A Arte da Omissao

ACORDEM

As Brigadas anarquistas da NATO

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo Les Brigades anarchistes de l’Otan deThierry Meyssan

Apresentada no Ocidente como a realização de uma utopia simpática, o novíssimo «Rojava» (Curdistão sírio – Ndt)  é na realidade um Estado colonial, procurado e organizado em sangue por Washington. Desta vez, trata-se de expulsar as populações do norte da Síria e substituí-las por pessoas que não nasceram lá. Para alcançar tal limpeza étnica, o Pentágono e a CIA mobilizaram combatentes de círculos de extrema-esquerda da Europa. Thierry Meyssan revela esse projecto insano que dura já há um ano e meio.

 Rede Voltaire – 12 de Setembro de 2017

Nota: este artigo é referenciado no artigo de Thierry MeyssanComment Washington entend triompher traduzido aqui

 

Em Fevereiro de 2016, o «Czar Anti Terrorista» da Casa Branca, Brett McGurk, foi enviado pelo Presidente Obama para supervisionar a Batalha de Ain al-Arab (Kobane). Nessa ocasião, ele foi condecorado pelo «YPG» , controlado pelo – «PKK» turco – que é, no entanto, considerado por Washington como “terrorista”.

«Guerra é a paz. Liberdade é a escravidão. Ignorância é a força». George Orwell, 1984.

Nos anos 1980-90, a sociedade curda era extremamente feudal e patriarcal. Foi mantida num forte subdesenvolvimento, o que levou os curdos a erguerem-se contra as ditaduras militares que se sucederam em Ancara (capital da Turquia – Ndt) [1].

O Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) era uma organização marxista-leninista apoiada pela União Soviética, que lutava contra as ditaduras de generais «kemalistas», membros da NATO. Ele libertou mulheres e juntou-se a lutas progressivas. Com a ajuda de Hafez al-Assad, montou um campo de treino militar na planície libanesa de Bekaa, sob a protecção da Força de Paz da Síria, ao lado da PFLP da Palestina.

Durante esse período, o PKK não teve palavras duras o suficiente contra o “imperialismo dos EUA”.

Quando a URSS se separou, o PKK tinha mais de 10.000 soldados em tempo integral e mais de 75.000 reservistas. Essa guerra de libertação destruiu mais de 3.000 aldeias e deslocou mais de 2 milhões. Apesar desse imenso sacrifício, falhou.

Preso no Quénia em 1999, durante uma operação conjunta do serviço secreto turco, americano e israelita, o líder histórico da revolta, Abdullah Öcalan, foi preso na ilha de İmralı, no mar de Mármara. O PKK entrou em colapso, dividido entre o seu líder prisioneiro que era a favor de uma negociação de paz, e os seus tenentes para quem a guerra se tornara num modo de vida. Alguns ataques ainda ocorreram sem que realmente soubéssemos quais os que foram provocados pelos combatentes que se recusavam a desarmar ou por parte do «JITEM», que também recusou o cessar-fogo.

No início da «primavera Árabe», Abdullah Öcalan reconstruiu na sua cela o PKK em torno de uma nova ideologia. Após negociações secretas com a NATO na prisão de İmralı, ele trocou o marxismo-leninismo pelo «municipalismo libertário». Aquele que sempre lutou contra a Turquia para construir o seu próprio Estado, o Curdistão, passou a considerar que todo Estado é em si uma ferramenta de opressão [2].

Os militantes do PKK que foram forçados a fugir da Turquia durante a guerra civil encontraram refúgio no norte da Síria [3]. Em nome do seu povo, Öcalan prometeu por escrito nunca reivindicar o território sírio. Em 2011, no início da guerra ocidental contra a Síria, os curdos formaram milícias para defender o país que os acolheu e os naturalizou.

No entanto, a 31 de Outubro de 2014, Salih Muslim, um dos dois co-presidentes do «YPG», ramo sírio do PKK, participou numa reunião secreta no Palácio do Eliseu com o presidente francês François Hollande e o seu colega turco, Recep Tayyip Erdoğan. Foi-lhe prometido tornar-se chefe de Estado, se concordasse em recriar o Curdistão na Síria.

Imediatamente, a Coligação Internacional que os Estados Unidos haviam acabado de criar supostamente contra o Daesh, apoiou o YPG, fornecendo-lhe dinheiro, treino, armas e enquadramento. Foram esquecidas as imprecações contra Washington, agora tornou-se num bom aliado. A organização curda começou a expulsar os habitantes das regiões que tinham interesse em controlar.

 

Publicidade norte-americana

Como não tinha ocorrido até então nenhuma batalha do «YPG» contra o Daesh, os Estados Unidos encenaram um terrível conflito em Ain al-Arab, renomeado para a ocasião kurmandji de Kobane. A imprensa internacional foi convidada a cobrir o evento sem se colocar em perigo.

Esta cidade está localizada na fronteira entre a Síria e Turquia e os jornalistas foram capazes de acompanhar com binóculos os combates a partir da Turquia. Não se sabe o que realmente aconteceu em Ain al-Arab, pois a imprensa não teve autorização para entrar. No entanto, existem imagens filmadas com teleobjectiva que aparentemente confirmam de longe as declarações relativas à selvageria dos combates. Independentemente disso, o «Ocidente» conclui por unanimidade que os curdos eram os aliados necessários contra o Daesh e a Síria.

A imprensa ocidental garante que metade dos soldados curdos são mulheres, como estatutariamente metade dos órgãos do governo do PKK / YPG. No entanto, no terreno, a presença delas é extremamente rara.

Os jornalistas também dizem que elas aterrorizam os jihadistas, pois ser morto por uma mulher é uma maldição que impede o acesso ao paraíso. Estranhamente, a mesma imprensa ignora que o Exército Árabe Sírio também inclui batalhões femininos que os jihadistas atacam com a mesma raiva que aplicam aos seus colegas do sexo masculino.

Apesar das aparências, o YPG não é tão numeroso quanto afirma. Muitos curdos sírios vêem os Estados Unidos como um poder inimigo e a Síria como a sua nova pátria. Eles recusam-se a seguir as fantasias de Salih Muslim. Assim, o Pentágono acrescentou aos «seus» curdos não apenas alguns mercenários árabes e assírios, mas também militantes da extrema-esquerda europeia.

Assim como a CIA recrutou dezenas de milhares de jovens muçulmanos ocidentais para os transformar em islâmicos, também começa a recrutar anarquistas europeus para formar brigadas internacionais, seguindo o modelo daqueles que lutaram em Barcelona em 1936 contra os fascistas.

Assim, encontramos como tropas auxiliares do YPG / NATO, o batalhão anti fascista Internacionalista (Europa Central), a brigada Bob Crow (inglesa e irlandesa), a brigada Henri Krasucki (francesa), as Forças Guerrilheiras Internacionais e Revolucionárias do Povo (Américas), a União Revolucionária pela Solidariedade Internacional (gregos), a Unidade do Partido Marxista-Leninista (espanhóis) e todos os grupos turcos pró-EUA (DK, DKP, MLSPB-DC, PDKÖ, SI, TDP, TKEP/L, TKPML) para citar apenas os mais visíveis [4].

A batalha de Ain al-Arab, que deveria colocar jovens sírios a favor do califado contra jovens curdos, custou principalmente a vida de jovens europeus de ambos os lados em busca de um mundo melhor.

Os países europeus estão preocupados com o possível retorno dos jovens jihadistas para as suas casas, mas não com o regresso dos jovens anarquistas, também perigosos. Provavelmente porque é muito mais fácil manipulá-los e reciclá-los nas próximas aventuras imperialistas.

Em Junho de 2015, o Partido Democrata do Povo (HDP) (partido turco de esquerda – Ndt), uma nova expressão política do PKK, recebeu abundante apoio financeiro e supervisão da CIA, contra o AKP de Recep Tayyip Erdoğan. De repente, ultrapassou os 10% dos votos necessários para entrar na Grande Assembleia Nacional e conquistou 80 deputados.

Em 17 de Março de 2016, o YPG proclamou a autonomia de «Rojava», ou seja, do corredor que liga a região do Curdistão iraquiano ao Mediterrâneo, ao longo da fronteira sírio-turca, mas apenas do lado sírio. Portanto, «Rojava» incluiria parcialmente a área de Idleb, actualmente ocupada pela Al-Qaeda.

Este Estado sendo proclamado por pessoas que não nasceram lá em detrimento dos nativos, é um projecto colonial, comparável ao de Israel, auto proclamado na Palestina por judeus que tinham lá comprado terras. O nome «Rojava» foi escolhido para distinguir esse território do “Curdistão” que fica na Turquia, proclamado em 1920 pela conferência Sèvres [5].

Numa época em que o emirado da Al-Qaeda de Idleb e o califado do Daesh em Rakka começam a encolher, a NATO segue o seu plano de divisão da República Árabe da Síria e ambiciona criar o «Rojava» de Kameshli.

A imprensa ocidental está deslumbrada com esta «Rojava» adornada com todas as virtudes da moda: pacifista, igualitária, feminista, ambientalista, favorável à identidade de género etc. [6] Não importa que o YPG seja um exército. Não importa que ele lute contra os habitantes históricos do norte da Síria, os árabes e os assírios, uma vez que no papel ele formou com eles as Forças Democráticas.

Os programas do YPG sírio e do HDP turco correspondem à estratégia militar dos EUA. Desde 2001, que o Pentágono prevê a médio prazo «a reforma do Médio Oriente alargado», ou seja, a divisão dos grandes Estados em pequenos Estados homogéneos, incapazes de lhe resistir. A longo prazo, ele planeia colocá-los uns contra os outros até que a região regresse ao caos.

«Rojava» não foi proclamado um Estado independente porque, de acordo com o novo Öcalan, qualquer Estado-nação seria um mal em si. Segundo a NATO, é apenas um estado autónomo que terá que confederar com outros estados autónomos, como aqueles que sucederão ao Estado-nação sírio, quando derrubado. Segundo o norte-americano Murray Bookchin, teórico de referência sobre o «municipalismo», este para funcionar democraticamente, as comunidades libertárias devem ser homogéneas. É por isso que o YPG «pacifista» está actualmente a limpar etnicamente «Rojava».

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This entry was posted on 27 de Julho de 2020 by in GEOPOLÍTICA MUNDIAL, Nato, Síria and tagged , , .

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