A Arte da Omissao

ACORDEM

“Sob os nossos olhos” (6/25) – Primeiros reveses dos Irmãos Muçulmanos (1/2)

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

« Sous nos yeux » (5/25) –  “Sob os nossos olhos” (5/25)

Tradução do artigo Premiers revers des Frères musulmans

( Primeiros reveses da Fraternidade Muçulmana)

De Thierry Meyssan

Continuamos a publicação do livro de Thierry Meyssan, “Sob nossos olhos”. O curso dos acontecimentos muda neste episódio. O presidente Americano-Egípcio, Mohamed Morsi, é derrubado no seguimento de protestos em massa, enquanto a captura de Damasco falha.

 Rede Voltaire / Damasco (Síria) 19 de Julho de 2019

Este artigo foi extraído do livro Sous nos yeux de Thierry Meyssan – 2017

Apesar dos 40. 000 homens envolvidos, os Irmãos Muçulmanos não conseguem tomar a capital síria. Longe de apoiar os «libertadores», a população resiste e a operação é um fiasco.

11— A «Primavera árabe» na Síria

A partir de 4 de Fevereiro de 2011, data de abertura da reunião no Cairo, a coordenação da «Primavera Árabe» na Síria é garantida através  da conta do Facebook, Revolução Síria 2011. A declaração é suficiente para entender que a operação deve derrubar rapidamente a República árabes síria, como tem sido o caso das outras «revoluções coloridas», pois o objectivo não é mudar mentalidades, mas apenas as equipes de gestão e algumas leis do país.

No mesmo dia da sua criação, a Revolução Síria 2011 lançou um apelo para uma manifestação em Damasco, apelo esse transmitido pela Al-Jazeera, enquanto o Facebook exibia dezenas de milhares de «Seguidores». Magia informática. Essa conta desempenhará um papel central nos cinco anos seguintes. Ela dedicará em cada sexta-feira, dia muçulmano da oração, uma meta da Irmandade Muçulmana.

O deputado harirista Okab Sakr

No dia 22 de Fevereiro, John McCain está no Líbano. Ele encontra-se com vários líderes da Coligação pró-Saudita do 14 de Março, incluindo Okab Sakr, a quem confia a canalização de armas para os islâmicos que os esperam na Síria [1] ([1] « Un député libanais dirige le trafic d’armes vers la Syrie », Rede Voltaire, 5 de Dezembro 2012). Em seguida, sai de Beirute e vai explorar a fronteira com a Síria. Ele escolhe a vila de Ersal como a sua futura base de operações.

Apesar dos apelos da misteriosa conta Revolução Síria 2011, só em meados de Março de 2011 começaram os eventos na Síria. Os Irmãos reúnem-se em Deraa, uma cidade do Sul conhecida por ser muito Baathista e lar de ex jihadistas do Afeganistão e Iraque. Eles sequestram uma manifestação de funcionários que exigia um aumento dos seus salários e iniciam um saque ao Palácio da Justiça.

No mesmo dia, sob a direcção de oficiais do Mossad (serviço secreto do Estado de Israel- Ndt), atacaram um centro dos serviços secretos, localizado fora da cidade, usado exclusivamente para monitorizar a actividade israelita no Golã ocupado.

A Al-Jazeera, refere o evento, dizendo que os moradores de Daraa estão a protestar depois da polícia ter torturado crianças que rotularam slogans hostis ao presidente Assad. A confusão reina enquanto os bandidos continuam a destruir o centro da cidade. Durante as semanas seguintes, três grupos islâmicos moveram-se pelo país, atacando alvos secundários e mal defendidos. A impressão de inquietação espalha-se por todo o país, embora afecte apenas três lugares separados ao mesmo tempo. Em poucas semanas, são mais de 100 mortos, principalmente policiais e soldados.

O presidente Assad reage ao inverso do que se esperava: longe de impor um Patriot Act local, ele revoga o Estado de emergência que ainda vigorava – Síria está em guerra com a ocupação de Israel das Colinas de Golã – e dissolve o Tribunal de Segurança do Estado. Aprova uma lei que garante e organiza o direito a manifestação, denuncia a operação realizada no exterior e apela ao Povo para que apoie as Instituições. Reúne os chefes do Estado-maior e proíbe os soldados de usarem as suas armas em caso de risco de morte colateral de civis.

O Guia da Irmandade Muçulmana Síria, Ali Sadreddine al-Bayanouni (refugiado em Londres), fez uma aliança com o ex-vice-presidente sírio Abdel Halim Khaddam (refugiado em Paris). Este último tinha fugido do seu país quando foi descoberto que encobria com o chefe dos serviços de inteligência Ghazi Kanaan, o saque do saudita Rafic Hariri ao Líbano.

Acreditando na palavra do presidente, os Irmãos atacam em frente da população, um comboio militar em Banias (cidade do ex-vice-presidente Abdel Halim Khaddam) por várias horas. Com receio de ferir civis sírios, os soldados que obedecem ao seu presidente não usam as suas armas. Cerca de dez deles são mortos.

O sargento em comando do destacamento perde ambas as pernas, sufocando uma granada com seu corpo para que não mate os seus homens. A operação é organizada a partir de Paris pelo Front du salut ( Frente Islâmica de Salvação, organização política de carácter islamista fundada em 20 de fevereiro de 1989 na Argélia e declarada ilegal desde março de 1992 -Ndt) de Khaddam e Irmandade Muçulmana. Em 6 de Junho de 2011, 120 policiais foram mortos em situação idêntica em Jisr Al-Choughour.

Reuniões hostis à República Árabe Síria ocorrem em várias cidades. Ao contrário da imagem reflectida pelos media ocidentais, os manifestantes nunca reivindicam por democracia. Os slogans mais gritados são: «O povo quer a queda do regime», «Os cristãos em Beirute, os alauitas no túmulo», «Queremos um presidente que tema a Deus», «Abaixo o Irão e o Hezbollah». Vários outros evocam «liberdade», mas não no sentido ocidental. Os manifestantes exigem a liberdade de praticar a «lei Sharia».

Naquela época, as pessoas consideravam apenas como fontes confiáveis de informação, a Al-Jazeera e a Al-Arabiya, as que apoiaram as mudanças de regime na Tunísia e no Egipto. Elas estão, portanto, convencidas de que também na Síria o presidente abdicará e a Irmandade Muçulmana subirá ao poder. A grande maioria dos sírios assiste ao que acreditam ser uma «revolução» e preparam-se para uma virada islâmica. É muito difícil quantificar o número de sírios que se opõem à República ou que apoiam a Irmandade Muçulmana.

No máximo, podemos ver que centenas de pequenas manifestações acontecem no país e que a mais importante reuniu cerca de 100.000 pessoas em Hama. Os seus organizadores são recebidos pelo presidente Assad em Damasco. Quando ele pergunta quais são as suas demandas, eles dizem-lhe «a proibição dos Alawis acederem a Hama». Atordoado, o presidente – ele mesmo um alauita – encerra a entrevista.

Em 4 de Julho de 2011, em Paris, os Irmãos e o governo israelita organizaram secretamente uma reunião pública para mobilizar a classe dominante francesa. Atendendo ao apelo do «filósofo» Bernard-Henri Lévy e do ex e futuro chanceleres, Bernard Kouchner e Laurent Fabius, eleitos representantes da direita, do centro, da esquerda e ambientalistas dão seu apoio ao que é lhes é apresentado como uma luta pela democracia. Ninguém percebe na sala a presença dos verdadeiros organizadores: Alex Goldfarb (assessor do Ministro da Defesa de Israel) e Melhem Droubi (responsável mundial pelas relações exteriores da Irmandade, vindos principalmente da Arábia Saudita).

Burhan Ghalioun deixou a Síria aos 24 anos e seguiu a carreira académica em Paris. Ao mesmo tempo, em 1983 e com a ajuda do NED, criou a Organização Árabe para os Direitos Humanos na Tunísia. Quando o argelino Abassa Madani (da Frente Islâmica de Salvação) se exila no Catar, este secularista ajuda-o a escrever os seus discursos. Em Junho de 2011, participou na Conferência para a Salvação Nacional da Irmandade Muçulmana e, por proposta dos Estados Unidos, foi eleito no mês seguinte Presidente do Conselho Nacional Sírio (CNS). A partir daí, passou a receber um salário do Departamento de Estado para «representar o povo sírio».

Em Agosto de 2011, foi formado em Istambul o Conselho Nacional Sírio, seguindo o modelo do Conselho Nacional de Transição da Líbia. Reúne personalidades que viveram fora da Síria por anos, algumas que acabaram de deixar o país, e a Irmandade Muçulmana. A estranha ideia de que este grupo busca estabelecer uma «democracia» parece ser validada pela presença de personalidades da extrema-esquerda, como o professor Burhan Ghalioun que é impulsionado para presidente. Burhan trabalhou com a NED (agência dos EUA fundada em 1983 com o objetivo declarado de promover a democracia no exterior – Ndt) e Irmandade Muçulmana durante anos. Embora seja secular, ele escreve notavelmente os discursos de Abassi Madani (o presidente da Frente de Salvação Islâmica da Argélia) desde que foi para o exílio no Catar. Este é também o caso de George Sabra e Michel Kilo, que trabalharam com a Irmandade por mais de trinta anos e que seguiram os trotskistas americanos na NED em 1982.

Sob a direcção do líbio Mahmoud Jibril, George Sabra trabalhou nas versões estrangeiras do programa infantil Rua Sésamo, produzido pela francesa Lagardère Média e pela Al-Jazeera do Catar, com Cheryl Benard, esposa de Zalmay Khalilzad, embaixador dos EUA na ONU e depois no Iraque. Ou ainda Haytham Manna, o gestor de investimentos dos Irmãos Sudaneses.

O Catar compra à OLP a presidência rotativa anual da Liga Árabe por US $ 400 milhões. Violando os estatutos, suspendeu a República Árabe Síria, que foi membro fundador da organização.

De seguida, propôs uma missão de observação no terreno chefiada pelo Sudão (sempre governado pela Irmandade) e nomeia o ex-chefe do serviço secreto e ex-embaixador no Catar, o general Mohammed Ahmed Mustafa Al-Dabi, para liderar os trabalhos.

Cada Estado-Membro envia observadores para representar todas as tendências. A República Árabe Síria concorda em receber a Liga e permite que a missão seja implantada em todo o seu território. Esta é a primeira e única vez que uma entidade pluralista vai ao terreno, encontra-se todos os actores e visita todo o país. Na verdade, é a única fonte externa confiável durante todo o conflito.

A nomeação do general Al-Dabi é saudada por unanimidade por todas as partes. O homem negociou a separação do Sudão e do Sudão do Sul e é proposto por muitos países árabes para o Prémio Nobel da Paz. No entanto, parece que a partir da leitura dos relatórios preliminares que os sudaneses não pretendem escrever um relatório feito sob medida, mas conduzir uma observação pluralista genuína. De repente, os media internacionais mudam de tom e acusam-no de ter sido um genocida em Darfur. Todos os que tinham aprovado a sua designação exigem, agora, a sua demissão. O General resiste zangado

Por fim, um relatório intercalar é publicado e atesta não haver uma revolução na Síria. A missão confirma que a violência foi consideravelmente exagerada, que o exército se retirou das cidades, que não há repressão, que as vítimas são principalmente militares e policiais, que mais de 5.000 detidos cujos nomes foram transmitidos às autoridades e os meios de comunicação estrangeiros que o solicitaram puderam cobrir os acontecimentos.

Com raiva, o Catar paga ao Sudão US $ 2 bilhões para levar para casa o general al-Dabi e opõe-se que a Liga Árabe nomeia um sucessor para o chefe da Missão. Sem líder, a Missão de Observação é dissolvida no início de 2012. (não poderia de ser de outra maneira. Eram muitos olhos no terreno. – Ndt)

O jovem Abou Saleh torna-se correspondente permanente da France 24 e da Al-Jazeera no Emirado islâmico de Baba Amr (em Homs). Encena o bombardeamento imaginário do distrito durante dois meses pelas «forças do regime», participa na condenação à morte de 150 habitantes do bairro, dirige-se aos seus espectadores como se estivesse moribundo (foto), depois  volta subitamente à vida e ateia fogo a um «pipeline», etc. Foge para Paris assim que o Emirado caíu e irá reaparecer mais tarde em Idlib.

Furiosos por verem a República Árabe Síria a safar-se, os Irmãos decidem criar um Emirado Islâmico. Depois de várias tentativas, será num novo distrito de Homs, Baba Amr, onde foram previamente construídos túneis para garantir o abastecimento em caso de cerco. 3.000 combatentes concentram-se lá, entre os quais 2.000 takfiristas sírios. Estes, são os membros de um sub-grupo da Confraria, «Excommunicação e imigração», criado durante a presidência  do egípcio Anwar el-Sadat.

Eles constituíram um «Tribunal Revolucionário», julgaram e condenaram à morte mais de 150 moradores locais massacrados em público. Os moradores fogem, excepto cerca de 40 famílias. Os takfiristas fortemente armados por Forças Especiais francesas bloquearam todos os acessos ao bairro.

A campanha terrorista do primeiro ano dá lugar a uma guerra de posições, de acordo com o plano traçado em 2004 no livro La Gestion de la barbarie. Agora, os islâmicos recebem armamento mais sofisticado da NATO do que o disponível para o Exército Árabe Sírio, que está sob embargo desde 2005.

Certa manhã, o Exército Árabe Sírio entra em Baba Amr, cujas defesas tinham sido desactivadas. Os franceses, jornalistas e alguns líderes fugiram e reapareceram alguns dias depois no Líbano. Os takfiristas rendem-se. A guerra que começava parece estar a chegar ao fim, como no Líbano em 2007, com a vitória do exército libanês sobre o Fatah Al-Islam. Mas os islâmicos não desistiram.

Uma nova operação está a ser preparada na Jordânia, sob o comando da NATO. Ela planeia o ataque a Damasco no contexto de uma grande operação psicológica. Mas é cancelada no último momento. Os islâmicos que foram abandonados pela França em Baba Amr são desconvocados pelos Estados Unidos e discutem uma possível partilha do Médio Oriente com a Rússia. Uma promessa de paz é assinada em Genebra em 30 de Junho de 2012.

 continua…

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This entry was posted on 11 de Agosto de 2020 by in Irmandade Muçulmana, Livros, Sous nos yeux and tagged , , .

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