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Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (2/3)

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (2/3)

Tradução do artigo Le Kurdistan, imaginé par le colonialisme français

(O Curdistão, imaginado pelo colonialismo francês)

De Thierry Meyssan

Ao contrário da crença popular, «Rojava» não é um Estado para o povo curdo, mas uma fantasia francesa do período entre as duas guerras. Tratava-se de criar um Estado com os curdos equivalente à Grande Israel prevista para os judeus. Este objectivo colonial foi reactivado pelos presidentes Sarkozy, Holland e Macron, indo para a limpeza étnica que deveria ser realizada na região.

Rede Voltaire / Damasco (Síria) 16 de Outubro de 2019

Uma delegação curda é recebida no Palácio do Eliseu pelo presidente François Hollande e seu ministro da Defesa da época, Jean-Yves Le Drian, na presença de Bernard-Henri Levy, autorizando desastres na Tunísia, no Egipto e Líbia.

 

O Alto-comissário francês do «Levante», general Henri Gouraud, recrutou com a ajuda dos turcos 900 homens do clã curdo Millis, para reprimir a rebelião nacionalista árabe em Alepo e Raqqa. Esses mercenários lutarão como gendarmes franceses sob o que se tornará a bandeira do actual Exército Livre da Síria (Telegrama de 5 de Janeiro de 1921).   Fonte: Arquivos do exército francês.

O povo curdo nunca sonhou com a unificação, com excepção do projecto do príncipe Rewanduz que no século XIX, se inspirou na concepção alemã da Nação e entendia ser prioritário a unificação da língua. Até hoje, existem várias línguas, induzindo uma separação muito pronunciada entre os clãs Kurmanjis, Soranis, Zazakis e Guranis.

De acordo com documentos até agora inexplorados e sobre os quais o intelectual libanês Hassan Hamadé está actualmente a escrever num livro incrível, o primeiro-ministro francês, Leon Blum, negociou em 1936 com o chefe da Agência Judaica, Chaim Wiezmann, e com os britânicos, a criação de um Grande Estado de Israel da Palestina no Eufrates, incluindo o Líbano e a Síria até então sob mandato francês. Este projecto foi ofuscado pela furiosa oposição do alto-comissário francês do levante, o conde Damien de Martel. A França – e provavelmente o Reino Unido – estavam a pensar criar na época um Estado curdo na Síria, a leste do Eufrates.

Em 4 de Fevereiro de 1994, o Presidente Mitterrand recebeu uma delegação curda de membros do «PKK turco»

A questão curda tornou-se uma prioridade do presidente François Mitterrand. No meio da Guerra Fria, sua esposa Danielle, tornou-se a “mãe dos curdos [do clã Barzani]”. A 14 e 15 de Outubro de 1989, ela organizou um simpósio em Paris: “Curdos: identidade cultural, respeito pelos direitos humanos”. Ela desempenhou um papel na atribuição enganosa da morte dos curdos da vila de Halabja durante a guerra Iraque-Irão à crueldade do presidente Saddam Hussein, enquanto relatórios do Exército dos EUA atestavam que, pelo contrário, o vento havia deslocado gás iraniano durante uma terrível batalha [1]. Em 1992, ela participou na criação de um governo fantoche curdo na área ocupada anglo-saxónica do Iraque.

A 31 de Outubro de 2014, François Hollande acompanha Recep Tayyip Erdoğan nos degraus do Eliseu. Outro hóspede acabou por sair discretamente pelas traseiras, o  curdo pró-turco Salih Muslim

Durante a presidência de Nicolas Sarkozy em 2011, Alain Juppé conclui com a Turquia um protocolo secreto para a criação de um pseudo Curdistão. A Síria não reagiu. Então, a 31 de Outubro de 2014, o presidente François Hollande recebeu oficialmente no Palácio do Eliseu o primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdoğan com o co-presidente não oficial do YPG – (Unidades de Protecção Popular. Organização armada curda da região do Curdistão sírio. O grupo foi fundado como braço armado do Partido de União Democrática sírio e também tem ligações ao Conselho Nacional Curdo. Tem controlado militarmente boa parte do nordeste da Síria – Ndt), – Salih Muslim, para desenvolver o desmembramento da Síria.

Os combatentes curdos deixaram de se reconhecer como sírios e começaram a sua luta pela própria pátria. A Síria parou imediatamente o pagamento dos seus salários.

No final da batalha de Kobane, François Hollande muda de lado e mostra o seu apoio aos curdos, recebendo no Eliseu, em 8 de Fevereiro de 2015, uma delegação pró-EUA do YPG

No entanto, alguns meses depois, o presidente Barack Obama chama a atenção à França. Não cabe a Paris negociar o pseudo Curdistão tendo em conta os seus velhos sonhos coloniais, mas apenas ao Pentágono, de acordo com o plano étnico de Rumsfeld / Cebrowski. François Hollande curva-se e recebe uma delegação curda pró-EUA de combatentes da Aïn al-Arab (“Kobané” em alemão e não em curdo). A Turquia recusa submeter-se a Washington. Este é o começo de uma longa divergência entre membros da Aliança Atlântica.

Considerando que a reversão francesa viola o acordo de 31 de Outubro de 2014, os serviços secretos turcos organizam com o Daesh os ataques de 13 de Novembro de 2015 contra a França e a 22 de Março de 2016 contra a Bélgica que acabara de se alinhar com Washington [2]. O presidente Erdoğan anuncia inequivocamente os ataques contra a Bélgica, atentados esses que a imprensa Turca reivindica. Por fim, Salih Muslim organiza o recrutamento obrigatório de jovens curdos e constrói a sua ditadura, enquanto Ancara emite um mandado de prisão contra ele.

Decreto da “curdização” forçada do norte da Síria. Este documento, tornado público pelas vítimas cristãs assírias, testemunha a limpeza étnica perpetrada pelas Forças Democráticas da Síria (FDS) sob a supervisão militar dos EUA.

Em Outubro de 2015, o Pentágono criou as Forças Democráticas da Síria (FDS), uma unidade de mercenários turcos e sírios, incluindo alguns árabes e cristãos, com o fim de procederem à limpeza étnica sem ter que assumir responsabilidade pública por isso. Os FDS expulsaram as famílias árabes e cristãos assírios. Os combatentes vindos do Iraque e Turquia instalaram-se nas suas casas e tomaram posse das suas terras. O Arcebispo Católico Siríaco de Hassaké-Nisibi, Mons. Jacques Behnan Hindo, testemunhará várias vezes que os líderes curdos evocaram diante dele um plano de expulsão dos cristãos de « Rojava».

As forças especiais francesas assistem a este crime contra a humanidade sem pestanejar. A 17 de Março de 2016, é declarada a autonomia de “Rojava” (pseudo Curdistão na Síria [3]. Temendo a junção entre o PKK turco e o clã Barzani do Iraque que abriria o caminho para a criação de um Grande Curdistão, o governo iraquiano enviou armas ao PKK para derrubar os Barzanis. Segue-se uma série de assassinatos de líderes curdos por clãs inimigos.

No final de 2016, a retirada parcial do exército russo seguida da libertação de Alepo pelo exército árabe sírio, marcam a reversão final da guerra. Esses feitos coincidem em Janeiro de 2017 com a chegada à Casa Branca do presidente Donald Trump, cujo programa eleitoral prevê o fim da estratégia de Rumsfeld / Cebrowski ou seja, o  fim do apoio maciço aos jihadistas e a retirada da NATO e tropas americanas da Síria.

A França facilita a saída de jovens combatentes anarquistas para Rojava, persuadidos a defender a causa curda enquanto lutam pela Aliança Atlântica [4]. De regresso à França, eles serão tão incontroláveis quanto os jovens jihadistas franceses. Assim, de acordo com a DGSI ( Direcção Geral de Segurança Interna francesa), é um desses combatentes  que tentará abater um helicóptero de gendarmaria durante a evacuação do aeroporto de Notre-Dame-des-Landes [5].

Em Junho de 2017, o Presidente Trump autorizou uma operação conjunta do Exército Árabe Sírio (comandado pelo Presidente Bashar al-Assad) e as FDS (isto é, mercenários curdos pró-EUA) para libertar Raqqa, a capital do Daesh [6]. A guerra tinha acabado, mas nem a França nem a Alemanha assim o entendem.

Gradualmente, o controle do YPG escapa aos Estados Unidos que deixam de se interessar. A organização terrorista torna-se um brinquedo francês, como a  Irmandade Muçulmana é um fantoche britânico.

Este mapa foi publicado pela agência Anadolu  em Janeiro de 2019. Ele mostra 9 bases militares francesas, das quais 8 foram montadas pelo Presidente Emmanuel Macron.

A Turquia publica então através da sua agência oficial, a Agência Anadolu, o mapa com bases militares francesas em Rojava, cujo número foi aumentando para nove sob a presidência de Emmanuel Macron. Até agora, apenas era conhecida a fábrica de cimento do Grupo «Lafarge». Ancara pretende enfatizar que, ao contrário das suas declarações oficiais e ao contrário dos Estados Unidos, a França permanece favorável à divisão da Síria.

Também podemos revelar agora que, solicitada pelos serviços de inteligência sírios para recuperar os seus jihadistas presos, a França recusou repatriá-los para julgamento. Ela pediu que fossem entregues às forças curdas que cuidariam deles.

Em Fevereiro de 2018, o embaixador russo na ONU, Vassily Nebenzia, revela que os curdos sírios tinham acabado de amnistiar 120 líderes do Daesh e que os incorporaram no YPG. (Unidades de Protecção Popular.Organização armada curda da região do Curdistão sírio – Ndt).

Desde Setembro de 2018, o presidente Trump prepara a retirada das tropas americanas de toda a Síria [7]. O abandono de Rojava está condicionada ao corte da estrada iraniana que poderia atravessar este território para chegar ao Líbano. Em Agosto de 2019, ‎o presidente turco Erdogan aceita esse compromisso. Os soldados norte americanos  supervisionam a destruição das estruturas defensivas dos curdos. Um contracto é validado a 16 de Setembro de 2019 pela Rússia, Turquia e Irão.  (ouviram a comunicação social a explicar o que aconteceu desde Setembro de 2018 até Agosto de 2019? Não, só se ouviu a dizer que os EUA abandonaram o YPG. Fantástico melga- Ndt)

É iminente o fim deste pseudo Curdistão. A França sem entender o que está a acontecer fica estupefacta quando as tropas turcas invadem brutalmente esse pseudo Estado autónomo e de onde foge a população que ilegalmente o ocupa.

Enfatuado, e totalmente desconectado da realidade, Jean-Yves le Drian garante no estúdio da France 2 que a França prossegue, sem correr riscos, os seus objectivos na Síria.

Convidado do jornal televisivo da France2, em 10 de Setembro de 2019, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Yves Drian, tenta tranquilizar os Franceses sobre as consequências deste fiasco. Ele garante que a França controla a situação: os jiadistas detidos no Rojava não serão libertados, apesar de já não funcionar nenhuma instituição no local, e que serão julgados onde estão. Ele prossegue dizendo que Presidente Erdogan não tem forma de concretizar as suas ameaças. Finalmente, recusa responder à pergunta sobre a missão do Exército francês no local, perante esta derrocada.

Se ignorarmos o destino dos prisioneiros jihadistas bem como o das populações civis que roubaram essa terra, não temos notícias do destino dos soldados das nove bases militares francesas. Eles são apanhados no fogo cruzado, entre o exército turco que o presidente Hollande traiu e os curdos que o presidente Macron abandonou e, que mais uma vez, juraram lealdade à República Árabe da Síria.

 

Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (3/3)

 

[1]A War Crime Or an Act of War?”, Stephen C. Pelletiere, The New York Times, 31 de Janeiro de 2003.

[2] Segundo os peritos anti-terroristas, estes atentados não foram efectuados de acordo com um modo operacional comparável ao usado aquando dos outros atentados reivindicados pelo Daesh(E.I.), antes mostraram a assinatura de uma organização militar sofisticada, de um acto de guerra perpetrado por um Estado. “O móbil dos atentados de Paris e de Bruxelas”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 28 de Março de 2016.

[3] « Déclaration du Rojava pour une Syrie fédérale », Réseau Voltaire, 17 de Março de  2016.

[4] “As Brigadas anarquistas da OTAN”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 12 de Setembro de 2017.

[5] « Ces revenants du Rojava qui inquiètent les services de renseignement », Matthieu Suc e Jacques Massey, Médiapart, 2 de Setembro de 2019.

[6] “Secret Russian-Kurdish-Syrian military cooperation is happening in Syria’s eastern desert”, Robert Fisk, The Independent,  24 de Julho de  2017.

[7] “Trump eyeing Arab ‘boots on the ground’ to counter Iran in Syria”, Travis J. Tritten, Washington Examiner, 29 de Setembro de  2018.

 

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This entry was posted on 29 de Outubro de 2019 by in Síria, Turquia and tagged .

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