A Arte da Omissao

ACORDEM

Os exércitos secretos da NATO – Ataque terrorista em Itália

Exércitos secretos da NATO ligados ao terrorismo?

NATO’s Secret Armies (“Os Exércitos Secretos da Nato”), foi publicado em 2005 pelo investigador suíço Daniele Ganser, professor de História Contemporânea na Universidade da Basileia. Nele, apresenta ao mundo como ao longo de 50 anos os Estados Unidos da América, prepararam e executaram diversos atentados na Europa Acidental, atribuindo a responsabilidade à esquerda anti-imperialista, tendo como único objectivo, desacreditar a resistência europeia perante os próprios europeus no contexto da Guerra Fria. Segundo o autor, não há garantias que a estratégia tenha ficado para trás. Pelo contrário, o estratagema da “guerra contra o terror” continua a ser usado nos dias de hoje.

Nesta Obra, Ganser descreve as operações clandestinas da NATO durante a guerra fria. A sua investigação foi despoletada por uma história que fez as manchetes do mundo em 1990, mas que rapidamente desapareceu, assegurando que mesmo hoje os exércitos secretos da NATO permaneçam isso mesmo – secretos. Até agora, nenhuma investigação completa aos exércitos secretos da NATO foi levada a cabo – uma tarefa que Ganser resolveu empreender sozinho e com bastante sucesso.

Nota: links dentro de «» e realces desta cor são da minha responsabilidade

No dia 31 de Maio de 1972, numa floresta perto da aldeia italiana Peteano, explodiu um carro-bomba. A bomba feriu gravemente uma pessoa e matou três membros dos Carabinieri, força policial paramilitar da Itália. Os Carabinieri foram atraídos para o local por um telefonema anónimo. Ao inspeccionar o Fiat 500 abandonado, um dos Carabinieri abriu o capô do carro e a bomba explodiu. Dois dias depois, um telefonema anónimo para a polícia implicou as Brigadas Vermelhas, grupo terrorista comunista que na época tentava mudar o equilíbrio de poder na Itália através da tomada de reféns e assassinatos a sangue frio de expoentes do Estado. De imediato a polícia reprimiu a esquerda italiana e prendeu cerca de 200 comunistas. Por mais de uma década, a população italiana acreditou que as Brigadas Vermelhas tinham cometido o ataque terrorista em Peteano.

Em1984, o jovem juiz italiano Felice Casson reabriu o caso há muito adormecido após ter descoberto com surpresa uma série de erros e invenções em torno da atrocidade de Peteano. Casson descobriu que não houve investigação policial no local. Descobriu também que o relatório que na época afirmava que o explosivo usado em Peteano era o tradicionalmente usado pelas Brigadas Vermelhas era uma falsificação.

Marco Morin, um especialista em explosivos da polícia italiana, forneceu deliberadamente uma perícia falsa. Marco era membro da organização da direita italiana, a ‘Ordine Nuovo‘ e, dentro do contexto da guerra fria contribuiu com o que ele pensava ser uma forma legítima de combater a influência dos comunistas italianos. Casson conseguiu provar que o explosivo usado em Peteano, ao contrário da perícia de Morin, era o C4, o explosivo mais poderoso e disponível na época, usado também pela NATO.’ Queria que uma nova luz fosse lançada sobre esses anos de mentiras e mistérios, só isso’, disse Casson anos depois a jornalistas no seu minúsculo escritório, num tribunal do século XVIII às margens da lagoa de Veneza. ‘Eu queria que a Itália fosse obrigada a saber a verdade de uma vez por toda.’ (1)

Em 24 de Fevereiro de 1972, um grupo dos Carabinieri descobriu por acaso um esconderijo subterrâneo perto de Trieste contendo armas, munições e explosivos C4 idênticos ao usado em Peteano. Os Carabinieri acreditavam ter desvendado o arsenal de uma rede criminosa. Anos mais tarde, a investigação do juiz Casson foi capaz de reconstruir que eles tinham tropeçado num dos mais de cem arsenais subterrâneos do exército secreto Stay-behind ligado à NATO e, que na Itália tinha o codinome de Gladio, a espada. Casson descobriu que o serviço secreto militar italiano e o governo da época tinham feito grandes esforços para manter em segredo a descoberta de Trieste e, acima de tudo, o seu contexto estratégico mais amplo.

Enquanto Casson continuava a investigar os misteriosos casos de Peteano e Trieste, descobriu com surpresa que não a esquerda italiana, mas grupos italianos da direita e o serviço secreto militar estiveram envolvidos no terror de Peteano. A sua investigação revelou que a organização da direita Ordine Nuovo tinha colaborado estreitamente com o Serviço Secreto Militar italiano, SID (Servizio Informazioni Difesa). Juntos, arquitectaram o terror de Peteano e culparam erroneamente a militante extrema-esquerda italiana, as Brigadas Vermelhas.

Casson identificou Vincenzo Vinciguerra, membro da Ordine Nuovo, como o homem que colocou a bomba em Peteano. Sendo o último homem numa longa cadeia de comando, Vinciguerra foi preso anos depois do crime. Ele confessou e testemunhou que tinha sido protegido por uma rede de simpatizantes na Itália e no exterior, garantindo que após o ataque ele pudesse escapar. ‘Um mecanismo inteiro entrou em acção’, lembrou Vinciguerra, ‘isto é, os Carabinieri, o Ministro do Interior, os serviços alfandegários e os serviços de inteligência militar e civil aceitaram o raciocínio ideológico por trás do ataque’. (2)

Vinciguerra estava certo ao apontar que o terror de Peteano ocorrera durante um período histórico particularmente agitado. Com o início da revolução do flower power (poder das flores – Ndt), os protestos estudantis em massa contra a violência em geral e a guerra no Vietname em particular, bem como a batalha ideológica entre a esquerda política e a direita política intensificaram-se na Europa Ocidental e nos Estados Unidos no final dos anos 1960.

A grande maioria das pessoas engajadas nos movimentos sociais de esquerda contou com formas não violentas de protesto, incluindo manifestações, desobediência civil e, acima de tudo, debates acalorados. No parlamento italiano, o forte partido comunista (Partito Communisto Italiano, PCI), e em menor grau o partido socialista Italiano (Partito Socialisto Italiano, PSI), simpatizavam com o movimento. Eles criticaram os Estados Unidos, a Guerra do Vietname e, acima de tudo, a distribuição do poder na Itália, pois, apesar da sua força numérica no parlamento, o PCI não recebeu posições ministeriais e, portanto, foi deliberadamente mantido fora do governo. Além disso, a direita italiana sabia que se tratava de uma discriminação flagrante e uma violação dos princípios democráticos básicos.

Foi neste contexto da guerra fria e da batalha pelo poder na Europa Ocidental que a extrema-esquerda e a extrema-direita recorreram ao terror. Na extrema-esquerda, as Brigadas Vermelhas Comunistas Italianas e a Rote Armee Fraktion (RAF) da Alemanha eram os dois grupos terroristas mais proeminentes na Europa Ocidental.

Fundada por alunos da Universidade de Trento com pouco ou nenhum treino militar, as Brigadas Vermelhas incluíam Margherita Cagol, Alberto Franceschini e Alberto Curcio. Como a RAF, estavam convencidos de que a violência deveria ser empregada para mudar a estrutura de poder existente e que consideravam injusta e corrupta. Também como a RAF, o terror das Brigadas Vermelhas não atacou aglomerações em massa da população, mas muito selectivamente alvejou indivíduos que eles pensavam representar o ‘aparato de estado’, como banqueiros, generais e ministros que eles sequestravam e frequentemente assassinavam. Operando principalmente na década de 1970, o número de mortos das Brigadas Vermelhas na Itália chegou a 75 pessoas. Então, devido às suas limitadas habilidades militares e estratégicas e experiência, foram julgados e presos.

Do outro lado do espectro da Guerra Fria, também a extrema-direita recorreu à violência. Na Itália, a rede incluía soldados secretos do Gladio, os serviços secretos militares e organizações fascistas como a Ordine Nuovo. Ao contrário do terror da esquerda, o terror da direita visava atingir os ossos de toda a sociedade e, portanto, secretamente plantou as suas bombas entre a população para matar um grande número de forma indiscriminada para poder culpar erroneamente os comunistas.

O terror de Peteano, conforme constatou o juiz Casson, pertencia a esse tipo de crime e deu continuidade a uma sequência iniciada em 1969. Naquele ano, pouco antes do Natal, quatro bombas explodiram em locais públicos de Roma e Milão. As bombas mataram 16 e mutilaram e feriram 80, a maioria dos quais agricultores que, após um dia de mercado, depositavam os seus modestos ganhos no Banco do Fazendeiro na praça Fontana em Milão.

De acordo com a estratégia maligna, o terror foi injustamente atribuído aos comunistas e à extrema-esquerda, os vestígios foram encobertos e as prisões ocorreram imediatamente. A população em geral teve poucas hipóteses de descobrir a verdade, pois o serviço secreto militar não mediu esforços para encobrir o crime. Em Milão, uma das bombas mortais não tinha explodido devido a uma falha no cronómetro, mas num encobrimento imediato a bomba foi destruída no local pelo serviço secreto, enquanto partes de outra bomba foram plantadas na cidade de um conhecido esquerdista e editor, Giangiacomo Feltrinelli. (3)

‘Os números oficiais dizem que só no período entre 1 de Janeiro de 1969 e 31 de Dezembro de 1987, ocorreram na Itália 14.591 actos de violência com motivação política.’ O senador italiano Giovanni Pellegrino, presidente da comissão parlamentar da Itália que investiga o Gladio e os massacres, relembrou o período muito violento da história mais recente da Itália. Talvez valha a pena lembrar que esses “actos” deixaram para trás 491 mortos e 1181 feridos e mutilados. Figuras de uma guerra, sem paralelo em nenhum outro país europeu. (4)

Após o massacre da praça Fontana em 1969 e o ataque terrorista de Peteano em 1972, massacres proeminentes na Itália incluíram uma bomba que em 28 de Maio de 1974 explodiu em Brescia no meio de uma manifestação antifascista, matando oito e ferindo e mutilando 102.

A 4 de Agosto de 1974, outra bomba explodiu no trem Roma-Munique Ttalicus Express, matando 12 pessoas e ferindo e mutilando 48.

As atrocidades culminaram numa tarde ensolarada durante o feriado nacional italiano, quando a 2 de Agosto de 1980 uma explosão massiva atingiu a sala de espera da segunda classe na estação ferroviária de Bolonha, matando 85 pessoas e ferindo gravemente e mutilando outras 200. O massacre de Bolonha desde então está entre os maiores ataques terroristas que a Europa já viu no século XX.

Ao contrário das Brigadas Vermelhas que acabaram na prisão, os terroristas da direita escapavam misteriosamente após cada massacre porque, como Vinciguerra correctamente assinalou, o aparato de segurança do Estado italiano e os serviços secretos militares protegiam-nos. Como o terror da praça Fontana foi anos depois rastreado até à direita italiana, Franco Freda, membro do Ordine Nuovo, foi questionado se, em retrospecto, ele achava que pessoas poderosas em níveis mais altos na hierarquia, incluindo generais e ministros, o haviam manipulado.

Freda, um admirador declarado de Hitler que publicou ‘Mein Kampf‘ em italiano na sua própria pequena editora, respondeu que, de acordo com o seu entendimento, ninguém pode escapar à manipulação: ‘A vida de cada um é manipulada por aqueles com mais poder’, declarou Freda, terrorista da direita. ‘No meu caso, admito que fui um fantoche nas mãos das ideias, mas não nas mãos de homens dos serviços secretos aqui [na Itália] ou no estrangeiro. Isso quer dizer que lutei voluntariamente na minha própria guerra, seguindo o desenho estratégico que partiu das minhas próprias ideias. É tudo.’ (5)

Em Março de 2001, o general Giandelio Maletti, ex-chefe da contra-inteligência italiana, sugeriu que ao lado do exército secreto Gladio, do serviço secreto italiano e de um grupo de terroristas de direita italianos, os massacres que desacreditaram os comunistas italianos também foram apoiados pela Casa Branca em Washington e pelo serviço secreto dos EUA, a CIA.

Num julgamento de extremistas da direita acusados de estarem envolvidos no massacre da praça Fontana, Maletti testemunhou: ‘A CIA, seguindo as directrizes do seu governo, queria criar um nacionalismo italiano capaz de travar o que via como um deslizamento para o esquerda, e, para esse fim, pode ter feito uso do terrorismo de direita.’ ‘A impressão era que os americanos fariam qualquer coisa para impedir que a Itália escorregasse para a esquerda’, explicou o general e acrescentou: ‘Não se esqueça que Nixon estava no comando e ele era um homem estranho, um político muito inteligente, mas um homem de iniciativas pouco ortodoxas.’ Em retrospecto, Maletti, de 79 anos, criticou e lamentou: ‘A Itália foi tratada como uma espécie de protectorado dos Estados Unidos. Tenho vergonha de pensar que ainda estamos sujeitos a uma supervisão especial.’ (6)

Já nas décadas de 1970 e 1980, o parlamento italiano, dentro do qual os partidos comunista e socialista controlavam grande parte do poder, ficou cada vez mais alarmado com o facto de uma cadeia aparentemente interminável de massacres misteriosos ter chocado o país sem que os terroristas nem os que estavam por trás deles pudessem ser identificados.

Embora na época corressem rumores entre a esquerda italiana de que os misteriosos actos de violência representavam uma forma de guerra secreta não declarada dos Estados Unidos contra os comunistas italianos, a teoria rebuscada não pôde ser provada. Então, em 1988, o Senado italiano estabeleceu uma comissão especial parlamentar de investigação presidida pela senadora Libera Gualtieri sob o nome de ‘Comissão Parlamentar do Senado Italiano para a Investigação do Terrorismo na Itália e as razões pelas quais os indivíduos responsáveis pelos massacres não puderam ser identificados: o terrorismo, os massacres e o confronto político-histórico.’ (7)

O trabalho de investigação parlamentar revelou-se extremamente difícil. As testemunhas recusaram-se a testemunhar. Documentos foram destruídos. E a própria comissão, composta pelos partidos políticos concorrentes da esquerda italiana e da direita italiana, estava dividida sobre o que era exactamente a verdade histórica na Itália e discordou sobre quantas das suas descobertas sensíveis deveriam ser apresentadas ao público.

Entretanto o juiz Casson, a partir dos depoimentos do terrorista Vincenzo Vinciguerra e dos documentos que ele descobriu, começou a entender a complexa estratégia militar secreta que tinha sido usada. Aos poucos, começou a entender que não estava a lidar com terrorismo privado, mas com terrorismo de Estado, pago com dinheiro dos impostos. Sob o nome de ‘estratégia de tensão‘, os massacres começaram a criar tensão entre toda a população.

Os extremistas da direita e seus apoiantes dentro da NATO temiam que os comunistas italianos se tornassem muito poderosos e, portanto, numa tentativa de ‘desestabilizar para estabilizar‘, os soldados secretos da direita ligados ao exército Gladio realizaram massacres, que atribuíram a culpa à esquerda.

O juiz Casson explicou a estratégia a não especialistas da BBC, ‘No que diz respeito aos serviços secretos, o ataque a Peteano faz parte do que foi chamado de “estratégia da tensão”’. Ou seja, para criar tensão dentro do país de forma a promover tendências sociais e políticas conservadoras e reaccionárias. Enquanto essa estratégia estava a ser implementada, era necessário proteger aqueles que estavam por trás dela porque as evidências que os envolviam estavam a ser descobertas. Testemunhas ocultaram informações para encobrir extremistas da direita.’ (8)

O terrorista de direita, Vinciguerra, que como outros com contactos no ramo Gladio do serviço secreto militar italiano, foi morto pela sua convicção política, relatou: ‘tinha que se atacar civis, o povo, mulheres, crianças, pessoas inocentes, pessoas desconhecidas, pessoas distantes de qualquer jogo político. O motivo era bastante simples. Eles deveriam forçar essas pessoas, o público italiano, a recorrer ao Estado para pedir maior segurança. Essa é a lógica política que está por trás de todos os massacres e atentados que permanecem impunes, porque o Estado não pode condenar-se ou declarar-se responsável pelo que aconteceu.‘ (9) A monstruosidade do plano diabólico foi sendo descoberto aos poucos, e ainda hoje permanecem muitos elos perdidos e, sobretudo, os documentos originais.

Vinciguerra no julgamento de 1984 explicou, ‘Com o massacre de Peteano e com todos os que se seguiram, já se deveria ter agora o conhecimento claro que existiu uma estrutura real viva, oculta e escondida, com a capacidade de dar uma direcção estratégica aos ultrajes.’

Segundo ele, ‘a estrutura reside no próprio Estado. Existe na Itália uma força secreta paralela às forças armadas, composta por civis e militares, numa função anti-soviética, isto é, para em solo italiano organizar uma resistência  contra um exército russo’. Sem fornecer o seu codinome, este testemunho revelou o exército secreto Gladio ligado à NATO.

Vinciguerra disse ainda ser ‘uma organização secreta, uma superorganização com uma rede de comunicações, armas, explosivos e homens treinados para os usar’. Revelou que esta ‘superorganização que, na falta de uma invasão militar soviética que poderia não acontecer, assumiu a tarefa, em nome da NATO, de evitar um deslize para a esquerda no equilíbrio político do país. Fizeram isso, com a ajuda dos serviços secretos oficiais e das forças políticas e militares.’ (10)

Mais de duas décadas se passaram desde que Vinciguerra, o terrorista da direita, ofereceu este depoimento de longo alcance e, que pela primeira vez na história da Itália se ligaram os exércitos stay-behind da NATO directamente aos massacres terroristas que o país sofreu.

Só agora, anos depois, uma maior investigação pública entende o que Vinciguerra realmente quis dizer, já que a existência da rede secreta stay-behind foi confirmada e as armas e explosivos foram desenterrados.

Vinciguerra é uma fonte confiável? Os eventos que se seguiram ao julgamento sugerem que sim. O exército secreto foi descoberto em 1990. E no que representou uma confirmação indirecta de que o terrorista da direita revelara a verdade, Vinciguerra imediatamente perdeu toda a protecção superior de que desfrutara quando jantava nos anos anteriores. Num contraste marcante com outros terroristas de direita que colaboraram com o serviço secreto militar italiano e saíram em liberdade, Vinciguerra, após os seus depoimentos, foi condenado à prisão perpétua.

Mas Vinciguerra não foi o primeiro a fazer a ligação entre o Gladio, a NATO e os massacres, não foi o primeiro a revelar a conspiração Gladio na Itália. Em 1974, o juiz investigador italiano Giovanni Tamburino no curso da sua investigação sobre o terrorismo de direita na Itália, deu um passo sem precedentes ao prender o general Vito Miceli, chefe do serviço secreto militar italiano SID (Servizio Informazioni Difesa – Ndt), sob a acusação de ‘promover, montar e organizar juntamente com outros, uma associação secreta de militares e civis com o objectivo de provocar uma insurreição armada para realizar uma mudança ilegal na constituição do Estado e na forma de governo’. (11)

Vito Miceli, anteriormente responsável pelo Escritório de Segurança da NATO, revelou zangado no julgamento do dia 17 de Novembro de 1974, a existência do exército Gladio escondido como um ramo especial do serviço secreto militar do SID: ‘Um Super SID sob minhas ordens? Claro! Mas não me organizei para dar um golpe de Estado. Foram os Estados Unidos e a NATO que me pediram para o fazer!‘ (12)

Com os seus excelentes contactos transatlânticos, Miceli saiu-se mal. Ele foi libertado sob fiança e passou seis meses num hospital militar. Forçado pelas investigações do juiz Casson, o primeiro-ministro Andreotti expôs 16 anos depois o segredo do Gladio diante do parlamento italiano. Miceli ficou muito irritado. Pouco antes de sua morte, em Outubro de 1990, ele gritou: ‘Fui para a prisão porque não queria revelar a existência dessa organização supersecreta. E agora Andreotti chega e conta isso ao Parlamento!’ (13)

Na prisão, Peteano Vinciguerra explicou ao juiz Casson que não apenas a Ordine Nuovo, mas também outras organizações da direita italiana proeminentes, como a Avanguardia Nazionale, cooperaram com o serviço secreto militar e o exército secreto Gladio para enfraquecer a esquerda política na Itália: ‘A linha terrorista foi seguida por pessoas camufladas, pessoas pertencentes ao aparato de segurança ou vinculadas ao aparato estatal por meio de relacionamento ou colaboração. Eu digo que cada ofensa que se seguiu a partir de 1969 encaixou-se numa única matriz organizada.’

Vinciguerra, terrorista da direita e membro da Ordine Nuovo explicou que ele e seus companheiros extremistas da direita foram recrutados para cooperar com o exército secreto Gladio a fim de realizar as operações mais sangrentas: ‘Avanguardia Nazionale, como a Ordine Nuovo, estavam a ser mobilizadas para a batalha como parte de uma estratégia anticomunista originada não de organizações desviantes das instituições de poder, mas do próprio Estado, especificamente  no âmbito das relações de Estado no seio da Aliança Atlântica.’ (14)

O juiz Casson ficou alarmado com o que tinha encontrado. Numa tentativa de erradicar este núcleo podre do Estado, seguiu os rastros do misterioso exército subterrâneo Gladio que tinha manipulado a política da Itália durante a Guerra Fria. Em Janeiro de 1990 solicitou permissão às mais altas autoridades italianas para estender a sua pesquisa a arquivos do serviço secreto militar italiano, Servizio informazioni sicurezza Militare (SISMI), conhecido como SID até 1971.

Em Julho de 1990, o primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti consentiu e permitiu que o juiz Casson pesquisasse nos arquivos do Palazzo Braschi, a sede do SISMI em Roma. Foi dentro dele que Casson descobriu os documentos que provaram pela primeira vez que um exército secreto de codinome Gladio existiu na Itália como braço secundário do serviço secreto militar e, com a tarefa de realizar uma guerra não ortodoxa. (9)

Além disso, Casson encontrou documentos que ligaram a NATO, a maior aliança militar do mundo, e os Estados Unidos, a única superpotência remanescente no mundo, ao Gladio, à subversão e a terroristas da direita na Itália e também em outros países da Europa Ocidental. Este conhecimento significou que Casson esteve por algum tempo em sério perigo, do qual ele estava ciente, pois já antes alguns juízes italianos com muito conhecimento tinham sido fuzilados nas ruas da Itália: ‘De Julho a Outubro de 1990 eu fui o único que sabia alguma coisa [sobre a operação Gladio], isso poderia ter sido lamentável para mim.’ (15)

Como Casson sobreviveu, o nó desfez-se. Com base nos documentos por ele descobertos,  contactou a comissão parlamentar, que, sob o comando do senador Libero Gualtieri, investigava os massacres e o terrorismo. Gualtieri e os seus colegas senadores ficaram muito preocupados com as descobertas feitas por Casson e concordaram que a investigação sobre o exército secreto Gladio deveria ser incluída no trabalho da comissão, pois representava a chave para os massacres e as razões pelas quais permanecerem misteriosos por tantos anos.

A 2 de Agosto de 1990, os senadores ordenaram ao chefe do executivo italiano, o primeiro-ministro Giulio Andreotti, ‘que informasse o parlamento dentro de sessenta dias sobre a existência, características e propósito de uma estrutura paralela e oculta que se diz ter operado dentro do nosso serviço secreto com o objectivo de condicionar a vida política do país’. (16)

No dia seguinte, a 3 de Agosto de 1990, o primeiro-ministro Andreotti sentou-se diante da comissão parlamentar e, pela primeira vez na história do pós-guerra da Itália, confirmou como membro interino do governo italiano que tinha existido no país uma estrutura de segurança secreta ligada à NATO.

Andreotti garantiu aos senadores que apresentaria um relatório escrito à comissão parlamentar sobre a estrutura da segurança secreta dentro de 60 dias: ‘Apresentarei à comissão um relatório muito preciso, que pedi ao Departamento de Defesa, sobre as actividades baseadas no planeamento da NATO, iniciadas para a eventualidade de um ataque e ocupação da Itália ou partes da Itália. Tanto quanto fui informado pelos serviços secretos, tais actividades continuaram até 1972. Depois disso, foi decidido que não eram mais necessárias. Entregarei à Comissão toda a documentação necessária, seja sobre o problema em geral, seja sobre as constatações concretas do juiz Casson no contexto das suas investigações sobre o massacre de Peteano. ‘ (17)

Na época do seu testemunho sobre o Gladio, Giulio Andreotti com 71 anos de idade não é uma fonte regular sob nenhum aspecto. Na época do seu depoimento, ele fez uma retrospectiva da sua carreira política, provavelmente sem paralelos em qualquer país da Europa Ocidental. Como principal representante do conservador Partido Democrata Cristão (Democrazia Cristiana Italiana, DCI), que funcionou como um baluarte contra o PCI durante toda a guerra fria, Andreotti contava com o apoio dos Estados Unidos. Ele conhecia pessoalmente os presidentes dos EUA, e por muitos de dentro e fora da Itália foi considerado o político mais poderoso da Primeira República da Itália (1945-1993).

Embora os governos na frágil Primeira República da Itália tenham mudado em intervalos curtos, Andreotti ao longo da Guerra Fria astuciosamente conseguiu permanecer no poder em várias coligações e, assim, estabeleceu-se como a presença dominante na residência do governo italiano, no Palazzo Chigi em Roma.

Nascido em Roma em 1919, Andreotti tornou-se Ministro do Interior aos 35 anos e, a partir de então, estabeleceu um recorde sem precedentes ao ocupar o cargo de Primeiro-Ministro sete vezes e servir 21 vezes como Ministro, das quais seis vezes como ministro dos Negócios Estrangeiros. Seus admiradores o compararam a Júlio César e o chamaram de “divino Giulio“, enquanto os seus críticos o acusaram de ser o mais importante negociador do quarto dos fundos e, apelidaram-no de ‘tio’.

Supostamente, o filme de gângster favorito de Andreotti era o ‘Goodfellows‘ pela frase de Robert De Niro ‘nunca delate os seus amigos e mantenha sempre a boca fechada’. A maioria concordou que tal fazia parte da estratégia de Andreotti e, que permitiu ao divino Giulio sobreviver a um grande número de intrigas e crimes da Itália, estando em muitos directamente envolvido. (18)

Ao expor a Operação Gladio e os exércitos secretos da NATO, ‘o tio’ quebrou o seu silêncio. Com o colapso da Primeira República com o fim da Guerra Fria, o poderoso Andreotti, então já idoso, foi arrastado diante de vários tribunais na Itália que o acusaram de ter manipulado instituições políticas, de ter cooperado com a máfia e de ter dado ordens secretas segundo as quais os oponentes foram assassinados.

‘O sistema de Justiça enlouqueceu’, gritou o primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi quando, em Novembro de 2002, o tribunal de recurso de Perugia condenou Andreotti a 24 anos de prisão. Como os juízes receberam ameaças de morte e foram colocados sob protecção policial, os canais de televisão interromperam a sua transmissão da liga italiana de futebol, para informar que Andreotti tinha sido considerado culpado por ter dado ao chefe da máfia, Gaetano Badalamenti, a ordem de matar o jornalista de investigação Mino Pecorelli em 1979, de forma a encobrir a verdade sobre o assassinato de Aldo Moro.

A Igreja Católica tentou salvar a reputação do divino Giulio quando o cardeal Fiorenzo Angelini, ao saber da notícia devastadora, declarou: ‘Também Jesus Cristo foi crucificado antes da sua ressurreição.’ No entanto, apesar de todo o alarme, Andreotti não acabou atrás das grades da prisão porque os veredictos foram anulados em Outubro de 2003 e ‘o tio’ saiu em liberdade.

Durante as primeiras revelações sobre o Gladio diante dos senadores italianos em 3 de Agosto de 1990, ‘o tio’ tinha, com referência ao exército secreto, alegado astuciosamente que ‘tais actividades continuaram até 1972’ para limitar os danos pessoais que se aproximavam.

Em 1974, como Ministro da Defesa em exercício, Andreotti declarou oficialmente num inquérito judicial que investigava massacres da direita: ‘Posso dizer que o chefe dos serviços secretos excluiu repetida e inequivocamente a existência de uma organização oculta de qualquer tipo ou tamanho.’ (19) Em 1978, ele fez um testemunho semelhante na frente de juízes que investigavam um atentado da direita em Milão.

Quando a imprensa italiana revelou que o exército secreto Gladio, longe de ter sido encerrado em 1972, ainda estava activo, a mentira de Andreotti ruiu. Posteriormente, em Agosto e Setembro de 1990, Andreotti muito activamente transferiu mensagens internacionais, pesquisou contactos e reuniu-se com vários embaixadores. (20)

Como o apoio internacional não aconteceu, o primeiro-ministro passou à ofensiva e tentou destacar a responsabilidade da Casa Branca nos Estados Unidos e de vários outros governos na Europa Ocidental, que não apenas conspiraram na guerra secreta contra os comunistas como participaram nela activamente nel.

Para chamar a atenção para o envolvimento de nações estrangeiras, Andreotti empregou uma estratégia eficaz, mas um tanto estranha. Em 18 de Outubro de 1990, ele diz ao seu mensageiro para ir rapidamente até à praça San Macuto, onde residia a comissão parlamentar. O mensageiro entregou o relatório de Andreotti intitulado ‘O chamado “SID paralelo” – O caso Gladio’.

O senador Roberto Ciciomessere, membro da comissão parlamentar, soube por acaso que o relatório de Andreotti tinha chegado e entregue pelo secretário do Palácio Chigi. Ao ler o texto, o senador ficou profundamente surpreso, pois Andreotti não só forneceu uma breve descrição da operação Gladio, como ao contrário da sua declaração de 3 de Agosto, admitiu também que a organização secreta Gladio ainda estava activa.

O senador Ciciomessere pediu uma fotocópia, mas a mesma foi negada pois de acordo com os procedimentos vigentes, teria que ser o presidente da comissão, o senador Gualtieri, a ler primeiro o relatório. Mesmo assim, Gualtieri nunca chegou a ler esta primeira versão do relatório de Andreotti sobre a operação Gladio.

Três dias depois, quando Gualtieri estava prestes a colocar o documento sensível na sua pasta para o para levar para casa e lê-lo no fim-de-semana, o telefone tocou, e era o próprio primeiro-ministro a dizer-lhe que precisava que o relatório voltasse imediatamente para ele, ‘porque algumas passagens precisam de ser refeitas‘. Gualtieri ficou aborrecido, mas concordou com relutância e enviou o documento de volta ao Palácio Chigi de Andreotti após ter sido fotocopiado. (21)

As manobras inusitadas de Giulio Andreotti enviaram um rugido pela Itália e chamaram a atenção. Os jornais intitularam ‘Operação Giulio‘ num jogo de palavras sobre a ‘Operação Gladio‘ e, entre 50.000 e 400.000 pessoas irritadas, assustadas e furiosas organizadas pelo PCI, marcharam pelo centro de Roma numa das maiores manifestações na capital em anos cantando e carregando faixas: ‘Queremos a verdade.’ Alguns manifestantes fantasiados de gladiadores. Enquanto o líder do PCI, Achille Occhetto, dizia à multidão na praça del Popolo que esta marcha forçará o governo a revelar os segredos obscuros há muito retidos: ‘Estamos aqui para obter a verdade e transparência. ‘ (22)

Em 24 de Outubro, o senador Gualtieri tinha o relatório de Andreotti sobre o ‘SID paralelo’ de volta nas suas mãos. Encurtada em duas páginas, essa versão final tinha agora apenas dez páginas. Gualtieri comparou-o com as fotocópias feitas da primeira versão e imediatamente notou que partes sensíveis, especialmente sobre a ligação internacional e organizações secretas semelhantes em outros países tinham sido cortadas.  Além disso, a organização paralela secreta, que antes tinha sido falada no presente, implicando existência contínua, era agora falada no pretérito. A estranha estratégia de Andreotti de enviar um documento, retirá-lo e alterá-lo, apenas para devolver um novo, nada poderia esconder. Observadores concordam que a manobra necessariamente chamou a atenção exactamente para as partes modificadas, daí a dimensão internacional do caso, só para tirar algum peso dos ombros de Andreotti. Mas nenhum apoio internacional estava disponível.

Andreotti, no seu relatório final, explicou que o Gladio tinha sido concebido como uma rede de resistência clandestina dentro dos países da NATO para enfrentar uma eventual invasão soviética. Após a guerra, o serviço secreto militar italiano Servizio di Informazioni delle Forze Armate (SIFAR), predecessor do SID, e a CIA, assinaram ‘um acordo relativo à “organização e actividade da rede clandestina pós-ocupação”, acordo comumente referido como Stay Behind, em que todos os compromissos relevantes anteriores para questões relativas à Itália e aos Estados Unidos foram reconfirmados’.

A cooperação entre a CIA e o serviço secreto militar italiano, como Andreotti explicou no documento, era supervisionada e coordenada por centros de guerra secretos não ortodoxos da NATO: ‘Logo que a organização de resistência clandestina foi constituída, a Itália foi chamada a participar … nos trabalhos do CCP (Clandestine Planning Committee) de 1959, operando no âmbito do SHAPE [Supreme Headquarters Allied Powers Europe da NATO] …; em 1964, o serviço secreto italiano também entrou no ACC (Allied Clandestine Committee).’ (23)

O exército secreto Gladio, como Andreotti revelou, estava bem armado. O equipamento fornecido pela CIA foi enterrado em 139 esconderijos espalhados por todo o país em florestas, prados e até debaixo de igrejas e cemitérios. De acordo com as explicações de Andreotti, os esconderijos do Gladio incluíam “armas portáteis, munições, explosivos, granadas de mão, facas e adagas, morteiros 60 mm, vários canhões sem recuo de 57 mm, rifles de precisão, transmissores de rádio, binóculos e várias ferramentas.’ (24)

O testemunho sensacional de Andreotti não só levou a protestos sobre a corrupção do governo e da CIA entre a imprensa e a população, mas também a uma caça aos esconderijos secretos das armas. O padre Giuciano relembra com sentimentos ambíguos, o dia em que a imprensa foi à procura dos segredos escondidos do Gladio na sua igreja: ‘Fui avisado à tarde quando dois jornalistas da “Il Gazzettino” me perguntaram se eu sabia alguma coisa sobre depósitos de armas aqui na igreja. Eles começaram a cavar mesmo aqui e de imediato encontraram duas caixas. Então o texto também referia trinta centímetros da janela. Eles foram lá e cavaram. Uma caixa foi mantida de lado por eles porque continha uma bomba de fósforo. Eles enviaram os Carabinieri para fora enquanto dois especialistas abriam esta caixa. Outra tinha duas metralhadoras. Todas as armas eram novas, em perfeitas condições. Elas nunca tinham sido usadas.’ (25)

Ao contrário do testemunho do terrorista da direita Vinciguerra dos anos 1980, Andreotti enfatizou no seu relatório de 1990 que o serviço secreto militar italiano em geral, bem como os membros do Gladio em particular, nada tinham a ver com o terror de que a Itália tinha sofrido. Explicou que todos os gladiadores antes de serem recrutados passaram por testes intensivos e foram escolhidos com base na ‘aplicação rigorosa’ da Arte do Serviço Secreto de forma a garantir a ‘fidelidade escrupulosa aos valores da constituição republicana antifascista’ e para excluir qualquer pessoa que ocupasse cargos administrativos ou políticos.

Além disso, a lei exigia que, como Andreotti observou, ‘os sujeitos pré-seleccionados não tivessem antecedentes penais, não participassem na política activa, nem participassem em qualquer tipo de movimento extremista’. (26) Ao mesmo tempo, Andreotti enfatizou que os membros da rede não poderiam ser questionados por juízes e que os nomes dos membros e outros detalhes sobre o exército secreto eram confidenciais. A ‘operação, pelas suas actuais formas de organização e aplicação – previstas nas directivas da NATO e integradas no seu planeamento relativo – deverá ser efectuada e apurada num quadro de absoluto sigilo.’ (27)

As revelações de Andreotti sobre o ‘SID paralelo’ chocaram a Itália. Para muitos, um exército secreto da CIA da NATO na Itália parecia dificilmente crível. Essa estrutura era legal? O diário italiano La Stampa comentou asperamente: ‘Nenhuma razão de Estado poderia valer a pena manter, encobrir ou defender uma estrutura militar secreta composta por membros seleccionados ideologicamente – dependentes de, ou pelo menos sob a influência de, uma potência estrangeira – que supostamente serve como um instrumento de luta política. Nenhuma definição poderia ser dada a não ser alta traição e um ataque à Constituição.’ (28)

Nos representantes do Senado italiano do Partido Verde, os comunistas e o Partido de Esquerda Independente acusaram o governo de ter usado as unidades do Gladio para vigilância interna e actos de terror para condicionar o clima político. Acima de tudo, o Partido Comunista Italiano estava convencido de que não foram os exércitos estrangeiros, mas eles próprios tinham sido o verdadeiro alvo dos exércitos de Gladio. Os comentaristas insistiram que ‘com este misterioso SID Paralelo, conjurado para impedir um golpe impossível da esquerda, corremos o sério risco de tornar possível um golpe de Estado pela direita … Não podemos aceitar que … este super SID se tenha passado por um instrumento militar destinado a operar “em caso de ocupação inimiga”. O verdadeiro inimigo é apenas e sempre foi o Partido Comunista Italiano, ou seja, um inimigo interno. ‘ (29)

Recusando-se a assumir sozinho a culpa, o primeiro-ministro Andreotti no mesmo dia em que apresentou o seu relatório final sobre o Gladio, deu um passo à frente do parlamento italiano e declarou: ‘Cada chefe de governo foi informado da existência do Gladio’. (30)

Isso causou grande constrangimento e comprometeu, entre outros, o ex-primeiro-ministro socialista Bettino Craxi (1983-1987), o ex-primeiro-ministro Giovanni Spadolini do Partido Republicano (1981-1982) que, na época das revelações de Andreotti, era o presidente do Senado. O primeiro-ministro Arnaldo Forlani (1980-1981), que em 1990 foi secretário do DCI, e sobretudo o ex-primeiro-ministro Francesco Cossiga (1978-1979), que em 1990 era o presidente italiano em exercício.

Os magistrados de alto escalão arrastados para o abismo por Andreotti reagiram com confusão. Craxi afirmou não ter sido informado até ser confrontado com um documento sobre o Gladio que ele próprio assinou como primeiro-ministro. Spadolini e Forlani também sofreram de amnésia geral, mas depois tiveram que fazer pequenas alterações às suas declarações.

Spadolini, para diversão do público italiano, destacou que havia uma diferença entre o que ele conhecia como ex-secretário de Defesa e o que conhecia como ex-primeiro-ministro.

Apenas Francesco Cossiga, presidente italiano desde 1985, confirmou orgulhosamente a sua participação na conspiração. Durante uma visita oficial que fez à Escócia, ele ressaltou que estava ‘orgulhoso e feliz’ pela sua participação na criação do exército secreto como Ministro da Defesa do DCI na década de 1950. (31) Ele declarou que todos os Gladiadores eram bons patriotas e testemunhou que ‘considero um grande privilégio e um acto de confiança… Ter sido escolhido para esta delicada tarefa… Devo dizer que estou orgulhoso por termos mantido o segredo ao longo de por 45 anos. (32)

Ao abraçar o exército comprometido ligado ao terrorismo, o presidente ao retornar à Itália viu-se no meio de uma tempestade política, com pedidos de todos os partidos à sua renúncia imediata ou ao seu impeachment por alta traição.

O juiz Casson foi audacioso o suficiente para pedir ao chefe de Estado Cossiga que testemunhasse à frente da comissão de investigação do Senado. Este, ainda presidente e já nada contente, recusou com raiva e ameaçou encerrar toda a investigação parlamentar sobre o Gladio: ‘Vou mandar de volta ao parlamento, a lei que estende o mandato e, caso seja de novo aprovada, terei que examinar o texto de novo para ver se existem condições para o recurso extremo a uma recusa absoluta [presidencial] de promulgação.’ (33)

O ataque foi totalmente sem fundamento constitucional e os críticos começaram a questionar a sanidade do presidente. Cossiga deixou a presidência em Abril de 1992, três meses antes do término de seu mandato. (34)

Num discurso público diante do Senado italiano a 9 de Novembro de 1990, Andreotti enfatizou mais uma vez que a NATO, os Estados Unidos e vários países da Europa Ocidental, incluindo Alemanha, Grécia, Dinamarca e Bélgica, estiveram envolvidos na conspiração stay-behind. Para o comprova, dados sigilosos foram entregues à imprensa e a revista política italiana Panorama publicou todo o documento, ‘O SID paralelo – Operação Gladio’, que Andreotti tinha entregue à Comissão Parlamentar.

Quando a França tentou negar o seu envolvimento na rede internacional Gladio, Andreotti declarou impiedosamente que a França também tinha participado secretamente da reunião mais recente do Allied Clandestine Committee (ACC) do Gladio, que ocorreu em Bruxelas, apenas algumas semanas atrás, a 23 e 24 de Outubro de 1990. Então, um tanto constrangida, a França também confirmou o seu envolvimento com o exército Gladio. A dimensão internacional da guerra secreta não podia mais ser negada e o escândalo militar varreu a Europa Ocidental.

Seguindo as zonas geográficas de adesão à NATO, a seguir cruzou o Atlântico e atingiu também os Estados Unidos. Uma comissão parlamentar italiana que investigava o Gladio e os massacres italianos em 2000 concluiu: ‘Esses massacres, essas bombas, essas acções militares foram organizadas, ou promovidas, ou apoiadas por homens dentro das instituições estatais italianas e, como foi descoberto mais recentemente, por homens ligados a estruturas da inteligência dos Estados Unidos. ‘ (35)

(1) British daily The Observer, November 18, 1990.

(2) Hugh O’Shaughnessy, Gladio: Europe’s best kept secret. They were the agents who were to ‘stay behind’ if the Red Army overran Western Europe. But the network that was set up with the best intentions degenerated in some countries into a front for  terrorism   and   far-right   political   agitation.   In:   British   daily   The   Observer, June 7, 1992.

(3) Secret   service  researchers  Fabrizio   Calvi   and  Frederic  Laurent   produced  probably the best documentary on the Piazza Fontana terror: Piazza Fontana: Storia di un Complotto broadcasted on December 11,1997 at 8:50 p.m. on the Italian state television Rai Due. And shown again in its French version V Orchestre Noir: La Strategie de la tension in two blocks on Tuesday, January 13, 1998, and Wednesday, January 14, 1998, at 20:45 on French Channel Arte. In their documentary they question a large number of witnesses including the judges that for years investigated the massacres, Guido Salvini and Gerardo D’Ambrosio, as well as right-wing extremists Stefano Delle Chiaies, Amos Spiazzi, Guido Giannettini, Vincenzo Vinciguerra, and Captain Labruna, former Prime Minister Giulio Andreotti as well as Victor Marchetti and Marc Wyatt of the CIA.

(4) Quoted in Giovanni Fasanella e Claudio Sestieri con Giovanni Pellegrino, Segreto di Stato. La verita da Gladio al caso Moro (Torino: Einaudi Editore, 2000), introduction.

(5) Allan Francovich, Gladio: The Puppeteers. Second of total three Francovich Gladio documentaries, broadcasted on BBC2 on June 17, 1992.

(6) Philip Willan, Terrorists ‘helped by CIA’ to stop rise of left in Italy. In: British daily The Guardian, March 26, 2001. Willan is an expert on US covert action in Italy. He published the very valuable book Puppetmasters. Thr Political Use of Terrorism in Italy (London: Constable, 1991).

(7) Senato della Repubblica Italiana. Commissions parlamentare d’inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabili delle stragi: Il terrorismo, le stragi ed il contesto storico-politico. The final report of the commission was published under this title in 1995.

(8) British daily television news program Newsnight on BBC1 on April 4, 1991.

(9) British daily The Observer, June 7, 1992.

(10) Ed. Vulliamy, Secret agents, freemasons, fascists… and a top-level campaign of political ‘destabilisation’: ‘Strategy of tension’ that brought carnage and cover-up. In: British daily The Guardian, December 5, 1990.

(11) British political magazine Statewatch, January 1991

(12) Jean-Francois Brozzu-Gentile, L’ affaire Gladio (Paris: Editions Albin Michel, 1994), p. 105.

(13) Italian political magazine Europeo, November 16, 1990.

(14) Vulliamy, Secret agents, freemasons, fascists… and a top-level campaign of political ‘destabilisation’: ‘Strategy of tension’ that brought carnage and cover-up. In: British daily The Guardian, December 5,1990.

(15) No author  specified,  Spinne  unterm    In  Sudeuropa  war  die  Guerillatruppe besonders aktiv – auch bei den Militdrputschen in Griechenland und der Turkei? In: German news magazine Der Spiegel, Nr. 48, November 26,1990.

(16) Mario Coglitore (ed.), La Notte dei Gladiatori. Omissioni e silenzi della Repubblica (Padova: Calcusca Edizioni, 1992), p. 131.

(17) Quoted in Coglitore, Gladiatori, p. 132.

(18) For an excellent biography of Andreotti, see Regine Igel, Andreotti. Politik zwischen Geheimdienst und Mafia (Munchen: Herbig Verlag, 1997),

(19) British daily The Guardian, December 5,1990.

19) British daily The Guardian, December 5,1990.

(20) Leo Muller,  Gladio  –  das  Erbe  des  Kalten    Der  Nato-Geheimbund  und  sein deutscher Vorlaufer (Hamburg: Rowohlt, 1991), p. 26.

(21) For a detailed description of the sequence of events see Italian newspapers, La Repubblica, Corriere della Sera and La Stampa of October 24,1990.

(22) No  author  specified,  50,000  seek  truth  about  secret  team.  In:  Canadian  daily  The Toronto Star, November 18, 1990.

(23)  Franco Ferraresi, A  secret structure  codenamed  Gladio.  In: Italian Politics. A Review,  1992,  p.  30.  Ferraresi  quotes  directly  from  the  document  Andreotti  had handed  over  to  the  parliamentary  commission.  The  Italian  daily  L’Unita  published both  the  first  and  the  second version  of  Andreotti’s document in a speciasl edition on  November  14,  1990.   Also  Jean  Francois  Brozzu  Gentile  gives  the  full  text  of Andreotti   ‘Il SID paralelo –  Operazione Gladio’,  (in French translation).See Gentile, Gladio Appendix.

(24) Ferraresi, Gladio, p. 30, quoting directly from the Andreotti document.

(25) Padre Giuciano testifying in front of his church in Allan Francovich, Gladio: The Puppeteers. Second of the total three Francovich Gladio documentaries, broadcasted on BBC2 on June 17, 1992.

(26) Ferraresi, Gladio, p. 31, quoting directly from the Andreotti document.

(27) Ibid

(28) As quoted in Ferraresi, Gladio, p. 31.

(29) Norberto Bobbio as quoted in Ferraresi, Gladio, p. 32.

(30) Miiller, Gladio, p. 27.

(31) British daily The Observer, November 18, 1990.

(32) International news service Reuters, November 12,1990.

(33) Ferraresi, Gladio, p. 32.

(34) British periodical The Economist, March 30,1991.

(35) Senato della Repubblica. Commissione parlamentare d’inchiesta sul terrorismo in Italia e sulle cause della mancata individuazione dei responsabiliy delle stragi: Stragi e terrorismo in Italia dal dopoguerra al 1974. Relazione del Gruppo Democratici di Sinistra l’Ulivo. Roma June 2000. As quoted in Philip Willan, US ‘supported anti-left terror in Italy’. Report claims Washington used a strategy of tension in the cold war to stabilise the centre-right. In: British daily The Guardian, June 24, 2000.

 

Os exércitos secretos da NATO

Os exércitos secretos da NATO – PREFÁCIO

Os exércitos secretos da NATO – RECONHECIMENTOS

Os exércitos secretos da NATO – INTRODUÇÃO 

Os exércitos secretos da NATO – Ataque terrorista em Itália

Os exércitos secretos da NATO – A GUERRA SECRETA EM PORTUGAL – 1ª parte

Os exércitos secretos da NATO – A GUERRA SECRETA EM PORTUGAL – 2ª parte

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continua…

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This entry was posted on 20 de Março de 2021 by in guerra fria, Nato, Redes militares secretas stay-behind and tagged , , , , .

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