A Arte da Omissao

ACORDEM

O Irão anti-imperialista torna-se novamente imperialista – (1/2)

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo L’Iran, d’anti-impérialiste redevient impérialiste (1/2) de Thierry Meyssan

A história do Irão nos séculos XX e XXI não corresponde à imagem que os ocidentais têm dele, nem ao que os discursos oficiais iranianos transmitem. Historicamente ligado à China e há dois séculos fascinado pelos Estados Unidos, o Irão luta entre a memória do seu passado imperial e o sonho libertador de Rouhollah Khomeini. Considerando que o xiismo não é apenas uma religião, mas também uma arma política e militar, ele hesita entre se autoproclamar o protector dos xiitas ou o libertador dos oprimidos. Estamos a publicar um estudo de duas partes de Thierry Meyssan sobre o Irão contemporâneo.

 Rede Voltaire  Damasco (Síria) 4 de Agosto de 2020

Os britânicos derrubaram os Kadjars (dinastia real iraniana de origem turca, especificamente da tribo Qajar, que governou  no Irão de 1789 a 1925 – Ndt) e colocaram um oficial do seu exército no lugar do Xá. Preocupados com as suas amizades pró-germânicas, dispensaram-no durante a Segunda Guerra Mundial em favor do seu filho. Este último, ciente de não ter grande valor, convocou em 1971 um terço dos soberanos, chefes de Estado e de governo do planeta, para comemorar os 2.500 anos dos seus antecessores. Preocupados com a sua megalomania, os Estados Unidos e o Reino Unido depuseram-no em favor do aiatola Khomeini.

Os persas construíram vastos impérios unindo povos vizinhos em vez de conquistar os seus territórios. Comerciantes em vez de guerreiros, impuseram a sua língua por um milénio em toda a Ásia, ao longo da Rota da Seda da China. O farsi, (Língua oficial do Irão- Ndt:) falada nos nossos tempos somente por eles, tinha um status comparável ao inglês na actualidade. No século 16, o seu soberano decidiu converter o seu povo ao «xiismo» a fim de o unificar, dando-lhe uma identidade distinta dentro do mundo muçulmano. Este particularismo religioso serviu de base para o Império Safávida (dinastia xiita iraniana formada por azeris e curdos – Ndt).

O primeiro ministro Mohammad Mossadegh (à direita) a falar ao Conselho de Segurança da ONU

No início do século 20, o país teve que enfrentar os apetites ferozes do império britânico, otomano e russo. Em última análise, no fim de uma terrível fome deliberadamente causada pelos britânicos e que matou 6 milhões de pessoas, Teerão perde o seu império enquanto Londres impõe em 1925 uma dinastia de opereta, a dos Pahlevi, para poder explorar os campos de petróleo em seu próprio benefício.

Em 1951, o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh nacionalizou a empresa petrolífera Anglo-Persian Oil. Furiosos, Reino Unido e Estados Unidos conseguem derrubá-lo e manter a dinastia Pahlavi. Para combater os nacionalistas, transformaram o regime numa ditadura terrível, libertaram das suas prisões um ex-general nazi, Fazlollah Zahedi, e colocaram-no como primeiro-ministro. Este último criou uma força policial política, a SAVAK, cujo executivos eram ex-oficiais da Gestapo (Rede «Stay-behind»).

De qualquer forma, este episódio despertou a consciência do Terceiro Mundo para a exploração económica de que era vítima. Ao contrário do colonialismo francês, o colonialismo britânico é apenas uma forma de pilhagem organizada. Antes desta crise, as empresas petrolíferas britânicas não pagavam mais do que 10% dos seus lucros às populações que exploravam.

Se os britânicos clamam por roubo perante a nacionalização (Anglo-Persian Oil – Ndt), os Estados Unidos aliaram-se a Mossadegh e propuseram uma divisão 50/50. Liderado pelo Irão, esse reequilíbrio continuará em todo o mundo ao longo do século XX.

Amigo de Frantz Fanon e Jean-Paul Sartre, Ali Shariati reinterpretou o Islão como uma ferramenta de libertação. Segundo ele, «Se não está no campo de batalha, não importa se está na mesquita ou no bar».

Gradualmente, dois movimentos principais de oposição começam a surgir dentro da burguesia: primeiro os comunistas apoiados pela União Soviética, depois os terceiro-mundistas em torno do filósofo Ali Shariati. Mas é um clérigo, Rouhollah Khomeini, que sozinho consegue acordar os mais desfavorecidos. Segundo ele, é bom chorar o martírio do Profeta Hussein, mas é muito melhor seguir o seu exemplo e combater a injustiça; um ensinamento que o fez ser considerado herético pelo resto do clero xiita. Após 14 anos de exílio no Iraque, Ali mudou-se para a França, onde impressionou muitos intelectuais de esquerda, como Jean-Paul Sartre e Michel Foucault.

Os ocidentais fizeram do xá Reza Pahlevi o «policia do Médio Oriente». Ele providenciou que os movimentos nacionalistas fossem esmagados. Sonha em religar-se ao passado esplendor do seu país, cujos 2.500 anos celebra com o esplendor de Hollywood, numa vila de tendas em Persépolis. Durante o choque do petróleo de 1973, ele percebeu o poder que estava à sua disposição.

Ele planeia restaurar um império real e pede ajuda aos Saud que imediatamente informam os Estados Unidos. Estes, decidem eliminar o seu aliado Pahlevi, pois tornou-se muito ganancioso, e substituí-lo pelo velho aiatola Khomeini (77 anos na época) a quem cercarão com os seus agentes.

Mas antes de tudo, o MI6 abre caminho: os comunistas são presos, o Imã dos pobres, o libanês Moussa Sadr, desaparece durante uma visita à Líbia e Ali Shariati é assassinado em Londres. Os ocidentais convidam o Xá doente a deixar seu país por algumas semanas em busca de tratamento.

No cemitério de Behesht-e Zahra, o aiatola Khomeini apoia o exército que convoca para libertar o país dos anglo-saxões. Aquele que a CIA confundiu com um pregador mimado é na verdade um tribuno que incendeia multidões e faz todos acreditarem que podem mudar o mundo.

No dia 1 de Fevereiro de 1979, o aiatola Khomeini retornou triunfante do exílio. Mal aterrou entrou num helicóptero e voou até ao cemitério da cidade, onde 600 pessoas tinham acabado de serem enterradas, após massacres durante uma manifestação contra o Xá. Para espanto de todos, ele faz um discurso, não contra a monarquia, mas violentamente anti-imperialista. Ele incita o exército a não servir mais o Ocidente, mas o povo iraniano. A mudança de regime organizada pelas potências coloniais transforma-se instantaneamente em revolução.

Khomeini impõe um regime político não vinculado ao Islão, o Velayat-e faqih, inspirado na República de Platão da qual é um grande leitor: o governo será colocado sob a orientação de um sábio, neste caso ele próprio. Dispensa todos os políticos pró-Ocidente, um por um.

Washington reagiu e organiza várias tentativas de golpe militar, seguidas de uma campanha de terrorismo levada a cabo por ex-comunistas, os Mujahedin do Povo. Por fim, Washington acaba por pagar – via Kuwait – ao governo iraquiano de Saddam Hussein como força contra-revolucionária. Seguiu-se uma guerra de uma década na qual o Ocidente cinicamente apoiou os dois lados. Para se armar, o Irão não hesita em comprar armas americanas a Israel  («caso Irão-Contras»).

Khomeini está a transformar a sociedade. Ele desenvolveu entre o seu povo o culto aos mártires e um extraordinário senso de sacrifício. Quando o Iraque bombardeia civis iranianos com mísseis indiscriminados, ele proíbe os seus militares de retaliar da mesma forma, alegando que as armas de destruição em massa são contrárias à sua visão do Islão; o que prolongou a luta um pouco mais.

Depois de um milhão de mortes, Saddam Hussein e Rouhollah Khomeini percebem que são uns brinquedos na mão do Ocidente. Então fazem as pazes. A guerra termina como começou, sem motivo. O sábio velho morreu pouco depois, não sem nomear o seu sucessor, o aiatola Ali Khamenei. Os dezasseis anos seguintes são dedicados à reconstrução. O país está exangue e a revolução nada mais é do que um slogan sem conteúdo. Continua-se a gritar «morte à América!» nos sermões de sexta-feira, mas o «Grande Satã» e o «regime sionista» tornaram-se parceiros privilegiados.

Os presidentes Hachemi Rafsanjani e depois Mohammad Khatami, organizam a economia em torno das receitas do petróleo. A sociedade afrouxa e as diferenças de riqueza aumentam novamente.

Hashemi Rafsanjani tornar-se-á no homem mais rico do país, não por meio do comércio de pistaches, mas com o comércio de armas com Israel. Quando ele se torna Presidente da República Islâmica, ele enviará a Guarda Revolucionária para lutar sob as ordens dos generais dos EUA na Bósnia e Herzegovina.

Rafsanjani, que fez fortuna com o tráfico de armas no “caso Irão-Contras”, convence Ali Khamenei  a enviar Guardas Revolucionários para lutar na Bósnia-Herzegovina ao lado dos sauditas e sob as ordens da NATO. Khatami, entretanto, estabelece uma relação pessoal com o especulador George Soros.

O Irão anti-imperialista torna-se novamente imperialista – (2/2)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

This entry was posted on 10 de Agosto de 2020 by in Irão and tagged , .

Navegação

Categorias

Follow A Arte da Omissao on WordPress.com
%d bloggers like this: