A Arte da Omissao

ACORDEM

Alemanha: a dona de casa económica da Suábia – menina do cartaz da austeridade de Angela Merkel

Nota do tradutor: links indicados dentro de « » e  realces desta cor, são da minha responsabilidade

Tradução do artigo Angela Merkel’s austerity postergirl, the thrifty Swabian housewife

de  Julia Kollewe    – 17 de Setembro de 2012

Two Swabian housewives

Waltraud Maier e Heide Sickinger apreciam os seus papéis de dona-de-casa na Suábia em Gerlingen, perto de Estugarda – e nunca compraram a crédito. Fotografia: Frederick Florin / AFP

Nas cidades e aldeias sonolentas e pitorescas do sudoeste da Alemanha, os versados em economia fazem  o que melhor sabem fazer. Compradores modestos, raramente usam cartões de crédito  e economizam até um terço do valor de uma propriedade antes de solicitarem uma hipoteca.

A Schwäbische Hausfrau (dona de casa suábia – Ndt) Angela Merkel invoca-a com muita frequência. A chanceler alemã argumenta que a Europa está a viver além das suas capacidades e pode aprender com estas simples donas de casa  e seus orçamentos equilibrados.

Heide Sickinger e Waltraud Maier, duas donas de casa de Gerlingen, perto de Estugarda, concordam.

“Uma dona de casa mantém a família unida e o dinheiro”, diz Maier. “Eu não compro a crédito. Aqui as pessoas nunca viveram além das suas possibilidades”, acrescenta antes de realçar que a geração mais nova é mais despreocupada. Ela e sua amiga só usam cartões de crédito quando vão de férias e certificam-se que têm dinheiro suficiente nas suas contas para pagar a dívida imediatamente. Ambas acreditam que “os europeus do sul são uma raça diferente. Eles são mais maleáveis”.

As duas mulheres dizem que compram apenas o que realmente precisam (com excepção de uma tv de tela plana). Mesmo um guarda-vestidos pertence ao grupo das compras de luxo – porque os suábios não compram barato. Valorizam a qualidade, o que significa que um guarda-vestidos tem que ser de madeira maciça, por isso dura toda a vida.

Da mesma forma, as duas mulheres compram os seus alimentos nos talhos,  fazendas e mercados, ao invés de supermercados de descontos, como o Aldi e Lidl. “A qualidade é melhor”, diz Maier, “e pode comprar duas cenouras em vez de um quilograma”. Ela nunca deita nada fora – por exemplo, o pão velho transforma-se em bolinhos de pão. Muitas pessoas nesta área rural cultivam as suas próprias frutas e vegetais.

Trata-se de uma psique nacional profundamente moldada pela experiência da dívida da república de Weimar e pela hiperinflação da década de 1920, quando as pessoas empurravam carrinhos a transbordar  de notas de banco pelas ruas.

Em Gerlingen, não existem lojas de luxo. No entanto, os seus 20.000 habitantes têm mais poder de compra – cerca de € 500m (£ 400m) por ano – do que qualquer outra cidade de Baden-Württemberg. Mesmo a capital próxima do estado, Estugarda, não tem muitas lojas de luxo. Mas em comparação a  Theatinerstrasse de Munique (uma elegante rua comercial – Ndt), está alinhada com as marcas internacionais, como Dolce & Gabbana, Armani e Swarovski.

Angela Schmid, chefe da federação alemã das donas de casas de Württemberg (território histórico do sudeste da Alemanha – Ndt), diz:

“Os «bávaros» vivem uma vida barroca”. “Os suábios compram roupas de luxo e outros bens, mas não gostam de mostrar. Pode ver uma dona de casa suábia a entrar numa loja de luxo e estar vestida como se fosse uma empregada de limpeza. Também não verá chapéus incríveis na rua ou jóias – as pessoas apenas os mostram em privado”.

Os suábios até têm uma expressão para isso – hälinge reich, que significa “secretamente rico”.

Catharina Raible, directora do museu da cidade de Gerlingen, diz que quando os suábios compram por exemplo  um casaco de peles,  usam a pele por dentro. “Não por fora – logo ela não é vista”. Ela conta que Robert Bosch, o fundador da empresa de engenharia e electrónica, cuja família ainda vive em Gerlingen, usava um casaco grosso  impermeável com um forro interior de peles. Apesar da riqueza da família, as crianças usavam roupas que tinham sido remendadas. Heide Sickinger  diz: “Aprendemos a poupar com os ricos”.

Gerlingen (cidade alemã, no distrito de Ludwigsburg, na região administrativa de Estugarda, estado de BadenWürttemberg – Ndt) é rica porque muitos dos altos cargos da Bosch  vivem lá – a empresa tem a sua sede lá – e as suas casas nas encostas são populares entre os que trabalham em Estugarda, acessíveis através de um passeio de comboio de 25 minutos. Lothar Späth, ex-primeiro-ministro de Baden-Württemberg, também vive em Gerlingen.

Tanto Sickinger como Maier (as donas de casa da foto em cima – Ndt) dirigem carros Mercedes, mas Sickinger lembra que até o seu sogro morrer, ela e o seu marido dirigiram carros antigos e maltratados. Foi quando compraram um Mercedes com um ano. Sua sogra disse na época: “O vovô nunca teria comprado um carro, mas sim um campo”, ao que Maier respondeu: “As pessoas nunca venderam  terra. A geração mais velha poupou mais que nós”.

O ditado Suábio que diz Schaffe, schaffe, Häusle baue – cuja tradução é “trabalho e trabalho para construir uma casa” – também remonta a essa época. “Você sente-se culpado quando não está a trabalhar”, diz Sickinger. Os suábios tipicamente compraram ou construíram as suas próprias casas entre o final dos anos 20 e início dos anos 30, e desde jovens começaram a economizar para as  suas reformas.

Na Alemanha, as hipotecas são tradicionalmente fornecidas por sociedades de construção  e a regra de ouro tem sido economizar um terço do preço de compra e contrair empréstimos em hipotecas fixas até 25 anos. Ao contrário do Reino Unido, onde as pessoas logo que tenham condições mudam para casas maiores, para os suábios uma casa é comprada ou construída para uma vida.

De  acordo com um relatório da Lloyds TSB deste ano, as famílias alemãs estão a poupar quase o dobro que as famílias do Reino Unido. A família típica alemã tem £ 8.609 em poupança e investimentos, contra £ 5,009 no Reino Unido.

A parte dos rendimentos que os alemães colocam em poupança, investimentos e pensões tem estado estável nos 10% nos últimos anos, enquanto o índice de poupança na Grã-Bretanha esteve em declive até a recessão e aumentou para cerca de 7%.

Na Alemanha, os suábios lideram o caminho quando se trata de poupar. “Baden-Württemberg tem muita indústria, logo as pessoas orçamentam de forma segura – não é pura miséria”, diz Schmid. Hoje, o sul é a região mais rica da Alemanha. Deutscher Hausfrauenbund, associação alemã das donas de casas para quem trabalha, oferece cursos sobre como administrar uma casa, desde a destreza prática até ensinar aos jovens como orçamentar. Também oferece uma qualificação de  “dona de casa mestre” para as mais ambiciosas. Costumava ser um trabalho mal pago, mas agora está a mudar. De acordo com uma lei federal alemã aprovada há cinco anos, os hospitais, as casas para idosos e os centros de reabilitação precisam cada vez mais de pessoas com essas qualificações. Outras donas de casa mestres gerem lojas de alimentos orgânicos.

Gerlingen, por sua vez, oferece passeios na cidade a donas de casa, os quais são muito populares – a guia Diana Schneider veste-se  como uma  Schwäbische Hausfrau  (dona de casa suábia – Ndt) ) completa,  com avental e vassoura.

“Eu sou Erna Schwätzele – ela sabe como limpar, trabalhar e manter o dinheiro juntos. Nada vem do nada”.

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This entry was posted on 15 de Setembro de 2017 by in Alemanha and tagged , , .

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