A Arte da Omissao

ACORDEM

A primeira guerra da NATO-MO vira a ordem regional

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo La première guerre de l’Otan-MO renverse l’ordre régional

De Thierry Meyssan

Enquanto europeus e árabes são absorvidos pelo coronavírus, os anglo-saxões mudam a ordem do mundo. Sob o comando dos EUA, o Reino Unido assumiu o controlo da entrada do Mar Vermelho; os Emirados Árabes Unidos voltaram-se contra a Arábia Saudita e derrotaram-na severamente no sul do Iémen, enquanto os houthis o fizeram no norte do Iémen. Agora, o Iémen está dividido em dois Estados separados e a integridade territorial da Arábia Saudita está ameaçada.

 Rede Voltaire / Damasco (Síria) 24 de Março de 2020

Nota: este artigo é referenciado no artigo do mesmo autor:  Comment Washington entend triompher traduzido aqui

 

O presidente dos Estados Unidos Donald Trump, e o presidente de facto dos Emirados Árabes Unidos, príncipe Mohamed ben Zayed. Em silêncio, os dois empresários estão a reorganizar o Médio Oriente.

O presidente Donald Trump continua a sua política de retirada militar do “Médio Oriente alargado”. Para o fazer, gradualmente move as suas tropas, assina acordos com as forças que até ao momento tinham servido de pretexto para o destacamento militar americano  (por exemplo, com o Taliban) e negocia a libertação dos seus prisioneiros. Ao mesmo tempo, o Pentágono exortou o Reino Unido a liderar as operações da nova Aliança Atlântica-Médio Oriente e a supervisionar a continuação da “guerra sem fim” no “Médio Oriente alargado”. A Síria é vista como uma área de influência russa, enquanto a estratégia de Rumsfeld / Cebrowski continua com a divisão do Iémen em dois Estados separados e os preparativos para o desmembramento da Arábia Saudita.

Repatriamento de agentes da CIA que estavam presos

A 18 e 19 de Março de 2020, o cidadão americano Michael White, detido no Irão, foi transferido da sua prisão para a embaixada suíça em Teerão; outro cidadão americano, Amer Fakhoury, detido no Líbano, foi retirado ilegalmente por tropas americanas; O presidente Trump pediu publicamente ajuda à Síria para encontrar um terceiro cidadão americano, Austin Tice. Essas operações são supervisionadas pelo discreto consultor de segurança nacional Robert O’Brien, que tem uma vasta experiência na libertação de prisioneiros.

  • Michael White serviu 13 anos na Marinha dos EUA. Viajou para o Irão para se encontrar com a sua noiva. Foi preso em 2018 e condenado a 13 anos de prisão por espionagem. Outros cidadãos americanos presos no Irão – incluindo Morad Tahbaz, Robert Levinson, Siamak e Baquer Namazee – não parecem despertar o mesmo interesse de Washington. Michael White foi entregue ao embaixador suíço Markus Leitner por “razões de saúde”. No entanto, ele não está livre.

  • Amer Fakhoury é um colaborador famoso das tropas de ocupação israelitas no Líbano. Era membro do Exército do Sul do Líbano, director da sinistra prisão de Kiam e torturador. Fugiu do Líbano durante a retirada de Israel e regressou, por motivos desconhecidos, em Setembro de 2019. Foi imediatamente reconhecido e preso. Foi libertado devido à  prescrição dos seus crimes, o que é juridicamente  falso, mas proibido de deixar o território. Alojou-se na mega embaixada dos EUA em Awkar, sob a protecção da Embaixadora Dorothy Shea, de onde foi retirado sem autorização por helicóptero pelas Forças Especiais dos EUA para o Chipre.
  • Austin Tice é um capitão da Marinha que se tornou jornalista independente. Entrou na Síria ilegalmente com a ajuda dos serviços secretos turcos antes de desaparecer em 2012 em Daraya (subúrbio de Damasco). Eva Filipi, embaixadora tcheca que representa os interesses dos EUA na Síria, disse que estaria preso não por jihadistas, mas pelas autoridades sírias. Damasco sempre negou.

Estes três cidadãos dos EUA são provavelmente colaboradores ou agentes da CIA.

Estranhamente, os Emirados Árabes Unidos quebraram o embargo dos EUA e enviaram remédios para o Irão.

Cada facção libanesa acusa a outra de ter cedido à pressão dos EUA. O Hezbollah alega não ter traído a Resistência nem  ter negociado secretamente com Washington, enquanto o presidente do tribunal militar (pró-Hezbollah) renuncia.

É a primeira vez em duas décadas que um presidente dos EUA solicita publicamente assistência à República Árabe da Síria

 O secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, recebe o seu colega britânico Ben Wallace no Pentágono. É restaurada «a relação especial» entre os dois países. Os «cinco olhos (acordo entre Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Reino Unido e Estados Unidos-Ndt)» são reforçados. O Reino Unido assume o comando das operações da NATO-MO.

Transferência do enquadramento militar para o Reino Unido

A 5 de Março, o secretário de Defesa dos EUA, Mark Esper, recebeu o seu colega britânico Ben Wallace no Pentágono. Os dois homens partilharam o comando da nova NATO-MO [1] (“NATO Go Home!”, de Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 19 de Fevereiro de 2020).

Ben Wallace  fez um discurso no Conselho Atlântico, no qual confirmou a força da aliança Reino Unido-EUA e a disponibilidade do primeiro. Também apoiou a necessidade de julgar o «ditador Bashar al-Assad» (sic), mas a impossibilidade de o fazer, dado o apoio do «urso russo». Por outras palavras, a Síria continua a ser um inimigo, mas não vamos mais tocá-la. A guerra será deslocada [2] (“Que alvo após a Síria ?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 11 de Março de 2020).

 

A 12 de Março de 2020, o secretário de Defesa britânico Ben Wallace e seu colega turco, general Hulusi Akar, inspeccionam os « postos de observação» turcos que servem de base de retirada dos jihadistas em Idleb (Síria ocupada). Londres assegura a Ancara que o Pentágono não destruirá a Turquia, mas a Arábia Saudita.

Nos dias 12 e 13 de Março, Ben Wallace viajou para a Turquia e Síria ocupada por jihadistas. Inspeccionou os postos de observação do exército turco em Idleb e enviou 89 milhões de libras em doações «humanitárias» às famílias dos jihadistas. Eles começaram então a atacar as tropas turcas que deveriam protegê-los, matando vários soldados turcos.

O fim do Iémen e o começo do fim da Arábia Saudita

Seguindo a sua política de retirada militar e a transferência dessa função para intermediários, os Estados Unidos transformaram a guerra no Iémen. Originalmente, o Pentágono planeava dividir o país em dois, de acordo com a linha divisória que existia até 1990. Tinha incentivado a Arábia Saudita e Israel a lançarem um ataque ao país a fim de explorar os recursos petrolíferos da região adjacente à «quarta parte vazia (consulte aqui-Ndt)» [3] (“Exclusivo : Os projectos secretos de Israel e da Arábia Saudita”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2015).

A operação foi realizada com a força aérea israelita, mercenários colombianos sob a bandeira da Arábia Saudita e tropas dos Emirados. Foi coordenada por uma equipe tripartida (Arábia / EUA / Israel) com sede na «Somalilândia».

No entanto, contando com rivalidades tribais, o Pentágono conseguiu além de complicar a situação até o Iémen se tornar num país efectivamente dividido em dois,  como dividiu a coligação formada pela Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Só lhe faltava – sem comprometer as suas próprias tropas – concluir a divisão do Iémen em dois Estados separados antes de embarcar na divisão do ex-aliado saudita em cinco Estados distintos. O Pacto de Quincy obriga-o a proteger o rei da Arábia Saudita, mas não o seu país nem o seu herdeiro. [4] (“O Pacto de Quincy apenas protege o Rei da Arábia, não o seu herdeiro”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 23 de Outubro de 2018).

Mohamed ben Zayed (à esquerda-Ndt), o governante de facto de Abu Dhabi (capital do Emirados Árabes Unidos – Ndt) e presidente de facto dos Emirados Árabes Unidos, era o mentor do príncipe herdeiro saudita, Mohamed ben Salmane (à direita – Ndt). Gradualmente, o aluno quis esmagar o professor. Por fim, será o discreto MBZ (xeque Mohammed bin Zayed Al Nahyan – Ndt) a dominar o incansável MBS (Mohammed bin Salma – Ndt)

Nesta semana, o Pentágono despachou um navio de guerra para o largo de Aden (cidade do Iémen – Ndt). Instalou tropas britânicas na ilha de Socotra (arquipélago habitado do Iémen – Ndt para a tornar numa base militar permanente com os Emirados Árabes Unidos e armou-a com mísseis PatriotAo mesmo tempo, os Houthis do Norte do Iémen apoiados pelo Irão atacaram com sucesso duas bases militares sauditas e capturaram mais de 700 soldados sauditas, enquanto as tribos apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos atacaram as tribos apoiadas pela Arábia Saudita em Aden. O governo de Abdrabbo Mansour Hadi (presidente do Iémen – Ndt), a única autoridade oficialmente reconhecida pela ONU, mas sediada no exílio em Riade, perdeu o controlo de Aden.

O príncipe herdeiro saudita Mohamed ben Salman, depois de torturar o seu amigo brilhante de infância, depois de assassinar os seus rivais, depois de executar o líder xiita da oposição, depois de embalsamar e roubar seus irmãos e tios, depois de ter cortado em pedaços em Istambul, um Irmão muçulmano falador demais, não tem mais ninguém que o apoie.

Os departamentos de defesa dos EUA, Reino Unido e Emirados Árabes Unidos não  emitem comunicados sobre essas batalhas. Somente os houthis o fazem. Na ausência de comunicação oficial, a imprensa internacional é cega e silenciosa.

O Iémen do Sul é uma antiga colónia britânica e os Emirados Árabes Unidos tinham sido integrados no Império das Índias.  O Reino Unido, sob o guarda-chuva americano, recupera a sua influência no Golfo e Mar Vermelho.

A oposição Arábia Saudita / Eixo da Resistência não existe mais por falta de combatentes. Agora, depois do Irão (1953-78), Iraque (1979-90) e Arábia Saudita (1991-2019), os Emirados Árabes Unidos (2020-), sob a égide da nova NATO-MO, vão tornar-se nos gendarmes da região.

Essa reviravolta completa corresponde à nossa análise da crise. Após o fracasso na Síria, os Estados Unidos continuam o seu plano de 2001 e preparam-se para desestabilizar a Arábia Saudita. O presidente Trump validou essa etapa com a única condição que as tropas dos EUA não participem directamente, mas que os Emirados os representariam.

O suicídio da União Europeia

Enquanto isso, a União Europeia responde inadequadamente à epidemia de coronavírus. Em vez de combater a doença (exames generalizados, tratamento de pessoas infectadas com cloroquina, atendimento de emergência a pacientes com respiração artificial e com interferon Alfa 2B recombinante), evita a congestão nos seus hospitais (prisão domiciliar para a população saudável) [5] (“Covid-19: propaganda e manipulação”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Março de 2020).

A sua economia parou e o Banco Central Europeu anuncia uma recessão de 5% se essa situação continuar por duas semanas, mas provavelmente serão seis. Quando o pico da epidemia terminar, não será mais uma grande potência económica e o mundo será organizado de uma nova maneira, sem ela.

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This entry was posted on 27 de Julho de 2020 by in GEOPOLÍTICA MUNDIAL, Medio Oriente Alargado and tagged , , .

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