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Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (3/3)

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Tudo o que é escondido sobre a operação turca «Fonte de Paz» (3/3)

Tradução do artigo L’invasion turque du Rojava

A invasão turca de Rojava

De Thierry Meyssan

Se a comunidade internacional teme publicamente a brutalidade da intervenção turca no norte da Síria, oficialmente aplaude essa intervenção como a única solução para o retorno à paz naquela região. A guerra contra a Síria termina com mais um crime. Resta determinar agora, o destino dos mercenários estrangeiros de Idleb, dos jihadistas raivosos , filhos de uma guerra particularmente selvagem e cruel.

Rede Voltaire / Damasco (Síria) 17 de Outubro de 2019

Em 15 de Outubro de 2016, o Presidente Erdoğan anuncia solenemente que o seu país concretizará o juramento nacional de Mustafa Kemal Atatürk. A Turquia, que já ocupa militarmente parte de Chipre e Iraque, reivindica parte da Síria e da Grécia. Seu exército está a preparar-se.

Em 2011, a Turquia organizou conforme solicitada, a migração de 3 milhões de sírios para enfraquecer o país. Posteriormente, apoiou a Irmandade Muçulmana e seus grupos jihadistas, incluindo o Daesh. Roubou as máquinas-ferramentas de Alepo e instalou fábricas de contrafacção no Emirado islâmico.

Inebriada com as suas vitórias na Líbia e Síria, a Turquia tornou-se na Protectora da Confraria da Irmandade Muçulmana, aproximou-se do Irão e desafiou a Arábia Saudita. Implantou bases militares por todo o Reino Wahhabi no Catar, Kuwait e Sudão, contratou gabinetes de relações públicas ocidentais e destruiu a imagem do príncipe Mohamed Ben Salman, especialmente no caso Kashoggi [1]. Gradualmente, ela imaginou expandir o seu poder e aspirar tornar-se no XIV Império Mongol. Interpretando mal esse desenvolvimento como obra de Recep Tayyip Erdoğan, a CIA fez várias tentativas de o assassinar, provocando até o golpe de Estado fracassado de Julho de 2016.

Seguiram-se três anos de incerteza que terminaram em Julho de 2019, quando o presidente Erdoğan decidiu privilegiar o nacionalismo em vez do islamismo [2]. Hoje, a Turquia, embora ainda seja membro da NATO, transporta gás russo para a União Europeia e compra S-400s a Moscovo [3]. Ela cuida das suas minorias, incluindo curdos, e não exige mais que se seja muçulmano sunita, mas que se seja apenas leal à sua terra natal.

– Durante o Verão, o presidente Donald Trump anunciou a intenção de retirar as suas tropas de toda a Síria, a começar por Rojava (intenção já formulada a 17 de Dezembro de 2018), com a condição expressa de cortar a linha de comunicação entre Irão e Líbano (o que é novo). A Turquia subscreveu esse compromisso em troca de uma ocupação militar da faixa de fronteira da Síria, a partir da qual a artilharia terrorista poderia bombardeá-la.

A Rússia faz saber que não apoia o YPG que cometeu crimes contra a humanidade e aceitaria a intervenção turca se a população cristã fosse autorizada a retornar à sua terra. Foi a isto que a Turquia se comprometeu.

– A Síria fez saber que não iria repelir de imediato a invasão turca se pudesse liberar um território equivalente na província de Idleb. O que a Turquia aceitou.

O Irão fez saber que, apesar de desaprovar a intervenção turca, intervirá apenas em benefício dos xiitas e não está interessado no destino do Rojava. A Turquia tomou nota disso.

O princípio do fim do Rojava foi aprovado nas cúpulas EUA / Rússia, realizadas em Tele Aviv e Genebra, em Junho e Agosto de 2019.

Várias cúpulas internacionais foram organizadas para examinar as consequências dessas posições e determinar pontos subordinados (por exemplo, o petróleo da faixa de fronteira da Síria não será explorado pelo exército turco, mas por uma empresa americana). As primeiras cúpulas reuniram assessores de segurança dos EUA e da Rússia. As segundas, os chefes de Estado russo, turco e iraniano.

  • A 22 de Julho de 2019, a Turquia anuncia a suspensão do seu acordo migratório com a União Europeia [4].
  • A 3 de Agosto, o Presidente Erdoğan nomeia novos oficiais seniores, incluindo curdos e ordena a preparação da invasão a Rojava [5].
  • Ele ordena igualmente ao Exército turco que se retire da frente do Exército árabe sírio na província de Idlib, de maneira que este possa libertar um território equivalente ao que vai ser invadido a Leste.
  • A 23 de Agosto, o Pentágono ordenou o desmantelamento das fortificações do YPG para que o exército turco pudesse realizar uma ofensiva relâmpago [6].
  • A 31 de Agosto, em apoio ao Exército Árabe Sírio, o Pentágono bombardeou uma reunião com líderes da Al Qaeda em Idleb graças à inteligência turca. [7]
  • A 18 de Setembro, o presidente Trump muda de consultor de segurança e nomeia Robert O’Brien. Este homem discreto conhece bem o presidente Erdoğan, com quem resolveu as consequências do fracassado golpe de Estado de Julho de 2016 [8].
  • A 1º de Outubro, o Presidente Erdoğan anuncia a realocação iminente de 2 milhões de refugiados sírios no território de Rojava [9].
  • A 5 de Outubro, os Estados Unidos pediram aos membros da Coligação Internacional que recuperassem os seus nacionais jihadistas presos em Rojava. O Reino Unido solicitou a  transferência para o Iraque, enquanto a França e Alemanha recusaram [10].
  • A 6 de Outubro, os Estados Unidos declaram que não serão mais responsáveis pelos prisioneiros jihadistas em Rojava, que ficarão sob a responsabilidade turca.
  • A 7 de Outubro, as Forças Especiais dos EUA começam a retirar-se de Rojava.
  • A 9 de Outubro, o exército turco – nomeadamente comandado por oficiais curdos – e milicianos turcomanos, ostentando a recuperada bandeira do Exército Livre da Síria invadiram a faixa síria de  32 quilómetros do território sírio ocupada pelo YPG.

A operação “Fonte de paz” é perfeitamente legal no direito internacional se estiver limitada à faixa da fronteira de 32 quilómetros e se não der origem a uma ocupação turca indefinida [11]. É por isso que o exército turco está a usar milícias turcomanas sírias para perseguir o YPG no resto de Rojava.

Reunião de coordenação da operação «Fonte de Paz», no bunker de comando do Palácio Branco, em Ancara

A imprensa internacional, que não acompanhou os eventos no terreno e se contentou com as declarações oficiais contraditórias dos últimos meses, está atordoada. Todos os Estados em uníssono denunciam a operação turca, incluindo Estados Unidos, Rússia, Israel, Irão e Síria, embora todos a tenham negociado e validado. Aqueles que ameaçam a Turquia precisam pensar no possível retorno dos “seus” jihadistas aguerridos durante a longa guerra na Síria e que ainda estão em Idlib.

O Conselho de Segurança reúne-se com urgência a pedido do Presidente Macron e Chanceler Merkel. Para evitar demonstrar que ninguém se opõe realmente à intervenção turca, nem mesmo a França, a reunião é realizada à porta fechada e não é objecto de uma declaração do Presidente do Conselho.

É improvável que a Síria, sem sangue, possa recuperar imediatamente essa faixa de território, quando o Iraque não conseguiu libertar Baachiqa (110 km de profundidade) e a própria União Europeia não conseguiu libertar o terço de Chipre, ocupado desde 1974.

A 11 de Outubro, Jens Stoltenberg vem trazer à Turquia a bênção da NATO.

Apesar dos pedidos da França e da Alemanha, o Conselho Atlântico não se reúne. A 11 de Outubro, o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, vem a Ancara para garantir que a operação funcione. Ele celebra a grandeza da Turquia, fechando assim os bicos dos alemães e franceses [12].

A 13 de Outubro, em plena derrocada, a direcção do YPG é modificada. Seguindo o conselho russo, os líderes curdos, que estavam em constante negociação com a República Árabe da Síria, passam a jurar-lhe lealdade na base russa de Hmeimim [13]. No entanto, alguns membros da liderança da YPG contestam a renúncia de Rojava.

A 14 de Outubro, o presidente Donald Trump sanciona a Turquia, que são puramente simbólicas e permitem que Ancara continue o seu ataque sem prestar atenção às críticas [14].

O presidente Donald Trump conseguiu acabar com a questão de Rojava. O exército russo invadiu as bases americanas, abandonadas pelas IGs, mostrando o lugar que Moscovo ocupa na região em substituição de Washington. A Síria, ao denunciar a intervenção turca, libertou um quarto do seu território. A Turquia resolve a questão do terrorismo curdo e planeia resolver a questão dos refugiados sírios. A tentação será grande para não parar por aí.

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This entry was posted on 31 de Outubro de 2019 by in Síria, Turquia and tagged .

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