A Arte da Omissao

ACORDEM

“Sob os nossos olhos” (6/25) – Primeiros reveses dos Irmãos Muçulmanos (2/2)

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Livro « Sous nos yeux » (5/25) –  “Sob os nossos olhos” (5/25)  de Thierry Meyssan

Tradução do artigo Premiers revers des Frères musulmans 

Primeiros reveses dos Irmãos Muçulmanos (1/2)

Continuamos a publicação do livro de Thierry Meyssan, “Sob nossos olhos”. O curso dos acontecimentos muda neste episódio. O presidente Americano-Egípcio, Mohamed Morsi, é derrubado no seguimento de protestos em massa, enquanto a captura de Damasco falha.

 Rede Voltaire / Damasco (Síria) 19 de Julho de 2019

Este artigo foi extraído do livro Sous nos yeux de Thierry Meyssan – 2017

Apesar dos 40. 000 homens envolvidos, os Irmãos Muçulmanos não conseguem tomar a capital síria. Longe de apoiar os «libertadores», a população resiste e a operação é um fiasco.

12- O fim da “Primavera Árabe” no Egito

No Egipto, a nova assembleia é dominada pela Fraternidade Muçulmana que considera que a nova Constituição – elaborada para permitir a sua eleição – limita-se a retomar um texto antigo, modificando-o ligeiramente, embora tenha sido aprovada com 77% de votos por referendo. Assim, é designada uma Assembleia Constituinte de 100 membros, desta vez com 60 Irmãos.

Assim que o presidente Mubarak é forçado por Washington a renunciar, o xeque Youssef AlQaradâwî regressa do Catar num avião particular para o seu país. Director do Centro de Estudos Islâmicos de Oxford, presidido pelo Príncipe Charles, e conselheiro espiritual da Al-Jazeera, ele apresenta um programa semanal de Sharia. Na Praça Tahrir, ele rejeita a democracia e defende a execução de homossexuais.

Os Irmãos dizem que os Jovens Democratas podem desafiar o poder dos militares. A sua campanha para as eleições presidenciais é uma oportunidade para clamar pela regeneração do país através do Alcorão. Youssef Al-Qaradâwî prega que é mais importante lutar contra os homossexuais e reconquistar a Fé do que lutar contra Israel pelo reconhecimento dos direitos do povo palestinianos [2]. Embora a abstenção dos sunitas seja massiva, a Irmandade impede a realização de votos em cidades e vilarejos cristãos, de modo que 600.000 eleitores não podem votar.

A Comissão Eleitoral Presidencial «confirma Mohamed Morsi como presidente do Egipto, de modo a evitar um destino sangrento para o país se [proclamar] a eleição do general Ahmed Shafiq».

No entanto, os resultados das urnas dizem que o general Ahmed Chafik, ex-primeiro-ministro de Mubarak, é o vencedor com uma ligeira vantagem de 30.000 votos. A Irmandade ameaça os membros da Comissão Eleitoral e seus familiares, até que estes decidem, após 13 dias, proclamar a vitória do Irmão Mohamed Morsi [3].

A  «comunidade internacional» fecha os olhos e acolhe com satisfação a natureza «democrática» da consulta.

 

Conferência de imprensa na sede da Irmandade Muçulmana com o Guia Mundial da Irmandade e o Presidente Mohamed Morsi.

Mohamed Morsi é engenheiro da NASA. É um cidadão americano e tem habilitação que lhe dá acesso a segredos militares no Pentágono. Assim que chegou ao poder, comprometeu-se a reabilitar e promover o seu clã e a fortalecer os laços com Israel. Ele recebe no palácio presidencial os assassinos do presidente Sadat no aniversário da sua execução. Nomeia Adel Mohammed al-Khayat, um dos líderes da Gamaa Al-Islamiya (o grupo responsável pelo massacre de Luxor em 1997), como governador deste distrito. Persegue os democratas que se manifestaram contra aspectos das políticas de Hosni Mubarak (mas não pela sua demissão).

Mohamed Morsi apoia uma vasta campanha de perseguições levadas a cabo pela Irmandade Muçulmana contra cristãos e encobre os seus abusos: linchamentos, saque dos arcebispados e queima de igrejas. Ao mesmo tempo, privatizou grandes empresas e anunciou a possível venda do Canal de Suez ao Catar, país que na altura patrocinava a Irmandade. A partir do palácio presidencial, falou pelo menos quatro vezes por telefone com Ayman AlZawahiri, líder mundial da Al-Qaeda. No final das contas, Mohamed Morsi acaba por ganhar  a inimizade de todos. Todos os partidos políticos, incluindo os salafistas (excepto, é claro, a Irmandade) manifestam-se contra ele. São 33 milhões nas ruas a pedir que o exército devolva o país ao povo.

Insensível aos gritos das ruas, o presidente Morsi ordena aos militares que se preparem para atacar a República Árabe Síria para ajudar a Irmandade Muçulmana Síria. Foi a gota de água. No dia 3 de Julho de 2013, quando Washington fechava escritórios para o feriado prolongado do Dia Nacional, os militares realizaram o golpe. Mohamed Morsi é preso, enquanto as ruas se transformam num campo de batalha entre os Irmãos e suas famílias de um lado e a polícia do outro.

13- A Guerra contra a Síria

Dizem que «na política, as promessas são feitas apenas por aqueles que nelas acreditam». Um mês após a conferência de Genebra e a assinatura da paz, e alguns dias após a conferência dos «Amigos da Síria» em Paris, a guerra foi novamente autorizada. Não se tratará de uma acção da NATO assistida pelos seus ajudantes jiadistas, mas, unicamente de um ataque jiadista, apoiado pela NATO. O seu nome de código : «Vulcão de Damasco e Terremoto na Síria».

40.000 homens sumariamente treinados na Jordânia cruzam a fronteira e dirigem-se para a capital síria, enquanto um ataque mata participantes de uma reunião do Conselho de Segurança Nacional. O exército e seus serviços secretos são decapitados. Ainda hoje é difícil dizer se foi um homem-bomba que plantou a bomba no lustre da sala ou se foi um drone que disparou um míssil contra o prédio. O exército e os serviços secretos são decapitados.

Os jihadistas são mercenários recrutados entre os pobres do mundo muçulmano. Muitos não falam árabe e têm apenas uma semana de treino militar. Alguns pensam que lutam contra os israelitas. Eles sofreram perdas consideráveis ​​e recuaram.

A longa guerra que se segue opõe o Exército Árabe Sírio que tenta defender a sua população e para isso tem de recuar para as grandes cidades, contra os jihadistas que procuram tornar a vida impossível em vastos territórios. Esses elementos parecem renovar as suas fileiras infinitamente. A cada mês, chegam novos para substituir os mortos ou desertores. No início, todos os bandidos do mundo muçulmano vieram tentar a sorte por algumas centenas de dólares por mês. Os escritórios de recrutamento são abertos ao público em países como Tunísia e Afeganistão, enquanto noutros países como Marrocos ou Paquistão são mais discretos.

No entanto, a mortalidade de combatentes é extremamente alta. Em Julho de 2013, de acordo com a Interpol, foram realizadas operações de evasão altamente sofisticadas em nove Estados para exfiltrar líderes islâmicos e transferi-los para a Síria. Por exemplo:

– Em 23 de Julho, 500 a 1.000 presos escapam das prisões de Taj e Abu Ghraib (Iraque).
– Em 27 de Julho, 1.117 detidos escaparam da prisão de Kouafia (distrito de Benghazi, Líbia) após um motim interno associado a um ataque externo.
– Durante a noite de 29 a 30 de Julho, 243 talibãs escaparam da prisão de Dera Ismaïl Khan (áreas tribais do Paquistão).

O Exército Árabe Sírio queima a maioria dos corpos dos combatentes, mas mantém os que consegue identificar e são enviados para as suas famílias. Vários Estados discretamente criam canais de repatriação, como por exemplo, a Argélia com a Fundação Abdelkader. No entanto, o Exército Árabe Sírio ainda mantém mais de 30.000 corpos identificados, mas não reclamados.

Os Estados ocidentais que inicialmente enviaram Forças Especiais para lá recrutando-os entre os seus soldados de dupla nacionalidade, geralmente muçulmanos originários do Magrebe, começam a organizar os seus próprios canais de recrutamento de jihadistas. Na França, por exemplo, foi instalada uma rede em prisões e com mesquitas «salafistas». Esses poucos milhares de pessoas juntam-se às dezenas de milhares que vieram do Médio Oriente alargado. Embora não se saiba quantas pessoas participarão desta guerra, estima-se que o total de jihadistas a lutar na Síria e no Iraque, locais e estrangeiros, desde 2011, exceda os 350.000. É um número superior ao de qualquer Exército regular da União Europeia e duas vezes maior que o Exército Árabe Sírio no fim da guerra.

Na televisão saudita al-Safa, o xeque sírio Adnan Al-Arour pede o massacre dos «alauitas». Ele tornar-se-á na referência religiosa do Exército Sírio Livre (grupo armado sírio, formado por civis e militares desertores, que formam uma das principais facções da oposição ao governo de Bashar al-Assad– Ndt)

A unidade ideológica dos jihadistas é assegurada pelo «líder espiritual do Exército Sírio Livre», Sheikh Adnan Al-Arour. Esta personagem colorida atinge um grande público todas as semanas durante o seu programa de TV. Ele acende paixões ao pedir o derrube do tirano e apoia uma visão patriarcal autoritária da sociedade. Gradualmente, os apelos transformam-se em apelos sectários a massacres de cristãos e alauitas. Este indivíduo era um suboficial do Exército Árabe Sírio até ser preso por violar vários jovens recrutas. Fugiu para a Arábia Saudita, onde se tornou um xeque ao serviço de Alá.

Reunião no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, a 13 de Junho de 2013, na Casa Branca. Reconhece-se Gayle Smith (segundo à direita) e o Irmão Rashad Hussain (quarto à esquerda). O Conselheiro de Segurança Nacional, Tom Donilon, participou igualmente na reunião, mas não aparece na foto. Sobretudo, vemos o representante dos Irmãos Muçulmanos e adjunto de Youssef al-Qaradâwî, o Xeque Abdallah Bin Bayyah (segundo à esquerda com o turbante).

Os jihadistas geralmente recebiam armamento básico e quantidades ilimitadas de munições. Eles são organizados em katibas, pequenas unidades de algumas centenas de homens cujos líderes recebem armamento ultra-sofisticado, incluindo caixas de comunicação que lhes permitiam receber imagens de satélite ao vivo dos movimentos do Exército Árabe Sírio. Trata-se, portanto, de um combate assimétrico com este último, reconhecidamente muito mais bem treinado, mas cujas armas são todas anteriores a 2005 e que não dispõe de inteligência por satélite. Ao contrário do Exército Árabe Sírio, cujas unidades são coordenadas e colocadas sob a autoridade do Presidente Bashar al-Assad, as katibas jihadistas continuam a brigar entre si, como em todos os campos de batalha onde os «líderes da guerra» rivalizam entre si.

Todos, porém, recebem os seus reforços, armas, munições e inteligência, de um único estado-maior, ao qual são, portanto, obrigados a obedecer. No entanto, os Estados Unidos têm a maior dificuldade em fazer funcionar esse sistema porque muitos actores pretendem realizar operações em segredo de outros aliados, por exemplo, os franceses sem o conhecimento dos britânicos, ou os catarianos em detrimento dos sauditas.

Assim que um território é evacuado pelo Exército Árabe Sírio, os jihadistas que o ocupam enterram-se lá. Eles constroem túneis e bunkers. Os sauditas enviaram o bilionário Osama Bin Laden ao Afeganistão porque ele era um especialista em obras públicas. Ele supervisionou a construção de túneis nas montanhas – ou mais precisamente, o alargamento dos rios subterrâneos. Desta vez, os engenheiros civis da NATO vêm supervisionar a construção de gigantescas linhas de defesa.

[2] Global Mufti: The Phenomenon of Yusuf Al-Qaradawi, Bettina Graf & Jakob Skovgaard-Petersen, Hurst (1999); Hamas and Ideology. Sheikh Yūsuf al-Qaraḍāwī on the Jews, Zionism and Israel, Shaul Bartal and Nesya Rubinstein-Shemer, Routledge (2018).

[3] “A Comissão Eleitoral das presidenciais Egípcias cede à chantagem da Irmandade Muçulmana”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Abril de 2016.

 continua…

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This entry was posted on 11 de Agosto de 2020 by in Irmandade Muçulmana, Livros, Sous nos yeux and tagged , , .

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