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Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (1/3)

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (1/3)

Tradução do artigo La généalogie de la question kurde (A genealogia da questão curda)

De Thierry Meyssan

A unânime comunidade internacional multiplica as condenações da ofensiva militar a «Rojava» e assiste impotente à fuga de dezenas de milhares de curdos, perseguidos pelo exército turco. No entanto, ninguém intervém, considerando que um massacre é talvez a única maneira possível de restaurar a paz, dada a situação inextricável criada pela França e pelos crimes contra a humanidade cometidos por combatentes e civis curdos.

Rede Voltaire / Damasco (Síria) 15 de Outubro de 2019

 

Dezenas de milhares de civis curdos fugiram do exército turco, abandonando a terra que haviam conquistado e esperavam fazer sua terra natal.

Todas as guerras envolvem um processo de simplificação: existem apenas dois campos no campo de batalha e todos devem escolher o seu. No Médio Oriente, onde há uma quantidade incrível de comunidades e ideologias, esse processo é particularmente aterrorizante, pois nenhuma das peculiaridades desses grupos consegue encontrar expressão e cada um deve aliar-se a outros que desaprovam.

Quando uma guerra termina, todo mundo tenta apagar os crimes que cometeu, voluntariamente ou não, e às vezes fazer desaparecer os aliados que desejam esquecer. Muitos tentam reconstruir o passado para atribuírem a si mesmo o papel de bons. É exactamente isso que estamos a testemunhar com a operação turca “Fonte de paz” na fronteira com a Síria e as incríveis reacções que ela provoca.

Para entender o que está a acontecer, não basta saber que todos mentem. Também devemos descobrir o que todos escondem e aceitam, mesmo quando vemos que aqueles que admirávamos até então são de facto desprezíveis.

Genealogia do Problema

Se alguém acredita na comunicação europeia, poderemos pensar que os turcos maus exterminarão os curdos bons que os sábios Europeus tentam salvar, apesar dos covardes dos Estados Unidos. Ora, nenhum destes quatro poderes joga o papel que se lhes atribui.

Primeiro, o evento actual deve ser colocado no contexto da “Guerra à Síria”, que é apenas uma batalha, e no contexto da “Remodelação do Médio Oriente Alargado“,  no qual o conflito na Síria é uma etapa. Depois do 11 de Setembro de 2001, o secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, e seu novo director da “Transformação da Força”, o almirante Arthur Cebrowski, adaptaram a estratégia do Pentágono ao capitalismo financeiro.

Eles decidiram dividir o mundo em duas zonas: uma que seria a da globalização económica e a outra que seria vista como uma mera reserva de matérias-primas. Os exércitos dos EUA seriam responsáveis por remover as estruturas estatais nesta segunda região do mundo de modo a que ninguém pudesse resistir a essa nova divisão do trabalho [1]. Começaram pelo “Médio Oriente Médio alargado“.

Foi planeado destruir a República Árabe da Síria em 2003 (Syrian Accountability Act– Lei da Responsabilização Síria)  depois do Afeganistão e do Iraque,  mas diversos imponderáveis adiaram essa operação para 2011. O plano de ataque foi reorganizado tendo em conta a experiência colonial britânica na região. Londres aconselhou a não destruir completamente os Estados, a restaurar um Estado mínimo no Iraque e a manter os governos fantoches capazes de administrar a vida quotidiana das pessoas.

Tendo como modelo a “Grande Revolta Árabe” de Lawrence da Arábia que organizaram em 1915, trataram de pôr em marcha uma «Primavera Árabe» que colocasse no poder a Confraria dos Irmãos Muçulmanos e não mais a dos «Wahhabis» [2]. Começaram por derrubar os regimes pró-ocidentais da Tunísia e Egipto e depois atacaram a Líbia e a Síria.

No princípio, a Turquia, membro da NATO, recusou-se a participar na guerra contra a Líbia, país que era o seu primeiro cliente e contra a Síria, com a qual tinha criado um mercado comum. O ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Alain Juppé, teve a ideia de matar dois coelhos com uma só cajadada. Propôs ao seu colega turco, Ahmet Davutoğlu, resolver conjuntamente a questão curda em troca da entrada da Turquia na guerra contra a Líbia e a Síria.

Os dois homens assinaram um protocolo secreto que previa a criação de um Curdistão não nos territórios curdos da Turquia, mas nos territórios aramaico e árabe da Síria [3]. A Turquia, que tem excelentes relações com o governo regional do Curdistão do Iraque, desejava a criação de um segundo Curdistão, pensando em pôr um fim à independência curda no seu próprio solo.

A França, que havia recrutado tribos curdas em 1911 para suprimir os nacionalistas árabes, entendia finalmente criar na região um Curdistão semelhante, tal como os britânicos conseguiram criar uma colónia judaica na Palestina. Os franceses e os turcos ganharam o apoio dos israelitas que já controlavam o Curdistão iraquiano através do «clã Barzani», oficialmente membro do Mossad.

Em castanho: o Curdistão desenhado pela Comissão King-Crane, validado pelo presidente dos EUA Woodrow Wilson e adoptado em 1920 pela conferência de Sèvres.

Os curdos são um povo nómada (este é o significado exacto da palavra «curdo») que se move no vale do Eufrates, no Iraque, na Síria e Turquia. Organizado numa forma não tribal, mas em clãs, é conhecido pela sua coragem, criou muitas dinastias que reinaram no mundo árabe (incluindo o de Saladino, o Magnífico) e persa, e forneceu auxiliares a vários exércitos.

No início do século XX, alguns deles foram recrutados pelos otomanos para massacrarem as populações não-muçulmanas da Turquia, principalmente os arménios. Nessa ocasião, tornaram-se sedentários na «Anatólia», embora outros tenham permanecido nómadas.

No final da Primeira Guerra Mundial, o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, nos termos do parágrafo 12 dos seus 14 pontos (objectivos de guerra), criou um Curdistão sobre os escombros do Império Otomano. Para demarcar o território, enviou ao local a Comissão King-Crane, enquanto os curdos continuavam o massacre dos arménios.

Os especialistas determinaram uma área na Anatólia e alertaram Wilson para as consequências devastadoras de uma extensão ou deslocamento daquele território. Mas o Império Otomano foi derrubado a partir de dentro por Mustafa Kemal, que proclamou a República e recusou a perda territorial imposta pelo projecto Wilsoniano. No final, o Curdistão acabou por não ver a luz do dia.

Por um século, os curdos turcos tentaram separar-se da Turquia. Nos anos 80, os marxistas-leninistas do PKK («O Partido dos Trabalhadores do Curdistão» – Ndt) abriram uma verdadeira guerra civil contra Ancara e muito severamente reprimida. Muitos fugiram para o norte da Síria, sob a protecção do presidente Hafez al-Assad.

Quando o seu líder Abdullah Öcallan foi preso pelos israelitas e entregue aos turcos, abandonaram a luta armada. No final da Guerra Fria, o PKK, que não era mais financiado pela União Soviética, foi penetrado pela CIA e sofreu uma mutação. Abandonou a doutrina marxista e tornou-se anarquista, renunciou à luta contra o imperialismo e colocou-se ao serviço da NATO. A Aliança Atlântica fez amplo uso das suas operações terroristas para conter a impulsividade do seu membro turco.

Por outro lado, em 1991, a comunidade internacional travou uma guerra contra o Iraque que acabara de invadir o Kuwait. No final desta guerra, os ocidentais incentivaram a oposição xiita e curda a revoltar-se contra o regime sunita do presidente Saddam Hussein (sunita). Os Estados Unidos e o Reino Unido mataram 200.000 pessoas, mas ocuparam uma área do país que interditaram ao exército iraquiano. Expulsaram os seus habitantes e reagruparam os curdos iraquianos. É essa área que se reintegrou no Iraque após a guerra de 2003 e se tornou no Curdistão iraquiano em torno do clã Barzani.

O mapa da equipe de Rumsfeld / Cebrowski com o plano de “Remodelação do Médio Oriente Alargado”.
Fonte: “Blood borders – How a better Middle East would look“, Coronel Ralph Peters, Jornal das Forças Armadas, Junho de 2006.

No início da guerra contra a Síria, o presidente Bashar al-Assad concedeu a nacionalidade síria aos refugiados políticos curdos e seus filhos, os quais foram imediatamente para Damasco para defender o norte do país contra os jihadistas estrangeiros. Mas a NATO recorreu ao PKK turco e enviou-o para mobilizar os curdos da Síria e do Iraque a criarem um grande Curdistão, conforme planeado pelo Pentágono desde 2001 e registado no mapa divulgado pelo coronel Ralph Peters em 2005.

O mapa da “Remodelação do Médio Oriente  alargado”, modificado após o fracasso da primeira guerra contra a Síria.
Fonte: “Imagining a Remapped Middle East“, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, 28 de Setembro de 2013.

Esse projecto (que visava dividir a região com bases étnicas) não correspondia ao do presidente Wilson em 1919 (que visava reconhecer o direito do povo curdo), nem ao dos franceses (que recompensava os mercenários). Era vasto demais para eles e eles não podiam esperar controlá-lo. Mas encantava os israelitas, que viam como uma forma de conter a Síria por trás.

No entanto, provou-se ser impossível de alcançar. O USIP (Instituto dos Estados Unidos para a Paz – Ndt), um instituto dos “Five Eyes” relacionado ao Pentágono, propôs modificá-lo. O Grande Curdistão seria reduzido em favor de uma extensão do Sunistão iraquiano [4] e que seria confiada a uma organização jihadista: o futuro Daesh.

Os curdos do YPG (Unidades de Proteção Popular, organização armada curda da região do Curdistão sírio- Ndt), ramo sírio do PKK, tentaram criar um novo Estado, o «Rojava», com a ajuda das forças americanas. O Pentágono usou-os para confinar os jihadistas na área que lhes fora designada. Nunca houve uma luta teológica ou ideológica entre o YPG e o Daesh, era apenas uma rivalidade por um território a ser partilhado sobre os escombros do Iraque e da Síria. E quando o Emirado do Daesh entrou em colapso, o YPG ajudou os jihadistas a unir forças com Al Qaeda em Idleb através do seu «Curdistão».

Os curdos iraquianos do clã Barzani estiveram directamente envolvidos na conquista do Iraque pelo Daesh. De acordo com o PKK, o filho do presidente e chefe dos serviços secretos do governo regional curdo do Iraque, Masrour «Jomaa» Barzani, participou na reunião secreta da CIA em Amã a 1 de Junho de 2014, onde se planeou essa operação [5].

Os Barzani não lutaram contra o Daesh. Eles simplesmente reforçaram o seu território e os enviaram para enfrentar os sunitas. Pior, eles permitiram que o Daesh escravizasse os curdos não muçulmanos, os yazidis, na batalha de Sinjar. Aqueles que foram salvos foram resgatados por combatentes do PKK turco e os combatentes sírios do YPG foram corridos do local.

A 27 de Novembro de 2017, os Barzani organizaram – com o único apoio de Israel – um referendo de autodeterminação do Curdistão iraquiano, o qual perderam apesar de toda ‎a manipulação óbvia dos votos. O mundo árabe descobriu com espanto na noite da eleição uma maré de bandeiras israelitas em Erbil. Segundo a revista Israel-Curd, o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu tinha prometido transferir 200.000 curdos israelitas, no caso de uma vitória do referendo, para proteger o novo Estado.

Para se ganhar o direito à autodeterminação, um povo deve primeiro estar unido, o que nunca foi o caso dos curdos. Depois, deve habitar num território onde seja a maioria, o que apenas ocorreu na Anatólia desde o genocídio dos arménios, depois também no norte do Iraque desde a limpeza étnica da zona de exclusão aérea durante o após “Tempestade no Deserto” e, finalmente, no nordeste da Síria desde a expulsão dos cristãos assírios e árabes. Hoje, reconhecer-lhes esse direito é validar crimes contra a humanidade.

Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (2/3)

[1] Esta estratégia foi evocada pela primeira vez pelo Coronel Ralph Peters na “Stability, America’s Ennemy“, Parameteers 31-4 (revista da Infantaria do Exército dos EUA), Inverno de 2001. Depois foi mais claramente exposta ao grande publico pelo assistente do Almirante Cebrowski, Thomas P. M. Barnett, no The Pentagon’s New Map, Putnam Publishing Group, 2004. Por fim, o Coronel Peters publicou o mapa que o Estado-Maior dos EUA havia estabelecido, em “Blood borders – How a better Middle East would look”, Coronel Ralph Peters, Armed Forces Journal, Junho de 2006.

[2] Uma grande variedade de documentos disponíveis desde 2005 atestam a preparação desta operação pelo MI6. Nomeadamente os “e-mails” do Foreign Office revelados pelo denunciante Derek Pasquill. Ler : Sous nos yeux. Du 11-Septembre à Donald Trump, «Sob os nossos Olhos. Do 11-de-Setembro a Donald Trump»-ndT), Thierry Meyssan, Demi-Lune (2017).

[3] A existência deste Protocolo secreto foi revelado na época pela imprensa argelina. Diplomatas sírios descreveram-mo em detalhe. Infelizmente, os arquivos de que se dispunha em Damasco foram precipitadamente transferidos durante um ataque jiadista. Não está, pois, disponível de momento, mas será tornado público assim que esses arquivos forem triados.

[4] “Imagining a Remapped Middle East”, Robin Wright, The New York Times Sunday Review, September 28, 2013.

[5] «Yer: Amman, Tarih: 1, Konu: Musul», Akif Serhat, Özgür Gündem, 6 juillet 2014

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This entry was posted on 23 de Outubro de 2019 by in Turquia and tagged .

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