A Arte da Omissao

ACORDEM

Bolívia: o ódio ao índio

Nota do tradutor: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

El odio al indio

de

21 de Novembro de 2109

O fascismo, o ódio racial, não são apenas a expressão de uma revolução fracassada. Paradoxalmente, também nas sociedades pós-coloniais, é o sucesso de uma democratização material alcançada.

Como uma neblina nocturna e espessa, o ódio espalha-se pelos bairros das tradicionais classes médias urbanas da Bolívia. Os seus olhos transbordam de raiva. Não gritam, cospem; não reivindicam, impõem. As suas canções não são de esperança ou fraternidade, são de desprezo e discriminação contra os índios. Eles andam de moto, sobem para os seus camiões, reúnem-se nas suas fraternidades de carnaval e universidades particulares e vão à caça de índios insolentes que ousaram tirar o seu poder.

No caso de Santa Cruz, eles organizaram quadrilhas motorizadas 4 × 4 com tacos nas mãos para assustar os índios, a quem eles chamam de collas, que vivem em favelas e mercados. Eles cantam slogans dizendo que “há que matar collas” e, se no caminho cruzarem com alguma mulher vestida com uma Pollera (termo espanhol para uma grande saia de peça única usada principalmente nas festas e folclore tradicionais na América Latina de língua espanhola-Ndt), espancam-na, ameaçam e pedem que deixem o seu território. Em Cochabamba, organizaram comboios para impor a sua supremacia racial na zona sul, onde vivem as classes carentes, e agridiram – como se tratasse de um destacamento de cavalaria – milhares de camponesas indefesas que marchavam pela paz.

Eles carregam tacos de beisebol, correntes, granadas de gás; alguns exibem armas de fogo. A mulher é sua vítima favorita; eles agarram uma esposa do prefeito de uma população rural, humilham-na, arrastam-na pelas ruas, batem nela, urinam sobre ela quando cai no chão, cortam os seus cabelos, ameaçam linchá-la e, quando percebem que estão a ser filmados, decidem atrirar-lhe tinta vermelha simbolizando o que eles farão com o seu o sangue.

Em La Paz, eles suspeitam dos seus empregados que não falam quando trazem a comida para a mesa. No fundo, eles temem-nos, mas também os desprezam. Depois saem para as ruas para gritar, insultam Evo e, com ele, todos esses índios que ousaram construir a democracia intercultural com igualdade. Quando são muitos, arrastam a Wiphala, a bandeira indígena, cospem em cima dela, pisam-na, cortam-na e queimam-na. É uma raiva visceral que lançam sobre este símbolo dos índios que gostariam de extinguir da terra juntamente com todos os que nela se reconhecem.

O ódio racial é a linguagem política dessa classe média tradicional. De nada servem os seus títulos académicos, viagens e fé porque, no final, tudo é diluído perante a ancestralidade. No fundo, a linhagem imaginada é mais forte e parece aderir à linguagem espontânea da pele que odeiam, aos gestos viscerais e à sua moral corrompida.

Tudo explodiu no domingo, dia 20, quando Evo Morales venceu as eleições com mais de 10 pontos do segundo, mas não mais com a imensa vantagem de antes nem com 51% dos votos. Era o sinal pelo qual as forças regressivas agachadas aguardavam: desde o candidato medroso da oposição liberal, às forças políticas ultraconservadoras, à OEA e à inefável classe média tradicional. Evo venceu novamente, mas não obteve 60% do eleitorado; Ele estava mais débil e havia que passar por cima dele.

O perdedor não reconheceu a sua derrota. A OEA (Organização dos Estados Americanos – Ndt)  falou de “eleições limpas”, mas com a vitória diminuída pediu uma segunda volta, aconselhando ir contra a Constituição, que afirma que se um candidato tiver mais de 40% dos votos e mais de 10% dos votos na segunda volta, ele é o candidato eleito. E a classe média foi à caça dos índios.

Na noite da segunda-feira, dia 21, 5 dos 9 órgãos eleitorais foram queimados, incluindo os respectivos boletins de votos. A cidade de Santa Cruz decretou uma greve cívica que articulou os habitantes das áreas centrais da cidade, ramificando para as áreas residenciais de La Paz e Cochabamba. E foi quando o terror eclodiu.

Grupos paramilitares começaram a sitiar instituições, queimar sedes sindicais e incendiar casas de candidatos e líderes políticos do partido no poder. Até a casa particular do presidente foi saqueada; noutros lugares, famílias e crianças, foram sequestradas e ameaçadas de serem açoitadas e queimadas se o seu presidente ou o líder sindical não se demitirem do cargo. Foi desencadeada uma longa noite de facas e o fascismo cutucou os seus ouvidos.

Quando as forças populares mobilizadas para resistir a este golpe civil começaram a recuperar o controlo territorial das cidades com a presença de trabalhadores, mineiros, camponeses, indígenas e colonos urbanos – e o equilíbrio da correlação de forças estava a inclinar-se para o lado das forças populares – veio o motim policial.

Os policiais já tinham demonstrado durante semanas uma grande indolência e ineptidão para proteger as pessoas humildes, quando foram espancadas e perseguidas por gangues fascistóides. Mas, na sexta-feira, com o desconhecimento do comando civil, muitos deles mostraram uma capacidade extraordinária de atacar, prender, torturar e matar manifestantes populares.

Claro, antes tinham que conter os filhos da classe média e, supostamente, não tinham essa capacidade; No entanto, agora, que se tratava de reprimir índios revoltados, o destacamento, a arrogância e a fúria repressiva foram monumentais. O mesmo aconteceu com as forças armadas. Durante toda a nossa administração do governo, nunca permitimos que as manifestações civis fossem reprimidas, mesmo durante o primeiro golpe de Estado de 2008.

E agora, em plena convulsão e sem que lhe perguntássemos nada, eles declararam que não tinham elementos para conter revoltas, que mal tinham 8 balas por cada membro e que, para estar presente na rua de maneira dissuasiva, era necessário um decreto presidencial.

No entanto, não hesitaram em pedir/impor ao Presidente Evo a sua renúncia por violar a ordem constitucional. Eles tentaram sequestrá-lo quando se dirigia e estava no Chapare; e quando o golpe foi consumido, eles foram para a rua e dispararam milhares de balas, militarizaram as cidades, mataram camponeses. E tudo isso sem nenhum decreto presidencial.

Para proteger o índio, seria necessário um decreto. Para reprimir e matar índios, bastava obedecer ao que o ódio racial e a classe ordenavam. Em apenas 5 dias já morreram mais de 18 pessoas e 120 feridos por balas. E claro, todos eles indígenas.

A questão que todos devemos responder é: como é que essa classe média tradicional foi capaz de incubar tanto ódio e ressentimento contra o povo, levando-a a abraçar um fascismo étnico centrado no índio como inimigo? Como fez para irradiar as suas frustrações como classe na polícia e nas FF. E ser a base social dessa fascistização, dessa regressão estatal e degeneração moral?

Foi a rejeição da igualdade, isto é, a rejeição dos próprios fundamentos de uma democracia substancial.

Os últimos 14 anos de governo dos movimentos sociais tiveram como principais características o processo da equalização social, a redução abrupta da pobreza extrema (de 38 para 15%), a extensão dos direitos para todos (acesso universal à saúde, educação e protecção social), a indianização do Estado (mais de 50% dos funcionários da administração pública têm uma identidade indígena, uma nova narrativa nacional em torno do tronco indígena), a redução das desigualdades económicas (de 130 para 45 a diferença de rendimentos entre os mais ricos e os mais pobres); isto é, a democratização sistemática da riqueza, acesso a bens públicos, oportunidades e poder estatal. A economia passou de 9.000 milhões de dólares para 42.000, expandindo o mercado e as economias internas, o que permitiu que muitas pessoas tivessem a sua própria casa e melhorassem as suas actividade laborais. (consultar o que está por trás do sucesso econômico da Bolívia na era Evo Morales? – Ndt)

Isto levou ao facto de que numa década a percentagem de pessoas da chamada “classe média”, em termos de rendimentos, aumentasse de 35% para 60%, principalmente nos sectores indígenas populares. Tratou-se do processo de democratização dos bens sociais através da construção da igualdade material, mas que, inevitavelmente, levou a uma rápida desvalorização dos capitais económicos, educacionais e políticas pertencentes às classes médias tradicionais.

Se antes um sobrenome notável ou o monopólio dos conhecimentos legítimos ou o conjunto de vínculos parentais típicos da classe média tradicional lhes permitia aceder a posições na administração pública, obter créditos, concorrer a obras ou bolsas de estudos, hoje o número de pessoas que lutam pela mesma posição ou oportunidade, não só duplicou – reduzindo pela metade as possibilidades de acesso a esses bens – mas, além disso, os “arribistas”, a nova classe média de origem popular indígena, têm um conjunto de novos bens (o idioma indígena, vínculos sindicais) de maior valor e reconhecimento estatal para lutarem pelos bens públicos disponíveis.

Trata-se, portanto, do colapso do que era uma característica da sociedade colonial: a etnia como capital, ou seja, o fundamento imaginado da superioridade histórica da classe média sobre as classes subalternas, porque aqui, na Bolívia, classe social é apenas compreensível e visível na forma de hierarquias raciais.

O facto dos filhos desta classe média terem sido a força de choque da insurgência reaccionária, é o grito violento de uma nova geração que vê como a herança dos sobrenomes e da pele desaparece diante da força da democratização dos bens.

Assim, embora eles empunhem bandeiras da democracia entendidas como voto, na verdade revoltaram-se contra a democracia entendida como equalização e distribuição da riqueza. Foi por isso o transbordo do ódio, o desperdício da violência; porque a supremacia racial é algo que não se racionaliza, ela é vivida como o impulso primário do corpo, como uma tatuagem da história colonial na pele. Portanto, o fascismo não é apenas a expressão de uma revolução fracassada, mas, paradoxalmente, também nas sociedades pós-coloniais, o sucesso de uma democratização material alcançada.

Portanto, não surpreende que, enquanto os índios recolhem os corpos de cerca de vinte mortos a tiros, os autores materiais e morais narrem que o fizeram para salvaguardar a democracia. Mas, na realidade, eles sabem que o que fizeram foi para proteger o privilégio da casta e do sobrenome.

O ódio racial só pode destruir; não é um horizonte, nada mais é do que uma vingança primitiva de uma classe histórica e moralmente decadente e que demonstra, que por trás de cada liberal medíocre, agacha-se um consumado golpista.

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This entry was posted on 24 de Novembro de 2019 by in Bolivia and tagged .

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