A Arte da Omissao

ACORDEM

EUA à beira da guerra civil

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

Tradução do artigo Les USA au bord de la guerre civile

de Thierry Meyssan

Neste artigo, o autor procura chamar a nossa atenção para um facto difícil de conceber pelos ocidentais: o povo americano vive uma crise de civilização. Ele está tão dividido que na eleição presidencial não se trata apenas de eleger um líder, mas de determinar o que o país deve ser (império ou nação?). Nenhum dos lados aceita perder, tanto que qualquer um dos lados pode recorrer à violência para impor o seu ponto de vista.

 Rede Voltaire / Damasco (Síria) 15 de Setembro de 2020

Com a aproximação da eleição presidencial nos Estados Unidos, o país divide-se em dois campos que mutuamente suspeitam de conspirar um golpe de Estado. De um lado, o Partido Democrata e os republicanos não partidários, do outro os jacksonianos que se tornaram maioria dentro do Partido Republicano sem compartilhar sua ideologia.

Lembre-se, em Novembro de 2016, uma empresa de manipulação dos media dirigida pelo mestre em propaganda, David Brock, recolhia mais de US $ 100 milhões para destruir a imagem do presidente eleito mesmo antes da sua investidura [1]. Desde aquela data, isto é, antes que pudesse fazer qualquer coisa, a imprensa internacional descreveu o Presidente dos Estados Unidos como incompetente e inimigo do povo. Alguns jornais até pediram o seu assassinato. Nos quatro anos seguintes, o seu próprio governo continuou a denunciá-lo como um traidor patrocinado pela Rússia, e a imprensa internacional criticou-o ferozmente.

Actualmente, outro grupo, o Transition Integrity Project (TIP), planeia cenários para o derrubar nas eleições de 2020, quer ele perca ou ganhe. Este caso tornou-se nacional desde que a fundadora do TIP, Professora Rosa Brooks, publicou um longo artigo no Washington Post do qual ela é uma colaboradora regular [2].

O TIP organizou em Junho passado quatro jogos de dissimulação. Simulou vários resultados para antecipar as reacções dos dois candidatos. Todos os participantes eram democratas e republicanos (ideologicamente falando e não “republicanos” no sentido de filiação partidária), nenhum era jacksoniano. Não é de surpreender que todos esses números considerem que «o governo Trump minou rotineiramente os padrões básicos da democracia e do Estado de Direito. Adoptou muitas práticas corruptas e autoritárias». Portanto, eles concluíram que o presidente Trump tentaria um golpe e imaginaram que era seu dever planear preventivamente um golpe «democrático». [3]

É uma característica do pensamento político contemporâneo proclamar-se a favor da democracia, mas rejeitar as decisões que vão contra os interesses da classe dominante.

Além disso, os membros do TIP admitem prontamente que o sistema eleitoral dos EUA que defendem é profundamente “antidemocrático”. Lembre-se que a Constituição não atribui a eleição presidencial aos cidadãos, mas a um colégio eleitoral formado por 538 pessoas indicadas pelos governadores. A participação cidadã, que não estava prevista durante a independência, vai consolidando-se na prática gradativamente, mas apenas como uma directriz para os governadores.

Assim, em 2000, durante a eleição de George W. Bush, a Suprema Corte da Flórida lembrou que não precisava conhecer os desejos dos cidadãos da Flórida, mas apenas os 27 eleitores indicados por seu governador da Flórida.

Ao contrário da crença popular, a Constituição dos Estados Unidos não reconhece a soberania popular, apenas a soberania dos governantes. Além disso, o Colégio Eleitoral desenhado por Thomas Jefferson não funciona adequadamente desde 1992: o candidato eleito não tem mais a maioria dos desejos dos cidadãos nos Estados que pendem a eleição [4].

O TIP lançou luz sobre quase tudo que poderia acontecer durante os três meses entre a votação e a nomeação. Ele admite que será muito difícil apurar os resultados, dada a utilização do voto por correspondência em tempos de epidemia.

O TIP intencionalmente não explorou a possibilidade que o Partido Democrata iria anunciar a eleição de Joe Biden apesar de uma contagem insuficiente e que a Presidente da Câmara, Nancy Pelosi, o faça prestar juramento antes que Donald Trump tenha declarado perdedor.

Nesse cenário, haveria dois presidentes rivais, o que marcaria o início de uma Segunda Guerra Civil. Esta eventualidade encoraja alguns a considerar a separação, proclamando unilateralmente a independência do seu Estado. Isso é especialmente verdadeiro na Costa Oeste. Para evitar esse processo de desintegração, alguns defendem a divisão da Califórnia para dar mais membros do Colégio Eleitoral à sua população.

No entanto, essa solução já é uma postura no conflito nacional porque favorece a representação popular em detrimento do poder dos governantes.

Além disso, em Março passado, mencionei a tentação de golpes de alguns militares [5], à qual em seguida, vários oficiais superiores se referiram [6].

Esses diferentes pontos de vista atestam a profunda crise que os Estados Unidos atravessa. O «Império Americano» deveria ter desmoronado após a dissolução da União Soviética. Isso não aconteceu. Ele deveria ter-se reinventado com a globalização financeira. Isso não aconteceu. Cada vez, um conflito (a divisão étnica da Iugoslávia, os ataques de 11 de Setembro) veio para reviver os moribundos. No entanto, já não será possível protelar as coisas por muito mais tempo [7].

[1] “O dispositivo Clinton para desacreditar Donald Trump”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Al-Watan (Síria) , Rede Voltaire, 1 de Março de 2017.

[2] “What’s the worst that could happen? The election will likely spark violence — and a constitutional crisis”, The Washington Post, September 3, 2020.

[3] Preventing a disrupted presidential election and transition, Transition Integrity Project, August 3, 2020.

[4] Presidential elections and majority rule, Edward B. Foley, Oxford University Press, 2020.

[5] “Golpistas na sombra do coronavirus”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 1 de Abril de 2020.

[6] “O Pentágono contra o Presidente Trump”, Tradução Alva, Rede Voltaire, 22 de Junho de 2020. Do we risk a miltary coup?, by Colonel Richard H. Black, August 24, 2020.

[7] “Os Estados Unidos vão reformar-se, ou dilacerar-se?”, Thierry Meyssan, Tradução Alva, Rede Voltaire, 26 de Outubro de 2016.

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Informação

This entry was posted on 18 de Setembro de 2020 by in USA and tagged , , .

Navegação

Categorias

Follow A Arte da Omissao on WordPress.com
%d bloggers like this: