirmou por correio electrónico que a empresa havia fornecido as suas ferramentas de vigilância a agências de segurança no Oriente Médio e Norte da África – e disse ter instalado um sistema de vigilância em massa num país que não disse o nome, criando uma rede digital por toda a população.

O sistema de vigilância em massa, chamado Aegis, foi projectado para monitorizar o uso dos telefone e da internet. Ele pode “armazenar e analisar dados ilimitados” e “mostrar as conexões de todos”, de acordo com documentos fornecidos pela empresa.

“Nós instalamos o Aegis noutros países [além da China] e cobrimos todo o país”, afirmou Zhu Wenying do Semptian, num correio electrónico em Abril. Ele recusou-se a fornecer nomes dos países onde o equipamento foi instalado, dizendo que era “altamente sensível, estamos sob um contracto de confidencialidade muito estrito”.

Equipamento semelhante tem sido usado há anos pelas agências de inteligência ocidentais e pela polícia. No entanto, graças em parte a empresas como a Semptian, a tecnologia está cada vez mais nas mãos das forças de segurança de países não democráticos, onde os dissidentes são presos, torturados e, em alguns casos, executados.

Gus Hosein, director executivo do grupo de direitos humanos Privacy International disse: “Vimos exemplos regulares e chocantes de como a vigilância está a ser usada por governos em todo o mundo para permanecerem no poder, atacando activistas, jornalistas e membros da oposição. A indústria está a vender toda a pilha de capacidade de vigilância aos níveis de rede, serviço, cidade e estado. As empresas chinesas parecem ser as mais recentes entradas neste mercado competitivo de influência e exploração de dados.”

Perguntado se havia países com os quais se recusaria a lidar no Oriente Médio e Norte da África, Zhu escreveu que o Irão e a Síria eram os únicos dois lugares que estavam fora dos limites. A empresa aparentemente estava disposta a trabalhar com outros países da região – como Arábia Saudita, Bahrein, Marrocos, Emirados Árabes Unidos, Omã, Sudão e Egipto – onde os governos abusam rotineiramente dos direitos humanos, reprimindo a liberdade de expressão e a paz.

Documentos mostram que a Semptian está actualmente a oferecer aos governos a oportunidade de comprar quatro sistemas diferentes: Aegis, Owlet, HawkEye e Falcon.

Aegis, o principal sistema da Semptian, foi projectado para ser instalado dentro das redes de telefone e internet, onde é usado para recolher secretamente registos de correio electrónico, telefonemas, mensagens de texto, localizações dos telemóveis e históricos da navegação na Internet. Os governos da maioria dos países têm o poder de obrigar legalmente os fornecedores dos telefones e internet a instalar esse tipo de equipamento.

A Semptian alega que o Aegis oferece “uma visão completa do mundo virtual”, permitindo que os espiões dos governos vejam “informações das localização de todos no país”. Também pode “impedir que certas informações [na] internet sejam visitadas”, censurando conteúdo que os governos não querem que os seus cidadãos vejam.

Os dispositivos Owlet e Falcon são em menor escala; são portáteis e concentram-se apenas nas comunicações de telemóveis. Eles são do tamanho de uma mala e podem ser operados por exemplo a partir de um veículo, ou de um apartamento com vista para uma praça da cidade.

Quando o dispositivo do Owlet é activado, começa a procurar chamadas de telemóveis e mensagens de texto que estejam a ser transmitidas pelas ondas de rádio na área. Os documentos da Semptian afirmam que o Owlet tem capacidade para monitorizar 200 telefones diferentes em qualquer momento.

“A interceptação massiva é usada para interceptar voz e SMS em todos os sistemas dentro da faixa de cobertura”, afirma um documento que descreve o Owlet. Ele acrescenta que há um recurso a “filtragem por palavra-chave do SMS”, sugerindo que as autoridades podem segmentar pessoas com base em frases ou palavras específicas mencionadas nas suas mensagens.

O sistema Falcon, ao contrário do Owlet, não tem a capacidade de espiar chamadas ou textos. Em vez disso, foi projectado para rastrear a localização dos telemóveis celulares num raio de quase uma milha e pode localizá-los a menos de cinco metros, semelhante em função ao dispositivo conhecido como Stingray, usado pela polícia dos EUA.

Segundo documentos da Semptian, quando o Falcon é ligado, “força todos os telefones celulares e outros dispositivos de dados celulares próximos a conectarem-se a ele” e pode ajudar as autoridades governamentais a “descobrir a casa exacta na qual os alvos estão escondidos.”

O Falcon vem equipado com um dispositivo menor, de bolso, que pode ser usado por um agente do governo para perseguir pessoas a pé, rastrear a localização dos seus telefones celulares até um metro de distância.

Segundo documentos da empresa, o quarto sistema que a Semptian vende aos governos, o HawkEye, é uma plataforma portátil baseada numa câmara que incorpora a tecnologia de reconhecimento facial. Ele foi projectado para ser colocado em qualquer local para criar uma “cena de vigilância temporária”.

O HawkEye verifica as pessoas enquanto elas passam pela câmara e compara imagens dos seus rostos em fotografias contidas em “bancos de dados multimilionários” em tempo real, adicionando um alerta se um determinado suspeito for identificado.

Zhu, o funcionário da Semptian, escreveu que algumas dessas ferramentas foram fornecidas a autoridades na região do Oriente Médio e Norte da África, conhecida como MENA. “Aegis, Falcon e HawkEye são as nossas novas soluções para os utilizadores [das agências de aplicação da lei]”, escreveu Zhu. “Todos os três produtos têm histórias de sucesso e algumas no MENA.”

Elsa Kania, pesquisadora sénior adjunta do Centro para uma Nova Segurança Americana, disse que as exportações da Semptian parecem encaixar-se numa tendência mais ampla, que viu as empresas chinesas a exportarem tecnologias de vigilância e censura num esforço para explorar novos mercados, promovendo também a China ideologicamente.

“O Partido Comunista Chinês procura reforçar e apoiar regimes que não são diferentes de si”, disse Kania. “É profundamente preocupante, porque estamos a ver uma rápida difusão das tecnologias que, embora sujeitas a abusos nas democracias, são ainda mais problemáticas em regimes onde não há freios e contrapesos e uma sociedade civil aberta.” (tamanha hipocrisia. O que fez e continua a fazer a NSA dentro e fora dos Estados Unidos? – Ndt)

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This entry was posted on 15 de Julho de 2019 by in China and tagged , , , , , , .

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